Slayer: 30 anos da epidemia sangrenta

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Nilo Vieira

“O que é a vida? É o princípio da morte. O que é a morte? É o fim da vida. O que é a existência? É a continuidade do sangue. O que é o sangue? É a razão da existência!” – Zé do Caixão

Lançado em outubro de 1986, Reign in Blood é o terceiro disco do Slayer, quarteto californiano de thrash metal. No entanto, apesar de possuir antecessores, é considerado pelo guitarrista Kerry King como o primeiro álbum “legitimamente Slayer”, onde o grupo enfim encontrou sua própria identidade e as influências da New Wave of British Heavy Metal (presentes na estreia Show No Mercy) ou do Mercyful Fate (crucial para as composições de Hell Awaits serem mais longas) não mais transpareciam.

Único não somente na discografia da banda, o disco caiu como uma bomba no cenário metálico oitentista. Com menos de trinta minutos de duração dispostos em dez faixas, Reign in Blood elevou o conceito de peso sonoro a outro patamar: as letras eram brutais, a entrega vocal de Tom Araya assustava por sua intensidade, o timbre das guitarras soava cortante e, talvez o maior destaque, as linhas de bateria eram simplesmente de outro mundo – não à toa, Dave Lombardo receberia o apelido de “padrinho do bumbo duplo”, além do andamento mais comum do disco ter ficado conhecido informalmente como “a batida Slayer”. Embora trabalhos como a estreia homônima do Bathory (1984) e Seven Churches (1985), do Possessed, tenham sido lançados antes, não é errôneo afirmar que foi o terceiro disco do Slayer o grande responsável por estabelecer as bases do que é conhecido como metal extremo até os dias de hoje, da pintura sinistra que ilustra a capa até ao radicalismo do “metal way of life”.

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A formação original da banda, após literalmente tomar uma chuva de sangue em 2004: Jeff Hanneman, Kerry King, Dave Lombardo e Tom Araya

Começando já polêmico, “Angel of Death” abre as atividades com um retrato detalhado dos experimentos horripilantes realizados por Joseph Mengele, médico do regime nazista, e serve como um cartão de visitas macabro e bastante representativo do disco: o longo grito agudo de Araya (usado pela última vez em estúdio) abre espaço para uma sequência de riffs poderosos, nesta que é a canção mais longa do álbum. Obviamente a música rendeu acusações de simpatia ao nazismo para a banda, as quais são refutadas até hoje. No entanto, vale ressaltar duas curiosidades: o finado guitarrista Jeff Hanneman, compositor da música, colecionava artigos da Segunda Guerra Mundial ao mesmo tempo em que era um fanático por hardcore punk e, mesmo com tanta controvérsia, o grupo de rap Public Enemy sampleou a seção instrumental do meio da música para “She Watch Channel Zero?!”.

Inclusive, é curioso notar como o rap e a estética de guerra foram cruciais para a expansão da fama do Slayer em 1986. Reign in Blood foi o primeiro lançamento da banda pela gravadora Def Jam, cuja especialidade passava longe de ser o heavy metal. Todavia, para a estreia de um dos novos nomes do selo, o produtor Rick Rubin opinou que solos de guitarra cairiam perfeitamente: eram os Beastie Boys, cujos emblemáticos singles “(You Gotta) Fight for Your Right (To Party)” e “No Sleep ‘Til Brooklyn” ganharam traços de Kerry King – a segunda música contou até com a participação do próprio em seu videoclipe, tudo para divulgar a banda. Em contraponto a essa descontração, porém, o quarteto também começou a reverter a controvérsia como forma de marketing: o exemplo mais conhecido ficou em uma releitura de seu logotipo, que incorporava o brasão de águia do segundo reich, e outros casos famosos envolvem a proibição do lançamento de discos por suas capas repulsivas. Todavia, até os dias atuais o merchandising e a arte do grupo permanecem repletos de imagética violentíssima (muitas vezes incorporando elementos militares) e, ao contrário do que o politicamente correto moderno assumiria, a quantidade de fãs da banda só cresce, e é uma das mais radicalmente leais no heavy metal. Em tempos de “debates” políticos acalorados, cabe pontuar que King recentemente criticou Donald Trump e que Araya, além de cristão, é chileno de nascimento e até já recebeu as chaves de sua cidade natal – ou seja, não há apologia nazista por parte da banda.

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Tatuagem é coisa de poser!

Foi essa atitude de ir contra as tendências que tornou o álbum tão celebrado. Enquanto Metallica e Iron Maiden lançavam, no mesmo ano, discos com composições longas e boas doses de melodia, o Slayer passava a mensagem com canções que sequer tinham refrão ou chegavam a dois minutos de duração. Acompanhando com o encarte do álbum, é insano para qualquer um acreditar que “Necrophobic” ou “Jesus Saves” consigam ter todas as letras impressas cantadas no tempo indicado, e esse ritmo acelerado e sufocante acaba por dar uma dose extra de horror ao disco. Os solos de guitarra também imprimem um tom peculiar, por priorizar o caos em detrimento a técnica (há quem diga que soam como gatos endiabrados); o melhor exemplo é a clássica “Raining Blood”, cuja parede sonora ao final nada deve a algo assinado pelo Sonic Youth.

Esteticamente, Reign in Blood pode ser comparado com o filme À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), cujo monólogo inicial também abre este texto. Embora ambos possam aparentar uma suposta pobreza artística nos conceitos dos mais críticos, é justamente no aspecto rudimentar que encontramos o vanguardismo destas obras. A opção de utilizar as condições precárias da produção como componentes intrínsecos do projeto dá legitimidade tanto ao personagem Zé do Caixão quanto a persona do Slayer, mostrando plena segurança em relação à essência crua de seus trabalhos. Desse modo, as pomposidades se mostram não só desnecessárias, mas contraditórias: o terror retratado pode ser tosco ou espalhafatoso, mas ele é real – como se essas imperfeições fossem o contraste de humanidade para o lado sanguinário e sádico expostos em ambas as influentes obras.

Reinando supremo mesmo trinta anos após seu lançamento, o terceiro álbum do Slayer não apenas é o ponto máximo do thrash metal, como também é a peça mais representativa da estética do heavy metal em geral. O peso sonoro, as ligações com ocultismo, o caos imagético: tudo está ali, sem os traços de blues do Black Sabbath ou o rock ‘n’ roll do Judas Priest nos primórdios. Atualmente, o thrash passa por uma estagnação criativa assustadora, muito por conta de bandas novas que surgem com o intuito de apenas emular o som diferenciado de Reign in Blood. No entanto, o original segue superior em todos os sentidos: caso ainda não tenha se convencido, é possível encontrar a versão nacional em cd (com duas músicas bônus) facilmente nas melhores lojas do ramo, por preços que costumam não passar de 25 reais. Vender a alma ao demônio nunca teve um custo-benefício tão bom.

 

1 pensamento em “Slayer: 30 anos da epidemia sangrenta”

  1. Poucos tem “estômago” pra ouvir este album. So tenho em vinil “Hell Awaits” de 1985. Mas ouvi este album em CDDA! A comunidade judaica nos EUA tentou proibir este lançamento naquela ocasião. Alias, ouvir isto nos anos 1980 era das piores coisas, não desconsiderando Venom,Hellhammer e Bathory.

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