Pet Sounds faz 50 anos

16mai16
Gabriel Andrade

Quando pediu para não embarcar em uma turnê ao Japão com os Beach Boys, Brian Wilson tinha apenas um objetivo em mente: produzir um disco melhor que o recém-lançado Rubber Soul, dos Beatles.

Saturado de produzir a surf music que deu o tom dos primeiros álbuns da banda – foram nove em apenas quatro anos – Wilson já vinha implementando algumas experimentações nos discos anteriores da banda. No entanto, quando escutou o que o quarteto de Liverpool havia realizado em seu disco de 1965, ele sentiu que poderia fazer algo que seria uma resposta à altura, dos americanos aos ingleses. Porém, ele talvez não imaginasse que transformaria toda a música pop que viria a ser produzida posteriormente.

Para a gravação de Pet Sounds, Brian Wilson reuniu os melhores músicos profissionais disponíveis à época em Los Angeles. Muitos deles eram vinculados ao jazz, estilo musical que Wilson apreciava muito e que foi uma das bases de sua formação musical. Elementos orquestrais também compõem uma grande parte instrumental do disco.

O processo de composição era peculiar para a música pop da época. Brian entrava em estúdio com as canções ainda incompletas ou somente com um esboço das mesmas em sua cabeça. A partir disso, as canções eram repetidas diversas vezes com os músicos e eram compostas com Wilson adicionando o que queria e agregando também sugestões dos músicos, as quais ele era bastante aberto.

As letras compostas por Wilson, juntamente com o co-escritor contratado, Tony Asher, diferiam totalmente dos temas abordados pelos álbuns anteriores do grupo. Saíam as músicas sobre surfe, festas e garotas, entravam canções com reflexões mais profundas sobre amor, relacionamentos, religião e amadurecimento.

Embora essa mudança de temática representasse uma quebra no estilo dos Beach Boys, ao conhecer a biografia de Brian Wilson, fazia sentido para o momento. Brian tinha 23 anos e acabara de ter um choque de realidade da vida adulta. Seu pai fora demitido do posto de empresário da banda. Os garotos se revoltaram, após anos de abuso físico e psicológico cometido por Murry Wilson. Com isso, Brian, como irmão mais velho, teve que assumir a responsabilidade pelo grupo. Somado a essas novas obrigações, ele havia acabado de se casar com Marilyn Wilson-Rutherford, uma cantora de 17 anos.

Ao final da gravação instrumental do álbum, os Beach Boys retornaram da turnê asiática e se depararam com o que havia sido produzido. A aceitação dos outros membros do grupo foi boa, embora tenham ocorrido alguns atritos. Esse era justamente um dos medos de Brian, que chegou a pensar, inclusive, em lançar Pet Sounds como um disco solo.

As melodias compostas no estúdio e a voz do grupo se encaixaram perfeitamente. As músicas são repletas de harmonizações vocais feitas pelos irmãos –  influência dos corais de igreja que eles frequentavam quando crianças.

No total, foram utilizados 57 instrumentos na gravação das 13 canções que compõem os 36 minutos do álbum. Brian Wilson também foi um dos pioneiros em utilizar o estúdio como um “instrumento”: influenciado pelo produtor musical Phil Spector, ele “toca” latas de refrigerante vazias, caixas de papelão, buzinas e garrafas de vidro, além de utilizar o latido de seus cachorros e o barulho de um trem na última música do álbum, “Caroline, No”. Um dos maiores méritos de ‘Pet Sounds’ é justamente conseguir harmonizar sons que a princípio, não poderiam ser colocados juntos, como uma buzina e um violoncelo.

Lançado em 16 de maio de 1966, Pet Sounds foi considerado pela gravadora um fracasso comercial, já que foi o primeiro LP do grupo a não ganhar disco de ouro em seu lançamento nos Estados Unidos. Em contrapartida, o álbum foi muito bem recebido pela crítica e foi um sucesso no Reino Unido.

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Gênios e rivais: Paul McCartney e Brian Wilson em 2006 (Foto: Reprodução)

O disco chegou aos ouvidos dos Beatles. Paul McCartney classifica até hoje a oitava música do álbum, “God Only Knows”, como a melhor música que ele já escutou. Além disso, McCartney ainda admite que “You Still Believe in Me” é a canção de outro artista que ele sente mais inveja por não ser o compositor. Influenciados e atiçados pelo feito de Brian Wilson, os Beatles lançaram no mesmo ano, seu sétimo disco, Revolver.

Com sua competitividade aflorada pelo lançamento da banda inglesa, Wilson começou a trabalhar em um projeto ainda mais ambicioso que Pet Sounds. Com ainda mais experimentações e profundidade, Smile seria a obra definitiva na história da música pop.

“Good Vibrations”, canção que era parte do álbum, foi lançada como single ainda no final de 1966. A música foi grande sucesso de público e atingiu o posto de single mais lucrativo dos Beach Boys até então. Também foi sucesso de crítica: Wilson chegou a receber uma carta de John Lennon e Paul McCartney o parabenizando pelo bom trabalho. Todos esses fatores deram o respaldo necessário para a sequência do projeto.

No entanto, brigas internas, o lançamento de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band pelos Beatles em 1967 e, principalmente, os problemas psicológicos de Brian Wilson minaram a continuidade do projeto. Wilson tinha uma condição psicológica complexa. Os danos causados pelo relacionamento complicado com o pai abusivo, a pressão e os problemas na gravação de Smile, além do uso compulsivo de drogas, culminaram em um colapso nervoso. Ele entrou em um estado depressivo e posteriormente foi diagnosticado com esquizofrenia.

Brian Wilson se afastou da família e passou anos em um estado de depressão profunda, na qual chegou a pesar quase 200 kg e ficou mais de três anos sem levantar da cama. Ele só se recuperaria mais de duas décadas depois.

Os Beach Boys deram continuidade ao disco e lançaram uma versão simplificada do álbum com o nome de Smiley Smile. Após anos evitando o assunto, Brian Wilson, já recuperado, concluiu sua obra em 2004 e lançou o disco Smile da forma como ele havia sido originalmente concebido.

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Pet Sounds é uma pedra fundamental na história da música pop. Seu lançamento permitiu e potencializou a abertura dos horizontes dos músicos e da indústria, com o uso de instrumentos e sons diversos que não eram empregados na música mainstream, até então. O reconhecimento veio com o tempo, e atualmente o disco costuma aparecer com frequência em altas posições das listas de melhores álbuns da história –  inclusive, aparece em 2º lugar na lista da conceituada revista Rolling Stone, perdendo apenas para Sgt Peppers. Embora tenha sido lançado sob a égide dos Beach Boys, o álbum é muito mais um projeto pessoal de Brian Wilson.

O estilo do disco foi definido por alguns críticos como pop barroco. Embora não tenha tido uma educação musical formal, o dom de Wilson para a música permitiu que ele conciliasse elementos da música erudita com a música popular. O grande mérito e onde reside boa parte da genialidade de Brian Wilson e da obra, está no fato dele conseguir compilar todas as experimentações musicais que inquietavam sua mente e todos os sentimentos que precisava externalizar, em músicas pop de 3 minutos.

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