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	<title>Arquivos Clube do Livro &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>O som do rugido da onça torna o asfalto em rio e naufraga navios</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Sep 2023 20:52:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori “Arre!”  Mesmo que em um deserto, morro ou tomada de construções e blocos de concreto, toda cidade já foi uma floresta. Uma floresta que não se classifica em biomas, espécies de animais e plantas, mas sim em um espírito. A floresta é um nome próprio: um ser gigante e elegante que não apenas &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-som-do-rugido-da-onca-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O som do rugido da onça torna o asfalto em rio e naufraga navios"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31499" aria-describedby="caption-attachment-31499" style="width: 534px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-31499" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/09/81Fh2tD58L._AC_UF10001000_QL80_-534x800.jpg" alt="" width="534" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/09/81Fh2tD58L._AC_UF10001000_QL80_-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/09/81Fh2tD58L._AC_UF10001000_QL80_.jpg 667w" sizes="(max-width: 534px) 85vw, 534px" /><figcaption id="caption-attachment-31499" class="wp-caption-text">O primeiro livro de Micheliny Verunschk pela Companhia das Letras foi mais uma das leituras escolhidas para o Clube do Livro do Persona (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Enzo Caramori</b></p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“Arre!” </span></i></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo que em um deserto, morro ou tomada de construções e blocos de concreto, toda cidade já foi uma floresta. Uma floresta que não se classifica em biomas, espécies de animais e plantas, mas sim em um espírito. A floresta é um nome próprio: um ser gigante e elegante que não apenas oferece minérios, inhames e corpos de rios – além do seu próprio. É um espaço de conhecimento, visão e mundo, que invade até mesmo, no livro </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559210213/o-som-do-rugido-da-onca-vencedor-jabuti-2022"><i><span style="font-weight: 400;">O som do rugido</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559210213/o-som-do-rugido-da-onca-vencedor-jabuti-2022"> da onça</a>, </span></i><span style="font-weight: 400;">a Literatura. </span></p>
<p><span id="more-31498"></span><br />
<span style="font-weight: 400;">E talvez por isso, o célebre romance de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/colaborador/10984/micheliny-verunschk"><span style="font-weight: 400;">Micheliny Verunschk</span></a><span style="font-weight: 400;"> esteja no limiar de classificações e gêneros; porque a realidade da Floresta, mesmo que plausível de ser considerada fantástica, talvez seja mais factual e verídica do que qualquer documento histórico — também sujeito à ficcionalização — ou acontecimento da vida mundana. Porque o que há de mais verdadeiro na História não é somente a aceitação de todas as sequências de violências tidas como o passado do mundo — como o rapto de crianças e a colonização dos imaginários e vidas humanas — mas sim, o que está fora dos livros e está ao nosso redor. A verdade é a Floresta. </span></p>
<figure id="attachment_31500" aria-describedby="caption-attachment-31500" style="width: 758px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31500" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/09/miranha-isabela-e-juri-criancas-indigena-capturadas-martius-e-spix-1.jpg" alt="" width="758" height="511" /><figcaption id="caption-attachment-31500" class="wp-caption-text">Quando se deparou com essas imagens, a escritora descreveu a sensação de ‘‘quando vamos no cemitério ver o túmulo de alguém conhecido” (Foto: Arteologie)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para o relato de violência, de um povo e de um sistema, o vencedor da categoria Romance Literário no </span><a href="https://quatrocincoum.folha.uol.com.br/br/noticias/mercado-editorial/os-premiados-da-64-edicao-dojabuti"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Jabuti</span></a><span style="font-weight: 400;"> de 2022 tensiona a historiografia para, então, retomar a História de um outro ponto de vista. O romance não se inicia nas páginas do livro, mas sim, em uma </span><a href="https://www.folhape.com.br/cultura/livro-o-som-do-rugido-da-onca-expoe-violencias-do-passado-que/176927/"><span style="font-weight: 400;">visita</span></a><span style="font-weight: 400;"> da autora à mostra permanente da </span><a href="http://www.historiadasartes.com/sala-dos-professores/colecao-brasiliana-itau/"><span style="font-weight: 400;">Coleção Brasiliana</span></a><span style="font-weight: 400;"> do Itaú Cultural, na qual se depara com as litogravuras de duas crianças indígenas, registradas pelos pesquisadores naturalistas alemães </span><a href="https://www.iel.unicamp.br/sidis/anais/pdf/GANZER_NATHALIA_NICACIO.pdf"><span style="font-weight: 400;">Karl Von Martius</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Johann Baptist Von Spix. Talvez o que arrebatara Verunschk, para além do sentimento sombrio de se ver o resultado de um regime como a colonialidade, é ver o que se tranca nesses retratos. As duas crianças, denominadas como ‘‘Miranha’’ e ‘‘Juri’’, são fechadas em uma condição meramente taxonômica, enquanto a complexidade de suas crenças e cosmogonias é reduzida à descrição de meros exemplares da fauna brasileira.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, se quebram as trancas. A </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/noticias/os-melhores-livros-de-2021/os-melhores-livros-de-2021"><span style="font-weight: 400;">narrativa</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Iñe-e – raptada, junto de Juri, por Spix e Von Martius e levadas para a Alemanha para serem expostas e violadas, como objetos científicos –, é individual e coletiva, por ressoar tanto as experiências afetivas desse espaço da Floresta, quanto por ressoar e atravessar tempos, comovendo e dialogando com Josefa, uma mulher brasileira que, na narrativa, adentra-se ao complexo terreno da investigação de suas origens.</span></p>
<figure id="attachment_31501" aria-describedby="caption-attachment-31501" style="width: 432px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31501" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/09/10984_gg.jpg" alt="" width="432" height="650" /><figcaption id="caption-attachment-31501" class="wp-caption-text">O novo romance de Verunschk, Caminhando com os Mortos, discorre sobre a intolerância religiosa no Brasil (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">‘‘Começo a devolver a sua linguagem e a recuperar a minha.’’ </span></i><span style="font-weight: 400;">Para o exercício, muitas vezes equivocado nas inúmeras representações da literatura indigenista, de se criar, verdadeiramente, uma Literatura que abrace e se coloque no espaço de pessoas indígenas é necessária uma ruptura. Por isso que os questionamentos e </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/04/o-som-do-rugido-da-onca-fica-entre-a-fabula-e-o-realismo-fantastico.shtml"><span style="font-weight: 400;">leituras críticas</span></a><span style="font-weight: 400;"> que tentem alocar </span><i><span style="font-weight: 400;">O som do rugido da onça </span></i><span style="font-weight: 400;">realismo fantástico ou a fábula – pressupostos que além de reduzir o texto, partem, justamente, de um cânone europeu – perdem-se na fantasmagoria e grandiosidade da escrita de Verunschk. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que existe, essencialmente, é a conjugação de terrenos não premeditados em uma visão ocidental do mundo. Não é exatamente a fantasia que atravessa, por exemplo, a transmutação da menina Iñe-e em uma onça, mas sim um outro sistema de crenças e de subjetividades, no qual a Floresta, o sonho, os mares e a luz são componentes de algo único, vital e multidimensional: </span><a href="https://oglobo.globo.com/um-so-planeta/ailton-krenak-sociedade-precisa-parar-de-olhar-mundo-como-um-supermercado-25169816"><span style="font-weight: 400;">a vida conjunta</span></a><span style="font-weight: 400;"> na Terra. A subversão de um retrato formal é uma das maneiras que o romance realiza sua vingança poética ao sistema que fez de terras antes ocupadas por inúmeros povos e culturas, um país chamado Brasil.</span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">‘‘Letras são animais que, depois de domesticados, apenas obedecem, ele acredita.’’</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">No livro, a retomada de documentos históricos – como os registros do diário de Von Martius, mapas, comentários em redes sociais – traz à vista os arquivos tanto do passado quanto do presente a fim de, a partir da ficção, os completarem em suas faltas, ou até mesmo corrompê-los. Em sua prosa poética, </span><i><span style="font-weight: 400;">O som do rugido da onça </span></i><span style="font-weight: 400;">erode essas imagens e textualidades marmorizadas pelo tempo pela explicitação da culpa colonial, em que o ato de se raptar crianças e tirá-las de suas origens não é acobertado pelo manto da ideologia da época, mas conscientemente reconhecido como uma </span><a href="https://www.scielo.br/j/alea/a/bLNjPK47XLGx47nX7NBXWgj/"><span style="font-weight: 400;">violência</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A possibilidade dessa </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-outubro-de-2022/#:~:text=Saidiya%20Hartman%20%E2%80%93%20Vidas%20rebeldes%2C%20belos%20experimentos%20(432%20p%C3%A1ginas%2C%20F%C3%B3sforo)"><span style="font-weight: 400;">fabulação crítica</span></a><span style="font-weight: 400;"> – de criar em cima de arquivos – dá a liberdade à autora de se colocar no espaço das personagens indígenas, escancarando os apagamentos não só desses documentos, nos quais se prevalece apenas um lado da História, mas também da própria Literatura. É fazer desse conhecimento, construído a partir de uma estrutura lacunar, um outro mundo a ser habitado, </span><a href="https://bravo.abril.com.br/literatura/saidiya-hartman-flip-vidas-rebeldes"><span style="font-weight: 400;">reconstruindo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e corrompendo essas narrativas que silenciaram, em sua maioria, a História dessas vidas.</span></p>
<figure id="attachment_31502" aria-describedby="caption-attachment-31502" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31502" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/09/WhatsApp-Image-2020-04-16-at-14.25.31-800x566.jpeg" alt="" width="800" height="566" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/09/WhatsApp-Image-2020-04-16-at-14.25.31-800x566.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/09/WhatsApp-Image-2020-04-16-at-14.25.31-768x543.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/09/WhatsApp-Image-2020-04-16-at-14.25.31.jpeg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31502" class="wp-caption-text">A autora, finalista do prêmio Oceanos, concede protagonismo às cosmovisões no seu livro (Foto: Denilson Baniwa)</figcaption></figure>
<p><a href="https://select.art.br/a-constelacao-da-onca/"><span style="font-weight: 400;">A onça</span></a><span style="font-weight: 400;">. Guardiã do espaço da Floresta e  força de onde o livro de </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/entrevistas/fichamento/micheliny-verunschk"><span style="font-weight: 400;">Verunschk</span></a><span style="font-weight: 400;"> revolve sua transcriação de mitos, relatos, palavras e sabedorias dos povos originários. A rota por onde Iñe-e, depois de sequestrada de si mesma, volta. Mas ao mesmo tempo, a onça é o fantasma dos que não voltaram. A onça é onde a autora procura e acessa o mundo interno de suas personagens: é por onde ela faz os rios falarem de suas histórias e por onde, pela construção de cidades, foram orientados a estar. É o espírito que torna o livro em outra coisa, talvez um pouco menos humana, e mais bicho. E dessa nova vida, a Literatura ganha uma voracidade, que naufraga os navios que determinaram rotas do trauma, mas, acima de tudo, reitera o barulho dos que não estão mais vivos. </span></p>
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		<title>Sobre a Terra Somos Belos por Um Instante: Ocean Vuong e a escrita como coragem de quem não tem escolha</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Aug 2023 21:14:37 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31358" aria-describedby="caption-attachment-31358" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31358" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press-800x420.png" alt="" width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press-768x404.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press.png 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31358" class="wp-caption-text">A estreia de Ocean Vuong na prosa, após a aclamada reunião de poemas Céu noturno crivado de balas, é um complexo testemunho autobiográfico escolhido pelo Clube do Livro do Persona (Foto: Rocco/Arte: Francisco Tigre)</figcaption></figure>
<p><strong>Mariana Freire de Moraes</strong></p>
<blockquote><p>“<i>Estou escrevendo para você de dentro de um corpo que era teu. O que é o mesmo que dizer: estou escrevendo como um filho.</i>”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas primeiras páginas de </span><a href="https://www.rocco.com.br/livro/sobre-a-terra-somos-belos-por-um-instante/"><i><span style="font-weight: 400;">Sobre a terra somos belos por um instante</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o autor Ocean Vuong constrói sua posição durante toda a narrativa na tentativa de se refazer, se ver e perdoar por meio da alteridade de uma comunicação ao mesmo tempo concreta e hipotética. Através do resgate analítico da memória e da apresentação do ambiente, Vuong, chamado de Cachorrinho pela avó, escreve cartas para sua mãe, analfabeta funcional, revisitando episódios da infância no Vietnã e de sua adolescência nos Estados Unidos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Colonialismo, maternidade, identidade, sexualidade, violência e luto são os pilares do livro, cujos episódios de trauma rememorados traçam um caminho linear para o entendimento da história de três gerações da </span><a href="https://amp.theguardian.com/books/2017/oct/03/ocean-vuong-forward-prize-vietnam-war-saigon-night-sky-with-exit-wounds"><span style="font-weight: 400;">família do escritor</span></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">e as complexidades recalcadas de pessoas estruturadas em meio à guerra, ao preconceito, ao refúgio e à vulnerabilidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Começando pelas memórias quando criança em um Vietnã desestabilizado pela guerra, Cachorrinho – a maneira que Vuong também se retrata em sua escrita – inicia o romance relembrando das primeiras vezes em que sua </span><a href="https://www.anothermag.com/fashion-beauty/14347/bjork-ocean-vuong-in-conversation-another-magazine-aw22"><span style="font-weight: 400;">mãe</span></a><span style="font-weight: 400;"> foi violenta com ele. No acesso à infância, o escritor lembra alguns momentos em que ensina a matriarca a escrever, reproduzindo o que aprendeu naquele dia no jardim de infância. Esse é o momento em que a vulnerabilidade de quem o cria é escancarada para ele e que percebe que possui o que ela precisa para resolver esse problema. De uma forma sutil e perturbadora, esse episódio demonstra a maneira que o autor consegue colocar os dois se olhando do mesmo lugar. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Você é uma mãe, Mãe. Você também é um monstro. Mas eu também sou – e é por isso que eu não posso me afastar de você. E é por isso que eu peguei a mais solitária criação de deus e te coloquei dentro dela.</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<figure id="attachment_31354" aria-describedby="caption-attachment-31354" style="width: 401px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-31354" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/602-559x800.webp" alt="Na foto, duas mulheres e uma criança estão sentadas em um banco de madeira. As mulheres ficam nos cantos, enquanto o bebê no meio. Estão dentro de uma casa, ao fundo, aparece o vulto de outra mulher, do lado de fora do cômodo. Atrás, percebe-se uma janela, uma porta e roupas penduradas. No primeiro plano, uma mulher, ao canto esquerdo, está sentada ao lado de uma criança pequena. Sua pele é amarela, seus cabelos pretos estão presos. Ela veste um macacão branco, com estampa de flores azuis. Está descalça e sorri fixadamente à câmera. Assim como a criança ao seu lado, que também tem cabelos e olhos pretos. Veste uma camiseta branca com uma gola laranja e estampada com desenhos, que está enfiada dentro de um shorts roxo claro. Ao lado da criança, à direita, uma outra mulher, de cabelo curto e preto, na altura do pescoço e com uma franja cortada, também sorri à foto. Ela usa uma blusa rosa clara e uma calça branca. Está de pernas cruzadas." width="401" height="574" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/602-559x800.webp 559w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/602.webp 600w" sizes="auto, (max-width: 401px) 85vw, 401px" /><figcaption id="caption-attachment-31354" class="wp-caption-text">A foto que ilustra a edição estadunidense de Céu noturno crivado de balas retrata o autor com dois anos, ao lado de sua mãe e sua tia no campo de refugiados nas Filipinas (Foto: Ocean Vuong)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Passando pela situação de </span><a href="https://www.acnur.org/portugues/quem-ajudamos/refugiados/"><span style="font-weight: 400;">refugiado</span></a><span style="font-weight: 400;"> quando criança, em um paralelo sensível com o nascimento e morte de sua avó – entre o Vietnã e Estado Unidos –, a narrativa se torna mais política e identitária. A partir do momento que Cachorrinho conta a história das mulheres que o criaram, frutos de um estupro de guerra, nada segue sem que pautas sociais sejam colocadas de forma explícita, no entanto, nunca deixando com que a </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/literatura/como-alguem-pode-ser-uma-sensacao"><span style="font-weight: 400;">poética</span></a><span style="font-weight: 400;"> fique em segundo plano. Assim, Vuong cria uma atmosfera sólida de questionamento, ao mesmo tempo que deixa claro as complexidades subjetivas geradas a partir desses contextos, e quão decisivas são essas condições para que ele seja ele mesmo, a mãe seja a mãe e o país seja o país. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Chegando aos Estados Unidos, na casa de seu pai com quem nunca conviveu, o escritor tem um espaço para descobrir e explorar sua sexualidade (atualmente se identifica como uma pessoa </span><a href="https://g1.globo.com/google/amp/pop-arte/diversidade/noticia/2022/06/29/o-que-e-ser-queer.ghtml"><span style="font-weight: 400;">queer</span></a><span style="font-weight: 400;">). No livro, Vuong relata suas primeiras experiências com um homem pobre como ele, porém branco: Trevor, a única pessoa com quem ele realmente desenvolve uma relação além de sua mãe e avó. De uma forma totalmente analítica, o escritor apresenta todas as fases dessa relação, passando pelo estranhamento, o escatológico, as drogas, o entendimento, a identidade, o amor e a morte. Cachorrinho pôde conhecer a vulnerabilidade e a violência do amor e de uma relação que requer um entendimento político, social, subjetivo e identitário que não foi apresentado a nenhum dos dois, tornando tudo mais difícil e mais intenso na mesma medida.</span></p>
<figure id="attachment_31355" aria-describedby="caption-attachment-31355" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31355" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-800x583.webp" alt=" Sob o fundo de um arbusto flores vermelhas, o autor, criança, é segurado no colo por sua mãe, que tem seu cabelo cacheado cortado curto e usa uma camisa manga longa vermelha, com uma estampa preta na frente. A criança usa uma camiseta polo branca com listras azuis claras e escuras, e uma parte de baixo azulada. Segura um coelho de pelúcia branco, com detalhes lilases." width="800" height="583" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-800x583.webp 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-1024x746.webp 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-768x560.webp 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-1536x1119.webp 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-2048x1492.webp 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-1200x875.webp 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31355" class="wp-caption-text">Quando sua mãe faleceu de complicações de um câncer de mama, Vuong demonstrou seu luto nas redes sociais: ‘‘(&#8230;) você me ensinou que nossa dor não é nosso destino – mas nossa razão.’’ (Foto: Ocean Vuong)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O resgate da memória nas passagens da infância no meio da narrativa linear da história do Cachorrinho é o traço mais analítico de </span><i><span style="font-weight: 400;">Sobre a Terra Somos Belos por um Instante</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ocean Vuong usa a </span><a href="https://www.theguardian.com/books/2023/jun/03/ocean-vuong-i-dont-believe-writer-should-just-keep-writing-as-long-as-theyre-alive-time-is-a-mother-paperback"><span style="font-weight: 400;">escrita</span></a><span style="font-weight: 400;"> como ferramenta de articulação e busca, narrando sempre em primeira pessoa e, diretamente com a sua mãe, faz com que o objetivo de suas cartas nunca seja esquecido: dizer que se é. As coisas mais duras são lembradas de um jeito poético e grotesco, e quase sempre seguidas de uma imagem que bate de frente com a beleza apresentada de forma visual pela escrita. </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Uma vez você me perguntou o que é ser um escritor. Então vamos lá. Sete dos meus amigos estão mortos. Quatro de overdose.”</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Cachorrinho tem acesso ao </span><a href="https://talkeasypod.com/ocean-vuong/"><span style="font-weight: 400;">significado social</span></a><span style="font-weight: 400;"> de sua existência a partir do momento em que começa a reunir os episódios traumáticos de sua vida e colocá-los em uma posição de questionamento: ser um homem vietnamita refugiado, queer, adicto e pobre nos Estados Unidos </span><a href="https://gayletter.com/ocean-vuong/"><span style="font-weight: 400;">significa algo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Além disso,as pessoas em volta dele fazem parte desse significado e a escrita tem o papel de síntese de sua própria vida. É como se, caso não fosse um escritor, Vuong jamais poderia contar quem é a ninguém, nem mesmo a sua mãe.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Ocean Vuong Shares His Advice for Aspiring Writers | Louisiana Channel" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/mG7JpAg1mrw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">A busca pela </span><a href="https://www.gq.com/story/ocean-vuong-interview"><span style="font-weight: 400;">identidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> nunca acaba, mas toma um outro caráter. Depois que Cachorrinho entende sua existência, quem sua mãe e sua avó foram, e quem seu novo país abriga, o fluxo se torna outro e assume uma calma assustada de quem sabe que seu lugar está predefinido. Então, a subjetividade assume, mais que nunca, o papel de resgate do que nunca foi dado e uma possibilidade de se reconhecer no mundo. A escrita é o que salva: é o que salvou Cachorrinho de sua relação com sua mãe, que termina o livro rindo enquanto se lembra. </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Porque o pôr do sol, assim como a sobrevivência, existe apenas à beira de seu desaparecimento. Para ser belo, você primeiro precisa ser visto, mas ser visto sempre permite que você seja caçado.”