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	<title>Arquivos Prêmio Jabuti &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Finalista do 67º Prêmio Jabuti, Penélope Martins conta ao Persona sobre seu ‘trabalho de formiga’ na Literatura</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Oct 2025 14:27:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Arthur Caires Antes de aprender a escrever para crianças, Penélope Martins aprendeu a escutar. Escutava as conversas de família, a faladeira que se misturava à costura da mãe, o tricotar da avó na varanda e, entre uma história e outra, descobriu que o afeto também se comunica por palavras. Muito antes de publicar livros, já &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/finalista-do-67o-premio-jabuti-penelope-martins-conta-ao-persona-sobre-seu-trabalho-de-formiga-na-literatura/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Finalista do 67º Prêmio Jabuti, Penélope Martins conta ao Persona sobre seu ‘trabalho de formiga’ na Literatura"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36052" aria-describedby="caption-attachment-36052" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-36052" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-12-800x450.png" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-12-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-12-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-12-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-12-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-12-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-12.png 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36052" class="wp-caption-text">A literatura juvenil de Penélope Martins conecta jovens e adultos por meio da mesma sensibilidade (Foto: Penélope Cruz; Arte: Arthur Caires)</figcaption></figure>
<p><b>Arthur Caires</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes de aprender a escrever para crianças, Penélope Martins aprendeu a escutar. Escutava as conversas de família, a faladeira que se misturava à costura da mãe, o tricotar da avó na varanda e, entre uma história e outra, descobriu que o afeto também se comunica por palavras. Muito antes de publicar livros, já havia ali uma autora em formação: alguém que entendia o poder das narrativas que costuram o mundo.</span></p>
<p><span id="more-36050"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Formada em Direito, Penélope caminhou por anos entre códigos e processos até perceber que a justiça que procurava não estava nas leis, mas nas histórias. </span><b>“</b><b><i>Eu percebi que, se não fizesse outra coisa da minha vida – e eu sabia o que era, tinha a ver com literatura – eu ia ficar frustrada</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">, conta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi entre as brincadeiras dos filhos e as rodas de histórias improvisadas em casa que a escritora surgiu de fato. </span><b>“</b><b><i>Eu chamava as crianças e contava histórias. Uma poeta de Santo André viu o fascínio que eu tinha com elas e me disse: ‘Penélope, você tem que escrever para esse público’. E eu acreditei</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">, lembra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir daí, começou o que ela chama de seu ‘trabalho de formiga’: bater de porta em porta com originais na mão, insistir na palavra, acreditar na delicadeza. Hoje, autora premiada e <a href="https://prefeitura.sp.gov.br/web/cultura/w/encontro-com-escritores-pedro-bandeira-pen%C3%A9lope-martins-mary-del-priore-e-mais-acontecem-na-semana-do-dia-mundial-do-livro">formadora de mediadores de leitura</a>, Penélope transformou aquele gesto inicial, o de ouvir, em missão. </span></p>
<h3><b>Da Advocacia para a Literatura</b></h3>
<figure id="attachment_36054" aria-describedby="caption-attachment-36054" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-36054" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-6-800x450.png" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-6-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-6-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-6-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-6-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-6-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-6.png 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36054" class="wp-caption-text">Entre gerações, a literatura de Penélope Martins encontra leitores de todas as infâncias (Foto: Penélope Martins)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A travessia entre o Direito e a Literatura não foi apenas uma troca de ofício, porém de sentido. Filha de uma família de trabalhadores da agricultura e da costura, Penélope foi a primeira a entrar numa universidade. </span><b>“</b><b><i>Os meus pais me incentivaram muito a estudar, mas tinham um olhar pragmático: o que você vai fazer com isso?</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">, conta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A advocacia parecia a resposta possível para uma jovem que gostava de ler e falar – </span><b>“</b><b><i>sempre fui muito faladeira</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">, brinca. No entanto, bastou amadurecer para entender que a vocação verdadeira estava em outro tipo de prática.</span><b> “</b><b><i>Eu cresci numa família de contadores de histórias, o famoso círculo dos mentirosos. Um conta uma mentira, o outro conta uma maior ainda. E era tão divertido!</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">, diz, rindo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi justamente esse espírito de roda, onde a imaginação se torna espaço de convivência, que moldou sua escrita. Nas palavras de Penélope,</span><b> “</b><b><i>as histórias são um modo de se reconhecer nos olhos do outro</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">. Talvez por isso, cada livro seu pareça nascer de uma escuta, como se escrever fosse, também, uma forma de ouvir de volta.</span></p>
<h3><b>Ler é um direito e escrever é um ato de reparo</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Penélope costuma dizer que aprendeu a ler com o corpo, como quem entende o peso e o alívio de uma palavra no tempo certo. Sua relação com a leitura começou na infância, quando os livros se misturavam às histórias inventadas pelos adultos. Mas, foi uma cena simples, guardada na memória, que se transformou em símbolo de tudo o que ela acredita: o direito de aprender, de nomear o mundo, de ser escutada.</span></p>
<blockquote><p><b>“Minha avó, quando ia tricotar na varanda, pedia que eu colocasse uma almofada nas costas dela. Um dia, ela me pediu um ‘trabesseiro’, e eu, criança, corrigi: ‘Não é trabesseiro, é travesseiro’. Levei uma bronca da minha tia, mas minha avó me defendeu. Disse: ‘Deixa ela me corrigir, porque ela está estudando mais do que eu estudei’.”</b></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre o erro e o acerto, estava o gesto de amor que a autora nunca esqueceu. </span><b>“</b><b><i>Quando eu digo que a leitura é um direito, é porque ela ainda é concedida a poucas pessoas. Mesmo o básico, ler e escrever, ainda não está garantido para todos</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">, diz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em suas formações de mediadores de leitura, Penélope repete que alfabetizar não basta: é preciso criar vínculos, dar às pessoas o direito de se reconhecer no texto. Para ela, a leitura é uma forma de reparação, uma devolutiva simbólica às vozes silenciadas por gerações.</span></p>
<blockquote><p><b>“A leitura, para mim, tem a ver com acolhimento. É um direito que repara o que foi negado, o direito de existir na palavra.”</b></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez por isso, sua literatura seja tão atravessada por <a href="https://www1.folha.uol.com.br/folhinha/2025/07/poemas-de-gabriela-romeu-e-penelope-martins-falam-sobre-oncas-pintadas.shtml">memórias e gestos cotidianos</a>. Há, em sua fala, uma ternura combativa: o desejo de construir um mundo mais justo a partir da delicadeza. Porque, no fim, escrever, para Penélope, é um modo de cuidar do outro com as palavras que o tempo costurou nela.</span></p>
<h3><b>Quando a Felicidade vem num corpo pequeno</b></h3>
<figure id="attachment_36051" aria-describedby="caption-attachment-36051" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-36051" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-14-800x450.png" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-14-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-14-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-14-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-14-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-14-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-14.png 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36051" class="wp-caption-text">Em Felicidade, Penélope Martins transforma o sentimento em personagem e o cotidiano em poesia (Foto: Editora Casa de Letras)</figcaption></figure>
<p><b>“</b><b><i>Felicidade é uma menina pequena que corre na rua atrás dos cachorros</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">. Assim nasceu o poema que, dez anos depois, se transformaria em livro. A imagem simples, uma criança correndo sob o sol, rindo das coisas pequenas, virou metáfora para um sentimento que Penélope Martins persegue em toda a sua obra: o de que a alegria mora no cotidiano, e que escrever é uma forma de preservá-la.</span></p>
<blockquote><p><b>“Senti uma alegria inexplicável ao olhar a chuva delicada sobre a roseira. Por vezes, as coisas que nos trazem felicidade são minúsculas.”</b></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Felicidade</span></i><span style="font-weight: 400;">, lançado pela <a href="https://portal.saladanoticia.com.br/noticia/20823/penelope-martins-lanca-os-livros-infantis-felicidade-e-ana-e-rosa-rosa-e-ana-em-sao-paulo">Editora Joaninha</a>, parte dessa percepção íntima para construir uma narrativa que fala de acolhimento. Nele, a própria Felicidade é uma personagem recém-chegada a um lar, aguardando para ser compreendida. </span><b>“</b><b><i>Será que vão guardá-la numa caixa de sapatos? Ou dentro de uma maleta de ferramentas?</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">, provoca o texto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história nasceu de uma experiência pessoal, um lampejo de ternura durante a infância da filha, um instante que a autora não quis deixar escapar. </span><b>“</b><b><i>Eu queria brincar com a ideia de a felicidade ser uma personagem, e ter essa interpretação dúbia: a chegada dela pode ser algo novo, mas também algo que já estava ali, só esperando ser visto</i></b><b>”.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A ilustradora Cássia Roriz deu forma a essa sensação por meio da colagem, criando um universo lúdico que parece convidar o leitor a participar. </span><b><i>“A Cássia fez um trabalho cheio de recordações, que dá vontade de recortar e desenhar junto</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">, diz Penélope, sorrindo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Felicidade</span></i><span style="font-weight: 400;">, palavra e imagem se juntam como fragmentos de um mesmo gesto: o de reconhecer o extraordinário no pequeno. E, talvez, essa seja a maior delicadeza do livro – lembrar que, para as crianças (e para quem ainda sabe olhar como elas), a felicidade não cabe no corpo, porém o corpo é que aprende a caber na felicidade.</span></p>
<h3><b>Amor, diferença e espelho: as irmãs Ana e Rosa</b></h3>
<figure id="attachment_36053" aria-describedby="caption-attachment-36053" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36053" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-14-800x450.png" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-14-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-14-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-14-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-14-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-14-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-14.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36053" class="wp-caption-text">Ana e Rosa, Rosa e Ana mergulha nas delicadas relações entre irmãs e nos laços que crescem junto com o amor (Foto: Editora Casa de Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se em </span><i><span style="font-weight: 400;">Felicidade </span></i><span style="font-weight: 400;">Penélope Martins explora o encantamento do sentir, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Ana e Rosa, Rosa e Ana</span></i><span style="font-weight: 400;"> ela mergulha no terreno mais delicado dos afetos: o das relações familiares. O livro, ilustrado por Nat Grego, fala sobre irmãs e também sobre o espelho que cada uma representa na vida da outra, um reflexo de semelhanças e desencontros que forma o retrato do amor.</span></p>
<blockquote><p><b>“O amor também tem seus desafios: alguns dias são de sol, outros chovem lagos e rios.”</b></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir da convivência entre Ana e Rosa, a autora discute o convívio, as diferenças e o que significa crescer junto de alguém. </span><b>“</b><b><i>Eu preparei essa história pensando no desafio da inclusão nas escolas, especialmente nas que têm muitas crianças. Às vezes olhamos para o caso de inclusão como se ele fosse o diferente e nós, os iguais. Mas, o exercício de inverter isso – perceber o quanto também somos diferentes aos olhos do outro – é muito interessante na perspectiva da criança</i></b><b>”.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A fala da autora ressoa como uma espécie de lição de empatia. Em Ana e Rosa, as irmãs vivem as pequenas turbulências da infância com a sinceridade de quem ainda não aprendeu a disfarçar o afeto. A narrativa sugere que o amor, assim como a convivência, se constrói na contradição: entre o riso e a raiva, a distância e o reencontro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As ilustrações de Nat Grego traduzem visualmente esse movimento: cores que se fundem, personagens que parecem se tocar e se afastar ao mesmo tempo. Tudo no livro convida o leitor a enxergar o outro não como espelho perfeito, mas como reflexo necessário.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim, o gesto de Penélope é o mesmo que perpassa toda a sua obra: olhar para o humano com delicadeza, reconhecendo nas diferenças o lugar onde o amor aprende a existir.</span></p>
<h3><b>O voo que a levou ao Prêmio Jabuti</b></h3>
<figure id="attachment_36099" aria-describedby="caption-attachment-36099" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36099" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/fotos-textos-persona-800x450.png" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/fotos-textos-persona-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/fotos-textos-persona-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/fotos-textos-persona-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/fotos-textos-persona-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/fotos-textos-persona-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/fotos-textos-persona.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36099" class="wp-caption-text">Quando minha mãe voou no 14-bis pela Editora PeraBook (Imagem: PeraBook)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando Penélope Martins fala sobre </span><i><span style="font-weight: 400;">Quando Minha Mãe Voou no 14 Bis</span></i><span style="font-weight: 400;">, sua voz ganha um tom de surpresa misturado com ternura. O livro, finalista da <a href="https://www.premiojabuti.com.br/jabuti/premiados-por-edicao/premiacao/?ano=2025">67ª edição do Prêmio Jabuti 2025</a> na categoria Juvenil, nasceu da vontade de contar uma história curta e densa, quase um conto alongado por metáforas, um texto sobre ausência, afeto e o difícil exercício de crescer.</span></p>
<blockquote><p><strong>“A menina narra a própria vida e anuncia que a mãe voou sem dar notícia. Ela espera o dia em que a mãe vai pousar de novo. A mãe tem uma questão de saúde mental, e a filha quer a mãe inteira pra ela, mas recebe o que a mãe consegue dar.”</strong></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Com uma prosa enxuta e simbólica, o livro constrói um universo em que o céu e o chão se confundem, onde o amor também é feito de distância. </span><b>“</b><b><i>O texto tem densidade, sim, mas é curto, dividido em quatro capítulos. Eu achei que ia escrever só para crianças, e de repente me vi conversando com adolescentes, com quem está entre a infância e o mundo</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">, conta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A indicação ao Jabuti veio como um reconhecimento da força dessa travessia. </span><b>“</b><b><i>Quando saiu a lista dos semifinalistas, eu já estava nas nuvens</i></b><b>”, </b><span style="font-weight: 400;">brinca. </span><b>“</b><b><i>E quando vi o nome entre os finalistas, foi outra surpresa. A literatura juvenil precisa muito de olhares, porque se fala muito das infâncias e dos adultos, mas pouco desse meio do caminho</i></b><b>”.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O voo do 14 Bis é, também, o voo da própria autora: uma literatura que se desprende de rótulos, que flutua entre idades e experiências. Penélope escreve para quem ainda guarda dentro de si a infância, ou para quem tenta reencontrá-la.</span></p>
<blockquote><p><strong>“Tem muito adulto que lê meus livros e entende que um texto para infância é, na verdade, para todas as infâncias – inclusive aquela que a gente já viveu e ainda carrega dentro.”</strong></p></blockquote>
<h3><b>O trabalho de formiga e o futuro que ele trilha</b></h3>
<figure id="attachment_36056" aria-describedby="caption-attachment-36056" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36056" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/fotos-textos-persona-1-800x450.png" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/fotos-textos-persona-1-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/fotos-textos-persona-1-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/fotos-textos-persona-1-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/fotos-textos-persona-1-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/fotos-textos-persona-1-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/fotos-textos-persona-1.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36056" class="wp-caption-text">Além de escrever, Penélope Martins também faz rodas de leitura para crianças (Foto: Colégio Bandeirantes/Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Penélope Martins gosta de se definir como uma formiga: paciente, incansável e atenta aos caminhos que constrói palavra por palavra. Em tempos de pressa e esquecimento, ela escolhe o ritmo da constância, aquele que acredita na transformação silenciosa da leitura. </span><b>“</b><b><i>Eu me preocupo em fazer meu trabalho de formiga. Levar os livros, levar a leitura, acolher as pessoas. Porque todas as pessoas precisam de acolhida</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">, diz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O futuro que ela imagina para si mesma não está separado do que escreve. </span><b>“</b><b><i>Eu não sei exatamente para onde meus textos vão me levar. Eu vivo as coisas e faço o que tem sentido pra mim</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">, confessa. Em 2026, três novos livros juvenis assinados por ela serão lançados pela Editora Joaninha; obras que continuam a explorar o encontro entre vidas desafiadas e a força que nasce desse encontro. </span><b>“</b><b><i>Não posso dar spoiler</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">, ri, </span><b>“</b><b><i>mas são histórias muito fortes, sobre pessoas que carregam pedras imensas na mochila e ainda assim caminham</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A autora evita pensar a literatura em termos de faixa etária. Prefere falar em camadas, em sensibilidades que atravessam o tempo. </span><b>“</b><b><i>Como dizer que um livro é só para essa ou aquela idade? Eu escrevo o que precisa ser dito, e o livro encontra seu leitor</i></b><b>”</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<blockquote><p><b>“Escrever, pra mim, é um gesto de cuidado. Eu escrevo pra acolher. E acolher é a forma mais bonita que conheço de dizer que o outro existe.”</b></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Em cada livro, há um traço dessa ética da delicadeza: o direito de ser ouvido, de sonhar, de se ver refletido em uma história. Penélope Martins escreve com a calma de quem entende que a literatura não muda o mundo de uma vez, mas muda o modo como a gente o habita.</span></p>
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		<title>Estante do Persona &#8211; Abril de 2023</title>
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		<pubDate>Wed, 31 May 2023 20:42:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A edição do Clube do Livro de Abril marca o vigésimo encontro do grupo de leitores do Persona. Depois de caminharem por autores e, principalmente, autoras, que expandiram todos os limites das perspectivas, foi a vez de dar de cara com a marcante figura do rock brasileiro, Rita Lee, em Rita Lee: uma autobiografia. Falecida &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-abril-de-2023/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Estante do Persona &#8211; Abril de 2023"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31019" aria-describedby="caption-attachment-31019" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31019" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/capawp_estantepersona-800x420.jpg" alt="Imagem retangular de fundo verde. Do lado direito está o livro Rita Lee: uma autobiografia, ele tem capa laranja, com um RG da artista no centro e o nome Rita Lee em cima. Do lado esquerdo há três livros empilhados nas cores preto, vermelho e violeta, o texto Estante do Persona Abril de 2023 aparece nas lombadas. " width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/capawp_estantepersona-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/capawp_estantepersona-768x404.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/capawp_estantepersona.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31019" class="wp-caption-text">Caminhando pela singularidade subversiva de uma das maiores artistas do Brasil, o Clube do Livro de Abril contemplou Rita Lee: uma autobiografia (Foto: Globo Livros/ Arte: Raíra Tiengo/ Texto de abertura: Jamily Rigonatto)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A edição do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/clube-do-livro/"><span style="font-weight: 400;">Clube do Livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Abril marca o vigésimo encontro do grupo de leitores do </span><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;">. Depois de caminharem por autores e, principalmente, autoras, que expandiram todos os limites das perspectivas, foi a vez de dar de cara com a marcante figura do </span><i><span style="font-weight: 400;">rock brasileiro,</span></i><span style="font-weight: 400;"> Rita Lee, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Rita Lee: uma autobiografia</span></i><span style="font-weight: 400;">. Falecida no dia 8 de Maio de 2023, a contemplação da obra da artista se formata em tons de saudosismo e admiração. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em pequenos relatos que caminham desde a infância até a vida adulta agitada, o texto encara a distinção das fases em períodos curtos, palavras estrangeiras e gírias paulistanas. Através da óptica completamente única, a autoria de cada termo quase grita </span><a href="https://personaunesp.com.br/rita-lee-40-anos/"><span style="font-weight: 400;">Rita Lee</span></a><span style="font-weight: 400;">. Direta e reta como sempre, seus afetos, vivências, tristezas e o que mais houver cantam em notas vibrantes e extremamente características. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além da voz da </span><a href="https://f5.folha.uol.com.br/celebridades/2022/11/rita-lee-gosto-mais-de-ser-chamada-de-padroeira-da-liberdade-do-que-rainha-do-rock.shtml"><span style="font-weight: 400;">“padroeira da liberdade”</span></a><span style="font-weight: 400;"> – apelido pelo qual gostava de ser chamada –, o escrito conta com os pitacos do jornalista Guilherme Samora, representado pela aparição de um fantasma chamado Phantom. A figura aparece em determinados trechos para indicar algum detalhe ou data esquecidos pela artista, e contribui para aumentar a sensação de autenticidade dos capítulos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Publicada em 2016, a obra foi consagrada no mesmo ano com o título de Melhor Biografia do Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), a artista também foi lembrada por suas contribuições no universo musical durante a cerimônia. Em 2017, o livro apareceu entre os indicados da categoria de Melhor Biografia da estatueta oferecida pela Academia Brasileira de Letras (ABL), o </span><a href="https://www.instagram.com/p/Clmi7GXu-Og/?igshid=MmJiY2I4NDBkZg=="><span style="font-weight: 400;">Prêmio Jabuti</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O relato é o primogênito da segunda autobiografia de Rita, intitulada </span><a href="https://www.publishnews.com.br/materias/2023/05/26/rita-lee-outra-autobiografia-estreia-na-lista-de-mais-vendidos-do-publishnews-antes-do-lancamento-oficial"><i><span style="font-weight: 400;">Rita Lee: outra autobiografia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. A caçula chegou ao mundo em Maio, pouco tempo depois da morte da autora, e carrega em 192 páginas memórias que contemplam os momentos da cantora com a descoberta do câncer de pulmão durante o período pandêmico. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo se seu RG não estampasse a capa do livro, o escolhido do mês não poderia ter sua assinatura confundida com a de nenhuma outra literata. Marcado por originalidade e cheio de personalidade, o ato de ler e viver Rita Lee foi e sempre será um presente. Para homenagear as múltiplas sensações provocadas pela eterna Rainha, ficam nossas dicas literárias especialmente para os que têm cor de </span><a href="https://www.youtube.com/channel/UCyFDNBI2AJaqILTR_3dn9aA"><span style="font-weight: 400;">Tutti Frutti </span></a><span style="font-weight: 400;">no <strong>Estante do Persona de Abril de 2023</strong>.</span></p>
