
Victor Hugo Aguila
Não é novidade que Abbott Elementary é excelência em fazer comédia. Ao longo de quatro temporadas, os excêntricos funcionários da escola pública na Filadélfia – com menção honrosa aos icônicos alunos – nos mostram como o humor é uma arma poderosa contra a precarização e a desigualdade. Seja através do roteiro original ou das atuações marcantes, a obra nos reafirma seu impacto e influência na televisão norte-americana.
A nova temporada do revolucionário mockumentary – formato que também contempla séries como Modern Family (2009) e The Office (2005) – consolida a produção como um dos retratos mais perspicazes e carinhosos sobre a realidade do ensino público estadunidense. Criada, roteirizada e estrelada por Quinta Brunson, a comédia mantém sua essência, mas não se limita à repetição: cada episódio é um novo fôlego ao explorar novas dinâmicas entre professores, alunos e a comunidade escolar.
Um dos maiores triunfos da temporada é o equilíbrio entre o humor e a crítica social. As piadas, apesar de situacionais, são atadas à precariedade estrutural da escola. Questões como cortes de verbas, gentrificação e desigualdades permanecem centrais, sem transformá-las em panfletagem. Combinada a uma direção feita com maestria, a risada surge através da naturalidade cômica com que os personagens lidam com problemas que, em outros contextos, seriam angustiantes – como as hilárias reações de Gregory ao descobrir um surto de micose na escola.

Nos arcos dos personagens, Abbott também se reafirma enquanto uma produção delicada. Janine (Quinta Brunson) ganha novas camadas ao enfrentar dilemas, mostrando a dor de lidar com as frustrações da realidade ao idealizar determinados cenários da vida. Gregory (Tyler James Williams) continua em uma trajetória de amadurecimento, reafirmando sua identidade profissional e aprendendo a ceder espaço ao imprevisível dentro de uma realidade metódica.
Em consonância, Ava (Janelle James) e Barbara (Sheryl Lee Ralph) ganham destaque e reforçam sua importância na trama. A icônica diretora da escola rouba o holofote e mostra uma nova face ao ser afastada de seu cargo após aceitar suborno da empresa responsável pela construção do campo de golfe. Ainda que seu caráter seja colocado em pauta, vemos um lado escondido até então: a vulnerabilidade de Ava atesta que certos erros são de fatos cometidos na tentativa de fazer o certo.
Seja na construção da sua relação com O’Shon (Matthew Law) ou nos problemas com o pai, Frank (Keith Davis), é possível perceber as nuances muito bem elaboradas da gestora da escola ao se tratar do campo afetivo. Ainda que com cautela, Ava sempre mantém o encanto e nos prova que seu carisma é, de fato, um traço de personalidade apaixonante.

Barbara, maternal, sábia e assertiva, se mantém como o exemplo perfeito da professora que não sabíamos que tanto precisávamos. A premissa da religiosidade – sempre muito bem marcada na personagem – é fundamentada de maneira ainda mais divertida e coerente. “As a good christian woman” (“como uma boa mulher cristã” em tradução livre), ela nos mostra que o amor e a persistência frente às adversidades são chaves valiosas ao trilhar seu caminho pelo mundo. Além disso, em termos técnicos, se torna inegável o talento de Lee Ralph enquanto atriz: em diversos momentos, apenas sua presença captada pela câmera garante todas as risadas da cena.
De maneira mais complexa, Abbott também se aprofunda na vida pessoal dos personagens, alisando suas raízes e destrinchando um dos tópicos mais sensíveis acerca da educação: o berço familiar. Partindo da segunda temporada, após a grandiosa presença de Taraji P. Henson como Vanetta, mãe de Janine, é possível analisar as diversas constelações familiares e como essas norteiam até a forma como lidamos com o trabalho. A relação de Jacob com seu irmão, Caleb (Tyler Perez) nessa temporada, por exemplo, é um recorte fundamental para aprendermos que, apesar das responsabilidades da vida adulta, em diversos momentos devemos acolher e curar nossa criança interior. Nessa grande teia fraterna, o papel de educador incorpora um novo e potente significado: nos tornamos nossos próprios mestres e nossos próprios alunos.
Tangentemente aos desdobramentos dos personagens, há um ponto frágil que se localiza na sensação de repetição em alguns episódios. É como se a série se apoiasse em fórmulas já familiares com receio de perder sua originalidade e estrutura. Além disso, o romance entre Janine e Gregory, um dos fortes combustíveis narrativos da trama, avança em ritmo relativamente lento, mesmo que isso faça jus à personalidade cautelosa de ambos. Apesar disso, a produção acerta em não sucumbir ao clichê, preservando não apenas sua identidade e sua qualidade – principalmente ao se analisar o roteiro integralmente – mas também a maturidade tão visível ao longo dos anos.

