
Victor Hugo Aguila
Após quase três anos desde seu último lançamento, Luedji Luna retornou ao mundo da Música fazendo jus ao termo “artista”. Lançado no fim de abril de 2025, Um Mar Pra Cada Um abarca as angústias e prazeres do amor – ou da falta dele. Expoente da nova face do MPB e marcando o jazz e o neo soul com sua própria identidade, a indicada ao Grammy Latino utiliza o disco como uma resposta às questões íntimas que podem atravessar qualquer um que permita revelar humanidade.
O quarto álbum de estúdio da cantora mostra a genialidade em abordar questões tão latentes – e muitas vezes dolorosas – de maneira tão sutil e imersiva: é quase possível tatear a lírica na voz aveludada. Ainda que em foco, Luedji Gomes Santa Rita compartilha as faixas com nomes igualmente talentosos e permite que reconheçamos o talento brasileiro como ele é: visceral e estrondoso.
Desde seu surgimento, com a estreia do primeiro disco, Um Corpo no Mundo (2017), a artista sempre manteve a poesia viva em seu trabalho e se destacou enquanto liricista. Acalanto, por exemplo, se apresenta como um manifesto de autonomia, sabendo os lugares onde se cabe e como navegar pelo mundo diante de um modo controverso de enxergar a realidade.

Mesmo que temas como afeto e autoconhecimento sempre sejam recorrentes em suas obras, a musicista se mostra cada vez mais madura. Entre seu lançamento oficial e sua versão deluxe, em 2022, o LP Bom Mesmo É Estar Debaixo d’Água (2020) demonstra aspectos fundamentais da natureza humana: o desejo, a sensualidade e como ambos se influenciam. Além disso, em quesitos técnicos, evidencia também sua versatilidade ao produzir canções com gêneros mistos, onde R&B contemporâneo, pop e eletrônica marcam presença.
Em Um Mar Pra Cada Um, Luedji começa de maneira performática apresentando sua estética em tons frios e aveludados. Os visualizers de cada faixa representam a delicadeza de sua Arte ao mostrar animais marinhos ressoando suas formas e luzes em um ambiente escuro, fruto da pesquisa do biólogo Álvaro Migotto, algo presente também na capa do disco. Curiosamente, a transparência dos invertebrados dão pistas sobre o teor do álbum, onde a própria artista se despe de sua carapaça e se mostra cruamente a quem tem o prazer de lhe escutar.
Todas as canções são escritas e interpretadas por Luna, que obtém sua inspiração a partir de como vive e percebe a realidade que lhe contorna. Para a Rolling Stones, a compositora esclarece que, instigada pela carência, ela busca curar suas versões passadas reconhecendo a divindade presente no fato de ser, acima de tudo, humana. A humanização de sua própria identidade configura sua tentativa de se olhar e reconhecer enquanto digna de um amor puro e real, que abarque não somente suas bagagens e demandas já existentes, mas que as transmute para um novo percurso, permanecendo concreto durante as turbulências e celebrando fielmente suas conquistas.
Resgatando sua temporalidade, o disco transmite a sensação de como é ser confrontado pelo novo: inesperado, excitante e até melancólico. A escolha de elementos que intercalam saxofone, baixo e percussão, por exemplo, mostra a riqueza das influências e seu talento para além dos vocais e composições, uma vez que também assina a produção das faixas. De maneira límpida, ela toca em um lugar de curiosidade, deixando o ouvinte com desejo de ser parte do estúdio apenas para testemunhar a criação da melodia.
Trançando um quebra-cabeças, as delícias e controvérsias do apreço se fazem presentes no corpo do trabalho, nos mostrando como tudo tem retorno – ou não – no que tange aos envolvimentos da vida. Ainda que saibamos os possíveis danos, o prazer e o desejo carnal são mais fortes. Indo contra o destino e a própria racionalidade, a artista destrincha o início avassalador de uma paixão, mostrando como é a euforia em estar perto de quem se ama. Emoldurando sua voz com uma uma variedade instrumental palpável e doce aos ouvidos, estes se alinham perfeitamente ao desejo do que quer dizer ser íntimo, proposta central do disco.
A intimidade em questionar a própria racionalidade em detrimento do sentir é algo muito presente nas composições e melodias de Luedji, o que nos torna espectadores de uma janela onde se enxerga o que é atravessar o mundo enquanto se é atravessado pelo desejo de encontrar alguém. A liricista transparece a ânsia de ter alguém no seu próprio tempo e como a ausência pode nos deixar, de fato, perdidos e quase loucos. É uma moeda de troca forjada na insegurança de nunca ter ou encontrar essa pessoa.

