No limiar da denúncia colonial, Transamazônia permanece à beira do confronto

Uma paisagem de floresta tropical densa, úmida e nebulosa. No centro da imagem, sobre o chão lamacento e escuro, veem-se destroços metálicos retorcidos, aparentemente de uma pequena aeronave acidentada. Raios de luz solar filtram através da neblina e das grandes folhas de palmeiras.
A trama parte da sobrevivência de Rebecca aos destroços de um acidente aéreo (Foto: Filmes do Estação)

Arthur Caires

A Amazônia, no cinema internacional, costuma surgir como superfície de projeção: um espaço onde fantasias espirituais, dilemas morais e impasses civilizatórios são encenados a partir de um olhar estrangeiro. Transamazônia, quarto longa-metragem da diretora sul-africana Pia Marais, se insere diretamente nessa tradição. Estreado no Festival de Locarno em 2024 e apresentado no Brasil no Festival do Rio – onde integrou a Mostra COP 30 em 2025 –, o filme carrega consigo o peso simbólico de falar sobre fé, meio ambiente e povos indígenas a partir de uma coprodução intercontinental (França, Alemanha, Suíça, Tailândia e Brasil). Desde a gênese do projeto, inspirada livremente na história real de Juliane Koepcke – a única sobrevivente de um acidente aéreo na Amazônia peruana em 1971 –, a obra se constrói sobre deslocamentos: culturais, geográficos e narrativos.

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Você pisa em território indígena e O Estranho expõe isso

Cena do filme O Estranho. Ao fundo, vemos um avião no lado direito da imagem. Em primeiro plano, uma grade divide o aeroporto das duas mulheres que estão do lado de fora da grade. Ao lado esquerdo, Sílvia está apoiada na grade. Utiliza uma tiara colorida, uma blusa vermelha com uma abertura nas costas e calça jeans. Mais a direita, Alê está de braços cruzados. Utiliza uma camisa cinza, calça jeans e seu cabelo está amarrado com uma trança.
Ao longo de 1 hora e quarenta minutos, vemos a história de Guarulhos por diversas perspectivas (Foto: Embaúba Filmes)

Marcela Lavorato

Qual seria o seu sentimento se, ainda criança, tivesse o território invadido, a casa demolida e a vida inteiramente mudada, para sempre, para dar lugar a um aeroporto? O Estranho se apresenta dessa forma, como uma ficção, mas entrega um caráter mais documental pelo motivo de que essa é a história de muitas pessoas que são afetadas pela colonização, seja a de 500 anos atrás ou a de ontem. 

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Carvão queima o retrato da família tradicional brasileira

O enredo explosivo de Carvão faz parte da lista da seção Mostra Brasil da 46ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Pandora Filmes)

Jamily Rigonatto 

Quão falsas podem ser as interações da família que vemos todos os domingos com suas bíblias e crucifixos em mãos? Essa e outras reflexões similares são a proposta de Carvão, filme brasileiro dirigido por Carolina Markowicz. Entre tons hiperbólicos e reviravoltas, a produção se debruça sobre as contrariedades da moral humana. Parte da seção Mostra Brasil da 46ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o longa desmonta a farsa do conservadorismo e a transforma em cinzas. 

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