Monstros também amam: os mortos tem algo a dizer, e A Noiva! está nos contando

Mulher loira com véu preto e vestido vermelho aponta um revólver em um palco, diante de uma plateia em um ambiente com cortinas douradas
Jessie Buckley interpreta três personagens totalmente distintas entre si (Foto: Warner Bros)

Ana Beatriz Zamai

Depois de nos entregar uma performance espetacular e merecedora do Oscar de melhor atriz por seu papel em Hamnet (2025), Jessie Buckley aparece irreconhecível e fenomenal em A Noiva!, interpretando três personagens: a autora Mary Shelley, Ida e a Noiva. O filme conta a história de Ida, uma mulher de Chicago dos anos 1930, que foi assassinada a mando de chefes da máfia, enquanto era possuída pelo espírito fantasmagórico e teatral de Shelley. Em uma mudança de cenários, Frank (Christian Bale), o monstro de dr. Frankenstein, implora pela ajuda da Dra. Euphronious (Annette Bening), cientista especializada em reanimação de organismos, para acabar com sua solidão que já dura um século. O monstro e a doutora desenterram Ida e a trazem de volta à vida, dando início à uma grande história de amor – ou de terror.

Escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal, a adaptação do clássico conto de A Noiva de Frankenstein (1935) é uma mistura ousada de gêneros: romance, drama, ficção científica, suspense, terror – e até um quê de musical. James Whale, diretor do clássico, fez o filme a contragosto e, por isso, a obra parece um delírio coletivo: Whale se divertiu e apostou em usar todas as ideias que passassem pela mente. Sendo assim, faz todo sentido que Gyllenhaal também escute as vozes de sua cabeça e crie a história como achar melhor. 

Essa mistura não é um fator negativo, mas pode facilmente dividir o público por sua alternância em gêneros tão distantes entre si. A liberdade narrativa da diretora faz sentido, projetando um encontro entre casais criminosos, como Bonnie e Clyde, e uma análise da sociedade através da visão feminina. É um pouco do que Coringa: Delírio a Dois (2024) sonhava ser, uma tentativa de criar mais uma dupla caótica na história do cinema que se torna símbolo de resistência para os oprimidos.

 Mulher loira com maquiagem preta borrada grita pela janela de um carro em movimento, com os braços abertos e vento no cabelo
Ida/A Noiva busca liberdade feminina enquanto se redescobre (Foto: Warner Bros Pictures)

Maggie Gyllenhaal traz a crítica social em várias partes do filme, de forma óbvia ou não. A maneira mais direta é através da luta de Ida/A Noiva de recuperar sua memória da vida anterior, seja apenas com ela mesma, como quando diz em um diálogo entre ela e Frank “A noiva de Frankenstein. Não, só A Noiva.”, ou com o grupo de mulheres que se inspiram nela e criam uma nova onda de feminismo. A forma mais sútil vem através de outras duas personagens femininas: a investigadora Myrna Mallow (Penélope Cruz) e a dra. Euphronios. Myrna é uma investigadora que segue o casal e é o verdadeiro cérebro da maioria das operações importantes, mas não recebe distintivo de detetive – aliás, é confundida como secretária de seu parceiro Wiles (Peter Sarsgaard). Já a doutora explica para Frank logo no começo como usa apenas o sobrenome na publicação de trabalhos científicos para tentar ser levada mais a sério no meio. O próprio Frank chega perguntando pelo ‘doutor’ Euphronios e é corrigido pela senhora. 

Tanto Gyllenhaal quanto A Noiva tem coisas para falar ao público, e ambas são bem sucedidas nesse quesito. A diretora consegue passar sua mensagem de qual é sua visão do mundo atual sem parecer clichê ou forçado – muito pelo contrário, faz isso de forma gradual e leve. A Noiva fala sobre mulheres sendo silenciadas por homens, o gradual dela, porém, é quando vai recuperando a memória de quem foi na outra vida – Ida – e, dessa forma, se libertando de ser ‘a noiva de Frankenstein’ para se tornar apenas A Noiva. 

Mary Shelley fica em terceiro plano na história. A autora está em um limbo após a morte, frustrada por não ter conseguido escrever uma continuação sobre a Noiva, e, por isso, possui o corpo de Ida. As cenas em que Shelley aparece são formadas por um jogo de luz e sombra, criando uma aparência teatral muito distante dos filmes blockbusters atuais – mas que caiu bem para deixar explícito quando cada personagem estava falando, mesmo que tenha ficado um pouco confuso.

Mulher loira deitada em uma mesa ligada a cabos e equipamentos mecânicos, usando vestido vermelho e peça metálica no peito, em um ambiente industrial com iluminação amarelada.
Ida é trazida de volta à vida para ser companheira de Frank (Foto: Warner Bros)

Com uma curiosa (mas muito boa!) trilha sonora, que conta com a presença de Monster Mash no final – o que super combinou com a mistura de gêneros do filme – , assinada por Hildur Guðnadóttir, e fotografia de Lawrence Sher, ambos de Coringa (2019), A Noiva! é um filme para quem quer sair do básico, comum e esperado. Quem estiver disposto a conhecer algo novo, abraçando a proposta de Gyllenhaal, pode ser presenteado com uma grande obra que, felizmente, não tem medo de correr riscos.  

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