<p><span id="more-31012"></span></p>
<h3><strong>Livro do Mês</strong></h3>
<figure id="attachment_31021" aria-describedby="caption-attachment-31021" style="width: 542px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31021" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Rita-1-542x800.jpg" alt="Capa do livro Rita Lee: uma autobiografia. O RG de Rita Lee esta centralizado em um fundo laranja. Na porção su´perior há o nome da artista em letras bastão verdes. Na porção inferior há o texto &quot; uma autobiografias&quot; em letras cursivas verdes. " width="542" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Rita-1-542x800.jpg 542w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Rita-1.jpg 677w" sizes="auto, (max-width: 542px) 85vw, 542px" /><figcaption id="caption-attachment-31021" class="wp-caption-text">A primeira autobiografia da artista foi um sucesso editorial quando lançada, com mais de 98 mil exemplares vendidos (Foto: Globo Livros)</figcaption></figure>
<p><b>Rita Lee &#8211; Rita Lee: uma autobiografia (296 páginas, Globo Livros)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No dia 8 de maio de </span><span style="font-weight: 400;">2023, </span><span style="font-weight: 400;">noites alienígenas ganharam, para a eternidade, um disco voador meio biruta – com um quê de estrela do rock – para sua imensidão de UFOs e objetos luminosos estranhos. A escolha do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/clube-do-livro/"><span style="font-weight: 400;">Clube do Livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> do Persona convergiu, numa coincidência que só poderia acontecer a essa figura, com a </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2023/05/09/em-autobiografia-rita-lee-deixou-profecia-sobre-repercussao-de-sua-morte.ghtml#trecho"><span style="font-weight: 400;">partida intergalática</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Rita Lee, depois de uma luta vencida contra o câncer, relatada em </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2023/05/23/rita-lee-escapa-com-vida-ao-narrar-com-sagacidade-os-dias-de-luta-contra-o-cancer-em-outra-autobiografia.ghtml"><span style="font-weight: 400;">outra autobiografia</span></a><span style="font-weight: 400;">. O </span><a href="https://forbes.com.br/colunas/2018/02/rita-lee-e-a-autora-brasileira-que-mais-vendeu-livros-de-nao-ficcao-em-2017/"><span style="font-weight: 400;">primeiro relato</span></a><span style="font-weight: 400;"> que a artista compõe de si mesma, afastando de si um tanto da personagem ‘</span><i><span style="font-weight: 400;">‘ritalee</span></i><span style="font-weight: 400;">’’ dos grandes palcos e telas para expor a intimidade de sua infância e dos bastidores de sua carreira musical, é um enquadramento mais explícito e retrospectivo de si mesma. Da infância na Vila Mariana – tecendo ao leitor uma experiência imersiva de uma São Paulo nos anos 1960 – à caminhada ao estrelato, Lee Jones é modesta com sua própria história, um espaço garantido no cânone de revolucionários e agitadores dos costumes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pisando no terreno das escritas de si, Rita Lee, como sempre, deixa os panos caírem e inverte o jogo. Em </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/vitrine/rita-lee-conheca-as-duas-biografias-escritas-pela-cantora/"><i><span style="font-weight: 400;">Rita Lee: uma autobiografia</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">a centralidade de tudo é a sua própria história, onde o si tem mais importância e mais corpo que o valor literário de tudo, que também é imenso. O ímpeto cômico e ultrajado que atravessa sua música é, também, um registro de sua escrita. Em seu característico humor ácido, cheio de sacadas inteligentíssimas, a artista se estabelece como canhota por escolha, alienígena de nascença e ovelha negra tingida. </span><a href="https://veja.abril.com.br/coluna/augusto-nunes/8216-poema-de-sete-faces-8217-de-carlos-drummond-de-andrade#:~:text=Quando%20nasci%2C%20um%20anjo%20torto%0Adesses%20que%20vivem%20na%20sombra%0Adisse%3A%20Vai%2C%20Carlos!%20ser%20gauche%20na%20vida."><i><span style="font-weight: 400;">Gauche </span></i><span style="font-weight: 400;">na vida</span></a><span style="font-weight: 400;">, a artista relata sua experiência andando contra os sentidos pré-estabelecidos; seja do mundo da música – hibridizando o </span><i><span style="font-weight: 400;">rock</span></i><span style="font-weight: 400;"> estadunidense à </span><i><span style="font-weight: 400;">bossa nova</span></i><span style="font-weight: 400;"> e ao psicodélico da </span><i><span style="font-weight: 400;">tropicália</span></i><span style="font-weight: 400;"> – ou no papel instituído às mulheres nesse cenário, que, por sinal, toma o centro da narrativa em seu relato dos bastidores do </span><a href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/verso/rita-lee-foi-expulsa-dos-mutantes-por-ex-marido-historia-e-contada-em-autobiografia-1.3366830"><span style="font-weight: 400;">término</span></a><span style="font-weight: 400;"> de sua trajetória com </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Mutantes</span></i><span style="font-weight: 400;">. Uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wU4gpw3gYiw"><span style="font-weight: 400;">Maria Mole</span></a><span style="font-weight: 400;"> de uma revolução feita aos berros e aos acordes de guitarra, Lee Jones foi transeunte entre estilos, ideias e gerações: entre </span><a href="https://novabrasilfm.com.br/notas-musicais/curiosidades/historia-da-musica-pagu-de-rita-lee-e-zelia-duncan/"><span style="font-weight: 400;">Pagu</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://artsandculture.google.com/story/KQWBBi19jjt_yg?hl=pt-BR"><span style="font-weight: 400;">Gil</span></a><span style="font-weight: 400;">, nunca houve uma revolução como a de Rita.</span></p>
<p><iframe title="Spotify Embed: Rita Lee: uma autobiografia - Clube do Livro Abril de 2023" style="border-radius: 12px" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/7dG2PQeCnozOP7wlOS3RNZ?si=f53c25eb2ea14406&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
<hr />
<h3><strong>Dicas do Mês </strong></h3>
<figure id="attachment_31037" aria-describedby="caption-attachment-31037" style="width: 554px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31037" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/0fa060f691528fbf2e81379d8ad73906-e1685560813811-554x800.jpeg" alt="Capa do livro O Homem de Giz. O fundo da imagem é preto, e o título é escrito em branco, em letras de forma semelhante a giz. Abaixo do título há um desenho de giz de um homem palito enforcado. Na parte central inferior está o nome da autora em vermelho, também semelhante a giz. No canto inferior direito está o nome da editora." width="554" height="800" data-wp-editing="1" /><figcaption id="caption-attachment-31037" class="wp-caption-text">Em O Homem de Giz, não dá para confiar em ninguém (Foto: Intrínseca)</figcaption></figure>
<p><b>C. J. Tudor &#8211; O Homem de Giz (334 páginas, Intrínseca)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Guiadas por desenhos de giz, quatro crianças encontram um corpo mutilado no bosque e suas vidas mudam para sempre. </span><a href="https://www.amorporlivros.com.br/livros-cj-tudor/"><span style="font-weight: 400;">C. J. Tudor</span></a><span style="font-weight: 400;"> é um grande nome da literatura do gênero de mistério e </span><i><span style="font-weight: 400;">O Homem de Giz</span></i><span style="font-weight: 400;"> é, com razão, um de seus títulos mais famosos. O primeiro livro da autora narra as dúvidas e as consequências que envolvem um assassinato que chocou a cidade de Anderbury. Ao longo da história, fica claro que qualquer pessoa guarda os seus segredos, alguns maiores e mais nocivos do que outros.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama é contada por Eddie Adams, um dos responsáveis por encontrar o corpo. Na sua narrativa, os fatos são contados em duas linhas temporais: uma em 1986 e outra em 2016. Esse é um recurso interessante capaz de prender a atenção do leitor até o final, além de explicitar como escolhas e acontecimentos do passado podem afetar o presente. Para quem é fã dos mistérios de Stephen King ou de </span><a href="https://personaunesp.com.br/stranger-things-4-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Stranger Things</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Homem de Giz</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma ótima pedida. </span><b>&#8211; Gabrielli Natividade<br />
</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_31026" aria-describedby="caption-attachment-31026" style="width: 534px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31026" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1-534x800.jpg" alt="Capa do livro Assassinos da Lua das Flores. A capa, que é em um branco envelhecido, onde tem uma torre antiga de extração de petróleo, toda na cor vermelha ao fundo, um carro antigo de luxo, onde há um nativo americano homem dirigindo e uma nativa americana no banco de trás, na cor preta. Ao centro, em letra maiúscula preta, o título “ASSASSINOS DA LUA DAS FLORES” e logo abaixo,em letras minúsculas pretas “Petróleo, morte e a criação do FBI”. Um pouco mais abaixo, em maiúsculas pretas,há o nome do autor “DAVID GRANN”. No canto superior esquerdo, também em letras pretas, está com aspas &quot;PERTURBADOR E ENVOLVENTE” e logo abaixo “Dave Eggers, New York Times Book Review”. No canto superior direito, há a logo da editora, composta de uma moto e um sidecar, onde um homem, com roupas antigas de motoqueiro dirige, e um menino que está no sidecar, que é seguido abaixo por uma linha e o nome “COMPANHIA DAS LETRAS”, todos na cor preta" width="534" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 534px) 85vw, 534px" /><figcaption id="caption-attachment-31026" class="wp-caption-text">A aclamada obra literária se prepara também para se tornar uma aclamada obra cinematográfica (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>David Grann &#8211; Assassinos da Lua das Flores: Petróleo, morte e a criação do FBI (392 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O jornalista e redator da </span><i><span style="font-weight: 400;">The New Yorker</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.newyorker.com/contributors/david-grann"><span style="font-weight: 400;">David Grann</span></a><span style="font-weight: 400;">, já tem uma certa lista de obras que são aclamadas e migraram para a Sétima Arte. Porém, uma de suas maiores joias estava intocada até 2023: </span><i><span style="font-weight: 400;">Assassino da Lua das Flores</span></i><span style="font-weight: 400;">. A obra é uma incursão sobre a primeira grande investigação do que seria o FBI: uma série de assassinatos em 1920 no condado de Osage, Oklahoma. Dois pontos deixam o mistério ainda mais interessante: Osage, na época, abrigava as pessoas com maior renda per capita do mundo, devido à descoberta de petróleo na região; e essas pessoas eram nativos americanos, pois o nome da região remete ao nome da etnia.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Grann consegue atribuir uma linguagem </span><i><span style="font-weight: 400;">western</span></i><span style="font-weight: 400;"> para o livro, ao mesmo tempo que o desmistifica e 0 mescla com um <a href="https://personaunesp.com.br/todo-dia-a-mesma-noite-critica/">livro-reportagem</a> – fruto de muita pesquisa. Aqui, o </span><i><span style="font-weight: 400;">big-bang</span></i><span style="font-weight: 400;"> não é frenético e aventuresco, mas sim friamente calculado e vil. Abusando do grafismo, o autor retira o filtro que a América colocou em seu processo de formação e escancara como o dinheiro e o capitalismo estadunidense corromperam seu próprio território. </span><b>&#8211; Guilherme Veiga</b></p>
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<figure id="attachment_31024" aria-describedby="caption-attachment-31024" style="width: 558px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31024" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Estrela-Solitaria-1-558x800.jpg" alt="Capa do livro Estrela Solitária: Um Brasileiro Chamado Garrincha do autor Ruy Castro. Na imagem, o jogador de futebol aparece sentado no braço de uma cadeira de repouso. A câmera o captura por inteiro e com uma das mãos apoiada na cabeça. Há um filtro sobre a fotografia que a deixa em tons amarronzados em meio ao preto e branco. Na parte superior direita, o nome do autor “Ruy Castro” está escrito em tom marrom. Abaixo, segue o nome da obra “Estrela Solitária: Um Brasileiro Chamado Garrincha” em tom branco e marrom. Na parte inferior direita, o logo da Companhia das Letras aparece em branco." width="558" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Estrela-Solitaria-1-558x800.jpg 558w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Estrela-Solitaria-1.jpg 698w" sizes="auto, (max-width: 558px) 85vw, 558px" /><figcaption id="caption-attachment-31024" class="wp-caption-text">O livro ganhou o Prêmio Jabuti de Melhor Ensaio e Biografia em 1996 (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Ruy Castro &#8211; Estrela Solitária: Um Brasileiro Chamado Garrincha (536 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Responsável por grandes contribuições ao jornalismo biográfico e literário, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/03/conheca-obra-de-ruy-castro-que-toma-posse-na-academia-brasileira-de-letras.shtml"><span style="font-weight: 400;">Ruy Castro</span></a><span style="font-weight: 400;"> reúne a mitologia e o drama particular que cercam o jogador de futebol Garrincha, uma das figuras mais </span><a href="https://www.lance.com.br/botafogo/saudades-garrincha-faz-anos-seu-futebol-segue-driblando-tempo.html"><span style="font-weight: 400;">idolatradas</span></a><span style="font-weight: 400;"> pelo Brasil durante a década de 60. Para realizar esse feito, o imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) cruzou informações de centenas de entrevistas que proporcionam uma imersão extremamente realista, capaz de unificar todos os cinco sentidos do leitor em uma única experiência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Das vielas estreitas do município de Magé até os grandes palcos do esporte mundial, Castro segue os rastros deixados por um talento nato que, por ser fruto de um país historicamente quebrado, teve a sua própria </span><a href="https://globoesporte.globo.com/bau-do-esporte/noticia/2013/01/alcool-e-bola-30-anos-apos-morte-de-mane-bebida-ainda-estraga-carreiras.html"><span style="font-weight: 400;">tragédia pessoal</span></a><span style="font-weight: 400;">. Através de sentenças que ecoam, </span><i><span style="font-weight: 400;">Estrela Solitária: Um Brasileiro Chamado Garrincha</span></i><span style="font-weight: 400;"> expõe o fato de que “anjo das pernas tortas” é um apelido digno apenas dentro das quatro linhas, uma vez que, fora delas, nada impediu o seu </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/elza-soares-conta-sua-versao-sobre-relacionamento-com-mane-garrincha-em-documentario-do-globoplay-25418157"><span style="font-weight: 400;">tormento</span></a><span style="font-weight: 400;"> e de quem esteve a sua volta. </span><b>&#8211; Nathalia Tetzner</b></p>
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<figure id="attachment_31033" aria-describedby="caption-attachment-31033" style="width: 544px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31033" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moderato2_v1_Ba-544x800.jpg" alt="" width="544" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moderato2_v1_Ba-544x800.jpg 544w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moderato2_v1_Ba-696x1024.jpg 696w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moderato2_v1_Ba-768x1130.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moderato2_v1_Ba.jpg 783w" sizes="auto, (max-width: 544px) 85vw, 544px" /><figcaption id="caption-attachment-31033" class="wp-caption-text">Um dos maiores sucessos editoriais de Marguerite Duras, Moderato Cantabile ganhou vida, em uma adaptação ao Cinema, pelas atuações de Jean-Paul Belmondo e Jeanne Moreau (Foto: Relicário)</figcaption></figure>
<p><b>Marguerite Duras &#8211; Moderato Cantabile (136 páginas, Relicário)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O arrebatamento. Talvez este seja um dos maiores temas que atravessam </span><i><span style="font-weight: 400;">Moderato Cantabile, </span></i><span style="font-weight: 400;">um dos primeiros romances da escritora e cineasta Marguerite Duras antes do roteiro de </span><i><span style="font-weight: 400;">Hiroshima, Meu Amor </span></i><span style="font-weight: 400;">e — seu ponto de virada ao cânone da literatura mundial — </span><a href="https://veja.abril.com.br/coluna/veja-recomenda/o-amante-livro-de-marguerite-duras-e-sobretudo-um-desabafo-familiar"><i><span style="font-weight: 400;">O Amante</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">publicado em 1980. Uma história de paixão, incomunicabilidade e pulsão, onde o ato máximo do amor é levado ao máximo das sensibilidades, liderando um texto que beira um </span><i><span style="font-weight: 400;">thriller </span></i><span style="font-weight: 400;">verborrágico. As tensões comumentes descritas por Duras, reflexiva sobre as relações de exterioridade e interioridade que compõe a complexidade do sentimento humano — numa seara mais radical que inspira, por exemplo, o método autobiográfico de </span><a href="https://personaunesp.com.br/?s=annie+ernaux"><span style="font-weight: 400;">Annie Ernaux</span></a><span style="font-weight: 400;"> —, anunciam, no romance até então esgotado no Brasil, a maior densidade psicológica que estruturam obras como </span><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/memorias-da-dor-marguerite-duras/"><i><span style="font-weight: 400;">A Dor</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por seus diálogos incessantes, construídos por personagens que parecem, em suas falas, mais falarem sozinhos que com si mesmos, desenvolve-se uma narrativa estranha. Em </span><a href="https://www.relicarioedicoes.com/livros/moderato-cantabile/"><i><span style="font-weight: 400;">Moderato Cantabile</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">paira uma aura do erótico que precipita a sucumbir para a auto-destruição, personalizada pela paixão da personagem </span><span style="font-weight: 400;">Anne Desbaresdes</span><span style="font-weight: 400;"> a um homem da classe trabalhadora, incitada por uma</span><a href="https://www.jstor.org/stable/1208015"><span style="font-weight: 400;"> imagem específica</span></a><span style="font-weight: 400;">: um assassinato em um café, do lado da sala de um prédio onde seu filho faz aulas de piano, ao som de navios em um porto. O que, inicialmente, é extremamente individual e psicológico efervesce enquanto um drama social, que alcança seu desenlace em um estridente final, como o de uma sinfonia nunca tocada certo; mas ainda sim, potencial em sua expressão. &#8211; <strong>Enzo Caramori</strong></span></p>
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<figure id="attachment_31027" aria-describedby="caption-attachment-31027" style="width: 539px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31027" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1-539x800.jpg" alt="Capa do livro Cinderela está morta. No centro da imagem há uma mulher negra de cabelos crespos na altura dos ombros, ela veste um vestido de princesa azul. Ao fundo há uma floresta com árvores cheias de espinhos roxos. O título aparece em branco em cima da personagem. O nome da autora ocupa a porção inferior. " width="539" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1-539x800.jpg 539w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1-690x1024.jpg 690w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1-768x1140.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1-1035x1536.jpg 1035w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1-1380x2048.jpg 1380w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1-1200x1781.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1.jpg 1725w" sizes="auto, (max-width: 539px) 85vw, 539px" /><figcaption id="caption-attachment-31027" class="wp-caption-text">Em Cinderela está morta, o conto de fadas põe os pés na realidade (Foto: Galera)<b> <span style="color: #1a1a1a;"><span style="font-size: 16px;"> </span></span></b></figcaption></figure>
<p><b>Kalynn Bayron &#8211; Cinderela está morta (294 páginas, Galera) </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todos nós já ouvimos os clássicos dos contos de fadas e conhecemos as histórias de ponta-cabeça, são eles que ditam os famosos clichês e nada de novo pode surgir disso. Determinada a fazer essa afirmação se quebrar, </span><a href="https://roommagazine.com/kalynn-bayron-author-of-cinderella-is-dead/"><span style="font-weight: 400;">Kalynn Bayron</span></a><span style="font-weight: 400;"> trouxe ao mundo </span><i><span style="font-weight: 400;">Cinderela está morta</span></i><span style="font-weight: 400;">. Criando um universo em que a Cinderela não só foi real, como é um parâmetro de comportamento para todas as mulheres, a autora nos apresenta à Sophia, uma protagonista cheia de representatividade e vontade de virar o jogo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Preparada para brigar pelas coisas nas quais acredita, a personagem levanta bandeiras e mostra que muitas vezes o tradicional é ultrapassado. De um jeito leve e encantador, o texto – traduzido por Karine Ribeiro e Érica Imenes – encara as faces do </span><a href="https://personaunesp.com.br/maid-critica/"><span style="font-weight: 400;">machismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> em uma narrativa mais brilhante que um sapatinho de cristal. Estabelecendo a juventude como uma arma engatilhada contra a opressão, Cinderela está morta borda a subversão nos detalhes de um vestido azul. <strong>&#8211; Jamily Rigonatto </strong></span></p>
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<figure id="attachment_31035" aria-describedby="caption-attachment-31035" style="width: 656px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-31035 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/ioga-1-1-656x1024.jpeg" alt="" width="656" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/ioga-1-1-656x1024.jpeg 656w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/ioga-1-1-513x800.jpeg 513w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/ioga-1-1-768x1198.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/ioga-1-1-985x1536.jpeg 985w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/ioga-1-1.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31035" class="wp-caption-text">Lançado na França em 2020, Ioga chegou ao Brasil em Fevereiro de 2023 sob tradução de Mariana Delfini (Foto: Alfagura)</figcaption></figure>
<p><b>Emmanuel Carrère &#8211; Ioga (272 páginas, Alfaguara)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em vários trechos de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556521613/ioga"><i><span style="font-weight: 400;">Ioga</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a mais recente obra publicada por </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2023/02/emmanuel-carrere-atinge-o-nirvana-em-ioga-e-ai-se-enterra-na-baixaria.shtml"><span style="font-weight: 400;">Emmanuel Carrère</span></a><span style="font-weight: 400;">, há a explanação, principalmente no primeiro capítulo, de seu desejo antigo de fazer &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">um livrinho simpático e perspicaz</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8221; sobre o ioga. Embora a primeira parte pareça realmente seguir essa receita, mesmo que alguns trechos viagem pelo interior do escritor-narrador, não demora para percebermos que o projeto precisou ser abortado. Isso porque, entre o final de 2014 e início de 2015, quando o escritor </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/"><span style="font-weight: 400;">francês</span></a><span style="font-weight: 400;"> partiu para um retiro de meditação vipassana, um de seus amigos foi assassinado no trabalho – no escritório da revista </span><i><span style="font-weight: 400;">Charlie Hebdo,</span></i><span style="font-weight: 400;"> em Paris –, interrompendo seu percurso espiritual. Soma-se a isso seu processo de divórcio e a morte de seu, até então, único editor literário, que ajudam Carrère a transformar o ioga em uma grande metáfora de suas próprias mudanças.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda assim, a obra híbrida de ficção e não ficção – como outros trabalhos do autor – não deixa de ser uma descida ao inferno. Principalmente na parte dois, denominada </span><i><span style="font-weight: 400;">1825 dias</span></i><span style="font-weight: 400;">, Carrère fala abertamente sobre sua depressão melancólica, quando precisou ser internado por quatro meses em um hospital psiquiátrico. De forma pessoal e reflexiva, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ioga </span></i><span style="font-weight: 400;">não deixa de ser um trabalho de contemplação sobre o corpo e a mente, confrontados pelos medos e inseguranças de Emmanuel Carrère. </span><span style="font-weight: 400;">Nas entrelinhas, trata-se de um livro que investiga o possível equilíbrio em um mundo agitado, frenético e francamente caótico. Longe de ser </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788579622496/limonov"><span style="font-weight: 400;">seu melhor trabalho</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ioga </span></i><span style="font-weight: 400;">compartilha o </span><i><span style="font-weight: 400;">modus operandi</span></i><span style="font-weight: 400;"> típico do escritor: mistura de reportagem, texto autobiográfico, pesquisa histórica e prospecções filosóficas, ligados pela linha condutora de uma escrita brilhante. </span><b>&#8211; Bruno Andrade</b></p>