</span></i></p></blockquote>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/sobre-a-terra-somos-belos-por-um-instante/">Sobre a Terra Somos Belos por Um Instante: Ocean Vuong e a escrita como coragem de quem não tem escolha</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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		<title>Estante do Persona &#8211; Maio de 2023</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Jun 2023 20:38:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Depois de apreciar a vida da gente fina Rita Lee, em Rita Lee: uma autobiografia, o Clube do Livro do Persona alçou voo para trajetos marcados por cicatrizes profundas. Em Maio de 2023, nossos leitores tiveram a oportunidade de conhecer os relatos melancólicos do primeiro Romance do poeta Ocean Vuong, Sobre a terra somos &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-maio-de-2023/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Estante do Persona &#8211; Maio de 2023"</span></a></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-maio-de-2023/">Estante do Persona &#8211; Maio de 2023</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<figure id="attachment_31209" aria-describedby="caption-attachment-31209" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31209" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/estantemaiowp-1-800x420.jpg" alt="" width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/estantemaiowp-1-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/estantemaiowp-1-768x404.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/estantemaiowp-1.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31209" class="wp-caption-text">Nas profundezas de um intimismo visceral, Sobre a terra somos belos por um instante foi a leitura do Clube do Livro de Maio (Foto: Rocco/ Arte: / Texto de abertura: Jamily Rigonatto)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de apreciar a vida da gente fina Rita Lee, em </span><a href="https://personaunesp.com.br/rita-lee-uma-autobiografia-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Rita Lee: uma autobiografia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o Clube do Livro do Persona alçou voo para trajetos marcados por cicatrizes profundas. Em Maio de 2023, nossos leitores tiveram a oportunidade de conhecer os relatos melancólicos do primeiro Romance do poeta Ocean Vuong, </span><i><span style="font-weight: 400;">Sobre a terra somos belos por um instante</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Carregando uma carga emocional de proporções ímpares, o texto chegou ao Brasil em 2021 pela editora Rocco, e conta com tradução de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=0jydA7eIN5Y"><span style="font-weight: 400;">Rogério Galindo.</span></a><span style="font-weight: 400;"> Na trama, narrada melodicamente pelo protagonista Cachorrinho, somos apresentados a uma história sobre lembranças familiares, amores silenciados e revelações angustiadas que por muito tempo estiveram em cativeiro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><a href="https://www.theguardian.com/books/2019/jun/09/ocean-vuong-on-earth-we-are-briefly-gorgeous-interview"><span style="font-weight: 400;">livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> apresenta uma linguagem bastante singular e caminha por um espaço fluido entre a convencionalidade dos romances e a indefinição literária. Através de termos rítmicos e bastante poetizados, a sensação é de fazer parte de um espaço tão consciente quanto imprevisto. As 224 páginas não podem se classificar diretamente como poesia, mas absolutamente repousam sobre os limites de uma vulnerabilidade encantadora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra ainda reflete espectros sociais, econômicos e raciais, já que trata sobre os laços familiares de imigrantes vietnamitas vivendo nos Estados Unidos. Os tons das discussões relacionadas a papéis de </span><a href="https://www.today.com/tmrw/earth-we-re-briefly-gorgeous-author-ocean-vuong-how-queerness-t219397"><span style="font-weight: 400;">gênero e sexualidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> também ganham grandes doses de protagonismo, lembrando que a sinceridade de ser e sentir é bela por muito mais que um instante. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E enquanto o tempo continua seu trabalho marcando as vidas no eterno mistério dos momentos, as palavras continuam compondo a emoção daqueles que as apreciam. Por isso, o</span><b> Estante do Persona de Maio de 2023</b><span style="font-weight: 400;"> segue com suas dicas e opiniões sobre os mais variados temas abordados pela </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/estante-do-persona/"><span style="font-weight: 400;">Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span id="more-31196"></span></p>
<h3>Livro do Mês</h3>
<figure id="attachment_31206" aria-describedby="caption-attachment-31206" style="width: 539px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31206" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/61ipj1oNg5L._AC_UF10001000_QL80_-539x800.jpg" alt="" width="539" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/61ipj1oNg5L._AC_UF10001000_QL80_-539x800.jpg 539w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/61ipj1oNg5L._AC_UF10001000_QL80_.jpg 674w" sizes="auto, (max-width: 539px) 85vw, 539px" /><figcaption id="caption-attachment-31206" class="wp-caption-text">A leitura do Clube do Livro do Persona é a estreia do premiado autor, por seus livros de poesia, no romance (Foto: Rocco)</figcaption></figure>
<p><b>Ocean Vuong — Sobre a terra somos belos por um instante (</b><b>224 páginas, Rocco)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As <a href="https://personaunesp.com.br/category/literatura/">leituras do Persona</a> já transitaram em vários dos temas que abatem a prosa poética de Ocean Vuong em </span><a href="https://www.rocco.com.br/livro/sobre-a-terra-somos-belos-por-um-instante/"><i><span style="font-weight: 400;">Sobre a terra somos belos por um instante</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i><span style="font-weight: 400;">Em sua instância epistolar, Vuong preenche os vazios emocionais e sociais que o separa e, complexamente, o une a sua mãe — uma mulher vietnamita analfabeta, a quem escreve  —; não muito diferente do que </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/annie-ernaux/"><span style="font-weight: 400;">Annie Ernaux</span></a><span style="font-weight: 400;"> faz do retrato paterno em </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-setembro-de-2022/#:~:text=Annie%20Ernaux%20%E2%80%93%20O%20lugar%20(72%20p%C3%A1ginas%2C%20F%C3%B3sforo)"><i><span style="font-weight: 400;">O lugar</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">ou à brutal ficcionalização de si em Marguerite Duras. No entanto, mesmo que os feitos do jovem poeta ressoem a uma memória quase corporal de textos sobre a maternidade e que almejam alcançar o sentido entre o sentimento, ancestralidade e de remorso de relações problemáticas, como os poemas de </span><a href="https://claudiowiller.wordpress.com/2014/06/03/kaddish-de-allen-ginsberg-1926-1997/"><span style="font-weight: 400;">Allen Ginsberg</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/louise-gluck-por-camila-assad/"><span style="font-weight: 400;">Louise Gluck</span></a><span style="font-weight: 400;">, Vuong aprimora o gênero a partir de uma literatura em que a ternura é dimensionada a partir da violência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir de uma maestria na construção de <a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-novembro-de-2022/#:~:text=Do%20autor%20lusitano,%E2%80%93%20Raquel%20Freire">imagens poéticas</a> intrincadas, o narrador se utiliza de metáforas como pedras, que afogam o leitor em seu fluxo de rememoração e conciliação com sua história pessoal e sua história política: um estudo do ato de ser estrangeiro nos terrenos da masculinidade e da branquitude estadunidense. Em seu tom evocativo, </span><i><span style="font-weight: 400;">Sobre a terra </span></i><span style="font-weight: 400;">faz suas páginas como um arcabouço de memórias, um espaço onde os traumas de uma guerra, os </span><a href="https://open.spotify.com/episode/2fsqF9NvdDmomoOZBo2vte?si=8FK-Q8E2SFe_M4Rv_htMVw"><span style="font-weight: 400;">mitos de uma nação</span></a><span style="font-weight: 400;"> e as fragilidades individuais se convergem na habilidade única desse sistema: de sentir tudo ao redor de si. E, nisso, de maneira extremamente sensorial, Ocean Vuong faz de sua escrita um próprio corp</span><span style="font-weight: 400;">o.</span></p>
<p><iframe title="Spotify Embed: Sobre a terra somos belos por um instante - Clube do Livro Maio 2023" style="border-radius: 12px" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/00H1sglaTjWSyV0gJqRfhx?si=a8108e7cacbd4e25&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
<hr />
<h3>Dicas do Mês</h3>
<figure id="attachment_31203" aria-describedby="caption-attachment-31203" style="width: 460px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31203" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/o-mundo-perdido-1.jpeg" alt="Capa de O Mundo Perdido. Na imagem há centralizado o título em letras maiúsculas vermelhas contornadas de branco que vão até a metade da capa onde encontram uma ilustração de um fóssil de dinossauro da espécie Velociraptor mongoliensis em uma versão de esboço, abaixo do desenho há nome do autor e o logo da editora, os elementos estão dispostos sobre um fundo vermelho vivo" width="460" height="667" /><figcaption id="caption-attachment-31203" class="wp-caption-text">O Mundo perdido é a única continuação de um romance escrito por Michael Crichton (Foto: Aleph)</figcaption></figure>
<p><b>Michael Crichton &#8211;  O Mundo Perdido (488 páginas, Editora Aleph)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na continuação de seu romance mais famoso, </span><a href="https://editoraaleph.com.br/produto/jurassic-park/"><i><span style="font-weight: 400;">Jurassic Park</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, Michael Crichton, a pedido do próprio Steven Spielberg, que almejava a sequência do </span><a href="https://personaunesp.com.br/jurassic-park-30-anos/"><span style="font-weight: 400;">filme homônimo</span></a><span style="font-weight: 400;">, escreveu </span><i><span style="font-weight: 400;">O Mundo Perdido</span></i><span style="font-weight: 400;"> – nome inspirado na obra de Arthur Conan Doyle. Trazendo de volta o então coadjuvante do livro anterior, Ian Malcom, como protagonista, que após descobrir que não havia apenas uma ilha com dinossauros “ressuscitados” via engenharia genética, tem que organizar uma expedição de resgate a um colega que descobriu a localização dessas terríveis criaturas pré-históricas do pior modo possível.</span></p>
<p><a href="https://editoraaleph.com.br/produto/o-mundo-perdido-2/"><i><span style="font-weight: 400;">O Mundo Perdido</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> tem tons muito mais assustadores que seu predecessor, com passagens brutais, uma ambientação mais sombria e misteriosa, além de um ritmo de ação ainda mais instigante. O romance apresenta novos personagens muito bem desenvolvidos, como Sarah Harding, especialista em comportamento animal que encontra hábitos curiosos e até macabros nos seres da ilha. Crichton mais uma vez mergulha no universo da bioética e explora conceitos inovadores para a época. </span><b>&#8211; Guilherme Dias Siqueira</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_31202" aria-describedby="caption-attachment-31202" style="width: 395px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-31202" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/sobre-os-ossos-dos-mortos-1.jpg" alt="Capa do livro Sobre os ossos dos mortos. Há uma ilustração ambientada em uma floresta no inverno, coberta de neve e com várias árvores de tons variados com galhos secos, o céu é preto. No fundo da foto há uma pequena cabana de madeira. Na frente, cobrindo grande parte da capa, há vários animais entre as árvores, o primeiro, da esquerda para a direita, é um lobo marrom, que está sobre as duas patas e segura uma corda amarela. Ao seu lado direito, há um pássaro azul sentado, segurando seus joelhos, abaixo dos dois há alguns ossos no sobre a neve. No centro da capa há um crânio de um cervo, e mais acima e a direita, uma cabeça de coelho rosa escorrendo sangue. Em branco, no canto superior esquerdo, há o nome do livro, Sobre os ossos dos mortos, e, acima, em azul claro, há o nome da autora, Olga Tokarczuk." width="395" height="598" /><figcaption id="caption-attachment-31202" class="wp-caption-text">“Não há dúvida de que toda a sabedoria deriva da ira, pois a ira é capaz de ultrapassar quaisquer limites” (Foto: Editora Todavia)</figcaption></figure>
<p><b>Olga Tokarczuk &#8211; Sobre os ossos dos mortos (256, Todavia)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://todavialivros.com.br/livros/sobre-os-ossos-dos-mortos"><span style="font-weight: 400;">Sobre os ossos dos mortos</span></a><span style="font-weight: 400;">, Janina Dusheiko enfrenta o dia-a-dia no interior polonês como uma excêntrica professora de inglês. Um de seus traços mais marcantes se deve a sua singular preferência pela companhia de animais a seres humanos, combinada com sua crença intocável no estudo de astros e negação a se referir aos seus vizinhos pelos próprios nomes. Assim, seu caráter imutável é formado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A rotina na pacata vila polonesa passa por algumas mudanças a partir do momento em que mortes tomam conta do cenário frio e a temática principal do livro passa a girar em torno do existencialismo humano e da convivência com o natural. Na obra, a ganhadora do Nobel de 2018, </span><a href="https://bellamais.correiodopovo.com.br/negociosefinancas/carreira/conhe%C3%A7a-olga-tokarczuk-a-15%C2%AA-mulher-a-receber-o-nobel-de-literatura-1.371747"><span style="font-weight: 400;">Olga Tokarczuk</span></a><span style="font-weight: 400;"> parece compreender e exemplificar com excelência o ditado popular: “a caça se virou contra o caçador”.  </span><b>&#8211; Amabile Zioli</b></p>
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<figure id="attachment_31204" aria-describedby="caption-attachment-31204" style="width: 407px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-31204" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/malibu-renasce-1-713x1024-1-557x800.jpg" alt="A capa do livro de Malibu Renasce é uma fotografia da costa da cidade de Malibu, na Califórnia. A foto tem tons rosados e possui uma angulação bem aberta, dando destaque à paisagem e, principalmente, ao céu. O título “Malibu” tem destaque, está na cor branca e em letra cursiva, enquanto “Renasce” é em um tom marrom com detalhes em verde água, fonte sem serifa e em caixa alta. Quase centralizado, temos o nome da autora “Taylor Jenkins Reid” em caixa alta, e “Autora do best-seller Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” seguindo logo abaixo em menor tamanho. A parte inferior da capa é a praia e a costa de Malibu, que possui carros, palmeiras, casas e montanhas." width="407" height="585" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/malibu-renasce-1-713x1024-1-557x800.jpg 557w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/malibu-renasce-1-713x1024-1.jpg 713w" sizes="auto, (max-width: 407px) 85vw, 407px" /><figcaption id="caption-attachment-31204" class="wp-caption-text">“Nossas histórias familiares são simplesmente histórias. São mitos que criamos sobre as pessoas que vieram antes de nós, a fim de dar sentido a nós mesmos.” (Foto: Editora Paralela)</figcaption></figure>
<p><b>Taylor Jenkins Reid &#8211; Malibu Renasce (360 páginas, Editora Paralela)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Malibu, além de ser famosa por suas mansões, incêndios e pela canção da Miley Cyrus, é casa de mais um dos livros de </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-sete-maridos-de-evelyn-hugo-critica/"><span style="font-weight: 400;">Taylor Jenkins Reid</span></a><span style="font-weight: 400;">. Em uma narrativa cheia de mar, </span><i><span style="font-weight: 400;">surf</span></i><span style="font-weight: 400;"> e ondas, os irmãos Riva mostram como tudo pode mudar em apenas uma noite. Apesar de se diferenciar dos outros livros da autora pela narrativa mais vagarosa, a profundidade e carisma de Nina, Jud, Jay e Kit nos cativa até a última página. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Abordando temas como abandono parental, alcoolismo e traição, a história do quarteto passa longe de ser sobre a busca pelo romance de verão e foca nos laços de família &#8211; que, apesar dos nós, possuem a força para resistirem ao fogo e a beleza de renascer a cada incêndio. </span><b>&#8211; Clara Sganzerla</b></p>
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<figure id="attachment_31200" aria-describedby="caption-attachment-31200" style="width: 433px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31200" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/a-cabeca-do-santo-1.jpg" alt="Capa do livro A cabeça do santo, de Socorro Acioli, publicado pela editora Companhia das Letras. A capa é inteiramente composta por um amarelo vibrante. No centro, há o perfil de uma cabeça preta, parecida com a de um manequim, e ela aparenta estar “apoiada” no chão. Acima dela está o título, centralizado, escrito em letras maiúsculas; cada palavra está em uma linha. Abaixo dela está o nome da autora, que segue a mesma diagramação que o título. Também centralizado, na parte inferior da capa, está o logo da editora." width="433" height="650" /><figcaption id="caption-attachment-31200" class="wp-caption-text">“Era tudo tão lindo que nem coube nos seus pequenos sonhos. Ela precisou aprender a sonhar mais” (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Socorro Acioli &#8211; A cabeça do santo (176 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após vinte dias de caminhada, Samuel chega em Candeia, cidade nordestina quase fantasma para realizar o último pedido de sua mãe: encontrar a avó e o pai que nunca conheceu. Ao chegar, se depara com uma gigantesca cabeça oca, que pertence a estátua inacabada de Santo Antônio e passa a ser seu abrigo por algumas semanas. O protagonista de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535923698/a-cabeca-do-santo"><i><span style="font-weight: 400;">A cabeça do santo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> descobre o dom de escutar as preces feitas ao santo e se une a Francisco, um jovem da cidade, para explorar comercialmente esse dom e trazer vida para aquele lugar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre gargalhadas e revelações icônicas, Socorro Acioli é capaz de enunciar crenças nordestinas, superstições e exploração da fé alheia. Sempre com um toque de absurdo, ela recorre ao amado realismo mágico que se mescla com sentimentos e conflitos inerentes ao ser humano, representados nas várias situações que Samuel e os outros personagens vivem. Além de carregar um tom regional e cultural brasileiríssimo, a obra dialoga, também, com o resto da América Latina, por sua forte referência a outros autores, escritas e obras dessa rica literatura – um exemplo é </span><a href="https://www.amoralivros.com.br/post/Entrevista-com-Socorro-Acioli"><span style="font-weight: 400;">Gabriel García Márquez</span></a><span style="font-weight: 400;">, que admirou e aprovou a criação da autora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro se destaca por garantir uma experiência emocionante, de um drama simples e sutil que, ainda assim, tem o poder de reverberar no leitor por muito tempo. As revelações dos mistérios, causas e segredos são bem trabalhadas e objetivas; aqui, a autora prova que menos é mais. Poucas palavras foram o suficiente para </span><a href="https://www.agenciariff.com.br/autores/socorro-acioli/"><span style="font-weight: 400;">Socorro</span></a><span style="font-weight: 400;"> construir uma história emblemática marcada pela relação entre fé e maldição no sertão cearense. </span><b>&#8211; Raquel Freire</b></p>
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<figure id="attachment_31199" aria-describedby="caption-attachment-31199" style="width: 431px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-31199" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Como-Matei-Minha-Querida-Familia-1-550x800.jpg" alt="No centro da capa, temos o título Como Matei Minha Querida Família, com o eixo centralizado à esquerda, em letras garrafais na cor preta. A frente da palavra “querida”, temos a frase “bizarra, adorável, tóxica”, escrita em letra de mão na cor branca. À direita da palavra “minha”, temos o nome da autora, Bella Mackie, em letras garrafais menores que o título na cor branca. Na parte superior direita, temos um escrito amarelo com letras de mão na cor azul, dizendo “Este livro me trouxe o prazer da leitura depois da pandemia- Jojo Moyes”. Na parte inferior direita, temos o desenho de uma mulher em preto e branco. Ela segura uma pá frente ao que parece ser uma estrutura quebradiça. Ela veste um top e uma calça jeans brancos e sapatos pretos. No centro inferior, encontramos o nome da editora, Darkside, em letras pequenas e brancas. O fundo da capa é rosa." width="431" height="627" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Como-Matei-Minha-Querida-Familia-1-550x800.jpg 550w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Como-Matei-Minha-Querida-Familia-1.jpg 687w" sizes="auto, (max-width: 431px) 85vw, 431px" /><figcaption id="caption-attachment-31199" class="wp-caption-text">A sinopse do livro descreve a narrativa como uma mistura de Kill Bill com Killing Eve (Foto: Darkside)</figcaption></figure>
<p><b>Bella Mackie &#8211; Como Matei Minha Querida Família (256 páginas, Darkside)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://darkside.blog.br/lancamento-como-matei-minha-querida-familia-por-bella-mackie/"><i><span style="font-weight: 400;">Como Matei Minha Querida Família</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a autora </span><a href="https://darkside.blog.br/bella-mackie-para-uma-mulher-ser-agradavel-significa-ser-passada-para-tras/"><span style="font-weight: 400;">Bella Mackie</span></a><span style="font-weight: 400;"> descreve a protagonista Grace Bernard como uma anti-heroína. Nas palavras de Bella, Grace é até mesmo capaz de “</span><i><span style="font-weight: 400;">superar anti-heróis como Patrick Bateman, o Psicopata Americano</span></i><span style="font-weight: 400;">”. A história do livro não deixa dúvidas disso, pois, o que acompanhamos ao longo das mais de 200 páginas, é uma tórrida jornada de vingança da jovem contra a família que nunca a acolheu, especialmente o pai.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse sentido, o livro impressiona pelas interessantes reviravoltas e um humor ácido. Além disso, a obra concretiza seu espaço no </span><i><span style="font-weight: 400;">hall </span></i><span style="font-weight: 400;">de sátiras atuais da burguesia, uma tendência narrativa que vem sendo chamada de </span><a href="https://www.contagious.com/news-and-views/eat-the-rich-is-the-dominant-creative-narrative-for-advertising"><i><span style="font-weight: 400;">eat the rich</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(</span><i><span style="font-weight: 400;">devore os ricos</span></i><span style="font-weight: 400;">, na tradução para o português). Inclusive, conforme o decorrer dos acontecimentos, percebemos que Grace toma o nome da tendência como uma ordem e a cumpre sem pestanejar. </span><b>&#8211; Nathan Nunes</b></p>