Para além dos percalços e desejos presentes no sentir, a musicista aponta a figura do amor como algo mais profundo, sendo o cerne de seu entendimento não apenas enquanto o de alguém que ama, mas como sujeito no mundo. Através dele, é possível encontrar o novo e transformá-lo em familiar. Ao amar alguém, este se torna um guia, e, como a artista mesmo diz, há a sede em assumir uma estrada que nos norteia, ainda que os medos se façam presentes.
De maneira profunda – e até arriscada – é possível encarar o teor do disco também sob a ótica da sexualidade: querer deslizar sobre o corpo do outro, atravessando e conhecendo cada esquina. Delicadamente, Luna elabora como, em uma relação, as inseguranças ainda estão presentes, mas é necessário se permitir viver para que ela continue existindo. Ao ecoar que se mantém aberta, apesar de seus temores, ela mostra que, em alguns momentos, se perder na paixão é a forma de se encontrar.
Ao longo de toda construção do álbum, Luedji retorna ao que já é conhecido, uma vez que regrava a canção Dentro Ali, presente em seu primeiro disco de estúdio, dessa vez em parceria com a britânica Nubya Garcia. Na música, é abordada a profundidade presente em cada processo de autoconhecimento e a importância de ser reconhecida nesse momento, principalmente quando deseja compartilhar o que sente com outra pessoa. Enquanto entoa o desejo de aceitação de suas demandas, sua voz é abraçada pelo saxofone fascinante da musicista, alcançando um efeito único e melhor adaptado.
Sem se perder apenas nas delícias do afeto, a baiana também destrincha o desejo de ser amada reciprocamente ao longo de seu trabalho. Partindo de um ponto político, as vivências e desafetos que atravessam seu corpo e o corpo de outras mulheres são pautados no disco de maneira enfática e sem eufemismos, onde recortes sociais são colocados enquanto marcadores para aprendizados profundos e pessoais. Brilhantemente, Luedji soma o coletivo não apenas como um lugar de reconhecimento e compartilhamento de experiências comuns, mas também como um ponto de cura. É no coletivo onde há também a presença da ternura.
Aprofundando-se na lírica e em aspectos da intertextualidade, é possível estabelecer um diálogo entre as canções de Luna e as de outros artistas. Em Harém, a música, acompanhada da voz de Liniker, relata a experiência compartilhada que é inventar um amor em um local onde ele não existe. Ressoando o verso “Me diz quem eu sou na sua festa, hein?”, ambas discutem esse lugar de legitimidade. Paralelamente, o clássico do samba A Loba (2001), de Alcione, se encontra no mesmo lugar de confronto: é possível ser tudo que alguém deseja, desde que isso seja recíproco e verdadeiro, sem precisar recorrer à fantasia. Como a grande dama do samba mesmo canta: “Não nasci pra viver num harém”.

Nessa mesma ótica, Gamboa pode ser descrita como uma das metáforas mais lindas escritas por Luedji, pois mostra a sensação de alívio que é adentrar um mar que lhe abraça: na reciprocidade, se afogar torna-se um prazer. Permitir ter seu mundo explorado através da coragem em sentir é o tema central da canção, completando de forma brilhante o que Liniker, amiga pessoal da cantora, já havia incitado em Psiu. Ao cantar “Pra quem não sabia contar gotas, ‘cê aprendeu a nadar” na canção de 2020, a artista agora é respondida por Luedji que, com firme certeza, ecoa “Eu que já sei nadar, mergulhei fundo”.
Na parte final do disco, a junção de sopros está ainda mais presente, se destacando no trompete de Takuya Kuroda. Além de explorar mais sua potência vocal, Luedji traduz de maneira linda a tropicalidade e como é navegar pelo corpo de alguém que se ama: molhado, salgado e puro êxtase. Mais uma vez, ela nos narra como é delicioso se perder no mundo de outra pessoa.
Culturalmente, é inegável o impacto da brasilidade no trabalho de Luedji Luna e vice-versa, visto que a artista destaca suas referências de maneira enfática. Explicitamente, é mister destacar a valorização da Arte brasileira em elementos como o belo trabalho de Luiz Melodia, renomado cantor e compositor carioca, ou a poesia de Beatriz Nascimento, nascida no Sergipe, ambos marcando presença no disco da soteropolitana. Fazendo releituras que se encaixem em sua identidade, a cantora empresta sua voz e sua genialidade para tornar o que já era valioso em algo inestimável.

Engana-se quem acredita que, por ter o uso de inteligência artificial, o disco perde sua credibilidade. Extraordinariamente, a tecnologia somada à mente de Luedji resulta em uma combinação potente e surpreendente: a voz de Beatriz Nascimento lendo seus próprios versos. Mostrando a profundidade de seu trabalho, Luna resgata esse saber ancestral e demonstra a força de seu ofício, não apenas por valorizar a cultura no qual está inserida, mas também por ecoar vozes de grandes nomes que, por vezes, podem passar despercebidos ao longo das décadas.
Para quem acompanha o trabalho de Luedji Luna, é notável um dos pensamentos principais da artista: amar o amor. Em todas suas nuances e processos, Luna nos mostra a força presente em se permitir ser vulnerável para outrem e para si. Um Mar Pra Cada Um é um afago no peito cansado e um brilho de esperança em como amar é, de fato, algo lindo. Nos dando um recado ao longo de toda sua rica carreira, é conclusivo aquilo que ela sempre nos ensinou: somos, de fato, nossa própria embarcação.