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		<title>Estante do Persona &#8211; Outubro de 2022</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Nov 2022 12:51:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;Você me disse que o medo sempre foi uma das minhas distrações favoritas. Essas loucuras minhas são das que você mais gosta, porque demonstram que ainda resta em mim algum resquício de infância. Não sou corajosa, mas em minha inconsciência jamais recuso o perigo, eu o busco para brincar com ele.&#8221; &#8211; Silvina Ocampo O &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-outubro-de-2022/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Estante do Persona &#8211; Outubro de 2022"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29340" aria-describedby="caption-attachment-29340" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29340" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ESTANTE_OUT_WP.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ESTANTE_OUT_WP.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ESTANTE_OUT_WP-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ESTANTE_OUT_WP-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29340" class="wp-caption-text">Com tradução de Livia Deorsola, As convidadas foi a aventura do Clube do Livro em Outubro de 2022 (Foto: Companhia das Letras/Arte: Nathália Mendes/Texto de abertura: Vitória Gomez)</figcaption></figure>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Você me disse que o medo sempre foi uma das minhas distrações favoritas. Essas loucuras minhas são das que você mais gosta, porque demonstram que ainda resta em mim algum resquício de infância. Não sou corajosa, mas em minha inconsciência jamais recuso o perigo, eu o busco para brincar com ele.&#8221;</span></i></p>
<p style="text-align: right;">&#8211; Silvina Ocampo</p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O final do ano se aproxima e o Clube do Livro não deixou a peteca cair. Se as </span><a href="https://personaunesp.com.br/sally-rooney-pessoas-normais-critica/"><span style="font-weight: 400;">relações humanas</span></a><span style="font-weight: 400;"> já permearam mais debates do que conseguimos contar em uma mão, a escolha do mês remexeu a abordagem do tema e desafiou os leitores do </span><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">As convidadas</span></i><span style="font-weight: 400;">, leitura selecionada para Outubro, tem as relações amorosas como ponto central da maioria de seus 44 </span><a href="https://personaunesp.com.br/homens-sem-mulheres-critica/"><span style="font-weight: 400;">contos</span></a><span style="font-weight: 400;"> de duração. O livro de Silvina Ocampo, porém, leva o absurdo a sério e o extrapola para explorar os tais relacionamentos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Publicado no Brasil em 2022 pela </span><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i><span style="font-weight: 400;">, a coletânea de curtas histórias é tão surpreendente quanto é chocante. Ora </span><a href="https://valkirias.com.br/silvina-ocampo/"><span style="font-weight: 400;">sombria</span></a><span style="font-weight: 400;">, ora cômica, Ocampo invade o costumeiro com o extraordinário e o inesperado. Na subjetividade de deixar seus pontos emaranhados em </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-paixao-segundo-gh-critica/"><span style="font-weight: 400;">situações peculiares</span></a><span style="font-weight: 400;">, escondidos sob o véu da interpretação de cada leitor, a escritora argentina rende material para teorias e debates através da lente do realismo mágico e da </span><a href="https://www.estadao.com.br/alias/borges-bioy-casares-e-silvina-ocampo-elencam-o-melhor-da-literatura-fantastica/"><span style="font-weight: 400;">literatura fantástica</span></a><span style="font-weight: 400;">, levando sua testemunha a apenas um passo de descobrir o que não pretende desvendar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim como na obra, selecionada graças a parceria do </span><b>Persona </b><span style="font-weight: 400;">com a </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/companhia-das-letras/"><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, Outubro talvez tenha sido o mês da antecipação no campo literário. Anunciada como convidada da Festa Literária Internacional de Paraty &#8211; tema garantido no próximo </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/estante-do-persona/"><span style="font-weight: 400;">Estante</span></a><span style="font-weight: 400;"> -, a francesa Annie Ernaux recebeu o </span><a href="https://twitter.com/personaunesp/status/1578128528377348096?s=20&amp;t=M9mEyEY94Ry8EdPgvU4hcA"><span style="font-weight: 400;">Nobel de Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> pela “coragem e acuidade clínica com que descobre as raízes, os distanciamentos e as restrições coletivas da memória pessoal”. Uma das favoritas ao prêmio, Ernaux se tornou apenas a 17ª mulher a vencer a honraria, de 119 ganhadores desde 1901. Após a vitória, ela </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/10/06/quem-e-annie-ernaux-ganhadora-donobel-de-literatura-entenda-importancia-da-obra-da-escritora.ghtml"><span style="font-weight: 400;">destacou</span></a><span style="font-weight: 400;"> que deve poder testemunhar &#8220;uma forma de equidade, justiça, em relação ao mundo”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A mente por trás de</span><i><span style="font-weight: 400;"> Les Armoires Vides </span></i><span style="font-weight: 400;">(1974), </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Anos </span></i><span style="font-weight: 400;">(2008) e </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2000) &#8211; esse último, experienciado pelo Clube do Livro em </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-julho-de-2022/"><span style="font-weight: 400;">Julho</span></a><span style="font-weight: 400;"> -, foi honrada pela forma com que mescla suas experiências de vida a temas de interesse coletivo, cunhado como “autosociobiografia”. Na primeira obra, por exemplo, a escritora reflete sobre </span><a href="https://grabois.org.br/2022/10/06/annie-ernaux-um-nobel-para-a-literatura-de-esquerda/"><span style="font-weight: 400;">classes sociais</span></a><span style="font-weight: 400;"> em uma inconstante França ao passo que narra seu próprio cotidiano no empreendimento da família no interior do país. A </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-anos-do-super-8-critica/"><span style="font-weight: 400;">linguagem</span></a><span style="font-weight: 400;"> simples e direta, “cristalina”, de Ernaux também pode ser mencionada com um dos motivos do envolvimento arrebatador de seus textos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Do âmbito global ao nacional, a antecipação se estendeu ao Prêmio Jabuti: um dos maiores reconhecimentos da Literatura e do mercado editorial brasileiro revelou seus </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/10/25/premio-jabuti-divulga-finalistas-de-2022.ghtml"><span style="font-weight: 400;">finalistas</span></a><span style="font-weight: 400;"> na última semana do mês. Dentre os </span><a href="https://www.premiojabuti.com.br/noticias/confira-os-10-finalistas-de-todas-as-categorias-do-61%C2%BA-pr%C3%AAmio-jabuti/"><span style="font-weight: 400;">10 concorrentes</span></a><span style="font-weight: 400;"> em cada categoria, divididas nos eixos de Literatura, Não Ficção, Produção Editorial e Inovação, a de Romance Literário se destacou. Com 8 dos 10 nomes que chegaram ao corte final sendo autoras mulheres, a lista dos 5 indicados ao troféu foi ainda mais positivo. Mas isso é tema para o próximo mês. Dentre as menções, Natalia Borges Polesso concorreu pela terceira vez (a segunda na categoria), agora com </span><i><span style="font-weight: 400;">A extinção das abelhas</span></i><span style="font-weight: 400;">. Andréa del Fuego, por </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-pediatra-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, e </span><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-aline-bei/"><span style="font-weight: 400;">Aline Bei</span></a><span style="font-weight: 400;">, por </span><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i><span style="font-weight: 400;">, ambas conhecidas do </span><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">também integraram a lista.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já na </span><a href="https://twitter.com/personaunesp/status/1593016930440708098?s=20&amp;t=M9mEyEY94Ry8EdPgvU4hcA"><span style="font-weight: 400;">língua portuguesa</span></a><span style="font-weight: 400;"> como um todo, o Prêmio Camões 2022 laureou o ensaísta e poeta Silviano Santiago. Autor dos ensaios </span><i><span style="font-weight: 400;">O entre-lugar do discurso latino-americano</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">O cosmopolitismo do pobre</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">As raízes e o labirinto da América Latina</span></i><span style="font-weight: 400;">, o escritor mineiro levou seis vezes o Prêmio Jabuti e o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras. Agora, soma o Camões a sua estante, pelo conjunto de sua obra. Dentre os cotados do Brasil, Portugal e países africanos de língua portuguesa, </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/10/24/silviano-santiago-vence-premio-camoes-2022.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Santiago</span></a><span style="font-weight: 400;"> é o 14º brasileiro a fazer parte da curta lista de vencedores; em 2021, quem recebeu a honraria foi Paulina Chiziane, de Moçambique.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre reconhecimentos e antecipações, o Clube do Livro segue atento aos próximos destaques vindos do Jabuti e aos </span><a href="https://www.estadao.com.br/cultura/literatura/com-autores-engajados-flip-2022-apostou-na-pluralidade-de-vozes/"><span style="font-weight: 400;">debates fundamentais</span></a><span style="font-weight: 400;"> suscitados na </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/11/flip-radicaliza-proposta-de-diversificar-convidados-e-editoras-fora-do-eixo.shtml"><span style="font-weight: 400;">Flip 2022</span></a><span style="font-weight: 400;">, que pautarão a Literatura pelos próximos meses. Enquanto isso, é a Editoria do Persona quem indica as leituras do final do ano.</span></p>
<p><span id="more-29308"></span></p>
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<h3>Livro do Mês</h3>
<figure id="attachment_29321" aria-describedby="caption-attachment-29321" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29321 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/as-convidadas-683x1024.jpg" alt="Capa do livro As convidadas, de Silvina Ocampo. Na imagem colorida, há o desenho de uma mulher amarela em que, no lugar do rosto, há um buraco de cor azul com uma escada de cor vermelha na qual uma outra mulher amarela, vestindo blusa verde e calça azul, está subindo. Na parte superior, de forma centralizada, está escrito Silvina Ocampo, em fonte de cor preta, e abaixo As convidadas, em fonte de cor branca. À esquerda, há cinco círculos azuis, nos quais os dois primeiros representam um nascer do sol, o terceiro apresenta uma mão branca pegando o que seria a representação do sol, e o quarto e o quinto uma boca comendo esse mesmo sol. À direita, de forma vertical, está o logo da editora Companhia das Letras, em cor branca. O fundo da imagem é vermelho." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/as-convidadas-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/as-convidadas-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/as-convidadas-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/as-convidadas-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/as-convidadas-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/as-convidadas-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/as-convidadas.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29321" class="wp-caption-text">Com tradução de Livia Deorsola, As convidadas reúne 44 contos curtos que mesclam horror e humor (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Silvina Ocampo &#8211; As convidadas (264 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora historicamente sua fama tenha sido ofuscada de forma injusta por Adolfo Bioy Casares (seu marido) e </span><a href="https://personaunesp.com.br/jorge-luis-borges-morte-35-anos/"><span style="font-weight: 400;">Jorge Luis Borges</span></a><span style="font-weight: 400;"> (seu amigo) – dois autores que, além de próximos familiarmente, fizeram parte do mesmo movimento literário em Buenos Aires –, em diversos momentos Silvina Ocampo redige trabalhos plenamente superiores aos dos dois. Ao contrário dos seus contemporâneos – que utilizavam a fantasia em um ambiente totalmente imaginado, por vezes universos paralelos –, Ocampo infecta o doméstico com o estranho, sendo a precursora de algumas das autoras de maior renome na atualidade (</span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/06/carmen-maria-machado-explora-limites-do-metoo-em-livro-sobre-relacao-abusiva.shtml"><span style="font-weight: 400;">Carmen Maria Machado</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/amp/ilustrada/2021/04/mariana-enriquez-investiga-chagas-espirituais-e-familiares-em-novo-livro.shtml"><span style="font-weight: 400;">Mariana Enriquez</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://elpais.com/argentina/2022-11-17/samanta-schweblin-gana-el-national-book-award-de-traduccion-por-siete-casas-vacias.html"><span style="font-weight: 400;">Samanta Schweblin</span></a><span style="font-weight: 400;"> são apenas alguns exemplos). Mas, no que se convencionou chamar de “Literatura Fantástica”, Silvina Ocampo é um nome imprescindível.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez menos visceral que </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535932607/a-furia"><i><span style="font-weight: 400;">A fúria</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1982) – em que os sonhos são convertidos em pesadelos e dão espaço ao cenário de Terror –, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/09/silvina-ocampo-em-as-convidadas-comprova-imaginacao-exuberante.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">As convidadas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é considerado emblemático por sua maturidade estilística, mesmo que ainda atravessado por elementos insólitos e perturbadores. Originalmente publicado em 1961, este é o segundo livro da autora argentina lançado no Brasil pela </span><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i><span style="font-weight: 400;">, e reúne 44 contos breves nos quais fantasmas emergem de fotos, crianças surdas-mudas criam asas e voam, cujo absurdo surge para acabar com a monotonia dos dias cotidianos (talvez uma maneira de dizer que a rotina é repleta de casos fantásticos). Contudo, a graça de ler seus contos está na composição: existem sempre duas histórias sendo contadas, a de fato escrita e a não-escrita, nas entrelinhas. O clímax é quando essas duas linhas narrativas colidem – mas </span><a href="https://www.estadao.com.br/alias/silvina-ocampo-narra-a-perda-da-ingenuidade-em-as-convidadas/"><span style="font-weight: 400;">Silvina Ocampo</span></a><span style="font-weight: 400;"> sempre adia esse acontecimento.</span></p>
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<h3>Dicas do Mês</h3>
<figure id="attachment_29322" aria-describedby="caption-attachment-29322" style="width: 666px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29322 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/o-idiota-1-666x1024.jpg" alt="Capa do livro O idiota, de Fiódor Dostoiévski. Na imagem, há um fundo azul com a ilustração da sombra de um homem jovem. Há um retângulo vermelho sobre seus olhos. Abaixo, há uma linha branca com os escritos Penguin Companhia em fonte de cor preta, e o desenho de um pinguim ao centro. Mais abaixo, há uma faixa preta, com os escritos Clássicos em fonte de cor branca, Fiódor Dostoiévski em fonte de cor laranja e O idiota abaixo, em fonte de cor branca." width="666" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/o-idiota-1-666x1024.jpg 666w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/o-idiota-1-520x800.jpg 520w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/o-idiota-1-768x1181.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/o-idiota-1-999x1536.jpg 999w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/o-idiota-1-1332x2048.jpg 1332w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/o-idiota-1-1200x1845.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/o-idiota-1-scaled.jpg 1665w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29322" class="wp-caption-text">Com uma nova tradução diretamente do russo 20 anos depois da primeira lançada no país, O idiota é um retrato de alienação (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Fiódor Dostoiévski &#8211; O idiota (944 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tido como um dos principais romances da chamada “fase de ouro” de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=02809"><span style="font-weight: 400;">Fiódor Dostoiévski</span></a><span style="font-weight: 400;"> – ao lado de </span><i><span style="font-weight: 400;">Crime e castigo </span></i><span style="font-weight: 400;">(1866), </span><i><span style="font-weight: 400;">Os demônios </span></i><span style="font-weight: 400;">(1871) e </span><i><span style="font-weight: 400;">Os irmãos Karamazov</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1880) –, </span><i><span style="font-weight: 400;">O idiota</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1869) ressurge no Brasil sob nova tradução de Rubens Figueiredo. Recebido pelo </span><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;"> através da parceria com a editora </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/companhia-das-letras/"><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o livro traz como protagonista o príncipe Míchkin – uma alegoria dos ideais cristãos –, como forma de se contrapor às concepções niilistas dominantes no período, que foram bem retratadas em </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535932324/pais-e-filhos"><i><span style="font-weight: 400;">Pais e filhos</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1862) de Turgueniev ou no Raskólnikov, personagem mais famoso de Dostóievski.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em parte romance de ideias, em parte romance de costumes, a obra mais autobiográfica do autor russo traz a trama de um jovem de 26 anos que acaba de retornar a São Petersburgo após permanecer vários anos em um sanatório na Suíça, para tratar sua epilepsia. O tema central de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788582852392/o-idiota"><i><span style="font-weight: 400;">O idiota</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">parece ser a problemática do indivíduo “puro”, superior, que acaba, numa sociedade com valores corrompidos, sendo visto como um idiota.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da mesma forma como Dostoiévski, enquanto pensador político, coloca sempre a sua última esperança numa regeneração vinda do seio da comunidade popular, Míchkin é, por assim dizer, um herói – uma mescla de Jesus Cristo e Dom Quixote –, cuja compaixão sem limites se choca com o desregramento mundano de Rogójin e a “beleza enlouquecedora” de Nastácia Filíppovna. Sua bondade e o </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2021/11/dostoievski-e-flaubert-implodiram-o-narrador-tradicional-e-criaram-o-romance-moderno.shtml"><span style="font-weight: 400;">impacto da sua sinceridade</span></a><span style="font-weight: 400;"> revela ao leitor, de forma trágica, que sob um mundo obcecado por dinheiro, poder e conquistas materiais, o sanatório acaba sendo o único lugar para uma figura divina. </span><b>&#8211; Bruno Andrade</b></p>
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<figure id="attachment_29323" aria-describedby="caption-attachment-29323" style="width: 684px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29323 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/hiroshima-1-684x1024.jpg" alt="Capa do livro Hiroshima. Sob um fundo azul escuro, do lado esquerdo, na vertical e de baixo para cima, vemos as palavras &quot;JOHN&quot; E &quot;HERSEY&quot; em uma fonte sem serifa, em caixa alta, na cor verde. As duas palavras são cortadas pela palavra &quot;HIROSHIMA&quot;, escrita na horizontal no centro da capa, em uma fonte serifada em vermelho. Acima de &quot;Hiroshima&quot;, vemos o trecho &quot;A mais importante reportagem do se´culo XX: um retrato de seis sobreviventes da bomba atômica, um ano depois da explosão e quarenta anos mais tarde&quot; em uma fonte branca. Do lado inferior direito, vemos o logo da Companhia das Letras." width="684" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/hiroshima-1-684x1024.jpg 684w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/hiroshima-1-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/hiroshima-1-768x1150.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/hiroshima-1-1025x1536.jpg 1025w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/hiroshima-1.jpg 1655w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29323" class="wp-caption-text">Com uma nova edição em 2002, publicada pela Companhia das Letras, o jornalismo literário de Hiroshima fez de John Hersey um dos precursores do New Journalism (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b> John Hersey &#8211; Hiroshima (176 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apenas um ano depois da primeira bomba atômica lançada pelos Estados Unidos deixar cerca de 70 mil mortos em Hiroshima, em 1945, John Hersey publica o </span><a href="https://www.newyorker.com/magazine/1946/08/31/hiroshima"><span style="font-weight: 400;">artigo homônimo</span></a><span style="font-weight: 400;"> à cidade japonesa no conceituado </span><i><span style="font-weight: 400;">The New Yorker</span></i><span style="font-weight: 400;">. A matéria reconstituia o momento exato da explosão sob o ponto de vista de pessoas que a experienciaram. Pensado para ser veiculado em três partes, tamanho foi o sucesso do texto que os então editores da revista decidiram publicá-lo na íntegra, o que tomou todo o espaço daquela edição semanal. Após quarenta anos, Hersey retornou à cidade e completou </span><i><span style="font-weight: 400;">Hiroshima</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O artigo se tornou um livro, publicado no Brasil pela editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras </span></i><span style="font-weight: 400;">em 2002. Na obra dividida em cinco partes, seis </span><i><span style="font-weight: 400;">hibakushas</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; como eram chamados os sobreviventes da bomba atômica &#8211; dão nome, sobrenome e endereço às consequências do ataque à Hiroshima. O autor e jornalista estadunidense </span><a href="https://www.newyorker.com/culture/culture-desk/john-hersey-the-writer-who-let-hiroshima-speak-for-itself"><span style="font-weight: 400;">serve mais como mediador</span></a><span style="font-weight: 400;"> do que como contador da história e se afasta da estrutura do jornalismo para dar voz aos seus personagens: as divisões abordam o que os seis faziam antes da explosão; no momento exato da tragédia; no dia seguinte, com início da investigação e as primeiras notícias sobre o que havia acontecido; semanas após o ataque, com as pessoas dando os primeiros passos para seguir em frente; e quatro décadas depois do ocorrido, para acompanhar como os sobreviventes seguiram ao longo do tempo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com sua </span><a href="https://www.newyorker.com/magazine/2019/04/29/john-hersey-and-the-art-of-fact"><span style="font-weight: 400;">bagagem como repórter</span></a><span style="font-weight: 400;"> e também como escritor de não-ficção, que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer em 1945, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Hiroshima </span></i><span style="font-weight: 400;">John Hersey uniu Literatura e Jornalismo em uma das obras precursoras do </span><i><span style="font-weight: 400;">New Journalism</span></i><span style="font-weight: 400;">. A </span><a href="http://www.blog44.ca/kaiar/2021/12/06/herseys-new-journalism-style-is-the-reason-hiroshima-is-so-powerful/"><span style="font-weight: 400;">linguagem descritiva</span></a><span style="font-weight: 400;"> e tocante &#8211; na versão brasileira, mérito da tradução de Hildegard Feist -, cheia de adjetivos e estruturada de forma semelhante a um romance é também permeada pelas boas práticas profissionais do autor, com uma apuração profunda e um trabalho cuidadoso junto às fontes, e potencializou o jornalismo para contar a história intimamente. </span><b>&#8211; Vitória Gomez</b></p>
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<figure id="attachment_29325" aria-describedby="caption-attachment-29325" style="width: 562px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29325 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A-guerra-que-salvou-a-minha-vida-1.jpg" alt="Capa do livro A guerra que salvou a minha vida da autora Kimberly Brubaker. A arte de capa se assemelha a um diário coberto por retalhos e botões onde ao meio se encontra um desenho de uma garota, posicionada de costas, que vislumbra um cenário de destruição à sua frente. As cores do livro são terrosas e variam entre o roxo, o marrom e o azul. No canto inferior direito, há um retângulo na cor azul claro com as escritas dos nomes da autora, da obra e da editora, respectivamente em preto, branco e preto." width="562" height="815" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A-guerra-que-salvou-a-minha-vida-1.jpg 562w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A-guerra-que-salvou-a-minha-vida-1-552x800.jpg 552w" sizes="auto, (max-width: 562px) 85vw, 562px" /><figcaption id="caption-attachment-29325" class="wp-caption-text">A sequência, A guerra que me ensinou a viver, chegou às prateleiras brasileiras em 2018 (Foto: Editora Darkside)</figcaption></figure>