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<figure id="attachment_31198" aria-describedby="caption-attachment-31198" style="width: 406px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-31198" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/A-vagabunda-1-.jpg" alt="Capa do livro A Vagabunda. Na imagem há a ilustração de uma mulher se olhando no espelho. Ela aparece sombreada, mas no reflexo é possível ver seu rosto completo com feições sérias e marcadas. Em sua penteadeira há um perfume e uma escova de cabelo antigos. O fundo tem tom de rosa salmão. O título está na parte superior grafado em letras pretas. O nome da autora aparece na porção inferior em letras amarelas." width="406" height="599" /><figcaption id="caption-attachment-31198" class="wp-caption-text">Por baixo dos frangalhos da leitura social de uma mulher, A Vagabunda estraçalha os papéis de gênero (Foto:Imã Editorial)</figcaption></figure>
<p><b>Sidonie Gabrielle Colette &#8211;  A Vagabunda (286 páginas, Imã Editorial)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Protagonizado e narrado pela personagem Renée Néré, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Vagabunda</span></i><span style="font-weight: 400;"> explora a história de uma autora que teve seus livros roubados pelo próprio marido. Sem perspectivas ou recursos financeiros, ela parte para o mundo artístico e passa a se apresentar em palcos do </span><a href="https://www.bemparana.com.br/noticias/uma-visita-aos-truques-do-bas-fond-parisiense/"><span style="font-weight: 400;">bas-fond parisiense</span></a><span style="font-weight: 400;">. Chamar atenção como personalidade dos holofotes culmina em reprovação masculina e, a partir disso, Vagabunda se torna quase um codinome. O texto foi publicado pela primeira vez em 1910 sob o nome de </span><i><span style="font-weight: 400;">The Vagabond</span></i><span style="font-weight: 400;">, mas só chegou ao Brasil em 2019, com tradução de Julio Silveira.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre testemunhos extremamente vívidos e a complexidade das escolhas lexicais, a obra se apoia em pensamentos e reflexões muito a frente do tempo que marca sua estreia, e prova que, para as mulheres, o contexto social nunca optou por demonstrar o mínimo de contentamento. Ao expor a violência do patriarcado com tamanho detalhismo, </span><a href="https://vermelho.org.br/coluna/colette-uma-mulher-extraordinaria/"><span style="font-weight: 400;">Colette</span></a><span style="font-weight: 400;"> marcou as discussões do movimento feminista com uma destreza inigualável. Em um mundo comandado por gravatas pomposas e discursos vazios, ser vagabunda é um ato de resistência. &#8211; <strong>Jamily Rigonatto</strong></span></p>
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		<title>Estante do Persona &#8211; Abril de 2023</title>
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		<pubDate>Wed, 31 May 2023 20:42:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A edição do Clube do Livro de Abril marca o vigésimo encontro do grupo de leitores do Persona. Depois de caminharem por autores e, principalmente, autoras, que expandiram todos os limites das perspectivas, foi a vez de dar de cara com a marcante figura do rock brasileiro, Rita Lee, em Rita Lee: uma autobiografia. Falecida &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-abril-de-2023/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Estante do Persona &#8211; Abril de 2023"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31019" aria-describedby="caption-attachment-31019" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31019" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/capawp_estantepersona-800x420.jpg" alt="Imagem retangular de fundo verde. Do lado direito está o livro Rita Lee: uma autobiografia, ele tem capa laranja, com um RG da artista no centro e o nome Rita Lee em cima. Do lado esquerdo há três livros empilhados nas cores preto, vermelho e violeta, o texto Estante do Persona Abril de 2023 aparece nas lombadas. " width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/capawp_estantepersona-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/capawp_estantepersona-768x404.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/capawp_estantepersona.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31019" class="wp-caption-text">Caminhando pela singularidade subversiva de uma das maiores artistas do Brasil, o Clube do Livro de Abril contemplou Rita Lee: uma autobiografia (Foto: Globo Livros/ Arte: Raíra Tiengo/ Texto de abertura: Jamily Rigonatto)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A edição do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/clube-do-livro/"><span style="font-weight: 400;">Clube do Livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Abril marca o vigésimo encontro do grupo de leitores do </span><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;">. Depois de caminharem por autores e, principalmente, autoras, que expandiram todos os limites das perspectivas, foi a vez de dar de cara com a marcante figura do </span><i><span style="font-weight: 400;">rock brasileiro,</span></i><span style="font-weight: 400;"> Rita Lee, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Rita Lee: uma autobiografia</span></i><span style="font-weight: 400;">. Falecida no dia 8 de Maio de 2023, a contemplação da obra da artista se formata em tons de saudosismo e admiração. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em pequenos relatos que caminham desde a infância até a vida adulta agitada, o texto encara a distinção das fases em períodos curtos, palavras estrangeiras e gírias paulistanas. Através da óptica completamente única, a autoria de cada termo quase grita </span><a href="https://personaunesp.com.br/rita-lee-40-anos/"><span style="font-weight: 400;">Rita Lee</span></a><span style="font-weight: 400;">. Direta e reta como sempre, seus afetos, vivências, tristezas e o que mais houver cantam em notas vibrantes e extremamente características. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além da voz da </span><a href="https://f5.folha.uol.com.br/celebridades/2022/11/rita-lee-gosto-mais-de-ser-chamada-de-padroeira-da-liberdade-do-que-rainha-do-rock.shtml"><span style="font-weight: 400;">“padroeira da liberdade”</span></a><span style="font-weight: 400;"> – apelido pelo qual gostava de ser chamada –, o escrito conta com os pitacos do jornalista Guilherme Samora, representado pela aparição de um fantasma chamado Phantom. A figura aparece em determinados trechos para indicar algum detalhe ou data esquecidos pela artista, e contribui para aumentar a sensação de autenticidade dos capítulos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Publicada em 2016, a obra foi consagrada no mesmo ano com o título de Melhor Biografia do Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), a artista também foi lembrada por suas contribuições no universo musical durante a cerimônia. Em 2017, o livro apareceu entre os indicados da categoria de Melhor Biografia da estatueta oferecida pela Academia Brasileira de Letras (ABL), o </span><a href="https://www.instagram.com/p/Clmi7GXu-Og/?igshid=MmJiY2I4NDBkZg=="><span style="font-weight: 400;">Prêmio Jabuti</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O relato é o primogênito da segunda autobiografia de Rita, intitulada </span><a href="https://www.publishnews.com.br/materias/2023/05/26/rita-lee-outra-autobiografia-estreia-na-lista-de-mais-vendidos-do-publishnews-antes-do-lancamento-oficial"><i><span style="font-weight: 400;">Rita Lee: outra autobiografia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. A caçula chegou ao mundo em Maio, pouco tempo depois da morte da autora, e carrega em 192 páginas memórias que contemplam os momentos da cantora com a descoberta do câncer de pulmão durante o período pandêmico. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo se seu RG não estampasse a capa do livro, o escolhido do mês não poderia ter sua assinatura confundida com a de nenhuma outra literata. Marcado por originalidade e cheio de personalidade, o ato de ler e viver Rita Lee foi e sempre será um presente. Para homenagear as múltiplas sensações provocadas pela eterna Rainha, ficam nossas dicas literárias especialmente para os que têm cor de </span><a href="https://www.youtube.com/channel/UCyFDNBI2AJaqILTR_3dn9aA"><span style="font-weight: 400;">Tutti Frutti </span></a><span style="font-weight: 400;">no <strong>Estante do Persona de Abril de 2023</strong>.</span></p>
<p><span id="more-31012"></span></p>
<h3><strong>Livro do Mês</strong></h3>
<figure id="attachment_31021" aria-describedby="caption-attachment-31021" style="width: 542px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31021" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Rita-1-542x800.jpg" alt="Capa do livro Rita Lee: uma autobiografia. O RG de Rita Lee esta centralizado em um fundo laranja. Na porção su´perior há o nome da artista em letras bastão verdes. Na porção inferior há o texto &quot; uma autobiografias&quot; em letras cursivas verdes. " width="542" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Rita-1-542x800.jpg 542w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Rita-1.jpg 677w" sizes="auto, (max-width: 542px) 85vw, 542px" /><figcaption id="caption-attachment-31021" class="wp-caption-text">A primeira autobiografia da artista foi um sucesso editorial quando lançada, com mais de 98 mil exemplares vendidos (Foto: Globo Livros)</figcaption></figure>
<p><b>Rita Lee &#8211; Rita Lee: uma autobiografia (296 páginas, Globo Livros)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No dia 8 de maio de </span><span style="font-weight: 400;">2023, </span><span style="font-weight: 400;">noites alienígenas ganharam, para a eternidade, um disco voador meio biruta – com um quê de estrela do rock – para sua imensidão de UFOs e objetos luminosos estranhos. A escolha do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/clube-do-livro/"><span style="font-weight: 400;">Clube do Livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> do Persona convergiu, numa coincidência que só poderia acontecer a essa figura, com a </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2023/05/09/em-autobiografia-rita-lee-deixou-profecia-sobre-repercussao-de-sua-morte.ghtml#trecho"><span style="font-weight: 400;">partida intergalática</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Rita Lee, depois de uma luta vencida contra o câncer, relatada em </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2023/05/23/rita-lee-escapa-com-vida-ao-narrar-com-sagacidade-os-dias-de-luta-contra-o-cancer-em-outra-autobiografia.ghtml"><span style="font-weight: 400;">outra autobiografia</span></a><span style="font-weight: 400;">. O </span><a href="https://forbes.com.br/colunas/2018/02/rita-lee-e-a-autora-brasileira-que-mais-vendeu-livros-de-nao-ficcao-em-2017/"><span style="font-weight: 400;">primeiro relato</span></a><span style="font-weight: 400;"> que a artista compõe de si mesma, afastando de si um tanto da personagem ‘</span><i><span style="font-weight: 400;">‘ritalee</span></i><span style="font-weight: 400;">’’ dos grandes palcos e telas para expor a intimidade de sua infância e dos bastidores de sua carreira musical, é um enquadramento mais explícito e retrospectivo de si mesma. Da infância na Vila Mariana – tecendo ao leitor uma experiência imersiva de uma São Paulo nos anos 1960 – à caminhada ao estrelato, Lee Jones é modesta com sua própria história, um espaço garantido no cânone de revolucionários e agitadores dos costumes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pisando no terreno das escritas de si, Rita Lee, como sempre, deixa os panos caírem e inverte o jogo. Em </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/vitrine/rita-lee-conheca-as-duas-biografias-escritas-pela-cantora/"><i><span style="font-weight: 400;">Rita Lee: uma autobiografia</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">a centralidade de tudo é a sua própria história, onde o si tem mais importância e mais corpo que o valor literário de tudo, que também é imenso. O ímpeto cômico e ultrajado que atravessa sua música é, também, um registro de sua escrita. Em seu característico humor ácido, cheio de sacadas inteligentíssimas, a artista se estabelece como canhota por escolha, alienígena de nascença e ovelha negra tingida. </span><a href="https://veja.abril.com.br/coluna/augusto-nunes/8216-poema-de-sete-faces-8217-de-carlos-drummond-de-andrade#:~:text=Quando%20nasci%2C%20um%20anjo%20torto%0Adesses%20que%20vivem%20na%20sombra%0Adisse%3A%20Vai%2C%20Carlos!%20ser%20gauche%20na%20vida."><i><span style="font-weight: 400;">Gauche </span></i><span style="font-weight: 400;">na vida</span></a><span style="font-weight: 400;">, a artista relata sua experiência andando contra os sentidos pré-estabelecidos; seja do mundo da música – hibridizando o </span><i><span style="font-weight: 400;">rock</span></i><span style="font-weight: 400;"> estadunidense à </span><i><span style="font-weight: 400;">bossa nova</span></i><span style="font-weight: 400;"> e ao psicodélico da </span><i><span style="font-weight: 400;">tropicália</span></i><span style="font-weight: 400;"> – ou no papel instituído às mulheres nesse cenário, que, por sinal, toma o centro da narrativa em seu relato dos bastidores do </span><a href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/verso/rita-lee-foi-expulsa-dos-mutantes-por-ex-marido-historia-e-contada-em-autobiografia-1.3366830"><span style="font-weight: 400;">término</span></a><span style="font-weight: 400;"> de sua trajetória com </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Mutantes</span></i><span style="font-weight: 400;">. Uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wU4gpw3gYiw"><span style="font-weight: 400;">Maria Mole</span></a><span style="font-weight: 400;"> de uma revolução feita aos berros e aos acordes de guitarra, Lee Jones foi transeunte entre estilos, ideias e gerações: entre </span><a href="https://novabrasilfm.com.br/notas-musicais/curiosidades/historia-da-musica-pagu-de-rita-lee-e-zelia-duncan/"><span style="font-weight: 400;">Pagu</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://artsandculture.google.com/story/KQWBBi19jjt_yg?hl=pt-BR"><span style="font-weight: 400;">Gil</span></a><span style="font-weight: 400;">, nunca houve uma revolução como a de Rita.</span></p>
<p><iframe title="Spotify Embed: Rita Lee: uma autobiografia - Clube do Livro Abril de 2023" style="border-radius: 12px" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/7dG2PQeCnozOP7wlOS3RNZ?si=f53c25eb2ea14406&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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<h3><strong>Dicas do Mês </strong></h3>
<figure id="attachment_31037" aria-describedby="caption-attachment-31037" style="width: 554px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31037" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/0fa060f691528fbf2e81379d8ad73906-e1685560813811-554x800.jpeg" alt="Capa do livro O Homem de Giz. O fundo da imagem é preto, e o título é escrito em branco, em letras de forma semelhante a giz. Abaixo do título há um desenho de giz de um homem palito enforcado. Na parte central inferior está o nome da autora em vermelho, também semelhante a giz. No canto inferior direito está o nome da editora." width="554" height="800" data-wp-editing="1" /><figcaption id="caption-attachment-31037" class="wp-caption-text">Em O Homem de Giz, não dá para confiar em ninguém (Foto: Intrínseca)</figcaption></figure>
<p><b>C. J. Tudor &#8211; O Homem de Giz (334 páginas, Intrínseca)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Guiadas por desenhos de giz, quatro crianças encontram um corpo mutilado no bosque e suas vidas mudam para sempre. </span><a href="https://www.amorporlivros.com.br/livros-cj-tudor/"><span style="font-weight: 400;">C. J. Tudor</span></a><span style="font-weight: 400;"> é um grande nome da literatura do gênero de mistério e </span><i><span style="font-weight: 400;">O Homem de Giz</span></i><span style="font-weight: 400;"> é, com razão, um de seus títulos mais famosos. O primeiro livro da autora narra as dúvidas e as consequências que envolvem um assassinato que chocou a cidade de Anderbury. Ao longo da história, fica claro que qualquer pessoa guarda os seus segredos, alguns maiores e mais nocivos do que outros.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama é contada por Eddie Adams, um dos responsáveis por encontrar o corpo. Na sua narrativa, os fatos são contados em duas linhas temporais: uma em 1986 e outra em 2016. Esse é um recurso interessante capaz de prender a atenção do leitor até o final, além de explicitar como escolhas e acontecimentos do passado podem afetar o presente. Para quem é fã dos mistérios de Stephen King ou de </span><a href="https://personaunesp.com.br/stranger-things-4-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Stranger Things</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Homem de Giz</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma ótima pedida. </span><b>&#8211; Gabrielli Natividade<br />
</b></p>
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<figure id="attachment_31026" aria-describedby="caption-attachment-31026" style="width: 534px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31026" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1-534x800.jpg" alt="Capa do livro Assassinos da Lua das Flores. A capa, que é em um branco envelhecido, onde tem uma torre antiga de extração de petróleo, toda na cor vermelha ao fundo, um carro antigo de luxo, onde há um nativo americano homem dirigindo e uma nativa americana no banco de trás, na cor preta. Ao centro, em letra maiúscula preta, o título “ASSASSINOS DA LUA DAS FLORES” e logo abaixo,em letras minúsculas pretas “Petróleo, morte e a criação do FBI”. Um pouco mais abaixo, em maiúsculas pretas,há o nome do autor “DAVID GRANN”. No canto superior esquerdo, também em letras pretas, está com aspas &quot;PERTURBADOR E ENVOLVENTE” e logo abaixo “Dave Eggers, New York Times Book Review”. No canto superior direito, há a logo da editora, composta de uma moto e um sidecar, onde um homem, com roupas antigas de motoqueiro dirige, e um menino que está no sidecar, que é seguido abaixo por uma linha e o nome “COMPANHIA DAS LETRAS”, todos na cor preta" width="534" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Assassinos-da-Lua-das-Flores-1.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 534px) 85vw, 534px" /><figcaption id="caption-attachment-31026" class="wp-caption-text">A aclamada obra literária se prepara também para se tornar uma aclamada obra cinematográfica (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>David Grann &#8211; Assassinos da Lua das Flores: Petróleo, morte e a criação do FBI (392 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O jornalista e redator da </span><i><span style="font-weight: 400;">The New Yorker</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.newyorker.com/contributors/david-grann"><span style="font-weight: 400;">David Grann</span></a><span style="font-weight: 400;">, já tem uma certa lista de obras que são aclamadas e migraram para a Sétima Arte. Porém, uma de suas maiores joias estava intocada até 2023: </span><i><span style="font-weight: 400;">Assassino da Lua das Flores</span></i><span style="font-weight: 400;">. A obra é uma incursão sobre a primeira grande investigação do que seria o FBI: uma série de assassinatos em 1920 no condado de Osage, Oklahoma. Dois pontos deixam o mistério ainda mais interessante: Osage, na época, abrigava as pessoas com maior renda per capita do mundo, devido à descoberta de petróleo na região; e essas pessoas eram nativos americanos, pois o nome da região remete ao nome da etnia.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Grann consegue atribuir uma linguagem </span><i><span style="font-weight: 400;">western</span></i><span style="font-weight: 400;"> para o livro, ao mesmo tempo que o desmistifica e 0 mescla com um <a href="https://personaunesp.com.br/todo-dia-a-mesma-noite-critica/">livro-reportagem</a> – fruto de muita pesquisa. Aqui, o </span><i><span style="font-weight: 400;">big-bang</span></i><span style="font-weight: 400;"> não é frenético e aventuresco, mas sim friamente calculado e vil. Abusando do grafismo, o autor retira o filtro que a América colocou em seu processo de formação e escancara como o dinheiro e o capitalismo estadunidense corromperam seu próprio território. </span><b>&#8211; Guilherme Veiga</b></p>
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<figure id="attachment_31024" aria-describedby="caption-attachment-31024" style="width: 558px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31024" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Estrela-Solitaria-1-558x800.jpg" alt="Capa do livro Estrela Solitária: Um Brasileiro Chamado Garrincha do autor Ruy Castro. Na imagem, o jogador de futebol aparece sentado no braço de uma cadeira de repouso. A câmera o captura por inteiro e com uma das mãos apoiada na cabeça. Há um filtro sobre a fotografia que a deixa em tons amarronzados em meio ao preto e branco. Na parte superior direita, o nome do autor “Ruy Castro” está escrito em tom marrom. Abaixo, segue o nome da obra “Estrela Solitária: Um Brasileiro Chamado Garrincha” em tom branco e marrom. Na parte inferior direita, o logo da Companhia das Letras aparece em branco." width="558" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Estrela-Solitaria-1-558x800.jpg 558w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Estrela-Solitaria-1.jpg 698w" sizes="auto, (max-width: 558px) 85vw, 558px" /><figcaption id="caption-attachment-31024" class="wp-caption-text">O livro ganhou o Prêmio Jabuti de Melhor Ensaio e Biografia em 1996 (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Ruy Castro &#8211; Estrela Solitária: Um Brasileiro Chamado Garrincha (536 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Responsável por grandes contribuições ao jornalismo biográfico e literário, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/03/conheca-obra-de-ruy-castro-que-toma-posse-na-academia-brasileira-de-letras.shtml"><span style="font-weight: 400;">Ruy Castro</span></a><span style="font-weight: 400;"> reúne a mitologia e o drama particular que cercam o jogador de futebol Garrincha, uma das figuras mais </span><a href="https://www.lance.com.br/botafogo/saudades-garrincha-faz-anos-seu-futebol-segue-driblando-tempo.html"><span style="font-weight: 400;">idolatradas</span></a><span style="font-weight: 400;"> pelo Brasil durante a década de 60. Para realizar esse feito, o imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) cruzou informações de centenas de entrevistas que proporcionam uma imersão extremamente realista, capaz de unificar todos os cinco sentidos do leitor em uma única experiência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Das vielas estreitas do município de Magé até os grandes palcos do esporte mundial, Castro segue os rastros deixados por um talento nato que, por ser fruto de um país historicamente quebrado, teve a sua própria </span><a href="https://globoesporte.globo.com/bau-do-esporte/noticia/2013/01/alcool-e-bola-30-anos-apos-morte-de-mane-bebida-ainda-estraga-carreiras.html"><span style="font-weight: 400;">tragédia pessoal</span></a><span style="font-weight: 400;">. Através de sentenças que ecoam, </span><i><span style="font-weight: 400;">Estrela Solitária: Um Brasileiro Chamado Garrincha</span></i><span style="font-weight: 400;"> expõe o fato de que “anjo das pernas tortas” é um apelido digno apenas dentro das quatro linhas, uma vez que, fora delas, nada impediu o seu </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/elza-soares-conta-sua-versao-sobre-relacionamento-com-mane-garrincha-em-documentario-do-globoplay-25418157"><span style="font-weight: 400;">tormento</span></a><span style="font-weight: 400;"> e de quem esteve a sua volta. </span><b>&#8211; Nathalia Tetzner</b></p>
