Bom gosto é um luxo, e Addison Rae tem de sobra

Addison Rae, uma mulher jovem com cabelos claros e maquiagem marcante, usando um top brilhante, está parcialmente encoberta por um véu amarelado e translúcido. Ela olha fixamente para a câmera em uma pose confiante. O fundo é um borrão abstrato de cores quentes e frias. A palavra "Addison" em uma fonte decorativa e azul está no canto superior esquerdo da imagem.
A capa de Addison se inspira diretamente no visual dos álbuns pop dos anos 2000, com destaque para a estética carregada e o brilho nostálgico (Foto: Columbia Records)

Arthur Caires

Em uma era em que o entretenimento parece girar em torno de reembalar o passado – seja em forma de séries recicladas, live-actions que ninguém pediu ou o saudosismo Y2K nas músicas –, é raro ver alguém navegar por esse mar de referências com autenticidade. A nostalgia virou estratégia de marketing, e o resultado quase sempre escorrega na superfície: muito glitter, pouca substância. 

É por isso que Addison, álbum de estreia de Addison Rae, chama atenção. Mais conhecida pelo seu sucesso nas redes sociais, Rae surpreende ao construir uma identidade musical própria e bem definida. Com referências claras a ícones como Madonna, Britney Spears e Lana Del Rey, ela mostra que tem mais a oferecer do que se imagina – e que, ao contrário do que o público pode esperar, seu repertório cultural vai muito além dos hits virais das dancinhas. Com coesão e personalidade, Addison Rae entrega um dos debuts mais marcantes desde quando Olivia Rodrigo lançou SOUR em 2021.

Addison Rae, com cabelos loiros penteados em duas maria-chiquinhas encaracoladas, está sentada em um chão claro e empoeirado, com as pernas esticadas. Ela veste um sutiã branco por baixo de uma blusa azul-elétrica de mangas compridas, que está ligeiramente caída nos ombros. A parte inferior de seu corpo está vestida com calças azuis transparentes. Seu rosto está empoeirado, e ela olha diretamente para a câmera com uma expressão intensa.
O álbum parte da trajetória de Rae nas redes sociais e propõe uma leitura autoral sobre o que significa ser uma artista pop hoje (Foto: Columbia Records)

Para entender o que Addison representa como álbum, é preciso revisitar a jornada da própria artista. Addison Rae se tornou um rosto conhecido como uma das maiores estrelas do TikTok, viralizando com coreografias e dublagens que a transformaram em fenômeno digital. Mas ela nunca se limitou à tela do celular: buscou espaço também no cinema, com a comédia He’s All That da Netflix, e no mundo dos negócios, ao lançar sua própria linha de maquiagem. 

Sua primeira tentativa na música veio em 2021, com o single Obsessed, produzido por Benny Blanco, que teve uma recepção morna. Depois disso, Rae ficou em silêncio – até que, em 2023, uma leva de demos vazadas reacendeu o interesse do público. A coletânea, conhecida como AR, trouxe faixas como 2 Die 4, que, apesar das críticas, já indicava o potencial de Rae para algo maior.

O que veio a seguir foi, na prática, um rebranding. Com o apoio decisivo de Charli XCX – que não apenas virou mentora, como também a ajudou a conquistar credibilidade no universo pop ao incluí-la no remix de Von dutch –, Rae passou a construir sua persona artística com mais consistência. Participou do Coachella ao lado de Arca, lançou singles com videoclipes bem produzidos e começou a ser reconhecida por um trabalho que ia além da estética viral.

Addison Rae aparece em um plano médio, virada para a câmera por cima do ombro, em um fundo azul escuro com pontos brancos que se assemelham a estrelas ou neve. Ela tem cabelos loiros ondulados e presilhas brancas no cabelo. Veste uma blusa de manga comprida com listras horizontais brancas e vermelhas, e seu rosto tem maquiagem rosada nas bochechas e lábios marcados. Ela mantém uma expressão séria enquanto olha diretamente para o observador.
A paleta de cores vibrantes e os elementos visuais remetem ao auge da MTV, mas com a curadoria estética de uma artista que entende o presente (Foto: Columbia Records)

O primeiro indício de que Addison Rae estava construindo algo maior do que apenas um hit viral surgiu em agosto de 2024, com o lançamento de Diet Pepsi. Embalada por sintetizadores nostálgicos e vocais que remetem diretamente às entonações de Lana Del Rey, a faixa conquistou o público com seu refrão viciante e atmosfera etérea. Mais do que um bom single, funcionou como um manifesto estético: dali em diante, cada lançamento seria tratado como uma mini-era com identidade própria, acompanhada de videoclipes meticulosamente produzidos e uma curadoria visual que sustentava o universo que Rae começava a construir.