<p><b>Kimberly Bradley &#8211; A guerra que salvou a minha vida (240 páginas, Editora Darkside)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ambientado no cenário de destruição da Segunda Guerra Mundial, o livro </span><i><span style="font-weight: 400;">A guerra que salvou a minha vida</span></i><span style="font-weight: 400;"> traz a visão fictícia de Ada, uma garota de apenas 10 anos, sobre um dos maiores acontecimentos históricos do século passado. Publicado há cinco anos no Brasil, o enredo da autora de obras infanto-juvenis, </span><a href="https://www.coisasdemineira.com/2018/02/entrevista-com-kimberly-bradley-autora/"><span style="font-weight: 400;">Kimberly Bradley</span></a><span style="font-weight: 400;">, traça um desenvolvimento de personagem incomum para a categoria, por se tratar da junção entre </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=AX8BJAFiF-c"><span style="font-weight: 400;">caos e inocência</span></a><span style="font-weight: 400;">, e do que o </span><i><span style="font-weight: 400;">The Wall Street Journal</span></i><span style="font-weight: 400;"> afirma ser “Dolorosamente adorável”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na </span><a href="https://letras.biblioteca.ufrj.br/a-guerra-que-salvou-a-minha-vida-the-war-that-save-my-life-de-kimberly-brubaker-bradley/"><span style="font-weight: 400;">narrativa</span></a><span style="font-weight: 400;"> que se constrói como um diário, os bombardeios a Londres se assemelham à trincheira interna da protagonista, habituada aos maus tratos e à prisão imposta por sua própria mãe, que nunca a deixou sair de casa. Caminhando pela linha tênue que divide a realidade cruel e a idealização de fatos nada fantasiosos, Bradley consegue captar toda a atenção para a sua escrita, ao mesmo tempo que revela uma diversidade de sentimentos para o </span><a href="https://personaunesp.com.br/category/literatura/"><span style="font-weight: 400;">leitor</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><b>&#8211; Nathalia Tetzner </b></p>
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<figure id="attachment_29330" aria-describedby="caption-attachment-29330" style="width: 708px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29330 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/rebeldes1-708x1024.jpg" alt="" width="708" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/rebeldes1-708x1024.jpg 708w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/rebeldes1-553x800.jpg 553w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/rebeldes1-768x1111.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/rebeldes1-1061x1536.jpg 1061w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/rebeldes1.jpg 1769w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29330" class="wp-caption-text">A autora Saidiya Hartman dialogou acerca das experiências negras na América com a historiadora Rita Segato e a pensadora Djamila Ribeiro, na edição comemorativa de 20 anos da Flip (Foto: Fósforo)</figcaption></figure>
<p><b>Saidiya Hartman &#8211; Vidas rebeldes, belos experimentos (432 páginas, Fósforo)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na busca de firmar as memórias e experiências de pessoas pretas nas consequências da diáspora negra pelas Américas, a professora e autora estadunidense </span><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/autores/saidiya-hartman/"><span style="font-weight: 400;">Saidiya Hartman</span></a><span style="font-weight: 400;"> constituiu um método próprio de reescrever essas tortuosas trajetórias. </span><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/catalogo/vidas-rebeldes/"><i><span style="font-weight: 400;">Vidas rebeldes, belos experimentos</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">é a sua tentativa bem sucedida de historicizar narrativas queer, femininas e negras de liberdade no norte americano depois da abolição da escravatura. Utilizando de sua metodologia de ‘</span><a href="https://www.plural.jor.br/noticias/cultura/vidas-rebeldes-belos-experimentos-e-um-livro-provocador-e-necessario/#:~:text=escrita%2C%20chamado%20de%20%E2%80%9C-,f%C3%A1bula%20cr%C3%ADtica,-%E2%80%9D.%20Em%20suma%2C%20%C3%A9"><span style="font-weight: 400;">fabulação crítica</span></a><span style="font-weight: 400;">’</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">Hartman realiza uma montagem de </span><a href="https://thecreativeindependent.com/people/saidiya-hartman-on-working-with-archives/"><span style="font-weight: 400;">arquivos</span></a><span style="font-weight: 400;">. F</span><span style="font-weight: 400;">otografias, documentos judiciais e recortes de jornais buscam por uma junção de histórias referentes a inúmeras pessoas dos cinturões negros da Filadéfia e de Nova York, traçar a revolucionária rebeldia das biografias de mulheres pretas no início do século XX. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da História da sobrevida da escravidão nos centros urbanos estadunidenses – contada a partir de corredores de moradas coletivas, escadas escuras e becos hostis –, à integração de nomes conhecidos, como Billie Holiday e </span><a href="https://rascunho.com.br/noticias/conto-futurista-do-seculo-19-discute-pensamento-negro/"><span style="font-weight: 400;">W.E.B Du Bois</span></a><span style="font-weight: 400;">, os </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/11/na-flip-saidiya-hartman-defende-continuidade-de-politicas-antirracistas.shtml#:~:text=%22Eu%20usei%20da%20especula%C3%A7%C3%A3o%20e%20da%20imagina%C3%A7%C3%A3o%20para%20conseguir%20contar%20essas%20hist%C3%B3rias%20imposs%C3%ADveis.%20E%20fiz%20isso%20atrav%C3%A9s%20de%20uma%20fabula%C3%A7%C3%A3o%20capaz%20de%20esticar%20os%20limites%20dos%20documentos%20existentes.%22"><span style="font-weight: 400;">relatos especulativos</span></a><span style="font-weight: 400;"> do livro fazem jus ao que movia essas vivências experimentais de sexualidade e gênero em um ambiente projetado, em sua ordem social e trabalhista, a ser uma continuidade do espaço das plantations sulistas. Na análise de fotografias – majoritariamente feitas por homens brancos –, Hartman procura rasgar a superfície falsamente imparcial da ciência e da etnografia com o intuito de ecoar a sinfonia de violências acometidas por detrás do momento fotográfico; imaginando o que faziam de suas vidas, como vieram parar ali e quais seriam os seus caminhos de vingança, subversão e reiteração de seus próprios corpos. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Vidas rebeldes</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">nos ecos de um exercício transgressivo de escrita histórica feito anteriormente por </span><a href="https://repositorio.unesp.br/handle/11449/215293"><span style="font-weight: 400;">Toni Morrison</span></a><span style="font-weight: 400;">, procura pelo protagonismo de prostitutas, sapatonas, anônimas e andarilhas; </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/colunas/as-cidades-e-as-coisas/a-recusa-da-condicao-subalterna"><span style="font-weight: 400;">mulheres que escapavam</span></a><span style="font-weight: 400;"> do olhar fotográfico, etnográfico e científico que as tornariam subalternas. A não-ficção de Saidiya Hartman é uma linha de fuga que engrandece a </span><a href="https://www.moma.org/audio/playlist/298/4088#:~:text=I%20think%20that%20artistic%20practice%20becomes%20the%20exercise%20of%20imagining%20beauty%20and%20what%20it%20might%20make%20possible%20in%20the%20world."><span style="font-weight: 400;">beleza dos vestígios</span></a><span style="font-weight: 400;"> de uma cartografia dos atos íntimos, que transformaram os mais despercebidos espaços em laboratórios de liberdade. </span><b>&#8211; Enzo Caramori</b></p>
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<figure id="attachment_29338" aria-describedby="caption-attachment-29338" style="width: 690px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29338 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Violeta-1-1-690x1024.jpg" alt="Capa do livro Violeta de Isabel Allende. Na imagem, há o desenho de uma mulher branca de cabelos curtos castanhos e olhos verdes, ela está virada de perfil para a esquerda. Ao fundo, há a cor amarela sólida com ramos verdes e três rosas brancas. O nome da autora está centralizado em letras de forma branca, logo abaixo há o nome do livro em letras amarelas. Na porção inferior está o logo da editora." width="690" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Violeta-1-1-690x1024.jpg 690w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Violeta-1-1-539x800.jpg 539w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Violeta-1-1-768x1139.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Violeta-1-1-1036x1536.jpg 1036w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Violeta-1-1.jpg 1726w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29338" class="wp-caption-text">Violeta é, na voz de uma mulher apaixonada, um texto capaz de ser alvo do amor do leitor (Foto: Bertrand Brasil)</figcaption></figure>
<p><b>Isabel Allende &#8211; Violeta (322 páginas, Bertrand Brasil)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Violeta</span></i><span style="font-weight: 400;">, a autora chilena Isabel Allende escolhe nos mostrar a protagonista a partir das palavras que ela escreve em uma carta destinada ao amor de sua vida. O título, traduzido no Brasil por Ivone Benedetti, narra a história da personagem passando por diversos momentos históricos que mudaram os caminhos da sociedade. Violeta nasceu durante a ascensão da </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-46358947"><span style="font-weight: 400;">Gripe Espanhola</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 1920, e sua morte escolheu chegar em um momento tão dramático quanto: a pandemia de Covid- 19 em 2020. A protagonista nasceu em uma família tradicional católica, mas se mostra um contraponto moldado pela perseverança, coragem e senso de justiça.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto passeia pelas facetas da própria vida, Violeta nos internaliza a personagens e experiências únicas que se passam em um lugar genérico – como se tivesse sido feito unicamente para abarcar os fascínios de seus 100 anos de vida. Apesar de não poder ser nomeado, vivem nesse país todas as verdades da sociedade, tendo destaque a luta pelos direitos das mulheres. Entre tantas multiplicidades sinceras, o texto é uma experiência única e apaixonante. Nas palavras de uma mulher que ama, </span><a href="https://globoplay.globo.com/v/10106117/"><i><span style="font-weight: 400;">Violeta</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> nos compartilha em intimidade todos os segredos do mundo. </span><b>&#8211; Jamily Rigonatto </b></p>
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<figure id="attachment_29329" aria-describedby="caption-attachment-29329" style="width: 678px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29329 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Jantar-Secreto-1-678x1024.jpg" alt="Capa do livro Jantar Secreto. No centro da capa há um prato branco como se estivesse sendo visto de cima, em cima dele há o título do livro (em preto) e o nome do autor (em vermelho). Na beirada do prato, há a marca em sangue de três dedos e algumas gotas abaixo do prato. O fundo da imagem é branco e, no centro da parte inferior está o nome da editora. " width="678" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Jantar-Secreto-1-678x1024.jpg 678w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Jantar-Secreto-1-530x800.jpg 530w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Jantar-Secreto-1-768x1159.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Jantar-Secreto-1-1018x1536.jpg 1018w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Jantar-Secreto-1.jpg 1023w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29329" class="wp-caption-text">Com Jantar Secreto, Raphael Montes forma um exército de vegetarianos (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Raphael Montes &#8211; Jantar Secreto (368 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um homem entra em um restaurante que serve carne de gaivota porque tinha provado e gostado alguns anos antes. Ao finalizar a refeição, vai para casa e se suicida. Por que isso aconteceu? Esse é o enigma responsável pelo desenrolar da história incrível que é </span><i><span style="font-weight: 400;">Jantar Secreto</span></i><span style="font-weight: 400;">. Tratando-se de uma obra de </span><a href="https://personaunesp.com.br/bom-dia-veronica-critica/"><span style="font-weight: 400;">Raphael Montes</span></a><span style="font-weight: 400;">, é</span> <span style="font-weight: 400;">simples deduzir que o livro é imensamente inteligente, não falhando em explorar as diversas facetas do ser humano, seus limites de ética, sua ganância e hipocrisia.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro pode não ter sido baseado em fatos reais, mas não deixa abordar algo que poderia acontecer a qualquer momento. O autor descreve o cenário de crise do Rio de Janeiro e a facilidade de instalar um sistema de corrupção em uma sociedade que é naturalmente desonesta, desigual e manipulável. É uma história de muitas camadas, com uma crítica social escancarada e personagens extremamente complexos. Para quem gosta de narrativas surpreendentes, com muitas reviravoltas</span> <span style="font-weight: 400;">e altos níveis de emoção, esse é o livro certo. Uma boa leitura e muito cuidado para não ser manipulado pela Equipe Carne de Gaivota. </span><b>&#8211; Gabrielli Natividade </b></p>
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<figure id="attachment_29326" aria-describedby="caption-attachment-29326" style="width: 483px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29326 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/confeitaria-escalafobetica-1.jpg" alt="Capa do livro Confeitaria Escalafobética apresenta o rosto da autora, uma mulher branca, de cabelos pretos compridos divididos para a esquerda e franja, usando um batom vermelho vivo e um chapéu branco com faixa vermelha cortado na frente e expõe que seu interior é de bolo. O fundo é um azul claro esverdeado, com Raíza Costa e sobremesas explicadas tim-tim por tim-tim escrito em rosa e branco no topo e Confeitaria Escalafobética, em dourado, na parte inferior." width="483" height="634" /><figcaption id="caption-attachment-29326" class="wp-caption-text">Com um trabalho singular, Raíza Costa ensina o passo a passo de diversas sobremesas em Confeitaria Escalafobética (Foto: Senac)</figcaption></figure>
<p><b>Raíza Costa &#8211; Confeitaria Escalafobética: sobremesas explicadas tim-tim por tim-tim (378 páginas, Senac)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Adicione uma xícara de singularidade. Depois acrescente duas colheres de relatos pessoais. Misture com um trabalho gráfico deslumbrante e leve em fogo médio até infusionar. Assim que levantar fervura, o ganhador do </span><a href="https://www.cookbookfair.com/"><span style="font-weight: 400;">prêmio </span><i><span style="font-weight: 400;">Gourmand</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> como Melhor Livro de Confeitaria estará pronto. Em síntese, tudo isso resume o que é a obra </span><i><span style="font-weight: 400;">Confeitaria Escalafobética: sobremesas explicadas tim-tim por tim-tim</span></i><span style="font-weight: 400;">, de autoria da artista visual e chef confeiteira, Raíza Costa.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro contempla inúmeras receitas com o passo a passo descrito minuciosamente para quem não domina técnicas de gastronomia ou busca se aprimorar nelas. Somado a isso, o design gráfico da peça e o quadro </span><i><span style="font-weight: 400;">Errar é Humano</span></i><span style="font-weight: 400;">, apresentado por Lancelote, o cachorro de Raíza, contribuem para a compreensão do leitor e imersão no </span><a href="https://elastica.abril.com.br/especiais/raiza-costa-tokstok-maternidade-comida-politica/"><span style="font-weight: 400;">universo lúdico</span></a><span style="font-weight: 400;"> da autora. Antes de explicar os preparos de uma sobremesa, a escritora de </span><i><span style="font-weight: 400;">Confeitaria Escalafobética</span></i><span style="font-weight: 400;"> traz um relato pessoal, que demonstra seu lado afetivo com o mundo gastronômico.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra objetifica os trabalhos audiovisuais de Raíza, como o </span><i><span style="font-weight: 400;">Rainha da Cocada</span></i><span style="font-weight: 400;">, no </span><i><span style="font-weight: 400;">GNT</span></i><span style="font-weight: 400;">, e o </span><i><span style="font-weight: 400;">Doulce Delight</span></i><span style="font-weight: 400;">, o primeiro canal </span><i><span style="font-weight: 400;">online</span></i><span style="font-weight: 400;"> dedicado exclusivamente a confeitaria. No livro, a autora apresenta algumas receitas originais e outras clássicas, como o famoso </span><a href="https://m.youtube.com/watch?v=1wSquygtVzE"><span style="font-weight: 400;">bolo molhadão</span></a><span style="font-weight: 400;">. Além disso, o capítulo </span><i><span style="font-weight: 400;">Matéria-prima</span></i><span style="font-weight: 400;"> ensina os aspirantes a confeiteiros a produzir queijo mascarpone, açúcar perolado, corantes naturais, entre outros tantos produtos utilizados na feitura dos doces, mas não tão fáceis de se encontrar nos mercados. &#8211; </span><b>Gabriel Gatti</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_29327" aria-describedby="caption-attachment-29327" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29327 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Era-uma-Vez-Em-Hollywood-1-683x1024.jpg" alt="Capa do livro Era uma Vez em Hollywood. Uma capa branca que tem os escritos &quot;Era uma vez em Hollywood&quot; com Hollywood sublinhado e &quot;Quentin Tarantino&quot; escrito embaixo. Acima do título há escrito &quot;O novo livro baseado no filme&quot;. Embaixo, há três fotos, dos personagens de Margot Robbie, uma mulher loira que veste moletom preto e saia branca. Ela está sentada em uma cadeira com os pés descalços apoiados em outro. Ao lado, o personagem de Brad Pitt. Um homem branco e loiro que veste uma camisa florida amarela e um óculos escuro. Ele está em um carro com a mão esquerda para fora. Abaixo dele, o personagem de Leonardo Dicaprio, um homem branco que veste chapéu branco, camisa branca e jaqueta de couro." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Era-uma-Vez-Em-Hollywood-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Era-uma-Vez-Em-Hollywood-1-533x800.jpg 533w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Era-uma-Vez-Em-Hollywood-1-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Era-uma-Vez-Em-Hollywood-1-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Era-uma-Vez-Em-Hollywood-1.jpg 1653w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29327" class="wp-caption-text">Obra é uma das poucas que fez o caminho inverso das adaptações (Foto: Intrínseca)</figcaption></figure>
<p><b>Quentin Tarantino &#8211; Era Uma Vez Em Hollywood (559 páginas, Intrínseca)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Próximo de chegar em seu </span><a href="https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-159443/"><span style="font-weight: 400;">derradeiro 10° filme</span></a><span style="font-weight: 400;">, Quentin Tarantino começa a expandir sua área de atuação para além do Cinema. Claro que, depois de nove filmes e anos na indústria, seria difícil se desvencilhar dela tão rápido assim, por isso, sua primeira incursão na literatura é uma novelização de sua última produção, de mesmo nome. </span><i><span style="font-weight: 400;">Era Uma Vez Em Hollywood</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma expansão do interessantíssimo cenário já explorado em tela, seguindo a história de Cliff Both, Sharon Tate e Rick Dalton, tendo como ponto de partida a decadência de Dalton na Los Angeles de 1969 que nos foi apresentada em 2019.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Servindo como uma versão mais aprofundada do roteiro, o livro tem o ritmo único que só Tarantino consegue ditar, além de ótimas pegadas de humor. É interessante notar como, aqui, o autor também consegue transformar ainda mais a própria Los Angeles em um personagem, explorando a influência dela em suas figuras, desde os principais até os hippies esquisitões que ficaram de lado no audiovisual. É uma leitura bem menos caótica que suas obras no Cinema, mas que compensa ao constantemente referenciar a Sétima Arte e a TV. </span><i><span style="font-weight: 400;">Era Uma Vez em Hollywood</span></i><span style="font-weight: 400;">, mais que um roteiro comercializado, é uma extensa carta de amor à indústria. </span><b>&#8211; Guilherme Veiga</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_29337" aria-describedby="caption-attachment-29337" style="width: 641px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29337 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/senhor-milagre-1-641x1024.jpg" alt="Capa da história em quadrinhos Senhor Milagre mostra um homem que veste uma fantasia amarela e vermelha da cabeça aos pés, com uma capa verde nas costas. Ele olha para a frente com os olhos brancos abertos e a boca semiaberta, tenso. Ao seu redor, vários cabos metálicos prendem seu corpo, tornando quase impossível que consiga escapar. Atrás dele, vemos uma cortina vermelha e, em primeiro plano, vemos algumas cabeças na audiência, ansiosos para ver se o artista de fuga conseguirá escapar dessa vez. " width="641" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/senhor-milagre-1-641x1024.jpg 641w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/senhor-milagre-1-501x800.jpg 501w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/senhor-milagre-1-768x1227.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/senhor-milagre-1-961x1536.jpg 961w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/senhor-milagre-1.jpg 1602w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29337" class="wp-caption-text">A HQ levou o Eisner de Melhor Minissérie em 2019 (Foto: Panini Comics)</figcaption></figure>
<p><b>Tom King &amp; Mitch Gerads &#8211; Senhor Milagre Vol. 1 e 2 (Panini, 308 páginas) </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como sobreviver aos deveres de uma divindade, às mil e uma tarefas da paternidade e ainda lidar com uma saúde mental em frangalhos? É a partir dessa premissa que o roteirista </span><a href="https://www.omelete.com.br/dc-comics/watchmen-tom-king-rorschach"><span style="font-weight: 400;">Tom King</span></a><span style="font-weight: 400;">, acompanhado da arte de Mitch Gerads, faz um excelente estudo de personagem focado no Senhor Milagre, o artista de fuga criado originalmente pelo fenomenal Jack Kirby, ao longo das 12 edições homônimas ao protagonista, que foram condensadas em 2 edições publicadas pela </span><i><span style="font-weight: 400;">Panini</span></i><span style="font-weight: 400;"> no Brasil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A minissérie escrita por King consegue lidar com o trauma geracional carregado por seu personagem-título com grande empatia, conciliando esse tema tão sensível com humor e um romance de aquecer o coração. A arte de Gerads presta uma bela homenagem ao trabalho de </span><a href="https://www.omelete.com.br/quadrinhos/as-10-maiores-criacoes-de-jack-kirby-o-rei-dos-quadrinhos"><span style="font-weight: 400;">Kirby</span></a><span style="font-weight: 400;"> e ainda faz um excelente uso dos </span><i><span style="font-weight: 400;">glitches</span></i><span style="font-weight: 400;"> para mostrar quão deteriorada está a saúde mental de Scott Free. Emotiva, épica e bem-humorada, </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhor Milagre</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma das melhores obras publicadas pela </span><i><span style="font-weight: 400;">DC Comics</span></i><span style="font-weight: 400;"> ao longo dos últimos anos. </span><b>&#8211; Caio Machado </b></p>
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		<title>Sob um jaleco alvejado, A pediatra é tão humana quanto qualquer um</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Nov 2022 20:29:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[2021]]></category>
		<category><![CDATA[A pediatra]]></category>
		<category><![CDATA[Andréa del Fuego]]></category>
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		<category><![CDATA[Machismo]]></category>
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		<category><![CDATA[Melhor Romance do ano de 2021]]></category>
		<category><![CDATA[Prêmio Jabuti]]></category>
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		<category><![CDATA[Prêmio São Paulo de Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Romance literário]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto As mulheres devem ser doces, gentis o suficiente para servirem um homem de meia idade com reclamações diárias sobre um trabalho medíocre e o resultado de um jogo de futebol igualmente irrelevante. Quanto aos filhos: a gestação é a maior benção permitida aos corpos femininos, quem não iria querer isso? Caso Cecília pudesse &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-pediatra-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Sob um jaleco alvejado, A pediatra é tão humana quanto qualquer um"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29333" aria-describedby="caption-attachment-29333" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29333 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29333" class="wp-caption-text">A pediatra foi um dos finalistas da categoria de Romance Literário do Eixo de Literatura do Prêmio Jabuti 2022 (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As mulheres devem ser doces, gentis o suficiente para servirem um homem de meia idade com reclamações diárias sobre um trabalho medíocre e o resultado de um jogo de futebol igualmente irrelevante. Quanto aos filhos: a gestação é a maior benção permitida aos corpos femininos, quem não iria querer isso? Caso Cecília pudesse ser resumida a uma palavra, “antônimo” seria um termo interessante. Ela não é doce e não pretende ser, afinal açúcar é combustível diabético, afeta o funcionamento pancreático e escraviza. Seu papel em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WO0tzxpYjiQ"><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – livro publicado pela Companhia das Letras em 2021 – é performar o descontrole da autoridade dentro de si. </span></p>