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<figure id="attachment_31033" aria-describedby="caption-attachment-31033" style="width: 544px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31033" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moderato2_v1_Ba-544x800.jpg" alt="" width="544" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moderato2_v1_Ba-544x800.jpg 544w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moderato2_v1_Ba-696x1024.jpg 696w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moderato2_v1_Ba-768x1130.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moderato2_v1_Ba.jpg 783w" sizes="auto, (max-width: 544px) 85vw, 544px" /><figcaption id="caption-attachment-31033" class="wp-caption-text">Um dos maiores sucessos editoriais de Marguerite Duras, Moderato Cantabile ganhou vida, em uma adaptação ao Cinema, pelas atuações de Jean-Paul Belmondo e Jeanne Moreau (Foto: Relicário)</figcaption></figure>
<p><b>Marguerite Duras &#8211; Moderato Cantabile (136 páginas, Relicário)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O arrebatamento. Talvez este seja um dos maiores temas que atravessam </span><i><span style="font-weight: 400;">Moderato Cantabile, </span></i><span style="font-weight: 400;">um dos primeiros romances da escritora e cineasta Marguerite Duras antes do roteiro de </span><i><span style="font-weight: 400;">Hiroshima, Meu Amor </span></i><span style="font-weight: 400;">e — seu ponto de virada ao cânone da literatura mundial — </span><a href="https://veja.abril.com.br/coluna/veja-recomenda/o-amante-livro-de-marguerite-duras-e-sobretudo-um-desabafo-familiar"><i><span style="font-weight: 400;">O Amante</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">publicado em 1980. Uma história de paixão, incomunicabilidade e pulsão, onde o ato máximo do amor é levado ao máximo das sensibilidades, liderando um texto que beira um </span><i><span style="font-weight: 400;">thriller </span></i><span style="font-weight: 400;">verborrágico. As tensões comumentes descritas por Duras, reflexiva sobre as relações de exterioridade e interioridade que compõe a complexidade do sentimento humano — numa seara mais radical que inspira, por exemplo, o método autobiográfico de </span><a href="https://personaunesp.com.br/?s=annie+ernaux"><span style="font-weight: 400;">Annie Ernaux</span></a><span style="font-weight: 400;"> —, anunciam, no romance até então esgotado no Brasil, a maior densidade psicológica que estruturam obras como </span><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/memorias-da-dor-marguerite-duras/"><i><span style="font-weight: 400;">A Dor</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por seus diálogos incessantes, construídos por personagens que parecem, em suas falas, mais falarem sozinhos que com si mesmos, desenvolve-se uma narrativa estranha. Em </span><a href="https://www.relicarioedicoes.com/livros/moderato-cantabile/"><i><span style="font-weight: 400;">Moderato Cantabile</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">paira uma aura do erótico que precipita a sucumbir para a auto-destruição, personalizada pela paixão da personagem </span><span style="font-weight: 400;">Anne Desbaresdes</span><span style="font-weight: 400;"> a um homem da classe trabalhadora, incitada por uma</span><a href="https://www.jstor.org/stable/1208015"><span style="font-weight: 400;"> imagem específica</span></a><span style="font-weight: 400;">: um assassinato em um café, do lado da sala de um prédio onde seu filho faz aulas de piano, ao som de navios em um porto. O que, inicialmente, é extremamente individual e psicológico efervesce enquanto um drama social, que alcança seu desenlace em um estridente final, como o de uma sinfonia nunca tocada certo; mas ainda sim, potencial em sua expressão. &#8211; <strong>Enzo Caramori</strong></span></p>
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<figure id="attachment_31027" aria-describedby="caption-attachment-31027" style="width: 539px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31027" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1-539x800.jpg" alt="Capa do livro Cinderela está morta. No centro da imagem há uma mulher negra de cabelos crespos na altura dos ombros, ela veste um vestido de princesa azul. Ao fundo há uma floresta com árvores cheias de espinhos roxos. O título aparece em branco em cima da personagem. O nome da autora ocupa a porção inferior. " width="539" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1-539x800.jpg 539w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1-690x1024.jpg 690w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1-768x1140.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1-1035x1536.jpg 1035w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1-1380x2048.jpg 1380w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1-1200x1781.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cinderela-esta-morta-1-1.jpg 1725w" sizes="auto, (max-width: 539px) 85vw, 539px" /><figcaption id="caption-attachment-31027" class="wp-caption-text">Em Cinderela está morta, o conto de fadas põe os pés na realidade (Foto: Galera)<b> <span style="color: #1a1a1a;"><span style="font-size: 16px;"> </span></span></b></figcaption></figure>
<p><b>Kalynn Bayron &#8211; Cinderela está morta (294 páginas, Galera) </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todos nós já ouvimos os clássicos dos contos de fadas e conhecemos as histórias de ponta-cabeça, são eles que ditam os famosos clichês e nada de novo pode surgir disso. Determinada a fazer essa afirmação se quebrar, </span><a href="https://roommagazine.com/kalynn-bayron-author-of-cinderella-is-dead/"><span style="font-weight: 400;">Kalynn Bayron</span></a><span style="font-weight: 400;"> trouxe ao mundo </span><i><span style="font-weight: 400;">Cinderela está morta</span></i><span style="font-weight: 400;">. Criando um universo em que a Cinderela não só foi real, como é um parâmetro de comportamento para todas as mulheres, a autora nos apresenta à Sophia, uma protagonista cheia de representatividade e vontade de virar o jogo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Preparada para brigar pelas coisas nas quais acredita, a personagem levanta bandeiras e mostra que muitas vezes o tradicional é ultrapassado. De um jeito leve e encantador, o texto – traduzido por Karine Ribeiro e Érica Imenes – encara as faces do </span><a href="https://personaunesp.com.br/maid-critica/"><span style="font-weight: 400;">machismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> em uma narrativa mais brilhante que um sapatinho de cristal. Estabelecendo a juventude como uma arma engatilhada contra a opressão, Cinderela está morta borda a subversão nos detalhes de um vestido azul. <strong>&#8211; Jamily Rigonatto </strong></span></p>
<hr />
<figure id="attachment_31035" aria-describedby="caption-attachment-31035" style="width: 656px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-31035 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/ioga-1-1-656x1024.jpeg" alt="" width="656" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/ioga-1-1-656x1024.jpeg 656w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/ioga-1-1-513x800.jpeg 513w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/ioga-1-1-768x1198.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/ioga-1-1-985x1536.jpeg 985w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/ioga-1-1.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31035" class="wp-caption-text">Lançado na França em 2020, Ioga chegou ao Brasil em Fevereiro de 2023 sob tradução de Mariana Delfini (Foto: Alfagura)</figcaption></figure>
<p><b>Emmanuel Carrère &#8211; Ioga (272 páginas, Alfaguara)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em vários trechos de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556521613/ioga"><i><span style="font-weight: 400;">Ioga</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a mais recente obra publicada por </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2023/02/emmanuel-carrere-atinge-o-nirvana-em-ioga-e-ai-se-enterra-na-baixaria.shtml"><span style="font-weight: 400;">Emmanuel Carrère</span></a><span style="font-weight: 400;">, há a explanação, principalmente no primeiro capítulo, de seu desejo antigo de fazer &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">um livrinho simpático e perspicaz</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8221; sobre o ioga. Embora a primeira parte pareça realmente seguir essa receita, mesmo que alguns trechos viagem pelo interior do escritor-narrador, não demora para percebermos que o projeto precisou ser abortado. Isso porque, entre o final de 2014 e início de 2015, quando o escritor </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/"><span style="font-weight: 400;">francês</span></a><span style="font-weight: 400;"> partiu para um retiro de meditação vipassana, um de seus amigos foi assassinado no trabalho – no escritório da revista </span><i><span style="font-weight: 400;">Charlie Hebdo,</span></i><span style="font-weight: 400;"> em Paris –, interrompendo seu percurso espiritual. Soma-se a isso seu processo de divórcio e a morte de seu, até então, único editor literário, que ajudam Carrère a transformar o ioga em uma grande metáfora de suas próprias mudanças.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda assim, a obra híbrida de ficção e não ficção – como outros trabalhos do autor – não deixa de ser uma descida ao inferno. Principalmente na parte dois, denominada </span><i><span style="font-weight: 400;">1825 dias</span></i><span style="font-weight: 400;">, Carrère fala abertamente sobre sua depressão melancólica, quando precisou ser internado por quatro meses em um hospital psiquiátrico. De forma pessoal e reflexiva, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ioga </span></i><span style="font-weight: 400;">não deixa de ser um trabalho de contemplação sobre o corpo e a mente, confrontados pelos medos e inseguranças de Emmanuel Carrère. </span><span style="font-weight: 400;">Nas entrelinhas, trata-se de um livro que investiga o possível equilíbrio em um mundo agitado, frenético e francamente caótico. Longe de ser </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788579622496/limonov"><span style="font-weight: 400;">seu melhor trabalho</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ioga </span></i><span style="font-weight: 400;">compartilha o </span><i><span style="font-weight: 400;">modus operandi</span></i><span style="font-weight: 400;"> típico do escritor: mistura de reportagem, texto autobiográfico, pesquisa histórica e prospecções filosóficas, ligados pela linha condutora de uma escrita brilhante. </span><b>&#8211; Bruno Andrade</b></p>
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		<title>Em As Primas, amor, Arte e violência se misturam na Argentina dos anos 1940</title>
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		<pubDate>Tue, 30 May 2023 20:59:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Henrique Marinhos As Primas é um romance de formação, que narra a irmandade das primas Yuna, Petra e Carina, que crescem em uma família disfuncional e marginalizada na cidade argentina de La Plata, nos anos 1940. Publicada originalmente em 2007, quando Aurora Venturini tinha 85 anos, a obra recebeu vários prêmios literários na Argentina e &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/as-primas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em As Primas, amor, Arte e violência se misturam na Argentina dos anos 1940"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31014" aria-describedby="caption-attachment-31014" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-31014 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/clube_wordpress.png" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/clube_wordpress.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/clube_wordpress-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/clube_wordpress-768x404.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31014" class="wp-caption-text">Aurora Venturini e seu livro As Primas venceram o prêmio Nueva Novela, do jornal Página/12, pelo qual a autora, enfim, foi premiada por &#8220;um júri honesto&#8221; (Foto: Fósforo/Arte: Vitória Vulcano)</figcaption></figure>
<p><b>Henrique Marinhos</b></p>
<p><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-marco-de-2023/"><i><span style="font-weight: 400;">As Primas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é um romance de formação, que narra a irmandade das primas Yuna, Petra e Carina, que crescem em uma família disfuncional e marginalizada na cidade argentina de La Plata, nos anos 1940. Publicada originalmente em 2007, quando Aurora Venturini tinha </span><a href="https://www.eternacadencia.com.ar/blog/contenidos-originales/noticias/item/aurora-venturini-cumple-sus-primeros-100-anos.html"><span style="font-weight: 400;">85 anos</span></a><span style="font-weight: 400;">, a obra recebeu vários prêmios literários na Argentina e no exterior. Destacando-se pela linguagem radical e excêntrica, que mistura diferentes registros, gírias, estrangeirismos, neologismos, erros gramaticais e ortográficos, criando um estilo único, original e cativante, o trabalho foi a leitura do <a href="https://personaunesp.com.br/tag/clube-do-livro/">Clube do Livro do </a></span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/clube-do-livro/"><b>Persona </b></a><span style="font-weight: 400;">em Março de 2023.</span></p>
<p><span id="more-30989"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Explorando os limites da narração nas questões de gênero e classe, </span><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/autores/aurora-venturini/"><span style="font-weight: 400;">a autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> mostra as contradições e as <a href="https://personaunesp.com.br/o-parque-das-irmas-magnificas-critica/">injustiças da sociedade argentina</a> da época. As personagens femininas são o centro da obra, retratadas como seres marginalizados, oprimidos e violentados pela sociedade patriarcal e machista. No entanto, elas também demonstram uma força e resistência admiráveis nas situações mais perversas e desconfortáveis. Não se conformam com o destino que lhes foi imposto e buscam formas de se expressar e de se afirmar com suas armas, sejam elas a Arte, a astúcia, a rebeldia ou a vingança.</span></p>
<figure id="attachment_30991" aria-describedby="caption-attachment-30991" style="width: 815px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30991 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-2-815x1024.png" alt="Fotografia da capa do Livro As Primas, da editora Alfaguara, de Aurora Venturini. Nela está uma mesa com pano de prato xadrez vermelho e branco. Abaixo, sentada com as pernas cruzadas ao chão está uma menina que segura uma xícara. Seu rosto está coberto pela toalha xadrez e ao chão está o pires de sua xícara. Logo acima, está o bule e o jogo completo de pires e xícaras." width="815" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-2-815x1024.png 815w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-2-637x800.png 637w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-2-768x965.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-2.png 1170w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30991" class="wp-caption-text">A autora se exilou na França, após o golpe militar argentino em 1955; lá, foi amiga de intelectuais franceses, como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir (Foto: Alfaguara Portugal)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um aspecto interessante de </span><i><span style="font-weight: 400;">Las primas </span></i><span style="font-weight: 400;">(no original) é a forma como a autora constrói suas personagens femininas. As primas </span><a href="https://www.telam.com.ar/notas/202210/607845-marcela-ferradas-teatro-yuna-obra.html"><span style="font-weight: 400;">Yuna Riglos</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Petra, assim como as outras mulheres da família, sofrem com a pobreza, a ignorância, a exploração, o abuso e a discriminação devido às suas deficiências físicas ou mentais. Mesmo vitimadas pelos próprios familiares, que as tratam com desprezo, indiferença e crueldade, elas mantém a potência e singularidade em toda a narrativa.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">Eu era uma menina diferente das outras porque tinha nascido com um defeito na cabeça que me fazia ter dificuldade para falar e entender as coisas. Por isso as pessoas me olhavam com pena ou com nojo. Mas eu não me importava com isso. Eu sabia que eu era especial e que tinha um dom para a pintura. Eu pintava coisas lindas que ninguém mais podia ver” <em>(p. 13)</em>.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra, que chegou ao Brasil em Setembro de 2022 pela editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Fósforo</span></i><span style="font-weight: 400;">, provoca estranheza, piedade, repulsa e riso, mas também admiração pela maestria </span><a href="https://rascunho.com.br/noticias/primeiro-romance-da-argentina-aurora-venturini-traz-autobiografia-delirante/"><span style="font-weight: 400;">narrativa de Venturini</span></a><span style="font-weight: 400;">. No livro, a autora cria um universo ficcional rico em detalhes, que revela contradições e injustiças, ao mesmo tempo que nos transporta àquela realidade. Com a ambiguidade de suas dores e principalmente humor, </span><span style="font-weight: 400;">a trajetória de Yuna é contada desde a infância até a idade adulta, passando por episódios trágicos e cômicos que envolvem sua mãe, sua irmã, suas primas, seus tios e seus amores.</span></p>
<figure id="attachment_30996" aria-describedby="caption-attachment-30996" style="width: 533px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30996 " src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image6.png" alt="Fotografia da capa do Livro As Primas, da editora Caballo de Troya , de Aurora Venturini. Nela está uma mulher branca, deitada com suas mão juntas em frente a seu rosto. Seus cabelos são castanhos e lisos, estão soltos. Ela veste uma blusa com babados azul clara e ao fundo está um sofá ornamentado. O efeito da foto remete a antiguidade com tons escuros e amarelados." width="533" height="615" /><figcaption id="caption-attachment-30996" class="wp-caption-text">Aurora Venturini usava o pseudônimo de Beatriz Portinari, e escolheu esse nome em homenagem à musa de Dante Alighieri, o poeta italiano autor da Divina Comédia (Foto: Editorial Caballo de Troya)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em alguns aspectos temáticos, estilísticos e culturais, é possível relacionar a obra de Aurora Venturini com a de </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/pedro-almodovar/"><span style="font-weight: 400;">Pedro Almodóvar</span></a><span style="font-weight: 400;">, um dos mais influentes e originais cineastas contemporâneos. O diretor espanhol é conhecido por filmes que abordam o amor, o desejo, a identidade, a sexualidade e  a família, com um estilo marcado pela estética colorida, pelo humor ácido e pela ironia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As semelhanças ocorrem, principalmente, através da presença de personagens femininas fortes, complexas e marginalizadas, que </span><a href="https://gpslifetime.com.br/materia/em-strange-way-of-life-pedro-almodovar-desafia-convencoes-no-old-west"><span style="font-weight: 400;">questionam os limites das convenções sociais</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span> <span style="font-weight: 400;">Expressando-se através de uma linguagem radical, Venturini usa a ironia ácida e a violência como forma de lidar com as situações trágicas e cômicas atribuídas às personagens.</span></p>
<figure id="attachment_30994" aria-describedby="caption-attachment-30994" style="width: 580px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30994 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image4-e1685460240947.png" alt="Fotografia da Autora Aurora Venturini. Uma mulher idosa, de cabelos ruivos ondulados e largos a altura de suas orelhas. Seu rosto é marcado por linhas de expressão enquanto encara sua frente. A imagem é restrita ao de seu busto acima, com uma camiseta preta. Ao fundo uma prateleira de livros antigos em tons marrons." width="580" height="600" /><figcaption id="caption-attachment-30994" class="wp-caption-text">Falecida em 2015, Aurora Venturini foi amiga de Evita Perón, a primeira-dama da Argentina entre 1946 e 1952, e trabalhou com ela na Fundação Eva Perón, instituição com foco na assistência social que ajudava os pobres e os desamparados (Foto: Nora Lezano)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A tradução de </span><a href="https://livrosdabel.com.br/mariana-sanchez-a-tradutora-que-traz-a-literatura-latino-americana-ao-brasil/#:~:text=Mariana%20Sanchez%20%C3%A9%20uma%20das,Silvina%20Ocampo%E2%80%9D%20de%20Mariana%20Enriquez%2C"><span style="font-weight: 400;">Mariana Sanchez</span></a><span style="font-weight: 400;"> é sensível e precisa, captando o tom irônico e sarcástico da voz original de Yuna, que oscila entre a inocência e a crueldade, entre a ternura e o desprezo. A tradutora também respeita as escolhas estilísticas da autora, que usa uma pontuação peculiar e um vocabulário rico em regionalismos e neologismos.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu queria me chamar Maria, como a minha mãe, ou Nené, como a minha prima mais velha, que era linda e inteligente e tocava piano. Mas eu não podia escolher o meu nome e nem o meu rosto. Eu tinha que me conformar com o que me tinham dado”. </span></i><span style="font-weight: 400;">Nesse trecho, pode-se observar como a tradutora preserva o estilo da autora argentina, que usa frases simples e diretas, sem muitas variações. Ela mantém, principalmente, o </span><a href="https://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/espectaculos/10-18863-2010-08-07.html#:~:text=Conhecer%20o%20autor%20te%20ajudou%3F"><span style="font-weight: 400;">tom confessional e infantil</span></a><span style="font-weight: 400;"> da narradora, que se apresenta ao leitor com muita sinceridade.</span></p>
