
Letícia Hara e Evelyn Hara
Lançado em 2002, Lilo & Stitch ganhou sua versão remake após 23 anos de lançamento. Mesmo antiga, a animação nunca deixou de ser popular entre crianças e adultos. A nova aposta da Disney faz parte de uma coleção de mais de 20 filmes em live-action, tal como Aladdin, sendo uma readaptação a qual pretende manter a essência do original, mas que também prometia surpreender os antigos e novos fãs com a inserção de novos personagens.
O filme, protagonizado por Maia Kealoha como Lilo, conta a história da garotinha na ilha do Havaí, onde vive com sua irmã Nani (Sydney Agudong), sua única família após a trágica morte de seus pais. Por esse motivo, Nani é responsável por criar sua irmã e ao mesmo tempo tenta se manter em um emprego fixo para se sustentar. Enquanto isso, para além da Terra, está Stitch, ou ainda nomeado experimento 626, o qual escapa da prisão intergaláctica e chega até a o planeta azul. Stitch é uma das muitas criações de Jumba, sendo produzido com o objetivo de destruir de tudo que toca, e assim, é condenado ao exílio por não “possuir nada de bom”.

A animação e o remake de Lilo & Stitch transmitem uma mensagem central poderosa sobre a importância da família, da aceitação e da empatia. A principal lição da obra é expressa pela frase: “Ohana quer dizer família. Família quer dizer nunca abandonar ou esquecer“. Essa ideia permeia toda a narrativa e ressalta que os laços familiares não precisam ser limitados por fatores biológicos ou convencionais para serem verdadeiros e significativos. E não poderiam faltar também, grandes sucessos musicais de Elvis Presley na trilha sonora, os quais fizeram o sucesso da animação. Já no trailer é possível ouvir a clássica Devil in Disguise.
No entanto, o remake divide a opinião do público fã da narrativa. Além de inserir novos personagens na trama (a assistente social e uma parente de David), também foram removidas cenas importantes para o desenvolvimento de Stitch enquanto personagem, como quando ele se identifica com a história do patinho feio. Além de que com a retirada de Gantu, vilão principal da animação original, o criador de Stitch, Jumba, não entra para a família ao final do filme. Pode-se ter a impressão de que, além de faltarem cenas, o filme corre muito rápido pela narrativa, sem aprofundar o desenvolvimento pessoal dos personagens.
Fora as alterações na história, a produção também difere da animação em sua apresentação estética. Quem esperava um Havaí em cores vibrantes, assim como no filme original, provavelmente se decepcionou, uma vez que o live action optou por cores mais sóbrias, sem exagerar em tons e temperaturas, o que, apesar de fazer sentido para o formato, passa a sensação de que o filme perdeu um pouco daquela magia infantil que flutua pela nossa memória.

A escolha da Nani de abrir mão da guarda de Lilo para poder perseguir seus sonhos pode gerar um desconforto, visto que a mensagem principal da obra seria de “nunca abandonar ou esquecer”. Apesar de Lilo encerrar o filme sendo cuidada por David e sua família, o personagem não teve tanta relevância no decorrer da trama, tal como na animação. Outro tema trabalhado pelo remake é a negligência de Nani, tanto em questões financeiras como também emocionais, passando a impressão de que ela não se mostraria presente em momentos importantes da vida de Lilo. O longa focou em apresentar mais detalhadamente a relação familiar entre as irmãs, porém isso não foi desenvolvido de forma natural, de modo que Lilo parecia ser um fardo para Nani e a irmã mais velha, negligente com a caçula.
Além disso, a rapidez dos acontecimentos pareceu diminuir o desenvolvimento entre Lilo e Stitch. Ainda assim, pode ser uma nova forma de pensar o sacrifício de Nani em deixar sua irmã nas mãos de uma nova família, para que ela possa seguir seu sonho de estudar em outro estado dos EUA, fazendo com que saia do papel de mãe, muitas vezes esperado das irmãs mais velhas. No entanto, muitos fãs da animação percebem que o primeiro filme fazia uma clara crítica ao colonialismo americano em terras havaianas, enquanto que o remake passa a ideia de que Nani seria mais feliz se seguisse o ‘sonho americano’, deixando de lado sua terra natal.

Muitos podem também se perguntar: mas e aquela Stitch rosa? O interesse amoroso de Stitch, Angel ou experiência 624, a qual tem aparecido em muitos produtos oficiais da Disney, não ganhou protagonismo. Ela foi inicialmente apresentada no episódio 37 da primeira temporada de Lilo & Stitch: A Série, que foi ao ar em 5 de janeiro de 2004, no episódio Angel. Posteriormente, Angel aparece com maior frequência na série anime Stitch!, lançada em 2008, na qual a protagonista não é mais a Lilo, e sim Yuna. Por isso, é possível que ela só seja introduzida em futuros projetos da empresa. No entanto, no filme há um easter egg onde podemos vê-la como opção para a transformação de Stitch.
Lilo conquistou os corações do público, por ser uma garota esperta e decidida, mas que sofria bullying entre as colegas por ser ‘esquisita’. Enquanto isso, seu futuro companheiro Stitch é perseguido universalmente por ser um criminoso e não tem com quem contar. Quando se encontram, percebem que o amor de família não precisa conter laços sanguíneos. Além disso, Stitch, inicialmente inteligente, interesseiro e indestrutível, sem possuir nada de bom, aprende a amar na Terra.

Existe a possibilidade de acompanhar a dupla em novas aventuras, sem que a história principal seja amplamente mudada assistindo às sequências disponíveis no Disney+ como Lilo & Stitch O Filme, Lilo & Stitch 2: Stitch deu defeito e Leroy & Stitch. Para quem deseja rever a animação agora em uma nova perspectiva, vale a pena assistir ao remake. Mas para aqueles que esperam uma releitura fiel ao original, pode acabar sendo decepcionante.
