
Victor Hugo Aguila
Em diversos momentos, a permanência é mais desconfortável que o distanciamento. Na Competição de Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Maturidade é um retrato de como impor limites pode ser, acima de tudo, uma forma de respeito consigo mesmo. Ludovic (Jean-Benoît Ugeux), um arquiteto de 40 anos, inicia seu relacionamento com Nathalie (Ruth Beckaert) e desenvolve um forte laço com suas duas filhas. Quando a mulher decide se afastar dele, o protagonista entra em uma espiral emocional complexa, deixando o descontrole inundar sua vida.
Ao destrinchar novas dinâmicas familiares e seus diferentes enquadramentos, um dos pontos mais curiosos do longa-metragem é a relação entre Ludovic e Laetitia (Solàn Martinez), a filha mais velha. Nos diálogos, é perceptível como o arquiteto se sente compreendido pela adolescente, conseguindo enxergar seu mundo e as questões que permeiam a fase em que ela se encontra. Entretanto, apesar do acolhimento, ele demonstra explicitamente sua imaturidade, principalmente nos momentos de contrariedade, onde a raiva e a frustração ganham destaque – como quando a filha de seu colega de trabalho recusa seu presente. Ao conseguir se aproximar mais da primogênita do que de Nathalie, em aspectos emocionais, ele atesta como é ser um adulto com tendências emotivas infantilizadas.

Além da presença do protagonista, é interessante discorrer à respeito do seio familiar de Nathalie. Nesse núcleo sistêmico, ainda que a genitora se encontre em uma relação amigável e atenciosa com as filhas, é perceptível como ela se apresenta meio perdida em relação à maternidade. Em muitos momentos – como nas cenas de jantar – ela mescla os papéis de amiga e mãe, tornando questionável ao espectador a sua conduta em ambas as funções. Dessa forma, Laetitia aparece enquanto uma figura maternal para Luna (Elyséa Garrabos), sua irmã mais nova, na ausência – e até mesmo na presença – de Nathalie. Ao ordenar que escove os dentes, por exemplo, a criança obedece prontamente a irmã e atesta sua relação quase simbiótica com a mesma.
Em uma análise técnica, a obra se perde ao tentar compensar um roteiro previsível (Jean-Benoît Ugeux, Julie Debiton) com termos e palavras das áreas de arquitetura e engenharia. Nas cenas de Ludovic com seu sócio e colega de trabalho, o uso demasiado de jargões de suas profissões torna a cena cansativa e desesperada, como se quisessem preencher um espaço em branco e não conseguissem pensar em outra forma de fazê-lo. Ainda, as referências históricas e culturais da Europa que circundam o filme, apesar de ricas e bem elaboradas, não agregam no enredo e se tornam pontas soltas em uma teia que deveria, ao menos, tentar ser consistente.

Sem muita inovação, a fotografia característica do audiovisual europeu marca presença no longa. Apesar da melancolia visual proporcionar uma experiência palpável ao espectador, os tons frios se tornam triviais e enjoativos, causando tédio em alguns momentos. Nas cenas das personagens dentro do carro, por exemplo, a monotonia em dar continuidade a história faz com que se deseje estar em qualquer outro ambiente além da sala de cinema. Ainda que, nesses momentos, seja possível ver a personalidade de Ludovic de forma mais contundente e marcada, a trama peca em transformar o potencial da atuação de Jean-Benoît Ugeux em algo comum e absorto.
Mesmo com boa intenção, Maturidade recai na inércia e desperta um sentimento agridoce de decepção em quem o assiste. Ao debater sobre questões familiares – tema tão presente e necessário na contemporaneidade – o roteiro maçante e a montagem amadora atesta a previsibilidade do longa. Além de protagonista, como diretor, Jean-Benoît Ugeux possui um vasto potencial de ser palpável ao seu público, ainda que seu trabalho por trás das câmeras seja simples. De maneira fundamental, o filme conduz a premissa básica de tentativa e erro: mesmo com chances de falhar, tentar novamente é, em muitos momentos, a melhor forma de garantir a possibilidade de êxito.