A genialidade da temporada se torna mais palpável em seu nono episódio, intitulado Voluntários, que conta com a presença do elenco de It’s Always Sunny in Philadelphia. A sitcom de 2005 – que surpreendentemente mantém seu sucesso mesmo após 17 temporadas – se agrega a Abbott Elementary de maneira orgânica, como se já fizesse parte da narrativa. A energia caótica dos novos personagens, somada a confusão inerente da escola, torna a atmosfera do crossover ainda mais interessante e divertida. Encontrando um ponto em comum na própria comédia, o roteiro obtém êxito ao unir mundos tão distintos em um arranjo tão coerente.
Além deste, os episódios seguintes retratam a greve do transporte público na Filadélfia de maneira contundente, porém sem perder a leveza. Através do impacto na vida dos professores, a crítica à precarização do trabalho torna esse um dos melhores argumentos da série. Ao tentar se adaptar à rotina e a ausência dos alunos, os funcionários de Abbott mostram a realidade crua de um sistema de ensino que, por vezes, é excludente. É preciso fazer o máximo para ter o mínimo garantido. Apesar da seriedade e pertinência do tópico, é impossível não sentir a delicadeza presente ao tecer risadas junto ao elenco durante os minutos que decorrem.

Em termos de relevância cultural, Abbott Elementary segue se destacando como uma ilha de genialidade no mar trivial da televisão. Contra todas as expectativas atuais, a obra aborda o espaço de trabalho de maneira brilhante e o torna um ambiente fértil para o humor muitas vezes absurdo, mas sempre inteligente. Diferente de obras igualmente engenhosas, como The Office, o seriado da ABC nos recorda que temas como educação e ensino são universais e urgentes.
De maneira quase óbvia, uma vez que o sucesso perdura a cada temporada, a relevância da sitcom não escapou dos olhares de Hollywood e garantiu ao colégio Willard R. Abbott uma nova viagem ao Emmy 2025. Totalizando seis indicações, incluindo Melhor Série de Comédia e Melhor Atriz em Série de Comédia – Quinta Brunson – a escola da Filadélfia, apesar de nenhuma vitória, marcou presença na maior premiação da televisão americana. Já possuindo 4 estatuetas Emmy e 2 Globos de Ouro, a série criada por Brunson ainda nos recorda como sua colheita continua doce e persiste no discurso coerente de que é feita para o sucesso.
A quarta temporada de Abbott Elementary prova que a produção supera o status de ‘fenômeno passageiro’ e se consolida como um marco da comédia para a televisão. Ao equilibrar leveza e profundidade, é possível se divertir enquanto desperta reflexões sobre o valor da educação e o papel dos professores em um sistema que os desvaloriza e os negligencia. Suas múltiplas indicações a prêmios, além da renovação antecipada para a quinta temporada, reforçam não apenas o talento do elenco e da produção, mas também a relevância cultural que, episódio após episódio, reafirma que rir é definitivamente uma forma linda – e necessária – de resistência.
