Há 35 anos, o The Cure atingia o fundo do poço com Pornography

The Cure ao vivo, em 1982
The Cure ao vivo, em 1982

João Pedro Fávero

Em 1982, o punk era apenas uma memória na Inglaterra, que via Margaret Thatcher  dominar a terra da rainha com seu conservadorismo. A energia do estilo deu lugar às sombras, emanadas por bandas que misturavam  guitarras cruas e o baixo pulsante com batidas de dance music e temáticas obscuras. A mais famosa das bandas oriundas dessa cena, o Joy Division, havia visto seu fim com a morte precoce do seu líder, Ian Curtis, que sofria com problemas pessoais – entregues de maneira palpável em sua arte, principalmente nas letras do seu último álbum, Closer (1980).

Outras bandas, porém, continuariam segurando a tocha do chamado pós-punk com suas carreiras: The Fall, Siouxsie and the Banshees e, principalmente, o The Cure. Fundada por Robert Smith como The Easy Cure em 1976, a banda já havia lançado três álbuns até aquela data, sendo que Seventeen Seconds (1980) e Faith (1981) fizeram a banda emplacar pequenos hits no Reino Unido, demandando exaustivas turnês promocionais que, somadas ao estado mental de Smith e ao abuso de substâncias ilícitas (e lícitas), quase colocaram um fim à banda e à vida do compositor. Segundo o próprio: “Eu tinha duas escolhas na época, que eram eu desistir completamente [cometer suicídio] ou fazer um álbum sobre isso”. O disco veio com o nome de Pornography, que completa 35 anos em 2017.

pornografia

Apesar de não ser considerado conceitual, a atmosfera depressiva e melancólica permeia por todo o álbum, tanto nas letras cheias de raiva e desprezo por praticamente tudo que guiava a vida do músico à época, quanto no instrumental claustrofóbico resultado das repetições do baixo de Simon Gallup e da bateria de Lol Tolhurst.

O disco abre com “One Hundred Years”, hino à morte de qualquer empatia para com o mundo em qualquer instância, já mostrado logo nos dois icônicos primeiros versos: “It doesn’t matter if we all die/ ambition in the back of a black car”. O riff inicial permanece como um dos melhores do The Cure, unido ao baixo trovejante disparado simultaneamente.

Apesar de constantemente comparados devido às semelhanças entre o estado emocional e de saúde dos principais compositores de cada banda, Closer  ainda oferece uma catarse vindo das líricas, que Pornography nega ao ouvinte, o deixando entorpecido durante todo o play e após ele, como podemos perceber em músicas como “A Short Term Effect” e “A Strange Day”.

A primeira versa sobre como a vida é passageira e nenhuma experiência adquirida durante o tempo na terra vale após a morte, mas sem intenção nenhuma de estabelecer um carpe diem. O dia estranho a qual a segunda  se refere é uma narração do fim dos tempos, guiada pela guitarra e teclados.

O único single a sair do álbum, “The Hanging Garden” é o que de mais pop o The Cure tinha a oferecer durante aquele ciclo, com refrões repetidos e baixo marcante, ainda que o conteúdo lírico exponha um sentimento misântropo, aliado ao zoomorfismo que compara os desejos humanos com o instinto animal e o primitivismo. Soaria cafona, não fosse a força e o compromisso que há em cada verso emitido pelo vocalista.

A busca em satisfazer os impulsos é também apresentada em “Siamese Twins”: uma história que se mostra cotidiana ainda hoje, sobre um garoto que vai até um ponto de prostituição para perder sua virgindade. Enquanto demonstra repulsa pela forma de “comércio” e ainda mais pelo consumo, o sentimento de vazio obtido depois do ato toma conta, sobrando à ele apenas a indagação “É sempre assim?”, que ecoa no final da faixa.

A repetição de versos no fim das canções é uma das peças chaves de Pornography, sufocando o ouvinte com questionamentos sem respostas e o colocando à beira do abismo em que Robert Smith se encontrava. A faixa-título utiliza desse recurso, mostrando a luta do narrador contra suas reais intenções que envolvem o desejo em ver sangue. Sangue real, e não aquele mostrado na televisão, no cinema ou citado em livros. “I must fight this sickness”, ele reitera. O título remete ao aspecto mais hediondo à tal forma de arte, seu aspecto invasivo e que tem muito em comum com a maneira que Smith expõe seus sentimentos e impressões nas letras.

Foto tirada na mesma sessão que originou a capa icônica: mais sinistro que qualquer metal extremo
Foto tirada na mesma sessão que originou a capa icônica: mais sinistro que qualquer metal extremo

A monotonia do álbum é o que o faz tão especial e também é o seu ponto mais fraco. Esqueça hits como os que fizeram o The Cure ficar conhecido anos depois do lançamento deste álbum. Aqui há apenas espaço sobre o horror da vida e a não-sobriedade, a única perspectiva da banda à época e reforçada na incrível capa: figuras sem rosto, não-identificáveis, sem olhos, distorcidas, sem vida.

É conhecida uma declaração de Smith sobre a intenção em fazer de Pornography um álbum “virtualmente insuportável”. Ele não é, e isso é bom. O vocalista também não chegou ao ponto de cometer suicídio, que parece ser uma consequência ao realizar álbuns desse estilo, como o supracitado Closer e Pink Moon (1972), de Nick Drake. Ao contrário, ele se casou e deu um rumo totalmente inesperado para a banda logo no ano seguinte, com o single “Let’s Go To Bed”, além de se tornar uma das figuras mais reconhecíveis do universo pop, influenciando completamente a futura geração do gótico, do emo e do alternativo, além do visual de famosos personagens do cinema. Pequenos resquícios desta época são encontrados em Disintegration (1989) e Bloodflowers (2000), considerados por Smith como uma trilogia, mas nada ainda se compara ao fundo do poço atingido em 1982.

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