<figure id="attachment_30992" aria-describedby="caption-attachment-30992" style="width: 898px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30992 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-1.png" alt="Fotografia da atriz Marcela Ferradás. Uma mulher branca que veste uma saia longa cinza com detalhes listrados e uma camiseta social preta. A atriz usa um colar de pérolas enquanto olha para sua frente. Seus cabelos são castanhos, ondulados e curtos, com seu comprimento até a orelha. Ao fundo há uma parede com molduras diversas de quadros sem fotos ao meio." width="898" height="600" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-1.png 898w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-1-800x535.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-1-768x513.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30992" class="wp-caption-text">A atriz Marcela Ferradás conheceu e se encantou com a escritora Aurora Venturini, que lhe disse: “Yuna sos vos”; ela interpretará a protagonista de As Primas em uma peça dirigida por Horácio Peña (Foto: Radio Pública de la Provincia de Buenos Aires)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A personalidade de Yuna, no entanto, é complexa e contraditória: ela tem uma sensibilidade e uma criatividade extraordinária, que a fazem pintar coisas lindas. Ainda assim, é inocente e ingênua, e não compreende bem o mundo ao seu redor. Ela é curiosa e ávida por aprender, usando o </span><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2023/03/24/interna_pensar,1472857/em-as-primas-aurora-venturini-relata-brutais-historias-familiares.shtml#:~:text=explica%20que%20o%20uso%20de%20determinada%20palavra%20%C3%A9%20decorr%C3%AAncia%20da%20consulta%20ao%20dicion%C3%A1rio"><span style="font-weight: 400;">dicionário</span></a><span style="font-weight: 400;"> como fonte de conhecimento e expressão. A personagem também é sincera e direta, dizendo o que pensa sem filtros ou rodeios &#8211; uma pessoa forte e resistente, que não se deixa abater pelas adversidades e convenções de decoro. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu não gostava da minha prima Nené. Ela era gorda, feia e burra. Ela não sabia fazer nada direito. Ela só sabia tocar piano, mas isso não era arte de verdade” </span></i><span style="font-weight: 400;">(p. 121).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Petra, por sua vez, é uma personagem ambígua e complexa, que oscila entre a crueldade e a solidariedade, amor e ódio, lealdade e traição. Ela é a principal antagonista de Yuna, mas também sua confidente e protetora. Petra se autodenomina </span><i><span style="font-weight: 400;">liliputiane</span></i><span style="font-weight: 400;">, um termo encontrado para se referir às pessoas pequenas como ela. Ela usa essa expressão como forma de se afirmar e de desafiar os preconceitos da sociedade. Petra é a principal responsável na influência dos pensamentos de Yuna acerca de política, religião, sexo e </span><a href="https://personaunesp.com.br/suspiria-45-anos/"><span style="font-weight: 400;">Arte</span></a><span style="font-weight: 400;">. É Petra, inclusive, que ajuda Yuna a enfrentar os abusos e as violências que sofre na família e na escola.</span></p>
<figure id="attachment_30995" aria-describedby="caption-attachment-30995" style="width: 1140px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30995 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5.png" alt="Fotografia dos livros As Primas e As Amigas, de Aurora Venturini, ambos estão rodeados de outros livros em prateleiras e estão em pé. Seus títulos estão em branco com fundo preto enquanto molduram imagens em suas capas, em Las primas está a figura de uma menina embaixo da mesa tomando algo em uma xícara, na segunda imagem duas senhoras estão encarando sua frente também segurando pires e xícaras." width="1140" height="641" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5.png 1140w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5-768x432.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30995" class="wp-caption-text">Depois do sucesso de Las primas, Aurora Venturini começou a escrever o monólogo Las Amigas (Foto: Revista Leemos)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">As Primas </span></i><span style="font-weight: 400;">se encerra com a consolidação de uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/jamais-o-fogo-nunca-critica/"><span style="font-weight: 400;">narradora singular</span></a><span style="font-weight: 400;"> e original criada por Aurora Venturini, que nos conta sua história desafiando as normas gramaticais e ortográficas. Yuna nos mostra seu próprio mundo de imperfeições e de diferenças, mas também de beleza e de esperança. Com essa voz inconfundível, Venturini nos apresenta um universo ficcional rico em detalhes, que revela as contradições e as injustiças da sociedade argentina &#8211; e não só.</span></p>
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		<title>Dentro de si, escute as feras: entre a autobiografia e a etnografia de Nastassja Martin</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Apr 2023 20:51:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori Outono. Todo encontro com o Outro revela-se como uma experiência de arrebatamento: da violência de deixar um pedaço de si e desprender-se da unidade do Eu ao movimento da alteridade de achar-se nos olhos do desconhecido. No caso da antropóloga Nastassja Martin, ressonante no livro Escute as feras, a experiência é do deslumbramento &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/escute-as-feras/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Dentro de si, escute as feras: entre a autobiografia e a etnografia de Nastassja Martin"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30726" aria-describedby="caption-attachment-30726" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-30726" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS-800x420.png" alt="Imagem retangular de fundo branco. No canto superior, está centralizado a logo do Persona, um olho com íris na cor cinza e pupila em preto no formato triangular de play. Ao lado da logo, está o selo “Clube do Livro” em letras transparentes colocadas sobre um fundo preto. Abaixo está escrito “Dentro de si, escute as feras: entre a autobiografia e a etnografia de Nastassja Martin” em letras pretas, sendo &quot;escute as feras&quot; em letras cinzas. Mais abaixo, no canto esquerdo, há a capa do livro cujo fundo é branco. Na parte superior direita da capa, há o nome da autora Nastassja Martin escrito em letras pretas. Na parte superior esquerda, há o título do livro “Escute as Feras” escrito em letras pretas. Mais abaixo, está uma ilustração de um borrão preto com uma silhueta similar ao de um urso. Ao lado direito da imagem da capa, está o escrito &quot;Ao encontrarem-se uma no olhar da outra, a antropóloga e a ursa, próximas a um vulcão no extremo leste siberiano, marcam mutuamente os seus destinos e fundem a condição de fera e humana.&quot; em letras pretas. Abaixo do texto está escrito “Por&quot; em letras pretas e &quot;Enzo Caramori&quot; em letras cinzas." width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS-768x404.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS.png 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30726" class="wp-caption-text">Nastassja Martin esteve na programação principal da 20ª Flip junto a Tamara Klink na mesa ‘‘<a href="https://www.youtube.com/watch?v=Gcn42bH6IkA">Desterrando o susto</a>’’, e seu Escute as feras foi a leitura do Clube do Livro do Persona em Fevereiro (Foto: Editora 34/Arte: Ana Cegatti)</figcaption></figure>
<p><b>Enzo Caramori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outono. Todo encontro com o Outro revela-se como uma experiência de arrebatamento: da violência de deixar um pedaço de si e desprender-se da unidade do Eu ao movimento da alteridade de achar-se nos olhos do desconhecido. No caso da antropóloga </span><a href="https://quatrocincoum.folha.uol.com.br/br/noticias/flip/cinco-curiosidades-sobre-nastassja-martin"><span style="font-weight: 400;">Nastassja Martin</span></a><span style="font-weight: 400;">, ressonante no livro </span><a href="https://www.editora34.com.br/detalhe.asp?id=1111&amp;busca=escute%20as%20feras"><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a experiência é do deslumbramento de um beijo e da brutalidade de um ataque e contra-ataque. Ao encontrarem-se uma no olhar da outra, a antropóloga e a ursa, próximas a um vulcão no extremo leste siberiano, marcam mutuamente os seus destinos e fundem a condição de fera e humana.</span></p>
<p><span id="more-30721"></span></p>
<p><a href="https://leituras.org/escute/"><span style="font-weight: 400;">Ursa-mulher e mulher-ursa</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma foge para dentro da bruma, com pedaços de uma mandíbula e ferida por um quebra-gelo; a outra, guarda-se na neve, vermelha de seu próprio sangue. Na falta do que se doou na troca desse primal encontro, refunda-se um sistema de crenças de povos como os </span><a href="https://www.editionsladecouverte.fr/a_l_est_des_reves-9782359251241#:~:text=Apr%C3%A8s%20avoir%20travaill%C3%A9,monde%20sa%20vitalit%C3%A9."><i><span style="font-weight: 400;">evenki</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – estudados por Martin em 2015, quando é desfigurada – em que a predestinação do enlace de seus destinos é a base do exercício da vida, animal e humana, em comunidade. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras, </span></i><span style="font-weight: 400;">trazido ao Brasil pela tradução de Camila Boldrini e Daniel Lühmanné, é regido pelo atrito que a própria autora estabelece entre si mesma e sua imersão em modelos de visualização da vida vinculados ao </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1010200620.htm"><span style="font-weight: 400;">animismo</span></a><span style="font-weight: 400;">: uma união do ambiente e da existência humana e animal em um único fluxo vital. </span><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Miêdka”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e “</span><i><span style="font-weight: 400;">matukha”</span></i><span style="font-weight: 400;"> são termos do idioma </span><i><span style="font-weight: 400;">even</span></i><span style="font-weight: 400;"> que identificam sua condição de sobrevivência e transmutação, após o enfrentamento com o urso, à situação anormal de humanidade que lhe é atribuída. À </span><a href="https://erratanaturae.com/autores/nastassja-martin/"><span style="font-weight: 400;">antropóloga</span></a><span style="font-weight: 400;">, esse estado de pária estrutura uma mudança na maneira que enxerga a si mesma – em um espaço de excepcionalidade, um tanto </span><a href="https://www.newyorker.com/books/page-turner/learning-to-love-the-bear-that-attacked-you#:~:text=I%20assumed%20that,of%20her%20experience."><span style="font-weight: 400;">inadequado</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao seu desenvolvimento de pesquisadora –, que altera o tom etnográfico para, também, hibridizar o texto.</span></p>
<figure id="attachment_30723" aria-describedby="caption-attachment-30723" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-30723" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-800x471.jpg" alt="Foto em preto e branco da antropóloga Nastassja Martin. No primeiro plano, uma mulher branca, de cabelos loiros presos em um coque desarrumado que cai em sua nuca. Ela olha ao horizonte e está vestida com uma blusa clara e um casaco, similar a uma jaqueta, preto. Ao fundo, montanhas rochosas e um céu nebuloso." width="800" height="471" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-800x471.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-1024x602.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-768x452.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-1200x706.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1.jpg 1224w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30723" class="wp-caption-text">Orientada pelo antropólogo Philippe Descola, Nastassja Martin escreve sua tese de doutorado sobre o povo Gwich’in, do Alasca (Foto: Alexandre Lacroix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Estilisticamente, Martin constrói um registro experimental e total do que se dedicou a analisar, no exercício de sua ciência, e de suas inscrições sensíveis aos acontecimentos, meticulosamente medidas pela sua escrita. Entre a etnografia e a autobiografia, a metodologia de Martin é o cruzamento de dois cadernos de viagem, descritos como diurno e noturno. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro tem suas páginas preenchidas por notas de viagem, fragmentos do que percebe em sua imersão com os </span><i><span style="font-weight: 400;">even </span></i><span style="font-weight: 400;">e a desperta atenção, mesmo com todos os dilemas que atravessam a etnografia. O segundo é do âmbito da </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=D7Z6AZnD9hc"><span style="font-weight: 400;">escrita do sonho</span></a><span style="font-weight: 400;">, que evoca o íntimo e o exterior numa poética de imagens quase ritualísticas, como pinturas rupestres que reincidem um mundo do sentimento selvagem e da máxima expressão da vida, na igualdade da relação animal ou humana. São contrastes significativos tanto em sua maneira de visualização do mundo e de sua própria sobrevivência que, na narrativa, não se institui de uma moralização da violência nem de um arco de redenção; quanto de sua escrita: variável de momentos cirúrgicos de descrição a até fluxos bestiais e oníricos de prosa.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">‘‘Fantasmático do desejo próprio às florestas, aos predadores solitários, à sua raiva, ao seu orgulho e à sua vigília. Tensão de seus encontros inesperados, inconfessáveis, improváveis, em devir, no entanto. Porque sozinhos eles se perdem, porque sozinhos eles se fecham, porque sozinhos eles esquecem. O cruzamento de seus olhares os salva de si mesmos ao projetá-los na alteridade daquele que os enfrenta. O cruzamento de seus olhares os mantém vivos.’’</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Na dualidade estabelecida à estrutura de seu texto, a autora mobiliza a etnografia para a escrita de si quando desafiada a </span><a href="https://www.philomag.com/articles/nastassja-martin-je-minteresse-la-possibilite-dune-metamorphose"><span style="font-weight: 400;">redescobrir</span></a><span style="font-weight: 400;"> a si mesma – com seu rosto desfigurado, do qual a ursa tomou-lhe parte da maçã do rosto e da mandíbula –, nesse novo território tomado de tensões: o seu próprio corpo. As questões psicológicas que a atravessam durante transferências incessantes por antigos hospitais da antiga ordem soviética, onde é posta à selvageria dos procedimentos médicos e legais envolvendo nacionalidade e gênero, é onde pensa um motivo maior a seu fatal encontro, que lhe propõe um </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2021/10/antropologa-perdoa-urso-que-a-atacou-em-livro-que-iguala-homens-e-animais.shtml"><span style="font-weight: 400;">novo significado</span></a><span style="font-weight: 400;"> por ainda estar viva. Portanto, no equívoco de sua epistemologia mas no exercício de uma liricidade autobiográfica, a evidente marca deixada pela espécie companheira à crença </span><i><span style="font-weight: 400;">even </span></i><span style="font-weight: 400;">é mais uma oportunidade individual de entender-se do que realmente uma maneira de debruçar-se sobre sua estrutura de pesquisa.</span></p>
<figure id="attachment_30724" aria-describedby="caption-attachment-30724" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30724" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/The-Bear.jpg" alt="Rascunho feito a grafite pelo artista expressionista Edvard Munch. Na esquerda, observa-se um vulto de uma mulher ajoelhada abraçando um urso, não preenchido, o que lhe dá a impressão de ser branco ou claro. Os traços de grafites são evidentes. À direita, observa-se uma figura parecida, no entanto a mulher está mais agachada e abraça um urso agora escuro, negro, preenchdio pelo grafite." width="800" height="607" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/The-Bear.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/The-Bear-768x583.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30724" class="wp-caption-text">‘‘Há tempos vim preparando o terreno que me levaria até a boca do urso, em direção ao seu beijo’’ (Arte: Edvard Munch)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda é tempo das mitologias. Existe, nos gestos conflitantes do enquadramento de seu encontro com a ursa — muitas vezes descrito enquanto um abraço e um beijo — uma determinada </span><a href="https://thebaffler.com/latest/bear-witness-goldman"><span style="font-weight: 400;">eroticidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> que parte da percepção de uma afetação, para além de necessariamente, de afeto, na qual a violência torna-se um espaço de proximidade inigualável. Se </span><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma fábula calculada nesses contrastes e escrita sobre a tradição indígena do sonho explorada por Ailton Krenak e pelas filosofias yanomami estudadas por </span><a href="https://gamarevista.uol.com.br/semana/sonhou-com-o-que/hanna-limulja-fala-da-cultura-yanomami-a-partir-de-seus-sonhos/"><span style="font-weight: 400;">Hanna Limulja</span></a><span style="font-weight: 400;">, sua moral naturalmente reivindica outros modos de vida, ou, como colocado pela pensadora </span><a href="https://personaunesp.com.br/eo-critica/#:~:text=pensadora%20Donna%20Haraway"><span style="font-weight: 400;">Donna Haraway</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">autre-mondialisation</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8221; (outra-mundialização). </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando o pulso ferino de primalidade toma conta da experimentação de Nastassja Martin, é pela memória que constrói um espaço conjunto e verdadeiro. Aquele que, como nas imagens feitas a dedo em escuras grutas, remonta um </span><a href="https://autonomialiteraria.com.br/sonho-de-outras-feras/"><span style="font-weight: 400;">passado mágico</span></a><span style="font-weight: 400;"> e possível, por outros exercícios de fazer o mundo, onde a técnica não colocou um corpo acima do outro, uma mulher abaixo de um homem e um humano-bixo acima de outras vidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Escavar o susto é, para essa </span><a href="https://12ft.io/proxy?q=https%3A%2F%2Fwww1.folha.uol.com.br%2Filustrada%2F2021%2F12%2Fescute-as-feras-nos-desperta-o-desejo-de-conhecer-um-urso.shtml"><span style="font-weight: 400;">narrativa de sobrevivência</span></a><span style="font-weight: 400;"> tomada de divagações — importantes para a composição do retrato sensível de si mesma —, encontrar sua própria essência, ao mesmo tempo que acessa a realidade antropológica da península de </span><span style="font-weight: 400;"> Kamtchátka, o lugar de</span><span style="font-weight: 400;"> seus estudos. Para a mitologia </span><i><span style="font-weight: 400;">even, </span></i><span style="font-weight: 400;">o olhar do urso em si não é perigoso pela tentativa de vingança do antropocentrismo ou do domínio de um espaço vital, mas sim pelo fato de que, nos olhos da animalidade humana, as outras formas de vida encontram-se e entendem a si próprias em sua condição de alteridade. </span><a href="https://www.nytimes.com/2021/11/24/books/review-in-eye-of-wild-nastassja-martin.html"><span style="font-weight: 400;">A ursa</span></a><span style="font-weight: 400;"> é tanto atacada por Nastassja – uma fera, em seus próprio papel – quanto devolve o susto, em uma metáfora da vida real sobre o misterioso assombro que é entender a si no outro.</span></p>
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		<title>Estante do Persona – Fevereiro de 2023</title>
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		<pubDate>Fri, 31 Mar 2023 22:10:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;Quantos psicólogos me tomariam por louca se eu lhes dissesse que sou afetada pelo que acontece fora de mim? Que a aceleração do desastre me petrifica? Que tenho a impressão de não ter mais controle sobre nada? &#8211; Nastassja Martin Após acompanhar o melancólico Aos prantos no mercado, de Michelle Zauner, em Fevereiro o Clube &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-fevereiro-de-2023/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Estante do Persona – Fevereiro de 2023"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30623" aria-describedby="caption-attachment-30623" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30623" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/estante_wp.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/estante_wp.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/estante_wp-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/estante_wp-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30623" class="wp-caption-text">Em Fevereiro, o Clube do Livro mergulhou em Escute as feras (Foto: Editora 34/Arte: Aryadne Xavier/Texto de abertura: Bruno Andrade)</figcaption></figure>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">&#8220;Quantos psicólogos me tomariam por louca se eu lhes dissesse que sou afetada pelo que acontece fora de mim? Que a aceleração do desastre me petrifica? Que tenho a impressão de não ter mais controle sobre nada?</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8211; <span style="font-weight: 400;">Nastassja Martin</span></em></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Após acompanhar o melancólico </span><a href="https://personaunesp.com.br/em-aos-prantos-no-mercado-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Aos prantos no mercado</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Michelle Zauner, em Fevereiro o Clube de Leitura do Persona deu continuidade a nossa tradição de ler autoras – nesse caso, também com uma escrita melancólica. </span><a href="https://editora34.com.br/detalhe.asp?id=1111"><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Nastassja Martin, foi a escolha da vez.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mergulhando nesse relato autobiográfico, narrado e construído como um texto de ficção, <a href="https://quatrocincoum.folha.uol.com.br/br/noticias/flip/cinco-curiosidades-sobre-nastassja-martin">Nastassja Martin</a> nos prende do inicio ao fim em seu trágico relato de quando, durante uma pesquisa de campo, foi atacada por um urso e teve parte do rosto desfigurado. No entanto, a antropóloga entende que, em sua trajetória de cura, precisa perdoar o animal e retornar à vida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No único encontro do Clube, aspectos da construção textual e uma possível ligação com a autossociobiografia de <a href="https://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/">Annie Ernaux</a> – sendo as duas autoras francesas – chamou a atenção. As referências culturais, antropológicas e místicas também foram abordadas: para alguns povos originários, os quais Martin estava se dedicando a pesquisar durante o ocorrido, ser atacado por um urso e sobreviver coloca o indivíduo em um estado de &#8220;entre-vida&#8221;, habitando duas dimensões simultaneamente – o texto da autora, que <a href="https://www.youtube.com/watch?v=bZps99Q5cs4">veio à Flip</a> no final de 2022, se constrói um pouco nessa dimensão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto os próximos conteúdos do mundo literário não chegam, o</span><b> Estante do Persona de Fevereiro de 2023</b><span style="font-weight: 400;"> segue com seus comentários e Dicas do Mês.</span></p>
<p><span id="more-30605"></span></p>
<h3>Livro do Mês</h3>
<figure id="attachment_30611" aria-describedby="caption-attachment-30611" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30611 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/escute-as-feras-1-683x1024.jpg" alt="Capa do livro Escute as feras. A capa é toda branca com uma foto de um urso em preto e branco centralizada na porção inferior. O animal está uivando com o focinho apontado para cima. O nome da obra está escrito na parte direita superior em fonte simples na cor preta. O nome da autora aparece no lado esquerdo também na parte superior com uma fonte menor." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/escute-as-feras-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/escute-as-feras-1-533x800.jpg 533w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/escute-as-feras-1-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/escute-as-feras-1-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/escute-as-feras-1.jpg 1707w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30611" class="wp-caption-text">Sob garras e dentes, Escute as feras dilacera a animalização do ser humano (Foto: Editora 34)</figcaption></figure>
