James Gunn perscruta o legado das adaptações e encontra um Superman mais heroico e menos divino

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena de Superman. Em primeiro plano, um pouco à direita, está David Corenswet como Superman. Ele está com seu uniforme clássico azul, com símbolo vermelho e amarelo no peito e a capa vermelha. Seu uniforme e seu rosto estão sujos. Seu cabelo está penteado para trás com uma mecha enrolada caindo sobre a testa. Ele tem um olhar sério. Só é possível visualizar do peito para cima. Ao fundo, desfocado, estão várias pessoas indistinguíveis olhando para ele. Elas estão filmando e aparentemente com raiva.
Superman é o primeiro grande filme do novo DCU (Foto: DC Studios)

Guilherme Moraes

Apesar da mudança de nome após a finalização do roteiro, Superman de 2025 continua sendo sobre legado. Legado kryptoniano, do cinema de herói e, principalmente, de suas adaptações antecessoras, sejam elas para TV ou Cinema. O herói de capa vermelha é uma das maiores figuras dos tempos modernos. Se outrora eram os personagens de Shakespeare, como Romeu e Julieta que sofreram releituras para agradar a grande massa – e que ainda passam por isso mas em menor escala –, na atualidade são os personagens em quadrinhos como Homem-Aranha, Batman e Superman que são reinterpretados e adaptados regularmente. Sobre essa perspectiva, é possível observar que, historicamente, o Azulão sempre foi visto como uma divindade no audiovisual, salvo algumas exceções. Contudo, com a direção de James Gunn, ele finalmente pode abraçar seu heroísmo inocente e até utópico.

Provavelmente a maior inspiração para a versão do David Corenswet seja Superman – O Filme (1978). Richard Donner constrói um protagonista belo e perfeito, capaz de realizar feitos divinos. Nessa mesma levada, Bryan Singer faz a manutenção da visão de Donner em Superman – O Retorno (2006), com uma leve diferença: ele o torna enfadonho. Se é um homem que pode fazer de tudo e sair ileso, logo não há mais graça em acompanhá-lo. Tudo é pequeno para o último filho de Krypton, ele precisa de um supervilão e lidar com o caos e a destruição para se tornar interessante, pois até mesmo seus momentos mais incríveis se tornam ordinários. Nesse sentido, o herói precisava de novas interpretações para as telas.

Dentro desse contexto entrou Zack Snyder com sua perspectiva mitológica em O Homem de Aço (2013). No entanto, o seu discurso sobre esperança se contradiz com a representação militarizada e inconsequente. A leitura de James Gunn não é exatamente uma resposta a esse filme, mas uma certa retomada a aquele Cinema de herói mais colorido, cartunesco, brega e até mesmo pop, contrastando com as obras cínicas e cinzentas. É interessante como Thunderbolts* (2025) propõe a morte dessa maneira de contar histórias e logo em seguida vem Superman. É como se fosse a morte do gênero e seu renascimento subsequente, sem dar fôlego ou pausas.

Cena de Superman. O cenário é, aparentemente, um palácio com um telhado de vidro. Centralizado na imagem estão Superman e Lois Lane, interpretada por Rachel Brosnahan. Ele está todo uniformizado de Superman e ela veste uma blusa roxa e uma calça de cor mais escura, mas também arroxeado. Eles estão no ar se beijando.
Na maioria das representações, o grande amor da vida do Superman é a Lois Lane (Foto: DC Studios)

Snyder alcança a divindade por meio do poder, Donner pela idealização, Singer pelo virtuosismo maçante e Gunn vai um pouco na contramão ao buscar o humano e o herói. Sua filosofia é simples: salvar vidas, independente do que isso acarrete. É o Superman que mais apanha, no entanto, é como se ele se sacrificasse cotidianamente, seja sendo pisoteado por um Kaiju ou um prédio desmoronando em cima dele. Cada dor implica uma vida salva. Nesse sentido, o longa está muito mais próximo de um Smallville (2001 – 2011), até mesmo pela breguice adotada – ainda que não consiga replicar tão bem o melodrama e a caretice da série.

Essa mudança entre o clássico e o atual é estabelecida com a entrevista de Lois com Superman, um paralelo da cena entre Christopher Reeve e Margot Kidder. No longa de 1978, a jornalista não conhece a verdadeira identidade do kryptoniano, eles se dão bem e fazem o famoso vôo juntos. Ali é construído um herói belo e perfeito. No novo, Lois (Rachel Brosnahan) já sabe a identidade secreta do Super Homem (David Corenswet). Clark não está uniformizado, está vestido com as roupas de trabalho e os dois brigam na entrevista. Ali ele é o humano, imperfeito, falho, incapaz de ser herói, mas bem intencionado.

Todavia, o apelo à humanidade do Homem de Aço é muito mais discursivo e menos imagético, como na tomada final entre Lex (Nicholas Hoult) e o Super Homem. Isto é uma consequência da ausência de cadência, algo que Smallville lidava bem ao apostar nos diálogos caretas, emotivos e apelativos, para encontrar a ponte entre o lado humano e kryptoniano de Kal-el. Na obra há duas pausas, uma funciona perfeitamente, que é a cena de Lois e Clark – praticamente todas as cenas dos dois funcionam muito bem – conversando enquanto o monstro gigante ataca a cidade. A outra já tem um problema por cortar o drama com uma piada, que é o caso do momento pai e filho entre Jonathan (Pruitt Taylor Vince) e Clark Kent na fazenda.

