Em Homem-Aranha: Através do Aranhaverso, Miles Morales dá um salto de fé e leva filmes de heróis a outro nível

Cena do filme Homem-Aranha: Através do Aranhaverso. A cena imita uma página de quadrinhos, a tela é dividida em 4 partes e em cada uma delas há uma versão do homem-aranha mostrando a região dos olhos de cada máscara. Em cima e ao centro há o Aranha-punk, sobre um fundo verde; do lado esquerdo, Miles Morales, com um fundo azul; em baixo, o homem-aranha indiano, com um fundo laranja; e, por último, a direita, Gwen Stacy, sobre um fundo rosa.
Animadores de Homem-Aranha: Através do Aranhaverso relataram más condições de trabalho (Foto: SONY PICTURES)

Amábile Zioli

Como superar o insuperável? É uma questão que Joaquim dos Santos, Kemp Powers e Justin K. Thompson levaram muito a sério ao dirigirem Através do Aranhaverso. Homem-Aranha no Aranhaverso (2018) aumentou os padrões de produção no mundo dos heróis e estabeleceu metas inalcançáveis para sua sequência, que chegaria aos cinemas apenas em Junho de 2023. 

O segundo filme da confirmada trilogia segue Miles Morales e Gwen Stacy na contínua busca e descoberta do multiverso, cada vez mais amplo e, paradoxalmente, desconhecido. Nessa jornada, a história dos protagonistas recebe mais aprofundamento e, mesmo com mais de 280 Homens-Aranhas no universo cinematográfico, o foco no desenvolvimento de cada personagem não foi deixado de lado.

Cena do filme Homem-Aranha: Através do Aranhaverso. A cena contém 8 personagens do filme, incluindo Gwen Stacy, no centro, e Peter Parker e Aranha-Punk, além de outros do filme anterior. Todos estão de costas para a câmera, olhando em direção a um portal mágico.
Homem-Aranha: no Aranhaverso ganhou o Oscar de Melhor Animação em 2019 (Foto: SONY PICTURES)

A trinca de diretores conseguiu um dos maiores feitos da indústria audiovisual: fazer com que a continuação seja melhor do que seu antecessor. Com uma animação tão complexa e mais fiel aos quadrinhos do que nunca, a obra te deixa imerso em sua vastidão de cores e formas. Cada cena possui uma paleta diferente, cada universo tem um tom específico e todo personagem tem um contorno que o diferencia de todas as outras centenas de pessoas-aranhas.

Nisso, Gwen Stacy se destaca. Sua Terra, 65, é tomada pelos tons pastéis e frios, imergida em um visual melancólico e sensível, o que combina perfeitamente com o momento que a Mulher-Aranha vive. Entre segredos, solidão e culpa pelos acontecimentos canônicos de ser uma aranha, a jovem ainda precisa lidar com a falta de seu melhor amigo, que está há muitos universos de distância.

Cena do filme Homem-Aranha: Através do Aranhaverso. A cena mostra Gwen Stacy vestida de Mulher-Aranha, em pé de frente para seu pai, onde é possível observar apenas sua sombra. O cenário é composto por ferrugens e destruição, e as cores predominantes são tons de laranja, rosa, roxo, azul e preto.
Contrastando com a relação familiar de Miles, Gwen se vê sozinha em Através do Aranhaverso (Foto: SONY PICTURES)

O roteiro, elaborado pelo mesmo trio responsável por Homem-Aranha no Aranhaverso, Phil Lord, Christopher Miller e Dave Callaham, também não deixa a desejar, e muito se deve ao novo vilão apresentado. Mancha é um dos vários destaques da trama: após o primeiro ato do filme, ele deixa de ser o “vilãozinho da vez” ao se tornar um ser ultradimensional, sem quebrar o repertório de vilões fantásticos já derrotados em trilogias anteriores. 

Miguel O’Hara, o Homem-Aranha 2099, também soube transmitir medo e tensão em cada aparição na tela de cinema. O teioso foi um dos pontos altos da película, que, juntamente com um visual único e uma trilha sonora original e característica, consagrou-se como o vilão coadjuvante, mas muito memorável.

Quando dito que Homem-Aranha: Através do Aranhaverso dá um salto de quase um universo de distância de seu antecessor, é impossível não responsabilizar as composições incomparáveis de Daniel Pemberton. O que já era um ponto de destaque no primeiro longa, Metro Boomin ajudou para que ficasse ainda melhor: cada melodia se mostrou perfeitamente pensada para todo acontecimento. A capacidade de encaixar o som com o movimento e a animação surreal tornou a experiência minuciosamente cativante para qualquer um que estivesse assistindo.

Cena do filme Homem-Aranha: Através do Aranhaverso. A cena mostra Miguel O’hara, o Homem-Aranha 2099, em pé em cima de um prédio, no centro da imagem. Sua silhueta está tampada pela chuva, e, atrás dele há um letreiro em vermelho neon escrito “Welcome”.
Ao contrário da maioria, Miguel O’Hara não se transformou em Homem-Aranha por uma picada, mas sim por um erro em um teste laboratorial (Foto: SONY PICTURES)

Indo contra o comum pensamento de que animações são produtos voltados apenas ao público infantil, Através do Aranhaverso traz, em um ambiente acolhedor e familiar, a confirmação de que o filme animado tem tanto potencial quanto qualquer live-action. É claro que o desenho ímpar do longa é seu diferencial: sem a possibilidade de brincar com as cores e tons, expressões faciais e corporais, e estilizações de design, grande parte de seu valor excepcional seria perdido em atuações simplórias e em uma fotografia mediana.

Essa perda de valor tem sido observada com frequência no Cinema norte-americano. A onda de live-actions incentivada pela Disney fez com que diversos clássicos perdessem suas particularidades ao serem trazidos para o mundo real. É o caso de Rei Leão, que, com uma computação gráfica fraca, não sustenta o mesmo apelo emocional proporcionado pelo original de 1994, vivo em cores e emoções. 

Cena do filme Homem-Aranha: Através do Aranhaverso. A cena mostra Miles Morales encarando seu “eu” de um universo paralelo. O Miles da esquerda possui uma feição irritada, com seus cabelos em trança e uma jaqueta vermelha. Miles da direita está expressando medo e está amarrado em um poste, preso. O fundo mostra grades e, atrás, a cidade em tons avermelhados.
Uma das maiores inspirações para a criação de Miles Morales foi o ator e cantor Donald Glover (Foto: SONY PICTURES)

Através do Aranhaverso não se preocupa em não emocionar, afinal, só a narrativa de Miles em busca de mudar a trajetória canônica de sua vida já é o suficiente para encontrar empatia em qualquer espectador. A comoção é levada até o último minuto, quando, ao usar a ferramenta de cliffhanger explorada em Guerra Infinita, deixa até o mais desinteressado com o sentimento de quero mais.

O lançamento de Homem-Aranha: Além do Aranhaverso, terceiro e último filme da trilogia, estava previsto para Março de 2024, mas foi adiado por tempo indeterminado por conta da greve dos roteiristas, que, apesar de já ter acabado, afetou o início das produções. A excepcionalidade do desenvolvimento da saga do Aranhaverso nos leva a acreditar que seu fechamento não decepcionará: personagens bem explorados, uma narrativa envolvente e a animação característica transformam a história em um produto único.

 

 

Deixe uma resposta