<p><span id="more-29310"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A autora do título, </span><a href="https://livreopiniao.com/2014/09/11/livre-opiniao-entrevista-andrea-del-fuego-a-palavra-e-uma-ponte-entre-voce-e-o-mundo/"><span style="font-weight: 400;">Andréa del Fuego</span></a><span style="font-weight: 400;">, espelha na construção da personagem alguém que enxerga a vida em linhas retas. Cecília é médica pediatra como o pai, mas ao contrário dele, não tem paixão pela profissão e muito menos pelas crianças. Talvez esse seja o cerne de sua narrativa: a ausência da paixão. Sua persona é motivada pela técnica: as coisas existem para suprir as necessidades do corpo e nada mais. Enquanto nos misturamos aos seus comportamentos milimetricamente moldados, viver parece tomar um tom tão prático que beira a arrogância.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O texto trabalha muito bem com a objetividade da personagem e compõe isso com uma narrativa direta &#8211; as atitudes de Cecília se alternam com seus pensamentos a todo momento. Com o passar das páginas, somos íntimos e superficiais, elementos da história com área exclusiva para o funcionamento cerebral e, ao mesmo tempo, telespectadores de uma novela do horário nobre. Assim, não há como fazer juízo de valor. </span><a href="https://personaunesp.com.br/lucifer-5a-temp-parte-2-critica/"><span style="font-weight: 400;">Bondade e maldade</span></a><span style="font-weight: 400;"> são veredictos permanentes demais para serem aplicados em</span><i><span style="font-weight: 400;"> A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_29313" aria-describedby="caption-attachment-29313" style="width: 434px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29313" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Andrea.jpg" alt="Foto em preto e branco da autora Andréa del Fuego. Andréa é uma mulher branca de cabelos curtos, pretos e cacheados. Ela usa uma blusa de mangas longas e gola rolê e um óculos de grau. Ao fundo há o tronco de uma árvore." width="434" height="650" /><figcaption id="caption-attachment-29313" class="wp-caption-text">O primeiro romance publicado por Andréa del Fuego, intitulado Os Malaquias, foi premiado com a sétima edição do Prêmio Literário José Saramago (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Independência e liberdade são pontos muito importantes para Cecília, por isso, o casamento que ela mantinha não passa das primeiras páginas. O marido tinha </span><a href="https://personaunesp.com.br/elena-critica/"><span style="font-weight: 400;">depressão</span></a><span style="font-weight: 400;">, a necessidade de cuidado a condicionavam ao aprisionamento e limitação, e isso não era admissível. A personagem automaticamente compara relações desse tipo as que as mães com filhos diabéticos têm. Vínculos cheios de </span><a href="https://saude.ig.com.br/2019-10-08/mae-de-crianca-com-diabetes-fala-sobre-impacto-da-hipoglicemia-veja-dados.html"><span style="font-weight: 400;">preocupação</span></a><span style="font-weight: 400;">, capazes de escravizar e fazer as vidas girarem apenas sobre o controle da insulina e o medo das convulsões nas madrugadas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A protagonista mantinha um </span><a href="https://personaunesp.com.br/conversas-entre-amigos-5-anos/"><span style="font-weight: 400;">relacionamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> extraconjugal com Celso, um homem também casado que conheceu por pura casualidade. Com seu divórcio, os amantes deixam de estar no mesmo patamar e os abalos surgem trazendo impactos. Enquanto ele tinha uma esposa grávida e uma família para manter, ela era uma profissional bem sucedida cuja maior prioridade era a própria qualidade de vida. Para ele, o caso significava insegurança; já ela, não tinha nada a perder. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitas das atitudes da médica são motivadas por desejo e ego. Celso nunca significou amor ou romance, mas conseguir controlá-lo e ter suas vontades atendidas geravam um tipo de satisfação inconsciente. Ela sabe se mostrar indispensável e é assim que acaba na sala de parto de Camila – a esposa traída – como </span><a href="https://posfg.com.br/afinal-o-que-faz-o-neonatologista/#:~:text=O%20neonatologista%20%C3%A9%20o%20m%C3%A9dico,n%C3%A3o%20receber%20os%20cuidados%20necess%C3%A1rios."><span style="font-weight: 400;">neonatologista</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Bruninho. </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Inaceitável que uma legião não estivesse espetando minha densidade de sobremesa, seio que criança nenhuma pisoteou até murchar, vagina nulípara, nunca posta à prova, músculo rosa, mucosa vítrea como a maçã de quermesse, eu permanecia inédita.”</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Aos poucos a firmeza de Cecília se mostra cada vez mais bamba. Entre os conflitos que a rodeiam, a chegada de um novo médico especialista em recém nascidos na Zona Sul de São Paulo cria um ambiente competitivo. Buscando entender o sucesso do novo profissional, a protagonista se insere em seu espaço de trabalho de maneira absurda e questionável – apesar de narrada com uma objetividade ímpar. As técnicas </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1007200519.htm"><span style="font-weight: 400;">humanizadas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e as doulas de </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46643198"><span style="font-weight: 400;">parto</span></a><span style="font-weight: 400;"> do lugar são lidas com cinismo. Para a pediatra, dramatizar a simplicidade é assumir a ineficácia como aliada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A interação com sua empregada, Deyse, também acaba revelando rachaduras nos muros da médica. A jovem funcionária engravida do marido da própria irmã, constrói uma </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-50459101"><span style="font-weight: 400;">dependência alcoólica</span></a><span style="font-weight: 400;"> e tem perspectivas baixas. Quanto mais Cecília a conhece, mais julgamentos desenha. A aproximação também denuncia o medo de criar vínculos, mostrar fragilidade ou ser imperfeita. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma visita de Bruninho é a arma que quebra o escudo de estabilidade mantido pela personagem. A mulher, incapaz de gostar de crianças, vê naqueles dedinhos pequenos algo especial: um sentimento cheio de vulnerabilidade e falta de controle. Em pouco tempo tudo se torna uma </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-60525984"><span style="font-weight: 400;">obsessão</span></a><span style="font-weight: 400;"> repleta de atitudes impulsivas e hiperbólicas. A adulta racional se deixa levar por algo sem explicação ou sentido, apenas atravessando qualquer limite por mais uns minutos perto do cheiro de bebê daquela criança que ela mesma ajudou a colocar no mundo. </span></p>
<figure id="attachment_29314" aria-describedby="caption-attachment-29314" style="width: 450px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29314" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/a-escritora-andrea-del-fuego-1648223678210_v2_450x600.jpg" alt="Foto colorida da autora Andréa del Fuego. Andréa é uma mulher branca de cabelos cacheados castanho escuro. Ela está em frente a uma parede branca. A autora veste uma camiseta preta com bolinhas coloridas. Há também um colar na cor bronze e um óculos de grau preto." width="450" height="600" /><figcaption id="caption-attachment-29314" class="wp-caption-text">A pediatra disputou o prêmio de Melhor Romance do ano de 2021 no Prêmio São Paulo de Literatura deste ano (Foto: Celso Koyama)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;"> toma uma nova face sem perder o </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/19/estilo/1560957652_470106.html"><span style="font-weight: 400;">sarcasmo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Cecília continua sendo para o mundo o que sempre foi, mas Bruninho ganha uma passagem para os bastidores atrás da sua mente objetiva. Ela manipula as pessoas, o espaço e as coincidências em busca do desejo de estar perto do bebê. Agora somos nós que assistimos aos passos de fora e tentamos entender os motivos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que era pura certeza passa a ter um universo próprio de contradições em um contexto explicitado pela </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=03439"><span style="font-weight: 400;">autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> com uma destreza impressionante. A leitura é rápida e hipnotizante, afinal, fica no ar a curiosidade e vontade de saber o que acontece nas próximas cenas. Mais que isso, os pensamentos soltos de Cecília são alvo de identificação: todo mundo guarda coisas incongruentes no burburinho da mente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a protagonista representa a assertividade, Bruninho significa fragilidade. O tipo de coisa adiada que em algum momento deixa de caber na caixa de contenção. O enredo quase novelístico do romance deixa claro que, por mais firmes que estejam os trilhos, quem decide o caminho é o condutor e não o passageiro. A vida não é lógica, prática e muito menos </span><a href="https://personaunesp.com.br/roda-do-destino-critica/"><span style="font-weight: 400;">manobrável</span></a><span style="font-weight: 400;">, as vezes, estar vivo é puramente ficcional.  </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Meu caso é comum, estudei medicina desapaixonada, com o pai no leme. Não é diferente de quem cuida de vacas porque de sua janela era o que havia, festejando o fato de que não era mais preciso caçar, apenas manter o gado.”</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra não precisa se pautar em um drama sintomático para nos deixar sem palavras. Entre a lógica exacerbada e a perda do equilíbrio, existe uma sinceridade fascinante. </span><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;"> introduz com sutileza reflexões sobre o papel da mulher na sociedade, a </span><a href="https://personaunesp.com.br/marte-um-critica/"><span style="font-weight: 400;">desigualdade social</span></a><span style="font-weight: 400;">, a normalização do machismo e o ideal de maternidade. Cecília e a forma como se relaciona com o mundo é um reflexo de múltiplas partes da sociedade, um quebra cabeça composto de várias vozes unificadas em uma só. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 160 páginas, Andréa compacta a complexidade de ser. Cecília foge dos padrões esperados para uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/gaslit-critica/"><span style="font-weight: 400;">mulher</span></a><span style="font-weight: 400;"> e isso pode fazer com que alguns a considerem uma antagonista. Não é como se as atitudes da personagem fossem mediadas pela vontade de fazer mal aos outros, terceiros são apenas figurantes de uma história individual.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por mais absurdos que sejam certos comportamentos da médica, suas motivações são guiadas pela fragilidade e egoísmo. E é por isso que essa leitura não permite julgamentos, só quem nunca agiu motivado por interesses próprios pode atirar a primeira pedra. Ao fim, para alguém que detesta humanização, </span><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;"> é tão </span><a href="https://personaunesp.com.br/sally-rooney-pessoas-normais-critica/"><span style="font-weight: 400;">humana</span></a><span style="font-weight: 400;"> quanto qualquer um. </span></p>
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		<title>Estante do Persona – Setembro de 2022</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Oct 2022 19:38:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Ainda é tempo de morrer amanhã, que será o ontem de depois de amanhã, se eu então continuar vivo.&#8221;  &#8211; Javier Marías O primeiro ano do Clube do Livro está chegando: em Setembro, completamos nossa 12ª edição, preparados para encerrar um ciclo que nos fez próximos da Literatura como nunca antes havia acontecido. Iniciando as &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-setembro-de-2022/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Estante do Persona – Setembro de 2022"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28990" aria-describedby="caption-attachment-28990" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28990 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/ESTANTE_SETEMBRO_WP.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/ESTANTE_SETEMBRO_WP.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/ESTANTE_SETEMBRO_WP-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/ESTANTE_SETEMBRO_WP-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28990" class="wp-caption-text">Em Setembro, o Clube do Livro do Persona completou sua 12ª leitura sob os cuidados da Pediatra, de Andréa del Fuego (Foto: Companhia das Letras/Arte: Nathália Mendes/Texto de abertura: Raquel Dutra)</figcaption></figure>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“Ainda é tempo de morrer amanhã, que será o ontem de depois de amanhã, se eu então continuar vivo.&#8221;</span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p style="text-align: right;"><em><span style="font-weight: 400;">&#8211; Javier Marías</span></em></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro ano do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/clube-do-livro/"><span style="font-weight: 400;">Clube do Livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> está chegando: em Setembro, completamos nossa 12ª edição, preparados para encerrar um ciclo que nos fez próximos da </span><a href="https://personaunesp.com.br/category/literatura/"><span style="font-weight: 400;">Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> como nunca antes havia acontecido. Iniciando as comemorações desse marco tão especial, trouxemos </span><i><span style="font-weight: 400;">A Pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Andréa del Fuego, para deixar suas impressões sobre o tão saudável projeto caçula do </span><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que encontramos a partir daí, no entanto, foi um procedimento nada convencional. A obra da autora paulistana se concentra em </span><a href="https://valkirias.com.br/a-pediatra-de-andrea-del-fuego-e-o-fascinio-pelo-detestavel/"><span style="font-weight: 400;">Cecília</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma pediatra que é o exato oposto do estereótipo que lhe é associado. Longe da imagem maternal e paciente evocada pela sua profissão, a personagem é munida de uma frieza incorrigível, o que a faz, nem tão surpreendentemente assim, uma médica muito bem-sucedida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com essa narrativa peculiar, as palavras concisas de </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/colunas/pagina-cinco/2022/03/18/entrevista-andrea-del-fuego-a-pediatra.htm"><span style="font-weight: 400;">Andréa del Fuego</span></a><span style="font-weight: 400;"> permeiam um humor perspicaz no cenário da classe média alta de São Paulo. Pelo fluxo de consciência de Cecília e suas peripécias cirurgicamente calculadas, a autora não precisa de mais de 160 páginas para propor reflexões nada pretensiosas sobre papéis de gênero, relacionamentos familiares e desigualdades sociais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançado em 2021, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;"> é somente a mais recente demonstração dos méritos da mestra em Filosofia laureada com o prêmio José Saramago em 2011. Na ocasião, a obra tratava-se apenas de seu primeiro romance: </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/09/andrea-del-fuego-e-a-convidada-de-setembro-do-encontro-de-leituras.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Os Malaquias</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, drama familiar que carrega a referência do Nobel de Literatura português, tido como </span><a href="http://artecult.com/ac-encontros-literarios-andrea-del-fuego/"><span style="font-weight: 400;">a principal referência</span></a><span style="font-weight: 400;"> da autora. Enquanto a nova edição do livro integra novamente o título ao catálogo da </span><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i><span style="font-weight: 400;">, o último romance de Andréa del Fuego faz seu nome integrar novamente a lista do </span><a href="https://www.premiojabuti.com.br/10-finalistas/"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Jabuti</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/09/aline-bei-e-silviano-santiago-sao-finalistas-do-premio-sao-paulo-de-literatura-veja-lista.shtml"><span style="font-weight: 400;">Prêmio São Paulo de Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> e do </span><a href="https://associacaooceanos.pt/premio-oceanos-2022/"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Oceanos</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas nem só de comemorações são feitos os inícios e fins de ciclos. No 9º mês do ano, também houve a despedida de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/09/morre-javier-marias-escritor-espanhol-de-coracao-tao-branco-aos-70.shtml"><span style="font-weight: 400;">Javier Marías</span></a><span style="font-weight: 400;">, escritor, tradutor e editor espanhol considerado um dos contemporâneos mais importantes da língua. Com apenas 20 anos, iniciou seus trabalhos literários com </span><i><span style="font-weight: 400;">Os domínios do lobo</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1971), se consolidando na Literatura da Espanha com os romances </span><i><span style="font-weight: 400;">O homem sentimental</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1986) e </span><i><span style="font-weight: 400;">Todas as almas</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1989). O cenário internacional veio em 1992, quando </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-marco-de-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Coração tão branco</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> rompeu todas as barreiras ao vender 1 milhão de exemplares e ser traduzido para mais de 40 idiomas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de se destacar entre os romances, cujo </span><i><span style="font-weight: 400;">hall</span></i><span style="font-weight: 400;"> de sucessos ainda engloba </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13196"><i><span style="font-weight: 400;">Os enamoramentos</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2011) e a trilogia – considerada sua obra-prima – </span><i><span style="font-weight: 400;">Seu rosto amanhã</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2002-2007), o autor também era conhecido pelos seus contos e artigos, sempre alinhados pela sua perspectiva de formação e experiência como docente em Filosofia e Letras, primeiro pela Universidade Complutense de Madrid, depois na Universidade de Oxford. No dia 11 de Setembro, Javier Marías faleceu aos 70 anos, em decorrência de uma pneumonia. Sua extensa produção literária angariou respeito e admiração pela crítica e pelos leitores, sendo um eterno favorito ao </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/10/saiba-as-principais-apostas-ao-nobel-de-literatura-de-rushdie-a-murakami.shtml#:~:text=Com%20o%20trof%C3%A9u%20mais%20prestigioso,Murakami%20e%20o%20franc%C3%AAs%20Michel"><span style="font-weight: 400;">Nobel de Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> – mas isso é assunto para o mês que vem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre as idas e vindas do meio, parte fundamental do nosso radar afiado desde </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-outubro-de-2021/"><span style="font-weight: 400;">Outubro de 2021</span></a><span style="font-weight: 400;">, introduzimos mais um </span><b>Estante do Persona</b><span style="font-weight: 400;">. Na companhia de outros trabalhos literários louváveis que a nossa Editoria selecionou para as indicações do mês, finalizamos o primeiro ano do Clube do Livro de olho no que vai terminar de definir a Literatura em 2022.</span></p>
<p><span id="more-28956"></span></p>
<h3>Livro do Mês</h3>
<figure id="attachment_28981" aria-describedby="caption-attachment-28981" style="width: 681px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28981 size-large" style="font-weight: bold; background-color: transparent; text-align: inherit;" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-pediatra-1-2-681x1024.jpg" alt="" width="681" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-pediatra-1-2-681x1024.jpg 681w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-pediatra-1-2-532x800.jpg 532w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-pediatra-1-2-768x1155.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-pediatra-1-2-1021x1536.jpg 1021w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-pediatra-1-2.jpg 1702w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28981" class="wp-caption-text">Publicado em 2021, A pediatra é finalista na categoria Romance Literário no Prêmio Jabuti deste ano (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Andréa del Fuego &#8211; A pediatra (160 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559213481/a-pediatra"><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, terceiro romance de Andréa del Fuego, a superficialidade das relações e a ética envolta no cotidiano são colocadas em xeque. Cecília, a protagonista, é o oposto do que se imagina de uma pediatra: uma mulher sem “espírito maternal”, quase nenhum interesse por crianças e mínima paciência para outros adultos. Ao desenrolar da trama, ela fará, então, um mergulho investigativo na vida das mulheres que seguem o caminho do parto natural e da medicina alternativa, práticas que despreza profundamente. Em paralelo, vive uma relação com um homem casado, Celso, cujo filho, Bruninho, ela acompanhou o nascimento como neonatologista. É esse menino que irá despertar sentimentos nunca antes experimentados por ela.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span><a href="https://escotilha.com.br/literatura/ponto-virgula/livro-a-pediatra-andrea-del-fuego-companhia-das-letras-resenha-critica/"><span style="font-weight: 400;">Andréa del Fuego</span></a><span style="font-weight: 400;"> retoma, com este romance, sua escrita áspera, direta e seca. Nesse livro, o seu cuidado com a linguagem reflete a personalidade de Cecília, que tende a ser pragmática e realizar seus interesses acima dos demais. Ironicamente, é toda essa sua força, sarcasmo e ironia que demonstram, posteriormente, o quanto é uma pessoa frágil. Como um dos fortes concorrentes ao </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/10/25/premio-jabuti-divulga-finalistas-de-2022.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Jabuti</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 2022, o romance evidencia toda sua força através de uma escrita intensa. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu não estava livre do Bruninho, como tinha me livrado de tudo que ousava me extorquir</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><iframe title="Spotify Embed: A pediatra - Clube do Livro Setembro de 2022" style="border-radius: 12px" width="100%" height="380" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/2M1IJ7NhlH2N6dtrxa3QOX?si=LWDoLX6NSY6oLgA216tYkw&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
<hr />
<h3>Dicas do Mês</h3>