Entre os destaques dessa sequência está High Fashion, lançada em fevereiro de 2025. Com produção trip-hop e aura hipnótica, a faixa foi rapidamente comparada à sonoridade de Blackout, o clássico cult de Britney Spears – e não à toa. Tanto Rae quanto Britney são filhas do interior de Louisiana, e compartilham mais do que a geografia: High Fashion bebe diretamente da fonte de Heaven On Earth, com vocais sussurrados, pulsos eletrônicos sensuais e uma entrega performática que evoca o glamour de uma estrela determinada a conseguir o que quer.

Em Headphones On, lançada em abril de 2025, Addison Rae mergulha ainda mais fundo em suas referências densas e sofisticadas, agora evocando o introspectivo trip-hop noventista com um toque inesperado de new jack swing. A faixa, que fala sobre encontrar refúgio na música em meio ao caos exterior, soa como um diário íntimo da cantora. É aqui que Rae se aproxima da Madonna dos anos 90 – mais especificamente da fase Bedtime Stories e Ray of Light, em que a Rainha do Pop flertava com gêneros eletrônicos para expressar vulnerabilidades e desejos com mais maturidade. Assim como Madonna naquela época, Rae parece interessada em construir camadas emocionais por meio de texturas sonoras, transformando uma experiência de escapismo em algo quase espiritual.

Close-up do rosto de Addison Rae, que tem cabelos rosa choque e uma expressão séria. Ela segura fones de ouvido brancos à sua frente, formando uma forma triangular ou de coração, com os fios emaranhados. Suas unhas estão pintadas de um tom metálico. Ela veste uma blusa roxa, e o fundo é um borrão esverdeado e cinza, sugerindo um ambiente externo.
Os videoclipes ajudam a consolidar a imagem de Rae como uma artista que entende a força do audiovisual no pop e sabe usá-la a seu favor (Foto: Columbia Records)

A coesão de Addison não se revela apenas na estética bem amarrada ou nos videoclipes meticulosamente pensados, mas também no núcleo criativo por trás do disco. Produzido inteiramente por duas mulheres – Elvira Anderfjärd e Luka Kloser, pupilas diretas da escola Max Martin – o disco aposta em uma sonoridade consistente, que sabe brincar com o exagero, a sensualidade e a introspecção sem jamais parecer desorientado. As letras oscilam entre o humor irônico e a vulnerabilidade sutil, mostrando que Rae não tem medo de rir de si mesma, mas também sabe exatamente o que está fazendo. É essa combinação entre inteligência estética e autopercepção que a distancia de outros projetos “conceituais” que acabam engessados pela própria ambição.

Um ótimo exemplo disso é Fame Is a Gun, faixa em que Rae reflete sobre o poder e o peso de ser constantemente observada. Aqui, vale um paralelo inevitável com Piece of Me, de Britney Spears. Ambas abordam a fama como arma, porém com perspectivas bem distintas. Enquanto Spears expunha a brutalidade da exposição pública em um momento em que não controlava a própria narrativa, Rae canta sobre a fama como algo que ela deseja, domina e sabe usar a seu favor. A diferença entre as duas está no tempo e no contexto: se Spears pavimentou o caminho com trauma e resiliência, Addison Rae é parte de uma nova geração de popstars que herdaram esse legado – e agora têm as ferramentas para contar suas próprias histórias sem pedir permissão.

Addison Rae talvez não esteja tentando mostrar quem ela é, mas sim lembrar ao público o que o pop pode e deveria ser. Addison não tenta soar mais profundo do que realmente é, e essa honestidade é uma das maiores virtudes do álbum. Em vez de mergulhar em metáforas complexas ou criar enigmas para os fãs decifrarem, ela entrega letras diretas, refrões marcantes e melodias que grudam na cabeça sem pedir desculpas por isso. É um disco que convida à diversão, ao escapismo e, por que não, ao puro prazer de se sentir famosa ouvindo música no fone de ouvido.

E mesmo com toda a estética nostálgica – da capa saída direto dos anos 2000 ao uso estratégico de referências que dialogam com a história do pop –, Addison não soa como uma cópia. Ela sabe usar o passado como material de construção, não como muleta. Ao longo do álbum, sua entrega vocal e carisma revelam alguém que compreende o jogo da fama e joga com entusiasmo, sem perder o controle da própria narrativa. Em Times Like These, quando ela ouve a si mesma no rádio e diz “Vamos ver quão longe eu vou”, não soa como dúvida; e sim como uma provocação.

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