Fugindo dos diálogos explicativos, Caminhos do Crime é econômico e criativo

Alerta: O texto contém alguns spoilers

Cena de Caminhos do Crime. Close-up do ator Chris Hemsworth dentro de um carro à noite. Ele tem uma expressão séria e pensativa, olhando para o lado. Está vestindo uma camisa social branca e uma gravata preta. O reflexo das luzes da cidade e borrões de movimento aparecem no vidro da janela em primeiro plano, criando uma atmosfera de suspense ou drama.
O longa faz citações a dois grandes atores do gênero de ação: John Wayne e Steve Mcqueen (Foto: Amazon MGM Studios)

Guilherme Moraes

Talvez o que mais falte no cinema de blockbuster – em especial o de crime e ação – seja a capacidade de compreender seus personagens para além de sua utilidade e demonstrar sua personalidade sem soar explicativo demais. Por sorte, Barry Layton em Caminhos do Crime vai pelo caminho oposto e mostra como consegue ser econômico na construção de personagens com poucas cenas.

No filme, Davis (Chris Hemsworth) é um bandido conhecido por cometer crimes sem utilizar violência. Quando um de seus roubos dá errado, surge o detetive Lubesnik (Mark Ruffalo) em seu rastro, para enfim capturá-lo. Paralelamente, Sharon (Halle Berry) busca ascender na empresa em que trabalha há mais de uma década, porém, o que ela não sabe é que se tornou o novo alvo de golpe do protagonista.

O trabalho de Barry Layton na direção é bem cuidadoso, pois, os primeiros minutos de cada indivíduo – com exceção de Davis – dizem tudo sobre eles. Ruffalo começa o longa indo ao banheiro pela manhã, lendo críticas à polícia local e discutindo com a esposa – uma briga rotineira, mas que já demonstra o desgaste do casamento –, dessa forma é perceptível como ele é uma pessoa em queda profissional e pessoal. Halle Berry acorda de madrugada, o celular aponta que ela teve uma má noite de sono, sua primeira ação é se maquiar inteira para ir ao trabalho – em um carro de luxo. Ela está escondendo sua tristeza por meio de objetos materiais. Em uma conversa entre os dois, é possível perceber como a personagem busca a felicidade por aquilo que pode ser consumido, como se fosse um checklist: carro bonito, casa na praia e segurança financeira. No entanto, tudo é falso.

Cena de Caminhos do Crime. Os atores Mark Ruffalo (à esquerda) e Chris Hemsworth (à direita) caminham lado a lado em um ambiente luxuoso que parece o saguão de um hotel ou tribunal. Ambos vestem ternos pretos bem cortados, camisas brancas e gravatas escuras. Mark Ruffalo tem cabelos grisalhos e segura uma maleta, enquanto Chris Hemsworth ajusta o relógio no pulso com um olhar atento.
Chris Hemsworth já trabalhou anteriormente com Michael Mann, dos grandes nomes do cinema de ação de Hollywood (Foto: Amazon MGM Studios)

Seguindo a mesma toada, Barry Keoghan (Ormon) cria um vilão bem trabalhado. Em sua primeira aparição, o seu personagem vem para dar um susto no chefão do crime (Nick Nolte) – porém, esse foi um ato falho, pois o próprio já o via chegar pelo retrovisor do carro. Na conversa entre os dois, o chefe utiliza termos como ‘covardia’ e faz menção ao pai de Ormon para manipulá-lo. Apenas com essa tomada simples, a obra consegue explorar a masculinidade frágil do garoto, assim como a boa atuação de Keoghan que fala palavrão e sempre utiliza violência como forma de provar sua ‘virilidade’.

Contudo, a capacidade de construir personagens em poucas cenas não se limita a uma regra, mas uma necessidade narrativa – afinal, não é possível entender o protagonista de primeira. Cada cena vai dizer mais um pouco sobre ele. Facilmente em seu melhor papel nos últimos anos, Chris Hemsworth vai bem ao lidar com duas personas distintas: o ladrão e o verdadeiro Davis. A diferença é clara: enquanto o bandido é confiante e leve, o segundo é fechado e misterioso. Hemsworth evita o olhar, tanto da câmera quanto das pessoas com as quais contracena, mostrando o desconforto que é ser ele mesmo.

Barry Layton precisa que essas personalidades estejam bem claras para que possa explorar algumas contradições. O longa não isenta o protagonista de seus crimes, porém encontra em outras instituições legais – a polícia e a empresa de seguro – tanta corrupção quanto a de um ladrão de jóias. A obra consegue ir além, ao possibilitar que Davis tenha uma vitória pessoal, uma fuga da vida de crimes e o início de uma jornada com a mulher que ama. Entretanto, para os que estão dentro do sistema, suas vitórias são pequenas. O detetive consegue utilizar a própria corrupção da polícia a seu favor e Sharon se demite de seu emprego, sem rumo, porém, com a possibilidade de tomar as rédeas de sua vida. Caminhos do Crime viu que quem estava à margem pode se reinventar, mas aqueles que estão dentro do sistema, terão que burlá-lo, sem a possibilidade de mudança.

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