<figure id="attachment_28978" aria-describedby="caption-attachment-28978" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28978 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/gurnah-1-683x1024.jpg" alt="" width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/gurnah-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/gurnah-1-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/gurnah-1-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/gurnah-1-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/gurnah-1-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/gurnah-1.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28978" class="wp-caption-text">Marcado pela voz dos oprimidos através da colonização, Sobrevidas foi um dos recebimentos do Persona através da parceria com a editora Companhia das Letras em 2022 (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Abdulrazak Gurnah &#8211; Sobrevidas (336 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Sobrevidas</span></i><span style="font-weight: 400;"> chegou ao Brasil em Março de 2022, sob tradução de Caetano W. Galindo, e graças a parceria com a </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/companhia-das-letras/"><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o </span><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;"> pôde ter acesso ao primeiro livro do tanzaniano Abdulrazak Gurnah – vencedor do prêmio </span><a href="https://twitter.com/personaunesp/status/1446162399069884427"><span style="font-weight: 400;">Nobel de Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 2021 – a ser publicado por aqui. O lançamento deu início a série de publicações do autor que a editora deve entregar futuramente. Entre elas, além de </span><i><span style="font-weight: 400;">Afterlives</span></i><span style="font-weight: 400;">, estão </span><i><span style="font-weight: 400;">Paradise </span></i><span style="font-weight: 400;">(finalista do </span><i><span style="font-weight: 400;">Booker Prize</span></i><span style="font-weight: 400;"> de 1994), </span><i><span style="font-weight: 400;">Desertion</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://loja.taglivros.com/kit-tag-curadoria-a-beira-mar-abdulrazak-gurnah-jul-22/"><i><span style="font-weight: 400;">À beira-mar</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(já entregue através da </span><i><span style="font-weight: 400;">TAG Curadoria</span></i><span style="font-weight: 400;"> aos seus assinantes em Julho). </span><i><span style="font-weight: 400;">Sobrevidas</span></i><span style="font-weight: 400;">, porém, é a obra mais recente de Gurnah, publicada originalmente em 2020, e trata-se de uma narrativa apoteótica dos </span><a href="https://quatrocincoum.folha.uol.com.br/br/resenhas/literatura/a-narrativa-dos-sobreviventes"><span style="font-weight: 400;">sobreviventes</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ambientada no começo do século XX, sob a África Oriental Alemã – no interior do que hoje é a Tanzânia –, a obra centra-se em Ilyas, Khalifa e Hamza – centra-se principalmente nos dois últimos –, que se encanta por Afiya (irmã de Ilyas) após chegar na cidade em busca de emprego, depois de ser vendido pelo próprio pai a um fazendeiro e fugir. Ao mesmo tempo em que Gurnah cria personagens fortes, ele evidencia suas vulnerabilidades originadas na opressão do colonialismo – a qualquer momento, tudo pode ruir. Partindo de histórias comuns, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/03/abdulrazak-gurnah-em-sobrevidas-destaca-o-humano-ante-o-colonial.shtml"><span style="font-weight: 400;">Abdulrazak Gurnah</span></a><span style="font-weight: 400;"> joga luz sobre as consequências devastadoras da violência na vida cotidiana de todo um continente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo escrito originalmente em inglês, o escritor mantém elementos de uma abordagem descolonial ao inserir palavras “não traduzidas” para o idioma (</span><i><span style="font-weight: 400;">schwein </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">washenzi</span></i><span style="font-weight: 400;">, por exemplo). Essa estranheza é um dos objetivos estéticos do autor, e é respeitada na tradução de Galindo, que as mantém como a forma original. É, porém, ao fim que toda a potência de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559212286/sobrevidas"><i><span style="font-weight: 400;">Sobrevidas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é catarticamente revelada: o encontro entre Hamza e Khalifa humaniza indivíduos que foram massiva e historicamente desumanizados. </span><b>&#8211; Bruno Andrade</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_28982" aria-describedby="caption-attachment-28982" style="width: 680px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28982 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1-680x1024.jpg" alt="Capa do livro A Seleção da escritora Kiera Cass. A capa é composta pela fotografia de uma mulher branca e ruiva. Ela veste um enorme vestido azul que a encobre do torso até os pés. Ela posa de perfil para a câmera, enquanto posiciona os braços de uma forma que encobre metade de seu rosto. Ao fundo, uma série de espelhos refletem a sua imagem, mas em posições diferentes. Na parte superior da capa está escrito em azul escuro: “Trinta e cinco garotas e uma coroa”. Do meio da capa até a parte inferior há alguns elementos, são eles: um desenho de uma coroa em branco; o título do livro “A Seleção” em branco; o nome da autora “Kiera Cass” em branco e o logo em preto e branco da editora “Seguinte”." width="680" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1-680x1024.jpg 680w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1-532x800.jpg 532w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1-768x1156.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1-1021x1536.jpg 1021w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1-1361x2048.jpg 1361w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1-1200x1806.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/a-selecao-1.jpg 1648w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28982" class="wp-caption-text">10 anos desde o seu lançamento, A Seleção continua na <a href="https://www.publishnews.com.br/ranking/anual/0/2021/20/0">lista anual</a> dos livros mais vendidos pelo Grupo Companhia das Letras (Foto: Seguinte)</figcaption></figure>
<p><b>Kiera Cass &#8211; A Seleção (363 páginas, Seguinte)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">America Singer é aquela menina diferente que nunca sonhou em ser princesa ou disputar o coração de um homem pela coroa, mas ela também é alguém que faria qualquer coisa para agradar a sua mãe, até mesmo se inscrever em um concurso ao lado de 34 garotas ambiciosas pela chance de se tornar a esposa de um futuro rei. Sem acreditar na possibilidade de ser escolhida como participante, a protagonista de </span><a href="https://capricho.abril.com.br/comportamento/blog-da-galera-8-questoes-atuais-e-relevantes-nos-livros-de-a-selecao/"><i><span style="font-weight: 400;">A Seleção</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> vive um dos melhores clichês da Literatura juvenil que, com a sagacidade de </span><a href="https://g1.globo.com/sao-paulo/bienal-do-livro/2014/noticia/2014/08/autora-do-best-seller-selecao-kiera-cass-anuncia-mais-dois-livros.html"><span style="font-weight: 400;">Kiera Cass</span></a><span style="font-weight: 400;">, impactou permanentemente uma </span><a href="https://br.vida-estilo.yahoo.com/dia-nacional-da-leitura-relembre-10-livros-que-marcaram-os-anos-2000-e-2010-144540650.html"><span style="font-weight: 400;">geração</span></a><span style="font-weight: 400;"> de leitoras.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançado em 2012, o livro completa 10 anos de ampla presença no mercado editorial, afinal, graças ao grande público, o feito de Cass se tornou uma </span><a href="https://muraldoslivros.com/ordem-dos-livros-a-selecao/"><span style="font-weight: 400;">saga</span></a><span style="font-weight: 400;"> composta por 9 livros e alguns contos, todos ambientados no mesmo contexto utópico pós-Quarta Guerra Mundial. Ainda que as obras sucessoras não tenham o mesmo mérito de seu original ou que a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wUZ71EMdHuk"><span style="font-weight: 400;">adaptação</span></a><span style="font-weight: 400;"> para o audiovisual seja uma incógnita constante, uma coisa é certa: com </span><i><span style="font-weight: 400;">A Seleção</span></i><span style="font-weight: 400;">, histórias de princesa nunca foram tão populares e, depois dela, as trajetórias de jovens leitoras pela Literatura não foram mais as mesmas. </span><b>&#8211; Nathalia Tetzner</b></p>
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<figure id="attachment_28984" aria-describedby="caption-attachment-28984" style="width: 677px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28984 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/71UTMmVlc0L-677x1024.jpg" alt="Capa do livro Meu coração &amp; outros buracos negros. Na imagem, um fundo branco guarda as palavras “Meu coração &amp; outros buracos negros”. As letras são grandes e estão grafadas em preto. No lugar do coração e da última letra “O” há as cores rosa, amarelo, laranja e azul para representar o buraco negro. Na parte inferior está o nome da autora em vermelho. No canto inferior direito está o nome da editora." width="677" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/71UTMmVlc0L-677x1024.jpg 677w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/71UTMmVlc0L-529x800.jpg 529w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/71UTMmVlc0L-768x1162.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/71UTMmVlc0L.jpg 857w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28984" class="wp-caption-text">Falando sobre a depressão com empatia e delicadeza, Meu coração &amp; outros buracos negros mostra que pequenas coisas mudam caminhos inteiros (Foto: Rocco Jovens Leitores)</figcaption></figure>
<p><b>Jasmine Warga &#8211; Meu coração &amp; outros buracos negros: Uma faísca pode mudar tudo (312 páginas, Rocco)</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Meu coração &amp; outros buracos negros</span></i><span style="font-weight: 400;"> conta a história de Aysel, uma adolescente de 17 anos que não consegue mais ver sentido na vida. Oprimida por um crime cometido pelo pai há anos, a personagem sente culpa e medo por um erro que não é seu. Encurralada por caminhos sem saída, a jovem vê no </span><a href="https://personaunesp.com.br/13-reasons-why-segunda-temporada/"><span style="font-weight: 400;">suícidio</span></a><span style="font-weight: 400;"> a resposta para todos os seus problemas. Na busca por um jeito de morrer, sua trajetória acaba sendo iluminada por sentimentos doces e uma nova perspectiva. Traduzido no Brasil por Petê Rissatti, a obra traz a tona tópicos sensíveis do cuidado com a saúde mental, enquanto deixa um rastro de esperança no coração dos leitores. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É em um fórum de internet que Aysel encontra Ronan, e os dois definem uma data para cometerem o ato juntos: 7 de abril. A partir disso, a narrativa começa uma contagem regressiva em que os dois se encontram regularmente. Os encontros são marcados pelas confissões de Ronan e, para Aysel, ver um garoto bonito e popular com dores tão profundas quanto as dela é um impacto. Quando a personagem finalmente se sente confortável para expor seus fantasmas, os dois acabam em uma aventura para resolver histórias mal terminadas. O clichê dos protagonistas se apaixonando toma conta do enredo, mas mantém o foco nas transformações íntimas e essencialistas de cada um. Com um texto leve e sensível, o livro de </span><a href="https://lithub.com/jasmine-warga-the-relationship-between-language-and-her-hyphenated-identity/"><span style="font-weight: 400;">Jasmine Warga</span></a><span style="font-weight: 400;"> mostra que em volta de todo buraco negro existem milhares de estrelas brilhantes. </span><b>&#8211;</b> <b>Jamily Rigonatto</b></p>
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<figure id="attachment_28985" aria-describedby="caption-attachment-28985" style="width: 701px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28985 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/lugar1-701x1024.jpg" alt="" width="701" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/lugar1-701x1024.jpg 701w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/lugar1-548x800.jpg 548w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/lugar1-768x1121.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/lugar1-1052x1536.jpg 1052w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/lugar1-1403x2048.jpg 1403w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/lugar1.jpg 1618w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28985" class="wp-caption-text">O lugar foi um dos livros que lançou a autora, laureada pelo <a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/10/06/annie-ernaux-escritora-francesa-ganha-premio-nobel-de-literatura-2022.ghtml">Prêmio Nobel de Literatura</a> e presença confirmada na 20ª edição da <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/09/flip-traz-annie-ernaux-e-tem-maria-firmina-dos-reis-como-1a-homenageada-negra.shtml">Flip</a>, ao cânone literário francês</figcaption></figure>
<p><b>Annie Ernaux &#8211; O lugar (72 páginas, Fósforo)</b></p>
<p><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/autores/annie-ernaux/"><span style="font-weight: 400;">Annie Ernaux</span></a><span style="font-weight: 400;"> tem um compromisso visceral com a memória. Em um exercício que ressoa em sua prática de revisitação de arquivos em </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-anos-do-super-8-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Os Anos de Super 8</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> — </span></i><span style="font-weight: 400;">sua estréia enquanto co-diretora</span><i><span style="font-weight: 400;"> — </span></i><span style="font-weight: 400;">inaugurado nas telas brasileiras graças à </span><span style="font-weight: 400;">46ª </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo,</span> <span style="font-weight: 400;">o romance </span><i><span style="font-weight: 400;">O lugar </span></i><span style="font-weight: 400;">repassa fotografias, corrige-se e remonta-se diante do leitor em uma tentativa da autora de destrinchamento de uma relação após a sua morte de seu pai. Ernaux e seu estilo autosociobiográfico já passaram pelo </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-julho-de-2022/"><span style="font-weight: 400;">radar do Persona</span></a><span style="font-weight: 400;">, no entanto, em </span><i><span style="font-weight: 400;">La Place — </span></i><span style="font-weight: 400;">título original do livro — tal estilística é intensificada na análise do abismo de classe que a separa do patriarca, um homem da classe operária francesa. Com seus parágrafos curtos, o texto é uma visualização não linear de diversas imagens que constituem um </span><i><span style="font-weight: 400;">supercut </span></i><span style="font-weight: 400;">literário de memórias e reflexões sobre os mundos que apenas alguns podem pertencer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na escolha por uma narração que se intercede o tempo inteiro no seu próprio contar, para se esclarecer de uma metodologia da qual utiliza — de imparcialidade e sem intromissão de nostalgia —, surge em um ímpeto não de inibir a emoção, como pode parecer. Mas sim de tentar ao máximo não contornar a verdade, e trazê-la com toda sua potência para tentar capturar o espaço vazio que assola as principais personagens, mesmo com a ação antagônica do esquecimento. No livro, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/06/annie-ernaux-faz-da-memoria-um-admiravel-prazer-literario.shtml"><span style="font-weight: 400;">Ernaux</span></a><span style="font-weight: 400;"> discursa sobre a intersecção das relações de classe com a </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/"><span style="font-weight: 400;">esfera íntima</span></a><span style="font-weight: 400;">, psicológica e emocional; algo não comum diante de uma atual generalização de perspectivas macroscópicas no pensar dessas tensões. Em </span><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/catalogo/o-lugar-annie-ernaux/"><i><span style="font-weight: 400;">O lugar</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> reside uma brutal incomunicabilidade, onde a escrita se constrói enquanto uma prática de se dizer no silêncio, um não-diálogo entre dois mundos distantes em tortuosa tentativa de aproximação. </span><b>&#8211; Enzo Caramori</b></p>
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<figure id="attachment_28986" aria-describedby="caption-attachment-28986" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28986 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/manifesto-sobre-nunca-desistir-1-683x1024.jpg" alt="Capa do livro Manifesto: Sobre nunca desistir. O fundo da capa é uma pintura de Bernardine Evaristo, do peito para cima. Ela é uma mulher negra, aparentando cerca de 40 anos, com cabelos cacheados e vestindo uma camisa rosa e um casaco vinho. Na parte superior central, lemos as palavras &quot;da autora de garota, mulher, outras&quot; em uma fonte sem serifa, em caixa alta e em branco. Na parte inferior , ao centro, lemos &quot;MANIFESTO&quot; e &quot;SOBRE NUNCA DESISTIR&quot; na linha de baixo, ambas frases em caixa alta e em branco. Abaixo do título, lemos &quot;BERNARDINE&quot; e, na linha de baixo, &quot;EVARISTO&quot;, ambas palavras alinhadas à esquerda na capa, em caixa alta, em uma fonte sem serifa esverdeada. Alinhado ao canto inferior direito, vemos o logo da Companhia das Letras em branco." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/manifesto-sobre-nunca-desistir-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/manifesto-sobre-nunca-desistir-1-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/manifesto-sobre-nunca-desistir-1-768x1151.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/manifesto-sobre-nunca-desistir-1-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/manifesto-sobre-nunca-desistir-1-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/manifesto-sobre-nunca-desistir-1.jpg 1500w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28986" class="wp-caption-text">Em 2019, Bernardine Evaristo se tornou a primeira mulher negra a vencer o Booker Prize, importante prêmio da Literatura a nível mundial (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Bernardine Evaristo &#8211; Manifesto: Sobre nunca desistir (232 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando Bernardine Evaristo levou para casa o Prêmio </span><i><span style="font-weight: 400;">Booker</span></i><span style="font-weight: 400;"> em 2019, dividindo o troféu com Margaret Atwood, a vitória era mais do que sonhada: a escritora sempre desejou ganhar a honraria, mas nunca deixou seus trabalhos se </span><a href="https://br.noticias.yahoo.com/entenda-como-bernardine-evaristo-ganha-001300899.html?guccounter=1&amp;guce_referrer=aHR0cHM6Ly93d3cuZ29vZ2xlLmNvbS8&amp;guce_referrer_sig=AQAAACyFQuZiQhxcv6m4bUUIGoGvgpLkkCaqEiKkM7X_c3hmHB45PpQjau18i2uD0a2QvkrmBFjIY7UsUvOnFXfMPHATaXpKDg8j4cy9ey2Ku5ahL-XsLh0aOEPC6a1JVjgA8jBPSGr-oN70JEOgUtj7HAZxFgn8tI8_ifskzrgNe1nW"><span style="font-weight: 400;">encaixarem em um molde</span></a><span style="font-weight: 400;"> apenas para fazê-lo. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Manifesto: Sobre nunca desistir</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 2022, a autora remonta sua trajetória da infância até se encaixar nos mais altos escalões da Literatura mundial, em um livro de memórias que mistura relatos pessoais e suas conclusões práticas, baseadas em suas vivências.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Filha de mãe inglesa e pai nigeriano, e vivendo em uma casa de classe média baixa em uma vizinhança branca na Inglaterra, Bernardine narra seu processo de amadurecimento, experienciando a vida apesar do racismo e do machismo, e refletindo sobre sua própria origem e identificação. Os sete capítulos de </span><a href="https://www.nexojornal.com.br/estante/trechos/2022/09/09/%E2%80%98Manifesto%E2%80%99-a-trajet%C3%B3ria-de-uma-escritora-negra"><i><span style="font-weight: 400;">Manifesto</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">se dividem entre os temas que norteiam a trajetória da autora. Construindo pontes entre os tópicos que levanta, a responsável pelo elogiado </span><a href="http://personaunesp.com.br/garota-mulher-outras-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Garota, Mulher, Outras</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> destrincha a história de sua família e infância, os lugares pelos quais passou e morou e “</span><i><span style="font-weight: 400;">as mulheres e os homens que vieram e se foram</span></i><span style="font-weight: 400;">”, em uma seção dedicada a explorar a descoberta da sexualidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Adiante, Evaristo adentra o terreno do seu próprio trabalho. Arte e política, sua própria Literatura não convencional e em constante transformação, educação e influências, </span><a href="https://brasil.elpais.com/babelia/2020-06-12/bernardine-evaristo-o-black-lives-matter-e-o-metoo-ja-mudaram-a-sociedade.html"><span style="font-weight: 400;">ativismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e seu Eu após os anos de caminhada fazem da obra um verdadeiro panorama de quem é e o que pensa uma das escritoras mais importantes da contemporaneidade. Com a tradução de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559211616/manifesto"><span style="font-weight: 400;">Camila von Holdefer</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Manifesto: Sobre nunca desistir </span></i><span style="font-weight: 400;">oferece mais uma das camadas da linguagem da inglesa, que, tendo passado pela ficção e pela poesia, encontra solo fértil em suas memórias, tão reais quanto podem ser. </span><b>&#8211; Vitória Gomez</b></p>
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<figure id="attachment_28987" aria-describedby="caption-attachment-28987" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28987 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/fogo-1-712x1024.jpg" alt="Capa do livro Fogo &amp; Sangue - Volume 1, do autor George R. R. Martin. A capa é laranja e mostra a ilustração de um grande dragão cinzento cuspindo fogo em um exército. Ao fundo, vemos a sombra vermelha de um castelo. Em letras brancas, no topo da capa está o nome do escritor, George R. R. Martin, e o nome do livro, Fogo &amp; Sangue. Em letras menores, no meio à esquerda, lemos “300 anos antes de A Guerra dos Tronos, dragões governavam Westeros”. No canto inferior direito, está o logo da editora Suma." width="712" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/fogo-1-712x1024.jpg 712w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/fogo-1-556x800.jpg 556w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/fogo-1.jpg 751w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28987" class="wp-caption-text">A Dança dos Dragões, período coberto pela adaptação da HBO, é contada na íntegra no livro, ao longo de duzentas páginas recheadas de labaredas dos monstros voadores (Foto: Suma)</figcaption></figure>
<p><b>George R. R. Martin &#8211; Fogo &amp; Sangue &#8211; Volume 1 (664 páginas, Suma)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2018, pouco antes da adaptação televisiva de sua grande saga literária chegar ao fim, George R. R. Martin resolveu reeditar um material já publicado: a história da dinastia Targaryen. Antes reunida no enciclopédico </span><i><span style="font-weight: 400;">O Mundo de Gelo e Fogo</span></i><span style="font-weight: 400;">, os pormenores do reinado dos valirianos, que durou duzentos anos, ganham roupagem mais encorpada em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=sdRE-73Nb9M"><i><span style="font-weight: 400;">Fogo &amp; Sangue</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, livro que cobre a ascensão de Aegon, o Conquistador até o início do governo de Aegon III, Desgraça dos Dragões. Uma eventual continuação já está nos planos do escritor, dando seguimento aos anos históricos até a morte de Aerys II, o Rei Louco e a Rebelião de Robert, que dá o pontapé para </span><i><span style="font-weight: 400;">As Crônicas de Gelo e Fogo</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo adaptado pela </span><i><span style="font-weight: 400;">HBO</span></i><span style="font-weight: 400;"> através do seriado </span><i><span style="font-weight: 400;">A Casa do Dragão</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">House of the Dragon</span></i><span style="font-weight: 400;">), o livro voltou à boca do povo, em especial pelas </span><a href="https://www.coxinhanerd.com.br/mudancas-livro-serie-fogoesangue/"><span style="font-weight: 400;">mudanças na produção</span></a><span style="font-weight: 400;"> para as telinhas. Acontece que, como bom compilado histórico, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fogo &amp; Sangue </span></i><span style="font-weight: 400;">é contado pela narração de uma quantidade pequena de fontes, longe do material denso que Martin despeja na </span><i><span style="font-weight: 400;">Guerra dos Tronos</span></i><span style="font-weight: 400;"> e seus capítulos em ponto de vista. Aqui, sob tradução de Leonardo Alves e Regiane Winarski, os acontecimentos são contados como numa apostila de História, sem a emoção e a garra de eventos memoráveis da saga mãe. Martin faz uso da impessoalidade para enriquecer sua vasta mitologia e, no caminho, brincar com os dragões que criou no passado que, na </span><a href="http://personaunesp.com.br/game-of-thrones-setima-temporada-critica/"><span style="font-weight: 400;">trama de Dany, Jon e Cersei</span></a><span style="font-weight: 400;">, não passam de lendas distantes. </span><b>&#8211; Vitor Evangelista</b></p>
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		<title>Persona Entrevista: Daniel Galera</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Sep 2022 20:33:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O escritor, tradutor e ensaísta fala sobre seu processo criativo, influências e os 10 anos do romance Barba ensopada de sangue, que está em adaptação para o Cinema e recebe uma edição comemorativa em 2022 Bruno Andrade  No final de Maio – num frenesi esquisito que faz parecer distante esses quatro meses –, me reuni &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/entrevista-daniel-galera/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Persona Entrevista: Daniel Galera"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;"><i>O escritor, tradutor e ensaísta fala sobre seu processo criativo, influências e os 10 anos do romance Barba ensopada de sangue, que está em adaptação para o Cinema e recebe uma edição comemorativa em 2022</i></span></p>
<figure id="attachment_28717" aria-describedby="caption-attachment-28717" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28717" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress.jpg" alt="Arte quadrada de fundo vermelho. No lado esquerdo, foi adicionado o texto " width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28717" class="wp-caption-text">“Minha carreira de escritor não foi exatamente uma coisa planejada desde cedo”, diz Daniel Galera (Foto: Marco Antonio Filho e Companhia das Letras/Arte: Henrique Marinhos)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No final de Maio – num frenesi esquisito que faz parecer distante esses quatro meses –, me reuni virtualmente com </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://danielgalera.info/">Daniel Galera</a></span><span style="font-weight: 400;"> para bater um papo sobre sua trajetória literária e os 10 anos de lançamento de </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue</i></span><span style="font-weight: 400;">, romance que ganha uma </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.amazon.com.br/Barba-ensopada-sangue-Edi%C3%A7%C3%A3o-especial/dp/6559211282/ref=tmm_hrd_swatch_0?_encoding=UTF8&amp;qid=1663270910&amp;sr=8-22">edição especial comemorativa</a></span><span style="font-weight: 400;"> com lançamento previsto para 4 de Novembro de 2022. Vencedor do Prêmio Machado de Assis, duas vezes 3º colocado no Prêmio Jabuti e já publicado na prestigiosa revista </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.theparisreview.org/blog/2021/12/22/the-god-of-ferns/">The Paris Review</a></i></span><span style="font-weight: 400;">, Galera desponta como um dos grandes nomes da Literatura brasileira contemporânea, relacionado a uma “nova geração de escritores”, mesmo que “nova” já não seja bem a palavra que defina sua carreira. Escrevendo e publicando desde os anos 1990, o escritor paulistano radicado em Porto Alegre construiu um sólido percurso em torno da Literatura, e veio ao </span><b><a href="https://personaunesp.com.br/tag/persona-entrevista/">Persona Entrevista</a></b><span style="font-weight: 400;"> compartilhar suas experiências, visões de futuro e revelar mais sobre suas obras.</span></p>
