Ao tentar criar uma identidade, Maturidade atesta que seu traço mais marcante é ser medíocre

Cena do filme Maturidade. Na imagem, da esquerda para a direita, é possível ver quatro pessoas: um homem branco vestindo calças pretas e uma jaqueta preta; uma jovem adolescente de pele branca e cabelo longo castanho, vestindo uma blusa azul e uma jaqueta marrom; uma criança de pele branca e cabelos castanhos curtos, vestindo uma camiseta branca, um macacão jeans e uma jaqueta rosa; e uma mulher de pele branca, vestindo uma blusa colorida e um casaco marrom. Eles estão em um museu, onde é possível ver pinturas emolduradas em uma parede marrom-avermelhada. O chão do museu é de madeira e a luz predominante na imagem é clara
A conjuntura familiar exposta no longa é um exemplo vívido das diferentes dinâmicas geracionais (Foto: Apoptose/Piano Sano/Wrong Men)

Victor Hugo Aguila

Em diversos momentos, a permanência é mais desconfortável que o distanciamento. Na Competição de Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Maturidade é um retrato de como impor limites pode ser, acima de tudo, uma forma de respeito consigo mesmo. Ludovic (Jean-Benoît Ugeux), um arquiteto de 40 anos, inicia seu relacionamento com Nathalie (Ruth Beckaert) e desenvolve um forte laço com suas duas filhas. Quando a mulher decide se afastar dele, o protagonista entra em uma espiral emocional complexa, deixando o descontrole inundar sua vida. 

Ao destrinchar novas dinâmicas familiares e seus diferentes enquadramentos, um dos pontos mais curiosos do longa-metragem é a relação entre Ludovic e Laetitia (Solàn Martinez), a filha mais velha. Nos diálogos, é perceptível como o arquiteto se sente compreendido pela adolescente, conseguindo enxergar seu mundo e as questões que permeiam a fase em que ela se encontra. Entretanto, apesar do acolhimento, ele demonstra explicitamente sua imaturidade, principalmente nos momentos de contrariedade, onde a raiva e a frustração ganham destaque – como quando a filha de seu colega de trabalho recusa seu presente. Ao conseguir se aproximar mais da primogênita do que de Nathalie, em aspectos emocionais, ele atesta como é ser um adulto com tendências emotivas infantilizadas.

Cena do filme Maturidade. Na imagem, da esquerda para a direita, é possível ver um homem branco e de cabelo castanho vestindo uma camisa de mangas longas na cor azul. Ao seu lado, há uma mulher branca de cabelos castanhos, vestindo uma blusa laranja e um casaco marrom. Ao fundo, é possível ver uma geladeira azul com fotografias coladas. A foto foi tirada através de um vidro, sendo possível ver o reflexo do exterior na imagem.
A relação de Nathalie e Ludovic chega a um impasse quando ele ultrapassa os limites da namorada (Foto: Apoptose/Piano Sano/Wrong Men)

Além da presença do protagonista, é interessante discorrer à respeito do seio familiar de Nathalie. Nesse núcleo sistêmico, ainda que a genitora se encontre em uma relação amigável e atenciosa com as filhas, é perceptível como ela se apresenta meio perdida em relação à maternidade. Em muitos momentos – como nas cenas de jantar – ela mescla os papéis de amiga e mãe, tornando questionável ao espectador a sua conduta em ambas as funções. Dessa forma, Laetitia aparece enquanto uma figura maternal para Luna (Elyséa Garrabos), sua irmã mais nova, na ausência – e até mesmo na presença – de Nathalie. Ao ordenar que escove os dentes, por exemplo, a criança obedece prontamente a irmã e atesta sua relação quase simbiótica com a mesma. 

Em uma análise técnica, a obra se perde ao tentar compensar um roteiro previsível (Jean-Benoît Ugeux, Julie Debiton) com termos e palavras das áreas de arquitetura e engenharia. Nas cenas de Ludovic com seu sócio e colega de trabalho, o uso demasiado de jargões de suas profissões torna a cena cansativa e desesperada, como se quisessem preencher um espaço em branco e não conseguissem pensar em outra forma de fazê-lo. Ainda, as referências históricas e culturais da Europa que circundam o filme, apesar de ricas e bem elaboradas, não agregam no enredo e se tornam pontas soltas em uma teia que deveria, ao menos, tentar ser consistente.

Cena do filme Maturidade. Na imagem,é possível ver um homem branco de cabelo castanho, vestindo uma camisa azul, um casaco bege e calças cinzas. Na sua boca, há um cigarro aceso. Ele está com a mão esquerda encostada no porta-malas de um carro na cor azul-claro. Ao fundo da imagem, é possível ver aspectos de uma vizinhança residencial, com os telhados das casas em marrom-alaranjado e arbustos grandes com folhas verdes.
Apesar da sua relação com o trabalho transmitir seriedade, a imaturidade do arquiteto transparece nas suas relações pessoais (Foto: Apoptose/Piano Sano/Wrong Men)

Sem muita inovação, a fotografia característica do audiovisual europeu marca presença no longa. Apesar da melancolia visual proporcionar uma experiência palpável ao espectador, os tons frios se tornam triviais e enjoativos, causando tédio em alguns momentos. Nas cenas das personagens dentro do carro, por exemplo, a monotonia em dar continuidade a história faz com que se deseje estar em qualquer outro ambiente além da sala de cinema. Ainda que, nesses momentos, seja possível ver a personalidade de Ludovic de forma mais contundente e marcada, a trama peca em transformar o potencial da atuação de Jean-Benoît Ugeux em algo comum e absorto. 

Mesmo com boa intenção, Maturidade recai na inércia e desperta um sentimento agridoce de decepção em quem o assiste. Ao debater sobre questões familiares – tema tão presente e necessário na contemporaneidade – o roteiro maçante e a montagem amadora atesta a previsibilidade do longa. Além de protagonista, como diretor, Jean-Benoît Ugeux possui um vasto potencial de ser palpável ao seu público, ainda que seu trabalho por trás das câmeras seja simples. De maneira fundamental, o filme conduz a premissa básica de tentativa e erro: mesmo com chances de falhar, tentar novamente é, em muitos momentos, a melhor forma de garantir a possibilidade de êxito.

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