Sistema prisional no Oscar: o documentário brutal que mostra a realidade por trás dos muros das penitenciárias no Alabama

Cena de Alabama: Presos do Sistema. Homens vestidos com uniformes brancos caminham em fila por um corredor ao ar livre cercado por grades e arame farpado, ao lado de um prédio carcerário.
“Como um jornalista pode ir para uma zona de guerra, mas não pode entrar em uma prisão nos Estados Unidos da América?” disse Melvin Ray, detento no Alabama, à documentarista (Foto: HBO Max)

Mariana Bezerra 

Qual a imagem que se tem de um presídio e da vivência dentro deles? Certamente não uma das melhores, nem das mais harmoniosas. Apesar do que parece óbvio, Alabama: Presos do sistema têm muito a dizer sobre esse contexto. A produção da HBO indicada ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Documentário, mostra que a realidade é muito pior do que se possa imaginar. Nesse sentido, o longa se destaca por atravessar os muros – literalmente – ao manter contato direto com os presidiários através de aparelhos telefônicos comumente contrabandeados obtidas a partir de mais de seis anos de investigação a respeito do sistema carcerário do estado do Alabama, nos Estados Unidos.

O título traduzido carrega o posicionamento do longa: as pessoas privadas de liberdade no Alabama não estão presas a uma sentença, mas sim a um sistema, algo muito maior do que as 28 instituições estaduais. Essa ideia pode fazer sentido em muitos outros cenários carcerários, no entanto, o sistema desse estado é um dos mais polêmicos e mortais, considerado, inclusive, inconstitucional pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos devido às condições precárias e aos abusos de poder e violência por parte dos servidores. 

Aqui se encontra o ponto chave do trabalho dos diretores Andrew Jarecki (The Jinx) e Charlotte Kaufman: se um dos aspectos mais importantes da apuração jornalística é a fonte, o que fazer quando as histórias que estão sendo investigadas se passam dentro de um presídio? O que fazer quando apenas um lado consegue constantemente expor a sua versão na mídia tradicional e através das fontes oficiais? No início do longa, Jarecki demonstra dificuldades em acessar o cerne do problema e ter contato direto com os presidiários através de visitas regulares em virtude da extrema dificuldade de acesso da imprensa a esses lugares.

Cena de Alabama: Presos do Sistema. Há um grupo de pessoas reunidas em uma manifestação. Elas seguram grandes retratos de diversos homens com expressões sérias em um fundo neutro.
Os relatos dos detentos aliados as investigações paralelas dos criadores leva a exposição de casos de violência extrema, que não são isolados (Foto: HBO Max)

Após o primeiro e conturbado contato, um grupo de detentos ativistas decide pedir para que um projeto de denúncia se tornasse realidade. Assim, foi preciso pensar em algo diferente; sem câmeras profissionais, iluminação e microfones de alto nível, o conteúdo chega através de uma imagem de má qualidade, frequentemente comprometida pelo sinal de internet ou interrompida por visitas dos agentes carcerários. O amadorismo toma conta em função da necessidade, mas, no que diz respeito à condução das entrevistas e a edição do longa, o profissionalismo é muito bem executado a fim de apurar o necessário para que fosse estabelecida a tese central do documentário.

É interessante perceber a movimentação das testemunhas – que são os câmeras e narradores ao mesmo tempo – em contribuir com a produção. É como se aquela fosse uma chance única de fazer algo inédito. Assim, surgem narrativas permeadas de violência e segredos. Além disso, as imagens mostram ambientes insalubres, extremamente lotados, homens doentes – inclusive adictos – e sem qualquer tratamento. São lugares onde a ressocialização parece não ter vez. Em alguns aspectos, lembram de Carandiru (2009), o filme brasileiro que retrata histórias e a chacina em uma rede prisional em São Paulo, inspirado em um livro de memórias do Dr. Drauzio Varella. São dois fatores compartilhados que evocam essa lembrança: a pessoalidade dos relatos e as cenas chocantes.

O desenrolar do documentário acontece quase como um thriller. Enquanto as histórias vão chegando aos profissionais através das gravações, ligações e mensagens, o público vai tomando contato com alguns casos concretos de vítimas de violência dentro das prisões, além de conhecer de perto as famílias que se unem por justiça. Além disso, a obra aborda o contexto político dos Estados Unidos e do Alabama no que diz respeito aos conflitos entre o governo estadual e o Departamento de Justiça. O primeiro condenou qualquer tipo de intervenção do órgão federal, pois afirmou que os problemas do Alabama deveriam ser solucionados internamente, daí o título original The Alabama Solution

Cena de Alabama: Presos do Sistema. Vários homens usando uniformes brancos estão posicionados em um campo gramado e dão as mãos, formando um grande círculo. No fundo, aparece árvores e o céu azul.
Os principais narradores, Melvin Ray, Robert Earl e Raoul Paul foram transferidos e colocados em solitária durante a divulgação do filme (Foto: HBO Max)

É claro que existem vítimas do outro lado da moeda, que sofreram algo que causou a prisão dos homens aos quais assistimos, no entanto, o documentário não chega nem perto e não tem a mínima intenção de inocentar nenhum dos detentos – e pressupor tal posicionamento seria de tamanha ignorância. O que importa para os envolvidos no projeto é a lei e o bem público. De um lado, os detentos cumprem a pena; a lei é seguida; de outro, a produção aponta que os criminosos estão perdendo não a liberdade, mas a dignidade. Diante dos casos letais de violência e negligência apresentados, é como se a pena de morte, legalizada nos Estados Unidos, ocupasse um papel não oficial no sistema.

Em entrevista, Kauffman afirmou que o estado gasta 80 bilhões de dólares com a rede prisional. A co-diretora pontua que a população não sabe como esse dinheiro é investido e parte do princípio de que a transparência é essencial para determinar em que medida o sistema funciona ou prejudica ainda mais a sociedade. Nesse sentido, é construído um material sóbrio, informativo e que também provoca as mais variadas emoções em razão da progressão rítmica e temática realizada com maestria. 

Quanto à corrida pelo Oscar, um dos principais concorrentes foi a A vizinha Perfeita (2025), que também adota um estilo diferenciado: quase todo o documentário é composto por gravações de câmeras das roupas de policiais e de segurança. Entretanto, no fim a estatueta foi para Mr. Nobody Against Putin (2025), que expõe a máquina de propaganda russa e a militarização das escolas do país. De qualquer forma, The Alabama Solution cumpre seu papel para além das telas, e ao alçar voos tão altos na temporada de premiações, segue instigando debates múltiplos.

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