<p><span id="more-28680"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535921878/barba-ensopada-de-sangue">Barba ensopada de sangue</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> narra a história de um protagonista sem nome – por vezes chamado de “nadador” –, um professor de Educação Física que, após o suicídio do pai, se muda para Garopaba, cidade litorânea de Santa Catarina. Esse personagem possui uma condição peculiar (porém existente além da ficção): não é capaz de memorizar rostos. Sob esse contexto, se esquece também de suas próprias feições, percebendo posteriormente que são similares à do seu avô, supostamente assassinado no passado, cujas circunstâncias do crime seguem obscurecidas. A verdade é que </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba</i></span><span style="font-weight: 400;"> é um livro distinto, potente ao revelar as diversas situações e condições que se somam para constituir a identidade dos indivíduos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A edição comemorativa do romance foi uma sugestão que o próprio autor fez à </span><span style="font-weight: 400;"><i>Companhia das Letras</i></span><span style="font-weight: 400;">. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sugeri que a editora fizesse uma edição especial, que sai em Setembro</i></span><span style="font-weight: 400;">”, revela Galera. O livro já está em </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559211289/barba-ensopada-de-sangue-edicao-especial-de-10-anos">pré-venda</a></span><span style="font-weight: 400;"> no </span><span style="font-weight: 400;"><em>site</em></span><span style="font-weight: 400;"> da editora. Em Janeiro e Fevereiro o escritor ministrou um curso, promovido pela </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.matinaljornalismo.com.br/rogerlerina/literatura/livraria-baleia-promove-oficinas-com-daniel-galera-e-marilia-f-kosby/">Livraria Baleia</a></span><span style="font-weight: 400;">, no qual revisitou a obra em uma espécie de leitura guiada junto à companhia do autor. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Também foi uma releitura minha – a primeira vez que eu próprio reli o livro inteiro assim, atentamente, desde a época da publicação</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Foi uma forma de revisitar o livro e perceber o que ele significa pra mim dez anos depois, ver o que eu penso sobre ele e compartilhar essa leitura com o grupo de participantes que se inscreveu. É um ano de comemoração desses dez anos</i></span><span style="font-weight: 400;">”, reflete. Após uma década, </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue </i></span><span style="font-weight: 400;">segue como referência na Literatura brasileira pós virada do milênio.</span></p>
<figure id="attachment_28682" aria-describedby="caption-attachment-28682" style="width: 686px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28682" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-686x1024.jpg" alt="Capa do livro Barba ensopada de sangue. Na imagem, há um fundo vermelho com pequenas manchas em cor branca, simulando fios de barba. À direita, está escrito “Barba ensopada de sangue” em fonte de cor branca. Abaixo, está o logo da editora Companhia das Letras, em fonte de cor branca, e à esquerda está escrito “Daniel Galera”, também em fonte de cor branca." width="686" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-686x1024.jpg 686w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-536x800.jpg 536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-768x1147.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1029x1536.jpg 1029w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1371x2048.jpg 1371w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1200x1792.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS.jpg 1664w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28682" class="wp-caption-text">Barba ensopada de sangue foi eleito o Livro do Ano no Prêmio São Paulo de Literatura, em 2013 (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Em 2022, <i>Barba ensopada de sangue</i> completa 10 anos de lançamento. Qual a importância dele na sua trajetória? Considera esse livro um marco na sua carreira?</b></p>
<p><b>Daniel Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sem dúvidas. Ele foi um marco no sentido de que foi meu livro mais bem recebido, desde o início. É o livro que mais vendeu, ganhou um prêmio importante, o </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://rascunho.com.br/noticias/daniel-galera-e-o-grande-vencedor-do-premio-sao-paulo-de-literatura-2013/">Prêmio São Paulo de Literatura</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, em 2013, e foi um livro que também foi publicado no exterior muito rapidamente, traduzido para 15 idiomas… Então, sim, no contexto da carreira de qualquer autor, é um fenômeno. Foi de longe o livro mais bem sucedido e me colocou num outro patamar de reconhecimento. Até hoje, dez anos depois, é a obra mais comentada e mais lida. A que mais é referenciada quando as pessoas falam de mim, inclusive novos leitores. Continua vendendo aos pouquinhos, mas constantemente. O primeiro capítulo do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> saiu antes do livro ficar pronto, na revista </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://granta.com/">Granta</a></span><span style="font-weight: 400;"><i>, na edição dos </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.publishnews.com.br/materias/2012/07/06/69286-granta-divulga-selecao-de-20-escritores-brasileiros#:~:text=S%C3%A3o%20eles%20(com%20os%20respectivos,na%20pra%C3%A7a%E2%80%9D)%2C%20Emilio%20Fraia">20 Melhores Jovens Escritores Brasileiros</a></span><span style="font-weight: 400;"> (2012)</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>É um livro que tem fãs, pessoas que gostam muito, que entram em contato às vezes em eventos literários ou pela </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>; sei que essas pessoas existem. Tem muita gente nova que começa a me ler por causa dele, porque é um livro que as pessoas indicam umas pras outras no boca a boca também. Já os livros que eu publiquei depois do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> vão em direções diferentes; não é que o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span> <span style="font-weight: 400;">ensopada de sangue </span><span style="font-weight: 400;"><i>tenha marcado o meu trabalho no sentido de eu continuar escrevendo livros como ele. Os meus livros posteriores são diferentes. É um marco, mas também não sei se em termos de estilo, de escrita, ele estabeleça um ‘antes e depois’.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28683" aria-describedby="caption-attachment-28683" style="width: 1750px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28683" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80.jpg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma jaqueta de frio com capuz, em cor preta. " width="1750" height="1750" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80.jpg 1750w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-768x768.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1536x1536.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1200x1200.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28683" class="wp-caption-text">Como tradutor, Daniel Galera já verteu para o português obras de <a href="https://personaunesp.com.br/o-rei-palido-critica/">David Foster Wallace</a>, Simon Stalenhag e Chris Ware (Foto: Tonatiuh Ambrosetti/Fondation Jan Michalski)</figcaption></figure>
<p><b>Como surgiu a ideia para o enredo do <i>Barba</i>? A condição do protagonista, por exemplo, de não reconhecer rostos, me parece algo bastante singular, algo que torna as descrições dos ambientes muito relevantes na obra. Parece haver também uma certa influência do Cormac McCarthy.</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Um romance como o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>, com a extensão que ele tem, com a quantidade de assuntos, temas e elementos que estão incluídos nele, sempre tem múltiplas origens e influências; dificilmente é uma coisa só. Nesse caso, tem algumas que podem ser destacadas como as mais importantes. Talvez a maior de todas seja o fato de que, em 2008, eu fui viver em Garopaba, e isso foi determinante. Me mudei pra lá e fui morar sozinho, assim como o protagonista do livro. Quando eu me mudei, já tinha alguns dos elementos que eu estava planejando incluir no próximo romance, mas ainda não estava formado.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i> </i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Antes de me mudar pra lá, ainda em 2007, eu tinha lido um livro do neurocientista português António Damásio, chamado </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535925906/o-misterio-da-consciencia">O mistério da consciência</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1999)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que saiu pela </i></span><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Nesse livro, ele trata de casos de </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/saude/entenda-o-que-e-a-cegueira-facial-ou-prosopagnosia-que-afeta-o-ator-brad-pitt/#:~:text=A%20prosopagnosia%20%C3%A9%20um%20dist%C3%BArbio,como%20focar%20em%20sua%20voz.">prosopagnosia</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, que são indivíduos com uma lesão cerebral que, como resultado, não conseguem reconhecer ou gravar bem o rosto das outras pessoas e, às vezes, em casos muito severos, o próprio rosto. Eu fiquei fascinado com essa ideia. Guardei isso de um dia colocar como uma característica de algum personagem de livro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Ao mesmo tempo, antes de me mudar pra Garopaba, eu tinha começado a ler os livros do </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://rascunho.com.br/noticias/apos-longo-hiato-cormac-mccarthy-publica-dois-romances-em-2022/">Cormac McCarthy</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, um escritor que fez muito a minha cabeça, fiquei realmente obcecado pela obra dele. Não me lembro exatamente qual foi o primeiro livro dele que eu li, mas foi ou </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556520463/todos-os-belos-cavalos">Todos os belos cavalos</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1992)</span><span style="font-weight: 400;"><i> ou </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788560281268/a-estrada">A estrada</a></span><span style="font-weight: 400;"> (2006)</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Em Garopaba, li todos os livros dele – comprei todos em sebos e livrarias. A obra completa. O que não tinha em português, comprei em inglês. Foi uma influência muito forte, principalmente </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://open.spotify.com/episode/0dcQPLfu3FnNRyEYxukzMk?si=vePR85MDQuK0Ud0WzAST5A">A Travessia</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1994)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, o segundo livro da </i></span><span style="font-weight: 400;">Trilogia da Fronteira</span><span style="font-weight: 400;"><i>, e o </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://blogdoims.com.br/lost-in-translation-por-daniel-galera/">Suttree</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1979)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que é um romance que não foi traduzido pro português e que, inclusive, </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://danielgalera.info/#traducoes">eu vou traduzir</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, mas no segundo semestre deste ano. Já estou em tratativas com uma editora. Esses livros foram bastante importantes também pra definir um pouco o estilo de narração do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> – o tipo de ambientação, de estilo narrativo e de linguagem. A obra do Cormac McCarthy influenciou bastante.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><figure id="attachment_28684" aria-describedby="caption-attachment-28684" style="width: 1257px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28684" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/The-Passenger-by-Cormac-McCarthy-cover.webp" alt="Foto colorida dos livros The Passenger e Stella Maris, respectivamente. Na primeira imagem vemos um céu laranja e, à borda, um rosto de criança em cor azul, com os olhos fechados. Acima está escrito, em fonte de cor branca, Cormac McCarthy, Pulitzer Prize-winning author of the road. Abaixo, de forma centralizada, está escrito The Passenger. Na imagem seguinte, está em destaque o rosto em cor azul da criança, o mesmo da imagem anterior, enquanto à borda esquerda está um pedaço do céu laranja também da imagem anterior. Acima está escrito, em fonte de cor branca, Cormac McCarthy, Pulitzer Prize-winning author of the road. Abaixo, de forma centralizada, está escrito Stella Maris. " width="1257" height="900" /><figcaption id="caption-attachment-28684" class="wp-caption-text">Após 16 anos de hiato, Cormac McCarthy lançará em 2022 dois romances inéditos (<a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556521590/o-passageiro">O Passageiro</a> e <a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556521620/stella-maris">Stella Maris</a>), que chegarão às prateleiras brasileiras no final do ano pelo selo <a href="https://www.instagram.com/p/Ca40MAYtuCY/?igshid=YmMyMTA2M2Y=">Alfaguara</a>, do Grupo Companhia das Letras [Foto: Penguin Random House]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Um dos principais elementos que marcaram a concepção do romance – além das referências literárias e vivência do autor na cidade – foi o fato de que, embora tenha se mudado para Garopaba em 2008, Daniel Galera já conhecia o município como visitante. Seus pais, no período de juventude dos anos 1970, também frequentaram a região, e relataram experiências relacionadas às viagens. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Uma das histórias que eu me lembrava do meu pai ter falado foi que, uma vez, contaram a eles sobre uma figura da cidade que tinha causado problemas e assassinaram essa pessoa num baile dominical</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz Galera.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> A história diz que, com todos os habitantes da pequena cidade no baile, apagaram-se as luzes e esfaquearam o indivíduo; somente depois a iluminação foi restabelecida. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Isso foi uma espécie de justiçamento da comunidade</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz Daniel. Não é absurdo pensar que a aura mítica em torno do protagonista de </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue</i></span><span style="font-weight: 400;"> ganhe forma além da ficção, embora a veracidade da narrativa se perca no emaranhado de meias-verdades que constituem todas as tramas da vida. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>É uma história que contaram aos meus pais, e meu pai contou pra mim – nem dá pra saber se isso realmente aconteceu ou não, pode ser um causo sem fundamento. Mas o fato é que eu guardei essa história, e quando me mudei pra Garopaba eu me lembrei dela. Comecei a imaginar, se essa história fosse real, quem teria sido a pessoa que foi morta, e o motivo de terem matado</i></span><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Daniel Galera responde perguntas dos leitores" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/w65nfdv6Nkk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Juntei todos esses elementos que eu te contei e começou a vir a história desse professor de Educação Física que se muda pra cidade depois que o pai dele se mata, só que antes o pai dele conta sobre a morte do avô, morto em circunstâncias misteriosas em Garopaba, nos anos 1960. Todo esse embrião do romance, da história propriamente dita, vem dessa combinação de coisas. Aí entra o Cormac McCarthy, como um elemento de estilo, entra a prosopagnosia como uma característica definidora desse protagonista, que afeta a história tanto no nível do enredo como no nível da linguagem, do estilo como a história é contada. Como tu falou, essa atenção quase excessiva mesmo pros detalhes tem a ver com a forma desse personagem enxergar o mundo, relacionada também com a prosopagnosia.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Quando eu voltei para Porto Alegre, no final de 2009, comecei de fato a escrever o livro. Eu escrevi só o primeiro capítulo lá em Garopaba – que foi o capítulo que saiu na revista </i></span><span style="font-weight: 400;">Granta</span><span style="font-weight: 400;"><i> –, o restante do romance eu escrevi já em Porto Alegre. O resto é junção de várias histórias, coisas que eu inventei e outros interesses como questões filosóficas sobre o determinismo; meu interesse, na época, pela filosofia da religião budista; meu interesse pela natação – esse aspecto do protagonista do livro, de ser apaixonado por nadar no oceano, é uma coisa minha. Eu sempre gostei muito de fazer isso, participava de travessias e tinha uma paixão por nadar no mar… Então, é um livro que, como uma esponja, absorve dúzias e dúzias de influências, leituras, relatos de coisas que eu ouvi falar, experiências pessoais. Um romance dessa magnitude – digo de extensão, complexidade – acaba pegando elementos dos mais variados tipos.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28688" aria-describedby="caption-attachment-28688" style="width: 1400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28688" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ.jpeg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma camisa de cor verde com botões pretos. O fundo da imagem é cinza." width="1400" height="1875" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ.jpeg 1400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-597x800.jpeg 597w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-765x1024.jpeg 765w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-768x1029.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-1147x1536.jpeg 1147w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-1200x1607.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28688" class="wp-caption-text">“Os personagens não vêm assim de maneira muito imediata pra mim. São elementos da imaginação, interesses pessoais que vão se acumulando, às vezes por um período que demora meses ou anos” (Foto: Suhrkamp Verlag/The Paris Review)</figcaption></figure>
<p><b><i>Barba ensopada de sangue </i>está sendo adaptado para o Cinema pelo diretor <a href="https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/noticia/2022/08/barba-ensopada-de-sangue-livro-de-daniel-galera-vai-ganhar-adaptacao-para-o-cinema.ghtml">Aly Muritiba</a>. No filme mais recente dele, <a href="https://personaunesp.com.br/deserto-particular-critica/"><i>Deserto Particular</i></a>, chama atenção a existência de uma certa importância das paisagens, enquanto se mantém uma violência implícita, um fundo de mistério e um tom mítico que cerca a reconstrução de histórias comuns – características que eu consigo relacionar com o <i>Barba</i>. Queria que você comentasse um pouco sobre isso e essas relações.</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu não vejo muita ligação entre o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> e o trabalho anterior do Muritiba num nível de tema, de enredo, necessariamente. Mas eu acho que tem outras ligações muito interessantes de se pensar. A maneira como ele trata os personagens, e a construção de espaço que ele faz nos filmes dele, eu acho que tem muito a ver com o que acontece no </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>. É algo muito interessado nessa textura da vida real e numa psicologia dos personagens que não é maniqueísta, que não busca ninguém exatamente bom ou mau. As pessoas são complicadas, e tem aspectos iluminados e bacanas, mas aspectos também sombrios e, às vezes, desagradáveis. Ele é muito bom em construir personagens desse tipo e eu fiz muito esforço pra que no romance os personagens fossem assim.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>O livro tem um protagonista que não é um cara legal, em todos os aspectos. Ele é muito estranho, complicado e às vezes uma pessoa que não necessariamente causa coisas boas aos outros. Acho que o Aly tem muita sensibilidade pra ver isso. E esse aspecto do romance que tem a ver com o retrato de um lugar e dos efeitos do progresso contemporâneo, das mudanças políticas e econômicas na vida de uma comunidade pequena, é uma coisa muito importante e eu acho que o Aly é muito bom também em olhar pra isso.” </i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><i>“O que as pessoas fazem? Como elas vivem? À medida em que uma mudança ecológica, uma mudança política ou uma história do passado, uma superstição, afeta, de fato, o que as pessoas precisam fazer pra viver no seu dia a dia, pra tocar suas vidas. Eu acho que o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> é muito feito dessas perguntas e desse olhar pra esses elementos da vida prática das pessoas, e acho que o Aly é muito bom nisso. Eu sou um grande fã do trabalho dele, então estou com expectativa de que ele vai produzir um ótimo filme.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28686" aria-describedby="caption-attachment-28686" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28686" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1.jpeg" alt="Cena do filme Deserto Particular, do diretor Aly Muritiba. Na imagem, à direita, vemos um homem branco de costas, com uma faixa branca enrolada no braço direito, vestindo camiseta e calça de cor preta. Ele está num lugar que se parece com um deserto, repleto por terra, galhos e pequenos arbustos. O céu está acizentado, e ao longe é possível ver postes de luz e fios que os interligam." width="1024" height="575" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1-800x449.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1-768x431.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28686" class="wp-caption-text">Exibido na <a href="https://personaunesp.com.br/tag/45-mostra/">45ª Mostra</a> Internacional de Cinema em São Paulo, Deserto Particular foi a submissão do Brasil na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional em 2021 (Foto: Pandora Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Tem algum trecho do <i>Barba </i>que é o seu favorito? Ou alguma característica desse romance que, como autor e escritor, você considera mais importante?</b></p>
<p><b>Galera:</b> <span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu certamente tenho vários trechinhos que eu gosto muito até hoje, mas lembro de dois que consigo compartilhar assim, no calor da hora. Um deles é toda sequência da caminhada do protagonista pelos morros, quando ele ouve falar que o avô dele pode talvez estar vivo, como um ermitão meio louco que é visto, às vezes, nos morros da região de Garopaba, e resolve sair caminhando pra ver se por acaso encontra o avô ou pelo menos pra se sentir um pouco na pele dele. Gosto de toda a sequência dessa caminhada, que é justamente no mês de outubro de 2008, período em que houve chuvas muito fortes na região de Santa Catarina. Ele faz a caminhada bem nessa época.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>E existe um parágrafo bem curtinho do livro, não sei dizer em que página, mas que comenta sobre as matilhas de cachorros de raça, cachorros grandes, que vivem soltas em Garopaba e ficam meio que circulando à noite, como cachorros meio espectrais. É só um parágrafo curtinho e é baseado um pouco em uma coisa real também. Muitos desses cachorros grandes, de raça, estão abandonados naquela região, e deve ser uma coisa que acontece em muitas praias e locais de férias. As pessoas levam cachorros pras férias e, às vezes, aproveitam pra se livrar deles, quando não aguentam mais cuidar. Fazem a crueldade de simplesmente deixar o cachorro e ir embora.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>O resultado disso é que a gente vê </i></span><span style="font-weight: 400;">rottweilers </span><span style="font-weight: 400;"><i>e pastores alemães transformados nesses cachorros meio magros, andando em matilhas. É um parágrafo só, que quem ler o livro ou procurar talvez encontre, mas é um trecho curtinho que me chamou atenção, e tem vários outros. Gosto da maioria das partes do livro. Eu mudaria algumas coisinhas pequenas, se eu fosse escrever ele hoje, mas não muito. Sou muito feliz com o resultado dele.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28687" aria-describedby="caption-attachment-28687" style="width: 668px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28687" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-668x1024.jpg" alt="Capa da edição inglesa do livro Barba ensopada de sangue. Na imagem colorida, está escrito Blood drenched beard, a novel, de forma centralizada. Blood e Beard estão escritos em cor preta, e Drenched e A novel em cor vermelha. Abaixo, de forma centralizada, está escrito Daniel Galera em fonte de cor branca. À direita, está o logo da editora Penguin Books, que consiste em um penguim branco e preto dentro de uma forma oval em cor laranja. O fundo da imagem é um borrão de cores cinza, azul e sépia. " width="668" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-668x1024.jpg 668w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-522x800.jpg 522w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-768x1178.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1001x1536.jpg 1001w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1335x2048.jpg 1335w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1200x1841.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L.jpg 1650w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28687" class="wp-caption-text">A edição em inglês de Barba ensopada de sangue foi saudada pelo jornal <a href="https://www.nytimes.com/2015/01/20/arts/daniel-galeras-blood-drenched-beard.html">The New York Times</a> (Foto: Penguin Books)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As incursões literárias de Daniel Galera se iniciaram ainda nos anos 1990, como editor e colunista de </span><span style="font-weight: 400;"><i>fanzines</i></span><span style="font-weight: 400;"> literários. Ele se formou em Publicidade e Propaganda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – não porque se interessava em propaganda, mas porque, à época, era o curso que concentrava as pessoas interessadas em “</span><span style="font-weight: 400;"><i>trabalhar com Cinema, com Artes Visuais, com Design, e acabavam indo parar no curso de Publicidade porque havia menos cursos especializados nessas áreas mais artísticas ou técnicas</i></span><span style="font-weight: 400;">”. Interessado em computação, o autor acreditava que seria </span><span style="font-weight: 400;"><i>web designer</i></span><span style="font-weight: 400;">. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu mexia com computador, sabia usar programas de </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> gráfico, de programação de </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>, achava que seria o que na época se chamava </i></span><span style="font-weight: 400;">web designer</span><span style="font-weight: 400;"><i>, ou que trabalharia com </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> de produto ou com </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> visual. Era isso que eu achava que iria fazer quando prestei vestibular</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas foi durante o período universitário que Galera começou a lapidar seu interesse pela Literatura. Ainda na graduação, uma disciplina chamada “Criação em Língua Portuguesa” foi, na prática, uma oficina literária dada pelos professores de Letras. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Me interessei imediatamente por escrever ficção – até pra conseguir os créditos, inicialmente, mas porque era uma coisa que eu gostava. Acho que foi ali que, conhecendo esses professores e conhecendo outros alunos da faculdade que também estavam interessados por escrever ficção – mas sobretudo escrevendo e mostrando os meus textos pra colegas e professores –, percebi que achava que tinha uma vocação e um interesse muito grande em escrever Literatura</i></span><span style="font-weight: 400;">”, conta o autor.</span></p>