<p><b>Nastassja Martin &#8211; Escute as feras (112 páginas, Editora 34)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A antropologia estuda o ser humano, suas origens e afirmação enquanto ser social, biológico e cultural. Para a antropóloga </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/11/nastassja-martin-vai-a-flip-elaborar-sua-metamorfose-no-urso-que-quase-a-matou.shtml"><span style="font-weight: 400;">Nastassja Martin</span></a><span style="font-weight: 400;">, a busca pelas respostas se alinhou a níveis acima do esperado. Viajando pelo leste siberiano para entender os costumes dos nativos evenki, a autora enfrentou um urso em um movimento que poderia ser descrito como um ataque, mas, ao longo do texto, a palavra se mostra um equívoco. Com a mandíbula despedaçada e o osso zigomático aos frangalhos, o rosto, vítima da mordida, se choca com uma verdade dolorosa: lutar com um urso parece um abraço quando comparado ao tratamento recebido dos próprios semelhantes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sentir a carne se desfazendo da própria face antecipa o movimento inesperado no qual o urso desiste de tê-la como presa. Sentido como uma quase empatia da parte daquele que chamam de fera, poupá-la tem um tom que foge à crueldade e é comparar isso com os eventos vividos depois da mordida que dão origem ao livro. Sendo cambaleada entre médicos e hospitais, a mulher assiste os profissionais da saúde em momentos de verdadeira selvageria, longe da tal habilidade pacificadora de conflitos supostamente detida por eles enquanto racionais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É imerso nessa dualidade do ser e as reflexões do ponto que realmente diferencia os mamíferos chamados de homens dos demais, que </span><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras</span></i><span style="font-weight: 400;"> se torna uma ruptura. Como uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-paixao-segundo-gh-critica/"><span style="font-weight: 400;">epifania</span></a><span style="font-weight: 400;">, a antropologia e a literatura se misturam em linhas descritivas e extremamente metafóricas para revelar que as verdadeiras feras são humanas. Virando a chave na cabeça de quem lê, Martin nos mostra que encontrar um urso pode não ser um sinal de azar. </span></p>
<hr />
<h3>Dicas do Mês</h3>
<figure id="attachment_30613" aria-describedby="caption-attachment-30613" style="width: 684px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30613 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/71QLwli7GUL-684x1024.jpg" alt="A capa do livro A Metamorfose tem o fundo todo branco com o nome do autor, Franz Kafka, escrito no topo em preto e em letras grandes. Embaixo do autor há o nome do livro, A Metamorfose, também escrito em preto mas em letras menores, e, mais abaixo, riscos pretos formando um quadrado quase abstrato." width="684" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/71QLwli7GUL-684x1024.jpg 684w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/71QLwli7GUL-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/71QLwli7GUL-768x1150.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/71QLwli7GUL-1026x1536.jpg 1026w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/71QLwli7GUL-1200x1797.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/71QLwli7GUL.jpg 1324w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30613" class="wp-caption-text">“Recordava-se da família com emoção e amor. Sua opinião de que precisava desaparecer era, se possível, ainda mais decidida que a da irmã.” (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Franz Kafka &#8211; A Metamorfose (104 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao despertar, Gregor Samsa nota uma <a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788571646858/a-metamorfose">metamorfose</a> monstruosa ao observar seu corpo que, misteriosamente, havia perdido a humanidade. A narrativa da ficção kafkiana segue acompanhando a nova, drástica e angustiante rotina de Gregor, o jovem que teve sua dignidade roubada mas apenas conseguia se preocupar em não perder seu emprego e desapontar sua família.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A simbologia da obra pende para a comédia ao passo em que o protagonista se adapta ao novo corpo e começa a agir com uma normalidade quase absurda diante do acontecimento.  É assim que <a href="https://www.estadao.com.br/alias/franz-kafka-tem-suas-apreensoes-reveladas-na-biografia-de-reiner-stach/">Kafka</a> retrata o processo de transformação até sua conclusão, no qual a individualidade de Gregor é retirada de si completamente e o, agora, inseto gigante, deixa de ser filho e irmão e se torna apenas um animal. </span><b>&#8211; Amábile Zioli</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_30610" aria-describedby="caption-attachment-30610" style="width: 661px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30610 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Amor-Nos-Tempos-do-Colera-1-661x1024.jpg" alt="A capa do livro O Amor Nos Tempos do Cólera é composta por um fundo preto sobreposto com cartas amarradas com fotos em um laço vermelho no canto superior direito e inferior esquerdo. No meio, também sobreposto e em uma espécie de papel envelhecido vemos em letras maiúsculas pretas de tamanho pequeno, o escrito “PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA” Logo abaixo, vemos “GABRIEL” em letras maiúsculas douradas e “GARCÍA MÁRQUEZ” em letras maiúsculas na cor vinho. Abaixo, em letras minúsculas cursivas, está escrito “o amor nos tempos do cólera”" width="661" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Amor-Nos-Tempos-do-Colera-1-661x1024.jpg 661w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Amor-Nos-Tempos-do-Colera-1-516x800.jpg 516w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Amor-Nos-Tempos-do-Colera-1-768x1190.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Amor-Nos-Tempos-do-Colera-1-992x1536.jpg 992w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Amor-Nos-Tempos-do-Colera-1.jpg 1603w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30610" class="wp-caption-text">Obra é a primeira do autor após o Nobel de Literatura de 1982 por Cem Anos de Solidão (Foto: Record)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel García Márquez &#8211; O Amor Nos Tempos do Cólera (492 páginas, Record)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O próprio autor já afirmava que “</span><i><span style="font-weight: 400;">todo bom romance deveria ser uma transposição poética da realidade”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Nessa obra, <a href="https://www.estadao.com.br/cultura/literatura/garcia-marquez-e-mais-traduzido-no-mundo-que-cervantes-no-seculo-21/">Gabriel García Márquez</a> condensa suas vivências amorosas, mesclando com a história de como seus pais se conheceram. </span><i><span style="font-weight: 400;">O Amor Nos Tempos do Cólera</span></i><span style="font-weight: 400;"> aborda a jornada de Florentino Avina, um telegrafista, violinista e poeta que se apaixona perdidamente por Fermina Daza. Devido a proibição do pai da garota, Florentino passa dois anos trocando correspondências com ela, e após um último bilhete sem resposta pedindo sua mão em casamento, espera mais de meio século na esperança de reencontrar seu amor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra é uma quebra de paradigmas no seu próprio gênero. Quando se fala no romance literário, automaticamente se lembra daquelas obras que colocam borboletas no estômago e te fazem querer amar ainda mais. Em </span><a href="https://institutoling.org.br/explore/no-clube-de-leitura-um-amor-que-demorou-mais-de-cinquenta-anos-para-ser-vivido"><i><span style="font-weight: 400;">O Amor Nos Tempos do Cólera</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">o amor é cru, é nu, melancólico, demorado, angustiante, frustrante, inconstante e até não garantido. Mas, acima de tudo, ele é humano e nos faz lembrar que amar nos torna mais humanos. </span><b>&#8211; Guilherme Veiga</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_30609" aria-describedby="caption-attachment-30609" style="width: 691px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30609 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/redoma-de-vidro-1-691x1024.jpg" alt="A capa do livro A Redoma de Vidro tem o fundo na cor rosa. O nome da autora, SYLVIA PLATH, posiciona-se no canto superior direito da capa na cor roxa, e no canto inferior esquerdo temos o escrito A REDOMA DE VIDRO na cor branca. Abaixo do título, há, na cor branca também, o escrito ROMANCE. Todos os escritos estão em caixa baixa e no minúsculo. Sobrepondo o título, há a ilustração de uma flor. No canto inferior esquerdo, há o logotipo da Biblioteca Azul na cor roxa. " width="691" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/redoma-de-vidro-1-691x1024.jpg 691w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/redoma-de-vidro-1-540x800.jpg 540w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/redoma-de-vidro-1-768x1138.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/redoma-de-vidro-1-1037x1536.jpg 1037w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/redoma-de-vidro-1.jpg 1728w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30609" class="wp-caption-text">“Acontece que eu não estava conduzindo nada, nem a mim mesma.” (Foto: Biblioteca Azul)</figcaption></figure>
<p><b>Sylvia Plath &#8211; A Redoma de Vidro (280 páginas, Biblioteca Azul)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sylvia Plath consegue, dentro de todos os futuros que nunca serão vividos e de todos os projetos que nunca irão sair do papel, encontrar as exatas palavras para definir algumas angústias do próprio viver. Em um relato com muitas referências autobiográficas, <a href="https://deliriumnerd.com/2023/03/22/sylvia-plath-diarios-a-redoma-de-vidro/"><em>A Redoma de Vidro</em></a>, único romance da autora, é um mergulho em todas as pressões sociais, os julgamentos, as expectativas e os fracassos de uma jovem nos anos 60.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Publicado semanas antes de sua morte, em 1963, é importante ressaltar que a história de Esther pode gerar gatilhos sobre depressão e suicídio. Ler <a href="https://www.estadao.com.br/alias/sylvia-plath-e-a-importancia-dos-diarios/">Sylvia Plath</a> é como vislumbrar todo o seu interior: seus pensamentos, tormentos, críticas, medos e felicidades que todos nós, em algum momento, já experimentamos, mas que não conseguimos encontrar as palavras exatas para definir. </span><b>&#8211; Clara Sganzerla</b></p>
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<figure id="attachment_30608" aria-describedby="caption-attachment-30608" style="width: 699px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30608 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Rainha-de-Copas-1-699x1024.jpg" alt="Capa do livro Rainha de Copas. No centro da imagem está uma garota branca com o cabelo ruivo preso em um penteado alto; veste um vestido vermelho com uma grande gola branca; em suas mãos há um coração. Ao fundo, é possível ver alguns galhos e folhagens de outono. Ao centro na parte superior está o nome da autora e na parte inferior o título da obra e o nome do editora" width="699" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Rainha-de-Copas-1-699x1024.jpg 699w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Rainha-de-Copas-1-546x800.jpg 546w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Rainha-de-Copas-1-768x1125.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Rainha-de-Copas-1-1048x1536.jpg 1048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Rainha-de-Copas-1.jpg 1747w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30608" class="wp-caption-text">Rainha de Copas traz uma nova perpetuar para um dos contos de fadas mais famosos da história (Foto: Universo dos Livros)</figcaption></figure>
<p><b>College Oakes &#8211; Rainha de Copas (216 páginas, Universo dos Livros)</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Alice no País das Maravilhas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um clássico da literatura e reconhecido no mundo todo pelas aventuras mágicas vividas pela garota loira que caiu no buraco do coelho. Mas como era o País das Maravilhas antes da chegada de Alice? É exatamente isso que </span><i><span style="font-weight: 400;">Rainha de Copas</span></i><span style="font-weight: 400;"> explora, a vida da princesa Dinah antes de se tornar uma vilã sedenta pelo corte de algumas cabeças. A história é sombria e familiar na medida certa, faz o leitor mergulhar nos novos desafios e mistérios que fizeram a garota desenvolver sua personalidade explosiva. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma das partes mais interessantes do livro é notar como personagens tão famosos como o Chapeleiro Maluco, o Gato de Cheshire e o Coelho Branco se desenvolvem nessa nova versão do universo de Lewis Carroll. Todos esses indivíduos têm características e vivências totalmente inéditas, mas suas personalidades marcantes se mantiveram presentes honrando a história original. </span><i><span style="font-weight: 400;">Rainha de Copas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é o primeiro livro de uma trilogia intensa que promete muitas reviravoltas e um novo ponto de vista do conto que encantou gerações. </span><b>&#8211; Gabrielli Natividade </b></p>
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<figure id="attachment_30607" aria-describedby="caption-attachment-30607" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30607 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Codigo-da-Vinci-1-712x1024.jpg" alt="Capa do livro O Código da Vinci. Na imagem, um pedaço rasgado do quadro Monalisa de Leonardo da Vinci ocupa espaço no meio de um fundo vermelho. O pedaço tem a parte dos olhos da mulher, que parecem estar direcionados para a direita. O nome do livro está disposto na parte inferior da capa em letras douradas e o nome do autor aparece logo após escrito em branco." width="712" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Codigo-da-Vinci-1-712x1024.jpg 712w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Codigo-da-Vinci-1-556x800.jpg 556w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Codigo-da-Vinci-1-768x1105.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Codigo-da-Vinci-1-1068x1536.jpg 1068w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Codigo-da-Vinci-1.jpg 1780w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30607" class="wp-caption-text">Tirando o cristianismo do pedestal, O Código da Vinci performa conspiração e mistério (Foto: Arqueiro)</figcaption></figure>
<p><b>Dan Brown &#8211; O Código da Vinci (432 páginas, Arqueiro)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vinte anos após sua primeira publicação, </span><a href="https://www.legiaodosherois.com.br/2022/historia-real-o-codigo-da-vinci-fato-falso.html"><i><span style="font-weight: 400;">O Código da Vinci</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">se mantém como uma das produções literárias mais polêmicas já produzidas. Descrita como um mistério, a obra mistura os traços investigativos a uma versão remodelada da história de Jesus Cristo. Enfrentar uma instituição com tanta força quanto a Igreja Católica foi uma escolha ousada da parte de Dan Brown, mas ainda assim atingiu o alvo com perfeição e, entre críticas e retaliações, o texto se destaca pelo seu tom questionador e certeiro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sob as artimanhas de um bom suspense, o livro nos conduz pelo desejo de resolver uma incógnita que se mostra muito mais extensa do que o esperado. Através das pistas escondidas em obras do Leonardo da Vinci, toda a construção do catolicismo se revira sobre linhas ocultas. Assim, </span><a href="https://www.theguardian.com/books/2018/nov/18/4am-starts-and-spinach-smoothies-da-vinci-codes-dan-brown-on-how-to-write-a-bestseller"><span style="font-weight: 400;">Brown</span></a><span style="font-weight: 400;"> foge das cadeias simplistas de detetives com charutos e bloquinhos para repousar em uma linha ficcional que quase beira uma sociedade secreta, mas ainda guarda seus graus de coerência. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">O Código da Vinci</span></i><span style="font-weight: 400;">, a maior obra de arte é a exposição do mais bem sucedido sistema de dominação social já visto: a igreja. </span><b>&#8211; Jamily Rigonatto</b></p>
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		<title>Em Aos prantos no mercado, Michelle Zauner chora entre temperos e memórias</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Mar 2023 21:08:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Parecia que o mundo tinha se dividido em dois tipos diferentes de pessoas, as que haviam sentido dor e as que ainda iriam sentir” (pág. 192) Bruno Andrade Com a morte da mãe, Michelle Zauner passou a enfrentar uma terrível nostalgia ao entrar no H Mart, supermercado especializado em comida asiática. Embora seja amargo lembrar &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/em-aos-prantos-no-mercado-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em Aos prantos no mercado, Michelle Zauner chora entre temperos e memórias"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30601" aria-describedby="caption-attachment-30601" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30601" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/AOSPRANTOSNOMERCADO_WORDPRESS.jpg" alt="Imagem retangular de fundo branco. No canto superior, está centralizado a logo do Persona, um olho com íris na cor amarela e pupila em preto no formato triangular de play. No lado direito dessa logo, está escrito &quot;Clube do Livro do Persona&quot; preenchido por um fundo preto e com letras transparentes que correspondem à cor do fundo branco. Abaixo está escrito “Em Aos prantos no mercado, Michelle Zauner chora entre temperos e memórias” em letras pretas, sendo &quot;Aos prantos do mercado&quot; em letras amarelas. Mais abaixo, no canto esquerdo, há uma imagem retangular da capa do livro de fundo vermelho. No topo da capa, de forma centralizada, está escrito o nome da autora &quot;Michelle Zauner&quot; na cor branca e, logo abaixo, uma ilustração de uma sequência de quadrinhos. O primeiro quadrinho mostra uma cesta cheia de mercado, o segundo mostra um vaso de flor, o terceiro mostra uma laranja sendo descascada e o último mostra a preparação de uma refeição com muitos ingredientes postos sobre uma mesa. Na parte inferior da capa, de forma centralizada, está escrito o título do livro &quot;Aos prantos no mercado&quot; em letras amarelas. Ao lado direito da imagem, está escrito &quot;À medida que Zauner se aliena ao preparar as refeições para a mãe, com a garantia de que Chongmi recebe as calorias suficientes para sobreviver, o seu próprio apetite diminui, consequência da 'esperança desesperada de que a escuridão não fosse invadir'.&quot; em letras pretas. Abaixo do texto está escrito “Por&quot; em letras pretas, seguido de &quot;Bruno Andrade&quot; em letras amarelas. No canto inferior há um sombreado amarelo que está iluminando o escrito &quot;Crítica&quot;, também em amarelo." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/AOSPRANTOSNOMERCADO_WORDPRESS.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/AOSPRANTOSNOMERCADO_WORDPRESS-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/AOSPRANTOSNOMERCADO_WORDPRESS-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30601" class="wp-caption-text">Lançado no Brasil em 2022, com tradução de Ana Ban, Aos prantos no mercado foi a obra debatida no Clube do Livro do Persona em Janeiro de 2023 (Foto: Fósforo/Arte: Ana Cegatti)</figcaption></figure>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Parecia que o mundo tinha se dividido em dois tipos diferentes de pessoas, as que haviam sentido dor e as que ainda iriam sentir”</span><em><span style="font-weight: 400;"> (pág. 192)</span></em></p></blockquote>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com a morte da mãe, </span><a href="https://personaunesp.com.br/japanese-breakfast-jubilee-critica/"><span style="font-weight: 400;">Michelle Zauner</span></a><span style="font-weight: 400;"> passou a enfrentar uma terrível nostalgia ao entrar no </span><i><span style="font-weight: 400;">H Mart</span></i><span style="font-weight: 400;">, supermercado especializado em comida asiática. Embora seja amargo lembrar de quando sua matriarca, Chongmi, morreu vitimada por um câncer em 2014, ela pode se lembrar com tranquilidade do gosto que sua mãe tinha para comida: entre o salgado e o “</span><i><span style="font-weight: 400;">fumegando de quente</span></i><span style="font-weight: 400;">”, que, por algumas razões, definiam sua forma de exercer a maternidade. &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">Por mais crítica ou cruel que ela pudesse parecer – sempre me forçando a atender a suas expectativas obstinadas –, eu sempre sentia o afeto dela irradiando das merendas que ela preparava para eu levar à escola e das refeições que ela cozinhava para mim bem do jeito que eu gostava&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">. As peregrinações repletas de tristeza sustentam o primeiro capítulo de</span> <a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-janeiro-de-2023/"><i><span style="font-weight: 400;">Aos prantos no mercado</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, livro lançado em 2022 no Brasil pela editora <em>Fósforo</em>, cujo primeiro capítulo é o ensaio homônimo publicado na </span><i><span style="font-weight: 400;">The New Yorker</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-30597"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diferente do que se pode imaginar, Zauner decidiu escrever o livro somente depois de ter </span><a href="https://www.newyorker.com/culture/culture-desk/crying-in-h-mart"><span style="font-weight: 400;">publicado o ensaio</span></a><span style="font-weight: 400;">. A repercussão avassaladora do texto na revista foi reproduzida na obra literária, que ficou 14 semanas seguidas nas listas de mais vendidos do </span><i><span style="font-weight: 400;">The New York Times</span></i><span style="font-weight: 400;">. Para a escritora coreana-americana, artista musical e fundadora da banda Japanese Breakfast, a comida é um portal. Na praça de alimentação do </span><i><span style="font-weight: 400;">H Mart</span></i><span style="font-weight: 400;">, Zauner chora ao consumir seu almoço, enquanto percebe que todos estão sentados, comendo em silêncio, porque estão “</span><i><span style="font-weight: 400;">em busca de um pedacinho do nosso lar, de um pedacinho de nós mesmos. Procuramos um gostinho disso nos pedidos de comida que fazemos e nos ingredientes que compramos. Então nos separamos. Levamos as compras para o alojamento da faculdade ou para uma cozinha suburbana e recriamos o prato que não poderia ser preparado sem essa viagem&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_30598" aria-describedby="caption-attachment-30598" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30598" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-5.jpg" alt="" width="2048" height="1472" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-5.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-5-800x575.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-5-1024x736.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-5-768x552.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-5-1536x1104.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-5-1200x863.