Cena de Superman. Em primeiro plano está Superman todo uniformizado calçando a sua bota vermelha. Seu uniforme está sujo e ele tem uma expressão séria. Ao fundo está um monstro gigante, com formato esférico, parecendo um olho. Ele é colorido, sendo predominantemente rosa, roxo, verde e branco. Ele está sobre a cidade e atira um laser rosa para algo fora da tela.
David Corenswet já fez um teste para fazer um papel na Marvel (Foto: DC Studios)

É um Superman que não consegue mais tornar a Terra sua, precisa se adaptar a ela. Se em Superman – O Filme (1978) o herói modifica a história, aqui ele não consegue se adaptar à mudança causada pelo avanço tecnológico. Algo parecido com Superman III (1983), porém na mão de Richard Lester estava mais para ‘Deus x Máquina’, enquanto Gunn vai mais para ‘Onde fica a esperança em um planeta que alimenta o ódio?’ O Azulão não consegue transformar o mundo, não há maneira de pausar e respirar. Está em constante movimento e precisa continuar salvando as pessoas nesse ritmo frenético. É uma versão em que ele perde poder, não à toa é um dos filmes em que mais apanha. Contudo, não está perdendo para um homem e sim para a humanidade. Sua diferença é se mostrar como a esperança para que eles próprios se transformem em algo melhor, pois ele por si só, já não consegue fazer isso.

O lado político chama muito atenção, principalmente pela coragem de assumir um posicionamento polêmico em um Blockbuster. O conflito entre os países fictícios de Jarhanpur e Borávia funciona como uma alusão a Israel e Palestina. A obra não se isenta e faz uma retratação antisionista. Inclusive, coloca as ações dos Estados Unidos diante do confronto, em cheque. James Gunn é crítico em relação ao próprio país que lucra com a morte de pessoas inocentes. Chama a atenção a cena em que o exército de Borávia invade Jarhanpur e aponta as armas para uma criança que segura um mastro com uma bandeira do Superman e deposita toda sua fé nele. Sobre essa perspectiva, é possível notar como a esperança não é apenas discurso, mas se torna algo material.

Cena de Superman. Centralizado na imagem está Superman. A imagem só mostra do seu peito para cima. Ele está todo trajado e seu uniforme está limpo. Seu rosto demonstra obstinação.
Brandon Routh, antigo intérprete do Superman, elogiou a atuação de David Corenswet (Foto: DC Studios)

Nesse sentido, é possível traçar alguns paralelos com os longas antecessores. Se em Superman o herói interfere no combate e toma uma posição para salvar vidas, em outras obras ele age diferente. Em Superman IV (1987), a postura assumida pelo kryptoniano tenta emular imparcialidade, mas na realidade favorece os Estados Unidos. O quarto capítulo da saga adota claramente uma orientação anti-rússia e pró-EUA, visto que foi produzido e lançado no final da Guerra Fria. Entretanto, é em Superman – O Retorno que há o posicionamento mais interessante, por trazer uma desilusão em relação a humanidade. Ao voltar para Terra, Clark assiste aos noticiários e se vê impotente diante dos conflitos do mundo. Como se ele aceitasse que essa violência faz parte da natureza humana. Talvez ele possa salvar as pessoas das catástrofes, mas jamais de si mesmas. Nesta fita de 2025, há uma espécie de oposição à perspectiva de Singer.

Uma das grandes sacadas do cineasta é tirar o peso das cenas de luta. A cidade é destruída aos poucos, porém, não há enfoque nos cidadãos tampouco medo da morte. Existe uma sensação de banalidade, como se a luta e a destruição fossem cotidianas nesse universo que já está estabelecido. Isso também traz um ar episódico, quase uma HQ semanal com o vilão da semana. Destaca-se o momento em que o monstro ataca a cidade em segundo plano, enquanto Clark e Lois discutem. É uma brincadeira entre o drama e a comédia, com o humor construindo o personagem. O protagonista deixa a criatura de lado, pois aquilo é corriqueiro, resolvível. O que é importante está naquele diálogo sobre a bondade utópica de Kal-el e no debate que tangencia questões humanas quase impossíveis de solucionar.

Cena de Superman. Centralizado na imagem está Superman abraçando uma criança. Ele está todo uniformizado, enquanto a criança veste uma camisa amarela e por cima dela uma peça de roupa xadrez verde e branca. Superman está protegendo a criança de destroços amarelos e verdes que estão ao fundo da imagem.
Só nos cinemas, o Superman já foi interpretado por quatro atores diferentes (Foto: DC Studios)

Olhando para as adaptações do Homem de Aço para o Cinema, é possível observar o enfoque na figura Superman em detrimento a de Clark Kent. Os diretores sempre buscam sua própria visão do super, mas pouco para o homem, com exceção das séries como Smallville. Para efeito de comparação, Homem Aranha 2 (2004) de Sam Raimi é mais uma obra sobre Peter Parker do que do Amigão da Vizinhança. Até mesmo os longas do Batman não conseguem deixar de lado a questão aristocrática ligada a Bruce Wayne. Todavia, a impressão que passa é que as obras do kryptoniano sempre deixam Clark de lado, e o longa de 2025 não está isento disso.

Apesar das qualidades, é possível observar uma profusão de temas que se sobrepõem a todo instante. A multiplicidade de assuntos por si só não é negativa, entretanto, aqui não há tempo para que eles se consolidem, cada imagem superpõe a outra numa velocidade vertiginosa. Tudo está em constante movimento, mas poucas vezes é possível parar e observar.

O novo DCU começa bem ao escolher o maior super herói do mundo como protagonista do primeiro grande filme. É uma nova era para a DC e o subgênero, e Superman simboliza isso. Gunn pode não ser Raimi ou Donner, mas consegue entregar um estilo próprio que deve servir como molde para as sequências. Ainda que trocar uma fórmula por outra não seja o ideal, pelo menos há um certo frescor nessa nova abordagem cartunesca e colorida, que o Cinema de herói jamais deveria ter abandonado.

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