<div class="tumblr-post" data-href="https://embed.tumblr.com/embed/post/t:woNz66R949rnURLENv3ruQ/666662303877496832/v2" data-did="8996aefe2a1826db5133ad43955c266792b43f9b"  ><a href="https://www.tumblr.com/dentesguardados/666662303877496832/h%C3%A1-20-anos-criamos-a-editora-livros-do-mal-essas">https://www.tumblr.com/dentesguardados/666662303877496832/h%C3%A1-20-anos-criamos-a-editora-livros-do-mal-essas</a></div>
<p><script async src="https://assets.tumblr.com/post.js?_v=38df9a6ca7436e6ca1b851b0543b9f51"></script></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em meados de 1997 – momento de popularização da </span><span style="font-weight: 400;"><i>internet</i></span><span style="font-weight: 400;"> no Brasil –, Daniel Galera começou efetivamente a participar como colaborador e editor de uma série de </span><span style="font-weight: 400;"><i>fanzines </i></span><span style="font-weight: 400;">eletrônicos e revistas digitais. </span><span style="font-weight: 400;"><i>“Teve uma que eu editei, chamada </i></span><span style="font-weight: 400;">Proa da Palavra</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que era só de Literatura. Pra mim, a escrita veio junto com essa prática de publicar os outros e se auto-publicar na </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>”</i></span><span style="font-weight: 400;">, compartilha Galera. Então, em parceria com colegas de faculdade, criou o </span><span style="font-weight: 400;"><i>mail-zine </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="http://cabrapreta.org/COL/">CardosOnline</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(COL), que foi um pequeno fenômeno. </span><span style="font-weight: 400;"><i>“O </i></span><span style="font-weight: 400;">CardosOnline</span><span style="font-weight: 400;"><i> foi famoso na época, a gente tinha milhares de assinantes no Brasil inteiro e isso me deu um público inicial. Tinha um pessoal que acompanhava esse </i></span><span style="font-weight: 400;">fanzine</span><span style="font-weight: 400;"><i> e acompanhava o meu trabalho desde o início. Foi um incentivo grande”.</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pouco tempo depois, em 2001, em parceria com Guilherme Pilla e com o também escritor </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535922899/digam-a-sata-que-o-recado-foi-entendido">Daniel Pellizzari</a></span><span style="font-weight: 400;">, Galera criou a editora </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/37422">Livros do Mal</a></i></span><span style="font-weight: 400;">. A ideia era publicar em livro “</span><span style="font-weight: 400;"><i>alguns autores dessa nova geração que estavam surgindo na época</i></span><span style="font-weight: 400;">”. Além de publicar nomes como </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://todavialivros.com.br/livros/o-riso-dos-ratos">Joca Reiners Terron</a></span><span style="font-weight: 400;"> e </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/03/paulo-scott-e-indicado-ao-international-booker-prize-por-marrom-e-amarelo.shtml">Paulo Scott</a></span><span style="font-weight: 400;">, os seus primeiros livros também saíram pela </span><span style="font-weight: 400;"><i>Livros do Mal</i></span><span style="font-weight: 400;">: a estreante coleção de contos </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-tobias-carvalho/">Dentes Guardados</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> (2001) e o romance </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535909876/ate-o-dia-em-que-o-cao-morreu">Até o Dia em que o Cão Morreu</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(2003), que foi posteriormente relançado pela </span><span style="font-weight: 400;"><i>Companhia das Letras</i></span><span style="font-weight: 400;"> e adaptado para o Cinema. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Foram livros que eu publiquei de maneira independente; minha carreira começou assim. Não foi planejado, foi acontecendo organicamente. Vários caminhos e encontros que me fizeram perceber que era isso que eu queria fazer. Senti que eu tinha talento pra isso e comecei a vislumbrar que era uma profissão também</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span></p>
<figure id="attachment_28685" aria-describedby="caption-attachment-28685" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28685" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-1024x1024.jpg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera, com as duas mãos no bolso de trás de sua calça. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma camisa xadrez em cores rosa e branco. Ao fundo vemos diversas plantas de cor verde espalhadas em vasos. " width="840" height="840" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28685" class="wp-caption-text">“A Literatura é uma coisa da minha vida. Um gosto, um hobby, uma coisa muito importante”, compartilha Daniel Galera (Foto: Marco Antonio Filho)</figcaption></figure>
<p><b>Como funciona o seu processo de escrita?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Em geral, envolve um período bastante longo em que eu fico só pensando e tomando notas esporádicas dos assuntos que eu acho que podem virar ficção, um período muito longo de pensar no que escrever. Isso envolve, claro, um pouco de pesquisa, procurar leituras que tenham a ver com assuntos ou com estilos que estão me interessando, mas envolve, também, dar um tempo pra imaginação ficar gestando histórias e personagens. Os personagens não vêm de maneira muito imediata pra mim. São elementos da imaginação, interesses pessoais que vão se acumulando, às vezes por um período que demora meses ou anos.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Quando eu começo a escrever, em geral, já sei bastante bem o que eu quero fazer. A escrita do livro em si não costuma ser muito demorada, eu levo em torno de um ano pra fazer um romance. É o período que envolve escrever bastante mesmo, diariamente, e fazer bastante pesquisa que ainda não foi feita, ler muita coisa. Conversar com pessoas, visitar lugares. A gente precisa de subsídios pra aprender sobre um tema ou vivenciar algumas coisas que vão ser úteis pro processo criativo e pra composição da trama.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Digamos que, entre um livro e outro, tem um tempo médio de três, quatro anos, dos quais metade, pelo menos, eu não estou trabalhando no manuscrito, estou procurando a minha história por meio de exercício de imaginação, de anotações, de leitura, de pesquisa. É o momento que eu me encontro agora, por exemplo. Eu publiquei meu último livro </i></span><span style="font-weight: 400;">[O Deus das Avencas] </span><span style="font-weight: 400;"><i>em junho do ano passado. Desde então, não escrevi quase nada, mas estou no processo de procurar o meu próximo trabalho. Estou sempre pensando na direção de um próximo romance ou de um próximo conjunto de histórias.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28689" aria-describedby="caption-attachment-28689" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28689" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido.jpeg" alt="Foto em preto e branco da escritora Hilda Hilst. Na imagem, Hilda está inclinada em uma mesa, olhando para a câmera e segurando na mão direita um cigarro aceso. Ela veste uma camisa social branca e uma calça preta. Possui cabelos loiros. Ao fundo, há uma parede branca com quadros acizentados, além de uma estante com livros." width="1200" height="801" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-800x534.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-1024x684.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-768x513.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28689" class="wp-caption-text">Daniel Galera elenca Hilda Hilst como uma de suas principais referências literárias (Foto: Instituto Hilda Hilst)</figcaption></figure>
<p><b>Você tem um livro brasileiro favorito?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Não acho que seja possível responder isso categoricamente, mas eu sou muito fã da obra da </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535930863/da-prosa">Hilda Hilst</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>. Talvez os livros de ficção dela – seus textos de ficção em prosa – estejam entre as minhas coisas favoritas escritas por uma autora ou um autor brasileiro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>A </i></span><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span><span style="font-weight: 400;"><i>, recentemente, editou a </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535928853/da-poesia">obra completa</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i> dela, em dois volumes: um de poesia e um de prosa; são duas caixas, na verdade, com dois volumes. E talvez seja o meu livro favorito. Se eu tivesse que escolher um só pra poder reler no futuro, acho que seria esse </i></span><span style="font-weight: 400;">[com toda a prosa dela]</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Já reli várias vezes os textos dela, inclusive essa edição nova tem um posfácio meu. Só me dei conta disso agora, mas fica mais um motivo aí pra quem se interessar.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><b><i><a href="https://repositorio.unesp.br/handle/11449/103698">Fluxo-floema</a></i></b> <b>foi uma das coisas que fizeram a minha cabeça como leitor também. </b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Ah, foi? Então tu conhece bem do que eu estou falando. Eu sou apaixonado por esses livros de prosa dela. Já reli muitas e muitas vezes e nunca perde a força. Então, se a gente entender o livro favorito da Literatura brasileira como ‘se fosse obrigado a guardar só um pra poder reler no futuro’, se ficar dessa maneira, eu colocaria a prosa reunida da Hilda Hilst como esse livro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28690" aria-describedby="caption-attachment-28690" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28690" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-683x1024.jpg" alt="Capa do livro o deus das avencas, de Daniel Galera. Na imagem colorida vemos uma arte abstrata, em cores rosa, verde, cinza, branco e roxo, que se assemelha a uma flor. À direta, está escrito em fonte de cor branca, Daniel Galera, o deus das avencas. Acima está o logo da editora companhia das letras, também em cor branca." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28690" class="wp-caption-text">“Eu fui sentindo como o realismo acabou se revelando pra mim apenas mais um gênero, apenas mais uma convenção narrativa”, diz Daniel Galera (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Fazendo um paralelo entre seu último livro e o <i>Barba ensopada de sangue</i>, parece que já havia no <i>Barba </i>uma noção de um futuro perdido, algo que paira sobre a vida do protagonista, mesmo que por razões diferentes daquelas presentes no <em>Deus das Avencas</em>. No <em>Barba</em>, parece estar presente de forma mais subjetiva, enquanto no <i>Deus</i> parece surgir, principalmente, através das condições climáticas e políticas. Você consegue enxergar essa ligação? Se sim, como você lida, nos seus escritos, com essa sensação de “<a href="https://autonomialiteraria.com.br/loja/teoria-politica/fantasmas-da-minha-vida-escritos-sobre-depressao-assombrologia-e-futuros-perdidos/">futuro perdido</a>”, algo que parece ser um horizonte mas que, no capitalismo, nunca se concretiza?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sim, eu acho que dá pra enxergar uma progressão, inclusive colocando nessa progressão o romance que está entre </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i> e o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>: o </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535927979/meia-noite-e-vinte">Meia-noite e vinte</a></span><span style="font-weight: 400;"><i>, que saiu entre um e outro, em 2016. O </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> foi concebido pra ser algo mais atemporal, digamos assim. Ele almeja ter uma estrutura e uma concepção um pouco mítica, uma história que representa um tipo de relação humana ou de experiência da condição humana que seria atemporal, uma coisa que viria pra qualquer época – questões de família, de heroísmo, de formação de identidade, de condição humana em geral. Embora se passe num lugar muito específico, numa época muito específica – e seja um romance, em grande medida, realista –, ele busca ter esse efeito. No entanto, se a gente lê com atenção, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> tem vários elementos ali sobre política, economia e, sobretudo, questões ambientais e ecológicas, que surgem como elementos de ambientação e de construção de espaço, de cenário.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>É um livro que narra, por exemplo, como os pescadores artesanais estão perdendo o seu trabalho pra pesca industrial, e todas as consequências disso pra vida deles e pra economia da cidade. Ele narra como pessoas muito ricas, principalmente, acabam invadindo e ocupando lugares da região que deveriam ser preservados por lei, construindo na cidade e impondo uma urbanização ilegal e esteticamente terrível, e a forma como isso afeta a vida da região. Tem esses elementos ali no </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i>, e enquanto eu escrevia esse romance não pensava num livro que fosse sobre esses assuntos, mas eram assuntos importantes pra aquele lugar, naquela época, então eles acabam aparecendo.”</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Olhando pro </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que é o romance seguinte, que saiu quatro anos depois, já é um livro em que essa questão do fim do mundo e das catástrofes políticas e ecológicas se coloca de uma maneira muito violenta. Ele é um livro sobre isso, sobre como a sensação de que esse mundo construído pelo progresso, pela modernidade, está ruindo no novo milênio, e como isso afeta as expectativas de vida de um grupo de quatro pessoas que eram jovens na virada do milênio e agora são adultos com família, profissão e carreira estabelecida, mas que, assim como todas as expectativas e os sonhos deles pro futuro, estão sendo destruídas pelo rumo político, econômico e cultural da civilização. Então, sim, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte</span><span style="font-weight: 400;"><i> já é um livro sobre esse tema, das crises contemporâneas e da destruição das noções conhecidas do futuro. Ou da substituição por outras outras visões de futuro que eram muito novas e um pouco ameaçadoras.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28691" aria-describedby="caption-attachment-28691" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28691" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-683x1024.jpg" alt="Capa do livro Meia-noite e vinte, de Daniel Galera. Na imagem colorida, vemos um fundo borrado, em cor azul, cinza e branco. À direita, escrito em forma de pontilhado e em cor vermelha, está escrito daniel galera. Abaixo, em fonte de cor branca, está escrito Autor de Barba ensopada de sangue, seguido por Meia-noite e vinte. Mais abaixo, à direita, está o logo da editora Companhia das Letras em cor cinza." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28691" class="wp-caption-text">Meia-noite e vinte retrata com maestria a geração que cresceu nos anos 1990 (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Desse romance, eu depois fui pro </i></span><span style="font-weight: 400;">Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>, publicado cinco anos depois, que é essa reunião de três novelas em que a ideia de fim do mundo e as catástrofes contemporâneas são levadas a um outro patamar, mais especulativo – ou seja, já projetando pra um futuro próximo e também não próximo, um futuro distante, no caso da terceira novela, </i></span><span style="font-weight: 400;">Bugônia</span><span style="font-weight: 400;"><i>. São possíveis desenlaces das crises do presente, ou pelo menos situações ficcionais que tentam elaborar o significado das crises do presente por meio de uma imaginação mais fantasiosa, situada num futuro distante.”</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Se a gente observar, tem uma progressão um pouco coerente entre o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i>, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte </span><span style="font-weight: 400;"><i>e </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Acho que são saltos bem longos entre um livro e outro, na abordagem desse tema das crises contemporâneas e da crise do futuro. Não foi planejada dessa forma, claro. É uma coisa que eu só consigo perceber também como tu e como outros leitores ao olhar pra trás, mas sem dúvida se vê nesses três livros o despertar do meu interesse e da minha preocupação com esses assuntos, e depois o agravamento e a elaboração cada vez mais complexa, em termos de experiência e também de conceito dessas questões, pra mim, e como isso foi se transformando em ficção ao longo desses anos.”</i></span></p>
<p><figure id="attachment_28697" aria-describedby="caption-attachment-28697" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28697" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-scaled.jpg" alt="Fotografia colorida do rompimento da barragem em Brumadinho. Na imagem, retirada de cima, é possível ver uma área repleta por lama de cor marrom. Ao fundo, é possível ver uma enorme área verde. " width="2560" height="1707" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-1536x1024.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28697" class="wp-caption-text">O rompimento da barragem em Brumadinho (MG), controlada pela empresa Vale – antiga Vale do Rio Doce –, caracterizou o maior acidente de trabalho na História do Brasil, e um dos maiores desastres ambientais do país [Foto: Vinícius Mendonça/Ibama]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Poucos meses depois do rompimento da </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://oeco.org.br/noticias/rompimento-da-barragem-de-brumadinho-e-a-primeira-grande-tragedia-ambiental-do-ano/">barragem em Brumadinho</a></span><span style="font-weight: 400;">, que ocorreu em janeiro de 2019, Daniel Galera teve publicado na revista </span><span style="font-weight: 400;"><i>Serrote </i></span><span style="font-weight: 400;">o ensaio </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.revistaserrote.com.br/2019/10/ondas-catastroficas-por-daniel-galera/">Ondas catastróficas</a></i></span><span style="font-weight: 400;">, no qual reflete sobre a dificuldade de manter a narração realista em meio às influências das imagens de catástrofe veiculadas diariamente. No texto, o autor analisa o lugar desse “realismo” na Literatura contemporânea. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu acho que o tipo de excesso e de fenômeno complexo que a gente está vivenciando no presente – em escalas globais, planetárias e universais – acaba revelando o quanto aquilo que a gente entende como ‘realismo’ sempre foi uma convenção narrativa também. A realidade mesmo se tornou muito inapreensível, mesmo com as técnicas do realismo. Parece que tudo escapa às convenções do realismo</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz. </span><span style="font-weight: 400;"><i>O Deus das Avencas</i></span><span style="font-weight: 400;"> ganhou forma como um resultado dessas reflexões.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É curioso pensar que, no mundo frenético e absurdo da contemporaneidade – em que a realidade vem competindo de igual para igual com as </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2022/09/11/imbrochavel-new-york-times-incorpora-o-vocabulario-do-governo-bolsonaro.htm">distopias</a></span><span style="font-weight: 400;"> e a ficção especulativa –, a noção de realismo seja colocada em xeque, devido a uma imposição quase silenciosa das interações sociais por meio da tecnologia. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>A gente vive num tempo que, pelas características culturais, tecnológicas – a própria textura do dia a dia, mediado pelas tecnologias digitais –, tudo nos força a reformular um pouco o que merece ser narrado e como merece ser narrado. Porque algumas coisas se tornaram simplesmente redundantes ou sem sentido. As comunicações pessoais, por exemplo, hoje são feitas quase estritamente por meio de </i></span><span style="font-weight: 400;">WhatsApp</span><span style="font-weight: 400;"><i>, de celulares, de computadores, de telas… Como é que a gente narra isso? Como é que a gente escreve realisticamente sobre isso?</i></span><span style="font-weight: 400;">”, reflete o escritor.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">“Às vezes a fantasia, a ficção científica, o horror, nos dão uma textura e um tipo de emoção e de experiência estética que captura com mais potência a experiência de viver neste presente.”</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse realismo – para além das convenções de escrita e de gênero literário – encontra ressonâncias no que </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://jacobin.com.br/2020/01/o-legado-anticapitalista-de-mark-fisher/">Mark Fisher</a></span><span style="font-weight: 400;"> chamou de “</span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://autonomialiteraria.com.br/loja/teoria-politica/realismo-capitalista/">realismo capitalista</a></span><span style="font-weight: 400;">”, em sua obra homônima de 2009 na qual reflete que, sob a nova roupagem neoliberal do sistema econômico, parece ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. É sob essa perspectiva que </span><span style="font-weight: 400;"><i>Tóquio</i></span><span style="font-weight: 400;">, segunda novela da coletânea </span><span style="font-weight: 400;"><i>O Deus das Avencas</i></span><span style="font-weight: 400;">, parece ganhar espaço, pois em meio às crises ambientais retratadas na trama, os indivíduos buscam uma transcendência do corpo (nesse aspecto, as similaridades com </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535929843/zero-k-romance">Zero K</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> [2016], de </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.terra.com.br/diversao/cinema/ruido-branco-abre-festival-de-cinema-de-veneza-com-satira-a-cultura-americana,1606d970759ddd8dfcec6c3b7b095006f6vywbup.html">Don DeLillo</a></span><span style="font-weight: 400;">, também se mostram visíveis). O interessante é perceber que, mesmo retratando histórias sobre fins – de um possível bem-estar social a um mundo pós-apocalíptico –, Daniel Galera jamais recorre a clichês.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A novela que dá título à coletânea, embora em um formato mais realista – que contempla o aspecto do trabalho anterior do autor –, foge de qualquer percepção alienada da realidade dos protagonistas Lucas e Manuela, às vésperas da eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Por fim, as reflexões sobre a representação não devem se encerrar no novo formato explorado pelo escritor: “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Depois de </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>, estou num impasse, porque eu não sei se dobro a aposta nesse caminho ou se eu vou pra algum lugar inteiramente novo, que não trabalhei ainda</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Bate-papo sobre o livro “O deus das avencas”, com Daniel Galera e Sidarta Ribeiro" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/gYZ1X0qANwA?start=2009&#038;feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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