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30598" class="wp-caption-text">“O amor dela era mais do que inflexível. Era brutal, com força industrial” (Foto: Michelle Zauner/The New York Times)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Michelle Zauner se mudou com a família para Eugene, nos Estados Unidos, quando tinha nove meses de idade. Aos 15 anos, após ver uma apresentação de Karen O – a vocalista do Yeah Yeah Yeahs –, ganhou a primeira guitarra da mãe que, pouco depois, se arrependeu do presente. Mas, mesmo que a Música tenha sido um refúgio para a adolescente deprimida, Zauner foi influenciada textualmente por Joan Didion, Philip Roth, Vladimir Nabokov e pela HQ </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-fevereiro-de-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Fun Home</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2006), de Alison Bechdel, decidindo, então estudar Escrita Criativa na Bryn Mawr College. Na faculdade, escreveu majoritariamente textos de ficção – foi lá, inclusive, que iniciou os primeiros projetos musicais, consolidados em Japanese Breakfast. Aos 25 anos, após concluir a graduação, Zauner viveu ostensivamente sem roteiro, se “</span><i><span style="font-weight: 400;">debatendo com a realidade, vivendo a vida de uma artista sem sucesso</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Nesse período, Chongmi ficou doente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sua primeira publicação musical foi <em>June </em></span><span style="font-weight: 400;">(2013), um disco amador resultado da parceria com Rachel Gagliardi, criado a partir das canções disponibilizadas diariamente no mês de Junho de 2013 em uma página do </span><a href="http://rachelandmichelledojune.tumblr.com"><i><span style="font-weight: 400;">Tumblr</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Mas é em </span><a href="https://pitchfork.com/reviews/albums/21629-psychopomp/"><i><span style="font-weight: 400;">Psychopomp</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2016), o primeiro disco de estúdio de Japanese Breakfast e a primeira publicação após a morte de Chongmi, que Zauner enfrenta abertamente a perda da mãe, cujo título tem origem na história mitológica dos psicopompos, que tem a missão de guiar as almas dos mortos para o pós-vida.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Japanese Breakfast - Everybody Wants To Love You (Official Video)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/KNT7wuqaykc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim da vida da mãe, os papéis parecem se inverter. À medida que Zauner se aliena ao preparar as refeições para a mãe, com a garantia de que Chongmi receberá as calorias suficientes para sobreviver, o seu próprio apetite diminui, consequência da “</span><i><span style="font-weight: 400;">esperança desesperada de que a escuridão não fosse invadir</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Talvez, se ela pudesse carregar a </span><a href="https://www.nytimes.com/interactive/2022/06/06/magazine/michelle-zauner-interview.html"><span style="font-weight: 400;">dor da mãe</span></a><span style="font-weight: 400;"> e realizar o “</span><i><span style="font-weight: 400;">ritual da filha única</span></i><span style="font-weight: 400;">”, haveria a possibilidade de intermediar uma cura, na expectativa de fazer as pazes com a rebeldia adolescente de uma jovem com anseios desvinculados dos interesses maternos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A bem da verdade, o que </span><a href="https://www.npr.org/2021/04/20/988665726/a-daughter-grieves-her-mom-and-finds-herself-in-crying-in-h-mart"><i><span style="font-weight: 400;">Crying in H Mart</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(no original)</span> <span style="font-weight: 400;">esclarece é que os principais momentos de conexão legítima entre Zauner e Chongmi se davam através da comida; principalmente por isso, a tristeza ressurge ao entrar no mercado. A prosa íntima do livro é, ao mesmo tempo, autodepreciativa e atenta, com descrições texturizadas das qualidades estéticas e sentidas dos momentos vividos pela artista. Trata-se de um livro de memórias muito ancorado no ensaio, cujas ligações entre experiências pessoais de luto e identidade ganham corpo em todo o texto. </span></p>
<figure id="attachment_30599" aria-describedby="caption-attachment-30599" style="width: 980px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30599" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-1.jpg" alt="" width="980" height="653" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-1.jpg 980w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-1-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30599" class="wp-caption-text">“Falei sobre como o amor era uma ação, um instinto, uma reação suscitada por momentos não planejados e pequenos gestos, uma inconveniência a favor de outra pessoa” (Foto: Rebecca Sapp)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A morte e a melancolia perpassam toda a obra de Michelle Zauner, talvez resultado da vida fragmentada da artista, dividida entre a ancestralidade sul-coreana e a vivência contemporânea nos Estados Unidos. O sentimento de ausência parece presente em toda a obra – seja pela morte da mãe, propriamente, ou seja na morte simbólica de um tipo de cultura. Não por acaso, suas melhores canções representam estados avançados de autoconsciência, mesmo em faixas que compõem </span><a href="https://personaunesp.com.br/japanese-breakfast-jubilee-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Jubilee</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2021), álbum descrito por Zauner como seu projeto “</span><i><span style="font-weight: 400;">mais alegre</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em adaptação para o Cinema por </span><a href="https://www.papelpop.com/2023/03/will-sharpe-de-the-white-lotus-vai-dirigir-adaptacao-do-livro-aos-prantos-no-mercado/"><span style="font-weight: 400;">Will Sharpe</span></a><span style="font-weight: 400;">, ator de </span><a href="https://personaunesp.com.br/the-white-lotus-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">The White Lotus</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, com roteiro assinado pela própria Michelle Zauner, </span><i><span style="font-weight: 400;">Aos prantos no mercado </span></i><span style="font-weight: 400;">não é necessariamente um livro difícil de ler, mas uma obra melancólica. No final do livro, Zauner nos conta que decidiu fazer um casamento de última hora em seu próprio quintal, sabendo que sua mãe poderia não viver muito tempo. Parece que, ao compartilhar suas experiências, Michelle Zauner constrói uma ode à memória de Chongmi – e nos permite enxergar sob seus olhos e consciência por algumas páginas.</span></p>
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		<title>Estante do Persona – Janeiro de 2023</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Feb 2023 23:35:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Às vezes, meu luto é igual a ter sido deixada sozinha em uma sala sem porta nenhuma. Toda vez que eu lembro que a minha mãe morreu, parece que estou batendo contra uma parede que se recusa a ceder. Não há escapatória, só uma superfície dura contra a qual eu me choco vez após outra, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-janeiro-de-2023/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Estante do Persona – Janeiro de 2023"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30005" aria-describedby="caption-attachment-30005" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30005 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/CAPA_WP_ESTANTE.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/CAPA_WP_ESTANTE.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/CAPA_WP_ESTANTE-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/CAPA_WP_ESTANTE-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30005" class="wp-caption-text">Para começar 2023, Aos Prantos no Mercado desbota os cinzas e pretos da dor do luto no Clube do Livro do Persona (Arte: Nathália Mendes/Texto de abertura: Jamily Rigonatto)</figcaption></figure>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">“Às vezes, meu luto é igual a ter sido deixada sozinha em uma sala sem porta nenhuma. Toda vez que eu lembro que a minha mãe morreu, parece que estou batendo contra uma parede que se recusa a ceder. Não há escapatória, só uma superfície dura contra a qual eu me choco vez após outra, um lembrete da realidade imutável de que eu nunca mais vou voltar a vê-la.”</span></p>
<p style="text-align: right;"><em><span style="font-weight: 400;">&#8211; Michelle Zauner</span></em></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/clube-do-livro/"><span style="font-weight: 400;">Clube do Livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> do Persona deu início ao ciclo de 2023 com direito a todas as emoções presentes nos processos do luto. Com a leitura de </span><i><span style="font-weight: 400;">Aos Prantos no Mercado</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Michelle Zauner, nossos leitores experimentaram a dor, as memórias e os afetos através das prateleiras do </span><i><span style="font-weight: 400;">H Mart </span></i><span style="font-weight: 400;">em Nova York. Abrindo portas para a intimidade, a obra da vocalista da </span><a href="https://personaunesp.com.br/japanese-breakfast-jubilee-critica/"><span style="font-weight: 400;">Japanese Breakfast</span></a><span style="font-weight: 400;"> caminha, entre temperos e lágrimas, pelas reflexões desencadeadas na artista após a morte da mãe.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desde as primeiras páginas do livro, há o gosto de uma experiência sensorial. Enquanto narra a passagem pelos corredores de um </span><a href="https://www.hmart.com/"><span style="font-weight: 400;">mercado de comidas coreanas</span></a><span style="font-weight: 400;">, a artista evoca cheiros, texturas e cores para ilustrar as questões que marcaram suas lembranças. A cada embalagem vista, o resultado é um conjunto de reações lacrimosas misturadas aos </span><i><span style="font-weight: 400;">flashbacks</span></i><span style="font-weight: 400;"> de sensações e momentos em que a comida representava a ligação entre mãe e filha. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro, publicado em outubro de 2022, é a continuação das páginas expostas na revista </span><a href="https://www.newyorker.com/culture/culture-desk/crying-in-h-mart"><i><span style="font-weight: 400;">The New Yorker</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em 2018. A versão final da obra trouxe o ensaio na forma do primeiro capítulo das 288 páginas que compõem o conjunto. No Brasil, a editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Fósforo </span></i><span style="font-weight: 400;">foi a responsável pela publicação, com tradução de Ana Ban e capa ilustrada pela quadrinista </span><a href="https://www.inglee.art/"><span style="font-weight: 400;">Ing Lee</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Através de suas palavras, a cantora e escritora consegue expor não só como funcionava a relação com a própria mãe, como também gerar pensamentos sobre o amor e as formas singulares sob as quais esse sentimento se porta. Assim, as relações não ganham um tom de perfeição, mas mostram o apreço entre os gestos e atitudes. A austeridade e rigidez que envolvem a criação de </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/musica/noticia/2022/09/prestes-a-estrear-nos-palcos-do-brasil-michelle-zauner-tera-livro-lancado-no-pais.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Michelle</span></a><span style="font-weight: 400;"> ainda abrem espaço para as ponderações de sua visão acerca da mudança de perspectiva visível entre a adolescência e a vida adulta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O texto também traz a </span><a href="https://yuuggoto.medium.com/a-birracialidade-e-o-n%C3%A3o-pertencimento-ab9ea99b5261"><span style="font-weight: 400;">birracialidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> como pauta e explora os impactos dessa condição na própria concepção do ser e pertencer. Em diversos momentos, as pontas soltas da ideia de não se sentir inteira étnica e culturalmente passeiam ao redor das angústias proporcionadas pela perda. Zauner, que é filha de mãe coreana e pai estadunidense, percorre a trilha das fragilidades de suas tradições e relações com os Estados Unidos e a Coréia do Sul.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em sua estreia literária, a </span><a href="https://tanojukeboxblog.wordpress.com/2021/07/04/a-versatilidade-unica-de-japanese-breakfast/"><span style="font-weight: 400;">cantora</span></a><span style="font-weight: 400;"> de 33 anos é pessoal e trabalha o processo de luto de um aspecto já apresentado em seus </span><a href="https://open.spotify.com/album/1uD1kdwTWH1DZQZqGKz6rY?si=L16boa_oRPqi5xO68ypgZw"><span style="font-weight: 400;">trabalhos musicais</span></a><span style="font-weight: 400;">. Aqui, somos convidados em um universo extremamente particular e humano. Seja na tristeza, na raiva ou na inveja, tudo soa em notas de singularidade escritas de forma extremamente descritiva, e o uso da linguagem remonta as imagens em vivacidade na cabeça de quem lê. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas como os aspectos de sentir são vorazes, o que não falta é experimentação, melancolia, possibilidades em mundos reais ou ficcionais. Por isso, como de costume, a nossa editoria deixa sua lista de selecionados nas mãos de quem busca mais lágrimas ou prefere se moldar às páginas bem humoradas com as indicações de Janeiro no </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/estante-do-persona/"><b>Estante do Persona</b></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-29988"></span></p>
<h3>Livro do Mês</h3>
<figure id="attachment_29998" aria-describedby="caption-attachment-29998" style="width: 701px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29998 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/michelle-1-701x1024.jpg" alt="" width="701" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/michelle-1-701x1024.jpg 701w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/michelle-1-548x800.jpg 548w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/michelle-1-768x1121.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/michelle-1-1052x1536.jpg 1052w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/michelle-1-1403x2048.jpg 1403w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/michelle-1-1200x1752.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/michelle-1.jpg 1618w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29998" class="wp-caption-text">Lançado no Brasil em 2022, Aos Prantos no Mercado é uma investigação sobre o luto (Foto: Fósforo)</figcaption></figure>
<p><b>Michelle Zauner &#8211; Aos Prantos no Mercado (288 páginas, Fósforo)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para Michelle Zauner, a comida é uma espécie de máquina no tempo. Em </span><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/catalogo/aos-prantos-no-mercado/"><i><span style="font-weight: 400;">Aos Prantos no Mercado</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, é através dos alimentos que a artista rememora os momentos com a mãe, que faleceu em 2014, vítima de câncer. Isso ocorre, mais especificamente, quando Zauner vai ao <em>H Mart</em>, supermercado estadunidense especializado em comida coreana, onde compartilha experiências sensoriais de luto e identidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nessas </span><a href="https://www.newyorker.com/culture/culture-desk/crying-in-h-mart"><span style="font-weight: 400;">memórias</span></a><span style="font-weight: 400;">, ter uma dupla origem é como viver uma fratura. Sendo a comida sua principal ligação com a Coréia do Sul, é também na comida que Zauner encontra uma das bases na educação sentimental, superando traumas da infância que dão lugar a uma nova responsabilidade sobre as escolhas da vida adulta. A autora aborda temas como perda, amor, saudade e família com uma sensibilidade tocante e um tipo de humor sutil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com uma linguagem poética e envolvente, a vocalista de </span><a href="https://personaunesp.com.br/japanese-breakfast-jubilee-critica/"><span style="font-weight: 400;">Japanese Breakfast</span></a><span style="font-weight: 400;"> conduz o leitor por outros momentos marcantes de sua vida, como o relacionamento com seu pai e o processo de descoberta da Música, ao ganhar sua primeira guitarra da mãe – que logo se arrepende. </span><i><span style="font-weight: 400;">Aos Prantos no Mercado </span></i><span style="font-weight: 400;">também traz reflexões importantes sobre a cultura coreana e o impacto da imigração na formação da identidade.</span></p>
<p><iframe title="Spotify Embed: Aos prantos no mercado - Clube do Livro Janeiro de 2023" style="border-radius: 12px" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/60OmGVaVvzQffjkuBBgZSN?si=71718a3a80f5407c&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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<h3>Dicas do Mês</h3>
<figure id="attachment_29994" aria-describedby="caption-attachment-29994" style="width: 674px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29994 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/se-deus-me-chamar-nao-vou-1-674x1024.jpg" alt="Capa do livro Se deus me chamar não vou, de Mariana Salomão Carrara, publicado pela editora Nós. Na imagem, de fundo rosa pink, há um ziguezague horizontal na cor laranja pastel que se faz presente em toda sua totalidade. Na parte superior, vemos o título centralizado e escrito em letras minúsculas na cor azul escuro. Na parte inferior, também centralizado, vemos o nome da autora escrito em letras maiúsculas na cor branca. Um pouco abaixo, no lado inferior esquerdo, vemos uma espécie de etiqueta da mesma cor que o título com o nome da editora dentro, escrito em letras maiúsculas na cor branca." width="674" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/se-deus-me-chamar-nao-vou-1-674x1024.jpg 674w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/se-deus-me-chamar-nao-vou-1-526x800.jpg 526w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/se-deus-me-chamar-nao-vou-1-768x1167.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/se-deus-me-chamar-nao-vou-1-1011x1536.jpg 1011w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/se-deus-me-chamar-nao-vou-1-1347x2048.jpg 1347w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/se-deus-me-chamar-nao-vou-1.jpg 1477w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29994" class="wp-caption-text">“Acho que vem daí a palavra solidão, pessoas tão sólidas que ninguém vem checar se estão ruindo” (Foto: Nós)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Salomão Carrara &#8211; Se deus me chamar não vou (160 páginas, Nós)</b></p>
<p><a href="https://editoranos.com.br/produto/se-deus-me-chamar-nao-vou/"><i><span style="font-weight: 400;">Se deus me chamar não vou</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> faz parte do pequeno grupo de obras que possuem a capacidade de nos transportar de volta para determinadas fases da vida. Não é exagero dizer que a grande qualidade do livro é a incrível habilidade que a autora tem de reviver a idade dos onze anos – aquela que, como Maria Carmem esclarece com precisão, é uma espécie de limbo e se mostra como o suficiente para perder o medo de morrer e ter vontade de saltar de guarda-chuva pela janela de vez em quando. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Onze anos é a pior idade do universo, dura pelo menos cinco anos”</span></i><span style="font-weight: 400;">, ela escreve.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O romance de </span><a href="https://marianacarrara.com/sobre-a-autora/"><span style="font-weight: 400;">Mariana Salomão Carrara</span></a><span style="font-weight: 400;"> acompanha os escritos da própria protagonista e expõe a sensibilidade de uma criança que tem sua costumeira solidão potencializada por uma nova presença em seu cotidiano, o que atravessa sua vida, suas relações e seus pensamentos e acaba por trazer transformações conflitantes. Ao experienciar o que é ser invisível justamente por ser visível demais, é no eco criado pela ausência das pessoas que a cercam que suas palavras reverberam. Densa e leve ao mesmo tempo, essa é uma leitura que permanece conosco mesmo após seu fim; afinal, todos nós estamos familiarizados com o turbilhão de sentimentos que acompanha a pior idade do mundo. </span><b>&#8211; Raquel Freire</b></p>
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<figure id="attachment_29991" aria-describedby="caption-attachment-29991" style="width: 656px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29991 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/81-mjbjbRRL-656x1024.jpg" alt="" width="656" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/81-mjbjbRRL-656x1024.jpg 656w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/81-mjbjbRRL-513x800.jpg 513w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/81-mjbjbRRL-768x1198.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/81-mjbjbRRL-985x1536.jpg 985w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/81-mjbjbRRL-1313x2048.jpg 1313w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/81-mjbjbRRL.jpg 1500w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29991" class="wp-caption-text">O conto A loteria foi publicado na prestigiada revista The New Yorker em 1948 e é considerado referência na Literatura norte-americana (Foto: Alfaguara)</figcaption></figure>
<p><b>Shirley Jackson &#8211; A loteria e outros contos (264 páginas, Alfaguara)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Grande referência na Literatura de Horror e tendo inspirado </span><a href="https://personaunesp.com.br/carrie-a-estranha-45-anos/"><span style="font-weight: 400;">autores</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/residencia-hill-critica/"><span style="font-weight: 400;">cineastas</span></a><span style="font-weight: 400;"> contemporâneos, o trabalho de Shirley Jackson é &#8211; não misteriosamente &#8211; menos conhecido do que o dos homens do gênero. Resgatando a única coletânea publicada em vida pela escritora americana, </span><i><span style="font-weight: 400;">A loteria e outros contos </span></i><span style="font-weight: 400;">reúne contos curtos e horripilantes, que demonstram o poder de Jackson de criar uma atmosfera tensa com poucas palavras.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No curtíssimo </span><i><span style="font-weight: 400;">A Bruxa</span></i><span style="font-weight: 400;">, por exemplo, a </span><a href="https://www.metropoles.com/colunas/guilherme-amado/os-eua-profundos-de-shirley-jackson"><span style="font-weight: 400;">Rainha do Mistério</span></a><span style="font-weight: 400;"> tensiona o leitor em um simples encontro no vagão: mãe e filho trombam com um desconhecido, que assusta a criança com a história de um assassinato. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">A Renegada</span></i><span style="font-weight: 400;">, a cadela de uma dona de casa passou a matar galinhas e os vizinhos não vêem alternativa a não ser ‘dar um jeito nela’. Com cenários breves e personagens bem contextualizados, a crescente tensão dos contos-capítulos de </span><i><span style="font-weight: 400;">A loteria e outros contos </span></i><span style="font-weight: 400;">mostram o porquê de </span><a href="https://personaunesp.com.br/shirley-critica/"><span style="font-weight: 400;">Shirley</span></a><span style="font-weight: 400;"> Jackson inspirar o Terror. </span><b>&#8211; Vitória Gomez</b></p>
