
Arthur Caires
Em uma era em que o entretenimento parece girar em torno de reembalar o passado – seja em forma de séries recicladas, live-actions que ninguém pediu ou o saudosismo Y2K nas músicas –, é raro ver alguém navegar por esse mar de referências com autenticidade. A nostalgia virou estratégia de marketing, e o resultado quase sempre escorrega na superfície: muito glitter, pouca substância.
É por isso que Addison, álbum de estreia de Addison Rae, chama atenção. Mais conhecida pelo seu sucesso nas redes sociais, Rae surpreende ao construir uma identidade musical própria e bem definida. Com referências claras a ícones como Madonna, Britney Spears e Lana Del Rey, ela mostra que tem mais a oferecer do que se imagina – e que, ao contrário do que o público pode esperar, seu repertório cultural vai muito além dos hits virais das dancinhas. Com coesão e personalidade, Addison Rae entrega um dos debuts mais marcantes desde quando Olivia Rodrigo lançou SOUR em 2021.

Para entender o que Addison representa como álbum, é preciso revisitar a jornada da própria artista. Addison Rae se tornou um rosto conhecido como uma das maiores estrelas do TikTok, viralizando com coreografias e dublagens que a transformaram em fenômeno digital. Mas ela nunca se limitou à tela do celular: buscou espaço também no cinema, com a comédia He’s All That da Netflix, e no mundo dos negócios, ao lançar sua própria linha de maquiagem.
Sua primeira tentativa na música veio em 2021, com o single Obsessed, produzido por Benny Blanco, que teve uma recepção morna. Depois disso, Rae ficou em silêncio – até que, em 2023, uma leva de demos vazadas reacendeu o interesse do público. A coletânea, conhecida como AR, trouxe faixas como 2 Die 4, que, apesar das críticas, já indicava o potencial de Rae para algo maior.
O que veio a seguir foi, na prática, um rebranding. Com o apoio decisivo de Charli XCX – que não apenas virou mentora, como também a ajudou a conquistar credibilidade no universo pop ao incluí-la no remix de Von dutch –, Rae passou a construir sua persona artística com mais consistência. Participou do Coachella ao lado de Arca, lançou singles com videoclipes bem produzidos e começou a ser reconhecida por um trabalho que ia além da estética viral.

O primeiro indício de que Addison Rae estava construindo algo maior do que apenas um hit viral surgiu em agosto de 2024, com o lançamento de Diet Pepsi. Embalada por sintetizadores nostálgicos e vocais que remetem diretamente às entonações de Lana Del Rey, a faixa conquistou o público com seu refrão viciante e atmosfera etérea. Mais do que um bom single, funcionou como um manifesto estético: dali em diante, cada lançamento seria tratado como uma mini-era com identidade própria, acompanhada de videoclipes meticulosamente produzidos e uma curadoria visual que sustentava o universo que Rae começava a construir.
Entre os destaques dessa sequência está High Fashion, lançada em fevereiro de 2025. Com produção trip-hop e aura hipnótica, a faixa foi rapidamente comparada à sonoridade de Blackout, o clássico cult de Britney Spears – e não à toa. Tanto Rae quanto Britney são filhas do interior de Louisiana, e compartilham mais do que a geografia: High Fashion bebe diretamente da fonte de Heaven On Earth, com vocais sussurrados, pulsos eletrônicos sensuais e uma entrega performática que evoca o glamour de uma estrela determinada a conseguir o que quer.
Em Headphones On, lançada em abril de 2025, Addison Rae mergulha ainda mais fundo em suas referências densas e sofisticadas, agora evocando o introspectivo trip-hop noventista com um toque inesperado de new jack swing. A faixa, que fala sobre encontrar refúgio na música em meio ao caos exterior, soa como um diário íntimo da cantora. É aqui que Rae se aproxima da Madonna dos anos 90 – mais especificamente da fase Bedtime Stories e Ray of Light, em que a Rainha do Pop flertava com gêneros eletrônicos para expressar vulnerabilidades e desejos com mais maturidade. Assim como Madonna naquela época, Rae parece interessada em construir camadas emocionais por meio de texturas sonoras, transformando uma experiência de escapismo em algo quase espiritual.

A coesão de Addison não se revela apenas na estética bem amarrada ou nos videoclipes meticulosamente pensados, mas também no núcleo criativo por trás do disco. Produzido inteiramente por duas mulheres – Elvira Anderfjärd e Luka Kloser, pupilas diretas da escola Max Martin – o disco aposta em uma sonoridade consistente, que sabe brincar com o exagero, a sensualidade e a introspecção sem jamais parecer desorientado. As letras oscilam entre o humor irônico e a vulnerabilidade sutil, mostrando que Rae não tem medo de rir de si mesma, mas também sabe exatamente o que está fazendo. É essa combinação entre inteligência estética e autopercepção que a distancia de outros projetos “conceituais” que acabam engessados pela própria ambição.
Um ótimo exemplo disso é Fame Is a Gun, faixa em que Rae reflete sobre o poder e o peso de ser constantemente observada. Aqui, vale um paralelo inevitável com Piece of Me, de Britney Spears. Ambas abordam a fama como arma, porém com perspectivas bem distintas. Enquanto Spears expunha a brutalidade da exposição pública em um momento em que não controlava a própria narrativa, Rae canta sobre a fama como algo que ela deseja, domina e sabe usar a seu favor. A diferença entre as duas está no tempo e no contexto: se Spears pavimentou o caminho com trauma e resiliência, Addison Rae é parte de uma nova geração de popstars que herdaram esse legado – e agora têm as ferramentas para contar suas próprias histórias sem pedir permissão.
Addison Rae talvez não esteja tentando mostrar quem ela é, mas sim lembrar ao público o que o pop pode e deveria ser. Addison não tenta soar mais profundo do que realmente é, e essa honestidade é uma das maiores virtudes do álbum. Em vez de mergulhar em metáforas complexas ou criar enigmas para os fãs decifrarem, ela entrega letras diretas, refrões marcantes e melodias que grudam na cabeça sem pedir desculpas por isso. É um disco que convida à diversão, ao escapismo e, por que não, ao puro prazer de se sentir famosa ouvindo música no fone de ouvido.
E mesmo com toda a estética nostálgica – da capa saída direto dos anos 2000 ao uso estratégico de referências que dialogam com a história do pop –, Addison não soa como uma cópia. Ela sabe usar o passado como material de construção, não como muleta. Ao longo do álbum, sua entrega vocal e carisma revelam alguém que compreende o jogo da fama e joga com entusiasmo, sem perder o controle da própria narrativa. Em Times Like These, quando ela ouve a si mesma no rádio e diz “Vamos ver quão longe eu vou”, não soa como dúvida; e sim como uma provocação.