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<figure id="attachment_29995" aria-describedby="caption-attachment-29995" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29995 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/O-queijo-e-os-vermes-1-683x1024.jpg" alt="Capa do livro O queijo e os vermes. Na parte superior da capa, de fundo verde esmaecido, está escrito o nome do autor Carlo Ginzburg centralizado, em branco e com um sublinhado em vermelho. Logo abaixo, está escrito o título do livro “O queijo e os vermes” centralizado e em amarelo. No centro da capa, há uma imagem de uma cesta com tipos variados de queijo. Na parte inferior, está escrito “O cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição” centralizado e em branco, seguido pela logo da editora Companhia das Letras." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/O-queijo-e-os-vermes-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/O-queijo-e-os-vermes-1-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/O-queijo-e-os-vermes-1-768x1151.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/O-queijo-e-os-vermes-1-1025x1536.jpg 1025w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/O-queijo-e-os-vermes-1.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29995" class="wp-caption-text">O queijo e os vermes é um alerta de gatilho à consciência da Igreja (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Carlo Ginzburg &#8211; O queijo e os vermes (271 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Carlo Ginzburg coloca uma lupa sobre uma trama que, tradicionalmente, passaria despercebida pelo olhar </span><a href="https://www.scielo.br/j/rbedu/a/k5MsKMHv6ZQvPsF5vqvdkpB/?format=pdf&amp;lang=pt"><span style="font-weight: 400;">macro-histórico</span></a><span style="font-weight: 400;">, ou seja, </span><i><span style="font-weight: 400;">O queijo e os vermes </span></i><span style="font-weight: 400;">é a degustação da individualidade a qual pouco aparecia no cardápio da Idade Média. Publicado pela primeira vez na Itália em 1976 e lançado no Brasil pela Companhia das Letras em 1987, o livro assume o compromisso de manter o tema da Inquisição relevante em um mundo que luta para esquecê-lo, ou melhor, abafá-lo.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">O queijo e os vermes </span></i><span style="font-weight: 400;">é um retrato do cotidiano monótono e, ao mesmo tempo, tenso da Idade Média sob a perspectiva de Menocchio, um moleiro que tinha, literalmente, a faca e o queijo na mão e não hesitou em usá-los contra a Igreja. Em outros termos, a obra percorre as crueldades difundidas pela Inquisição, assim como a </span><a href="https://www.scielo.br/j/topoi/a/gc5jqgYDkS7YVPJLdCs5yKG/?lang=pt"><span style="font-weight: 400;">ousadia</span></a><span style="font-weight: 400;"> do protagonista em enfrentar o Tribunal do Santo Ofício com apenas uma ideia herege e um sonho. O assunto da liberdade religiosa ainda segue em pauta e a Igreja, apesar de alegar estar diferente, fez mudanças significativas apenas na moda, trocando túnicas por ternos. </span><b>&#8211; Ana Cegatti</b></p>
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<figure id="attachment_29993" aria-describedby="caption-attachment-29993" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29993 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Se-nao-eu-quem-vai-fazer-voce-feliz-1-712x1024.jpg" alt="Capa do livro Se não eu, quem vai fazer você feliz?: Minha história de amor com Chorão da escritora Graziela Gonçalves. Na arte de capa, uma imagem de Graziela e Chorão é sobreposta por um filtro azul e vermelho. Ela é uma mulher branca de cabelos e olhos claros. Ele é um homem branco de cabelos escuros e olhos claros. Ambos sorriem. Na parte superior centralizada, o título principal do livro “Se não eu, quem vai fazer você feliz?” está escrito em letras garrafais vermelhas. Logo abaixo, o subtítulo “Minha história de amor com Chorão” está escrito em letras garrafais brancas. Na parte inferior e centralizada está escrito o nome da autora “Graziela Gonçalves” em letras vermelhas." width="712" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Se-nao-eu-quem-vai-fazer-voce-feliz-1-712x1024.jpg 712w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Se-nao-eu-quem-vai-fazer-voce-feliz-1-557x800.jpg 557w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Se-nao-eu-quem-vai-fazer-voce-feliz-1-768x1104.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Se-nao-eu-quem-vai-fazer-voce-feliz-1-1069x1536.jpg 1069w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Se-nao-eu-quem-vai-fazer-voce-feliz-1.jpg 1781w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29993" class="wp-caption-text">O livro de memórias de Graziela Gonçalves foi lançado 5 anos após o falecimento de Chorão (Foto: Paralela)</figcaption></figure>
<p><b>Graziela Gonçalves &#8211; Se não eu, quem vai fazer você feliz? Minha história de amor com Chorão (262 páginas, Paralela)</b></p>
<p><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2018/10/01/interna_diversao_arte,709469/viuva-de-chorao-fala-sobre-livro-sobre-lider-do-charlie-brown.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Se não eu, quem vai fazer você feliz? Minha história de amor com Chorão</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é o primeiro e único livro de Graziela Gonçalves, viúva de uma das vozes mais célebres da Música brasileira, o </span><a href="https://personaunesp.com.br/chorao-marginal-alado-critica/"><span style="font-weight: 400;">Chorão</span></a><span style="font-weight: 400;">. Com uma escrita sincera, vulnerável e apaixonante, a musa de grande parte das composições do vocalista do Charlie Brown Jr. transborda as emoções deixadas por uma trajetória não somente marcada pelo romance, mas também pela decepção e pelo amadurecimento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O conjunto de memórias é repleto de fotografias inéditas e revelações. A leitura, que precisa ser cadenciada para a total compreensão de fatos atordoantes, faz com que a curiosidade não se torne o foco da obra, mas sim os sentimentos guardados no olhar de quem partiu deste plano e que, incrivelmente, permanece intenso. Com a sensibilidade de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=_JO21XUnHwY"><span style="font-weight: 400;">Gonçalves</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Se não eu, quem vai fazer você feliz? </span></i><span style="font-weight: 400;">traz a realidade de uma das histórias de amor mais </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=TJRIZS4Z7Mw"><span style="font-weight: 400;">cantadas</span></a><span style="font-weight: 400;"> do país. </span><b>&#8211; Nathalia Tetzner</b></p>
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<figure id="attachment_29992" aria-describedby="caption-attachment-29992" style="width: 682px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29992 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/91aWIRWYfnL-682x1024.jpg" alt="Capa do livro Jurassic Park de Michael Crichton, Editora Aleph o título do livro está centralizado no meio da capa, em vermelho, com uma faixa branca dentro das letras. Ao fundo há o desenho de um fóssil de Tiranossauro Rex na vertical" width="682" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/91aWIRWYfnL-682x1024.jpg 682w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/91aWIRWYfnL-533x800.jpg 533w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/91aWIRWYfnL-768x1154.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/91aWIRWYfnL-1023x1536.jpg 1023w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/91aWIRWYfnL.jpg 1651w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29992" class="wp-caption-text">O clássico filme dos anos 90 tem inspiração literária (Foto: Aleph)</figcaption></figure>
<p><b>Michael Crichton &#8211; Jurassic Park (525 Páginas, Aleph)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Inspiração para o filme</span> <a href="https://personaunesp.com.br/jurassic-park-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Jurassic Park</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1993) de Steven Spielberg, o livro homônimo de Michael Crichton é uma aventura científica estonteante que nos leva a uma versão menos Family Friendly do já famoso parque dos dinossauros. Desta vez o suspense e o terror se misturam em um alerta importante sobre a manipulação genética e quão longe a ciência moderna pode ir.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ian Malcolm, Alan Grant e Ellie Sattler também são os protagonistas </span><a href="https://editoraaleph.com.br/produto/box-jurassic-park-capa-dura/"><span style="font-weight: 400;">no livro</span></a><span style="font-weight: 400;">, e são eles que irão desvendar os segredos sobre a clonagem e proteger os netos do bilionário John Hammond, dono do parque, quando as criaturas pré-históricas fugirem do controle. O romance nos traz uma versão mais completa e filosoficamente profunda em relação ao filme clássico dos anos 1990. &#8211; </span><b>Guilherme Dias Siqueira</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_29990" aria-describedby="caption-attachment-29990" style="width: 684px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29990 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/argonautas-684x1024.jpg" alt="" width="684" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/argonautas-684x1024.jpg 684w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/argonautas-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/argonautas-768x1150.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/argonautas-1025x1536.jpg 1025w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/argonautas.jpg 1653w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29990" class="wp-caption-text">Vencedor do National Book Critics Circle Award, o relato de Maggie Nelson foi colocado como um dos melhores livros do ano de 2015 pela revista New York Times (Foto: Autêntica)</figcaption></figure>
<p><b>Maggie Nelson &#8211; Argonautas (160 páginas, Autêntica)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Cartas de amor, sejam na forma de poemas enamorados ou de romances epistolares, são construções recorrentes à Literatura. O que pouco se analisa é que a escrita de cartas de amor pouco são realmente um exercício de alteridade: são mais gestos narcísicos de quem escreve, tanto na tentativa de entender essa estranheza gigantesca do sentimento quanto de, minimamente, se fazer reconhecido e transparecer-se, um pouco, a quem lê.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Inspirado na estrutura de </span><a href="https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/obra-prima-de-barthes-sobre-o-discurso-amoroso-mostra-se-renovada-e-pertinente-em-nova-traducao-205317/"><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos de um discurso amoroso</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1977), de Roland Barthes, a escrita em torrente de </span><a href="https://grupoautentica.com.br/autentica/autor/maggie-nelson/1581"><span style="font-weight: 400;">Maggie Nelson</span></a><span style="font-weight: 400;"> reconhece, em si mesma, esse traço monologuista que circunscreve, numa cronologia não linear, os limites de </span><i><span style="font-weight: 400;">Argonautas. </span></i><span style="font-weight: 400;">No entanto, a leitura de seu texto, que mistura um relato autobiográfico com um artigo teórico que movimenta, como guias a sua escrita, a filosofia de Ludwig Wittgenstein, </span><a href="https://www.scielo.br/j/cpa/a/hWcQckryVj3MMbWsTF5pnqn/?lang=pt&amp;format=pdf"><span style="font-weight: 400;">Eve Sedgwick</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Judith Butler, emula nada além de uma vital aproximação ao outro. A carta de amor de Maggie Nelson possui variados destinatários – do próprio ato de se escrever até os estudos de pediatria desenvolvidos por Winnicott –, mas seu remetente central se figura no corpo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No seu próprio corpo, atravessado pela mudanças da gravidez de seu filho, descrito como um evento magicamente </span><i><span style="font-weight: 400;">queer</span></i><span style="font-weight: 400;">, onde o que existe é a relação íntima e diferentemente radical entre si e o outro. No corpo de seu companheiro, uma pessoa não binária que a desafia a entender como se constroem as paixões e dinâmicas de uma união entre duas pessoas quando uma delas declara-se, como sempre ressalta Paul B. Preciado, um indivíduo </span><a href="https://medium.com/grifapodcast/grifo-nosso-cr%C3%B4nicas-da-travessia-de-paul-b-preciado-d0d394a976b5#:~:text=Paradoxalmente%2C%20renunciei%20%C3%A0,todas%20as%20dire%C3%A7%C3%B5es.%E2%80%9D"><i><span style="font-weight: 400;">em travessia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Contudo, é no corpo do texto que se enraíza a mais bela de suas reflexões: seriam as palavras capazes e boas o bastante para capturara complexidade de seu sentimento? São inúmeras as respostas, mas, em </span><a href="https://grupoautentica.com.br/autentica/livros/argonautas/1506"><i><span style="font-weight: 400;">Argonautas</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">Maggie Nelson prefere encontrar o amor na inexpressibilidade que suscita toda a sua escrita e em todas as palavras que, em tentativas falhas, tentam apanhar aquilo que lhes escapa. </span><b>&#8211; Enzo Caramori</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_29997" aria-describedby="caption-attachment-29997" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29997 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/breves-entrevistas-1-683x1024.jpg" alt="" width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/breves-entrevistas-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/breves-entrevistas-1-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/breves-entrevistas-1-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/breves-entrevistas-1-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/breves-entrevistas-1-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/breves-entrevistas-1-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/breves-entrevistas-1.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29997" class="wp-caption-text">Traduzido por José Rubens Siqueira, o livro foi adaptado para os cinemas em 2009, no filme homônimo dirigido por John Krasinski (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>David Foster Wallace &#8211; Breves entrevistas com homens hediondos (376 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535906226/breves-entrevistas-com-homens-hediondos"><i><span style="font-weight: 400;">Breves entrevistas com homens hediondos</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1999) é marcado por uma questão primordial: trata-se da primeira obra publicada por </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-rei-palido-critica/"><span style="font-weight: 400;">David Foster Wallace</span></a><span style="font-weight: 400;"> após todo o barulho que </span><i><span style="font-weight: 400;">Infinite Jest</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1996; </span><a href="https://personaunesp.com.br/graca-infinita-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Graça Infinita</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, 2014) fez, quando, três anos antes, implodiu o mundo literário e abriu um horizonte de possibilidades linguísticas. Em 25 contos – alguns &#8220;minicontos&#8221;, como o primeiro de apenas oito linhas – caracterizados pela repetição e interrupção, o livro é marcado por novos experimentos de forma e linguagem, culminando nesse que possivelmente é o trabalho mais experimental do escritor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora Wallace force, em diversas ocasiões, o leitor a participar do exercício literário – exigindo reflexões agudas ou criando metanarrativas –, nada chega a ser “vazio” ou sem propósito. De fato, nada estaria tão longe de seu projeto literário, que primava pela sinceridade e honestidade. Esse processo, então, se sintetiza em contos como </span><a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2016/09/3-reflexoes-de-david-foster-wallace-sobre-depressao.html"><i><span style="font-weight: 400;">A pessoa deprimida</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">– em que as notas de rodapé se expandem à medida que a protagonista se afunda ainda mais na depressão –, </span><i><span style="font-weight: 400;">Para sempre em cima</span></i><span style="font-weight: 400;"> ou </span><i><span style="font-weight: 400;">Octeto</span></i><span style="font-weight: 400;">. Seu brilho especial reside nos diversos fragmentos de “entrevistas” espalhados pelo livro (que dão título à coletânea), nas quais as perguntas e réplicas da entrevistadora são suprimidas e só lemos as respostas de homens hediondos, que apresentam variados tipos de disfunções sociais. Por essas e outras razões, Wallace sempre vale a leitura. </span><b>&#8211; Bruno Andrade</b></p>
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		<title>As convidadas de Silvina Ocampo são as reviravoltas</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Dec 2022 22:09:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto  “Poucas pessoas vão acreditar neste relato. Às vezes seria preciso mentir para que as pessoas admitissem a verdade; esta triste reflexão eu fazia na infância por razões fúteis; agora as faço por questões transcendentais.” O que delimita a linha do absurdo? Em que momento fomos ensinados a ler algo e dizer o quanto &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/as-convidadas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "As convidadas de Silvina Ocampo são as reviravoltas"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29491" aria-describedby="caption-attachment-29491" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29491 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/ASCONVIDADAS_JAMILYRIGONATTO_WORDPRESS.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/ASCONVIDADAS_JAMILYRIGONATTO_WORDPRESS.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/ASCONVIDADAS_JAMILYRIGONATTO_WORDPRESS-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/ASCONVIDADAS_JAMILYRIGONATTO_WORDPRESS-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29491" class="wp-caption-text">As convidadas foi um dos livros recebidos pelo Persona na parceria com a Companhia das Letras, e foi a leitura do Clube do Livro em Outubro (Foto: Companhia Das Letras/Arte: Ana Cegatti)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto </b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Poucas pessoas vão acreditar neste relato. Às vezes seria preciso mentir para que as pessoas admitissem a verdade; esta triste reflexão eu fazia na infância por razões fúteis; agora as faço por questões transcendentais.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O que delimita a linha do absurdo? Em que momento fomos ensinados a ler algo e dizer o quanto aquilo é distante do lógico? São respostas presas ao inconsciente, o tipo de habilidade praticamente instintiva na mentalidade humana. Mas é lendo Silvina Ocampo e sua audácia singular que essas fronteiras parecem se diluir sem precisar de muitas páginas. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">As convidadas</span></i><span style="font-weight: 400;"> – livro publicado pela </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559212057/as-convidadas"><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em Maio de 2022 –, a mente e o mundo são peripécias capazes de causar desconforto arrebatador e crença no irreal. </span></p>
<p><span id="more-29488"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/literatura-estrangeira/silvina-ocampo-sai-das-sombras#:~:text=Nascida%20em%2028%20de%20julho,filhas%20em%20casa%2C%20com%20tutoras."><span style="font-weight: 400;">autora argentina</span></a><span style="font-weight: 400;"> teve sua obra publicada postumamente no Brasil, sob a tradução de Livia Deorsola, e, se em </span><i><span style="font-weight: 400;">A Fúria e outros contos</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 2019, as coisas de seu universo particular já tomavam rumos curiosos, dessa vez isso se intensifica. Nos 44 contos que compõem a obra, somos apresentados ao rotineiro metamorfoseado, como se aquela ida diária à padaria te levasse diretamente para Marte e a diferença fosse notada tarde demais. Os personagens são diversos, partindo de crianças a casais que protagonizam situações absolutamente inusitadas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É na escrita que tudo se mistura. O leitor se sente chocado, mas ao mesmo tempo é apresentado a isso com uma narrativa trabalhada com naturalidade. A estranheza das coisas nunca são destacadas no texto, pois no mundo de </span><a href="http://www.blogletras.com/2018/09/silvina-ocampo-o-et-cetera-da-familia.html"><span style="font-weight: 400;">Ocampo</span></a><span style="font-weight: 400;"> o extraordinário é tão comum que nos faz sentir culpados pelas reações escandalizadas. Mesmo trabalhando com histórias não complementares de pouco mais de uma página, o fantástico vive em linhas tênues.</span></p>
<figure id="attachment_29489" aria-describedby="caption-attachment-29489" style="width: 434px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29489" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/2.jpg" alt="" width="434" height="650" /><figcaption id="caption-attachment-29489" class="wp-caption-text">Silvina e sua Literatura única chegaram às terras brasileiras apenas em 2019, 26 anos após sua morte em 1993, pela Companhia das Letras (Foto: Companhia Das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As histórias de </span><i><span style="font-weight: 400;">As convidadas</span></i><span style="font-weight: 400;"> não precisam se ligar para ter pontos em comum. Tudo caminha em linhas retas, mas se desenrola em redemoinhos. Os inícios comuns culminam em facetas trágicas e conflitantes. Em muitos momentos, a autora brinca com as reações psicológicas a ponto de criar medo. É o caso do conto </span><i><span style="font-weight: 400;">Carta debaixo da cama</span></i><span style="font-weight: 400;">, no qual, conforme as palavras vão sendo escritas, somos capazes de experimentar o desespero da protagonista; o corte brusco dispensa detalhes do fatal para ser </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-cemiterio-stephen-king-enterra-receios-autor-ressuscita-historia-sobria-intensa-muito-assustadora/"><span style="font-weight: 400;">assustador</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de brincar com nossos cérebros, Silvina nos dá acesso ao dela. Os períodos longos e pouco pontuados integram narrativa ao pensamento. Por isso, as histórias perdem contexto de tempo ou momento. É como se tudo estivesse sendo noticiado no jornal da noite e a ambientação temporal ficasse meramente em segundo plano. O </span><a href="http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2014/04/gabriel-garcia-marquez-revelou-para-o-mundo-o-realismo-fantastico.html#:~:text=Gabriel%20Garc%C3%ADa%20M%C3%A1rquez%20deu%20forma,N%C3%A3o%20invento%20nada."><span style="font-weight: 400;">fantástico</span></a><span style="font-weight: 400;"> é o verdadeiro protagonista. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, tudo nos é suscitado, como elementos inseridos com o propósito de causar impacto enquanto criam questionamentos e reflexões. É a construção do absurdo se tornando razoável. Aqui, a </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/colunas/pagina-cinco/2022/11/18/silvina-ocampo-literatura-argentina-fantastica-livia-deorsola-a-furia.htm"><span style="font-weight: 400;">escritora</span></a><span style="font-weight: 400;"> atua como uma telespectadora esperando as reações ao seu redor. E ela é muito bem sucedida em tirar expressões ímpares dos rostos que a leem. Afinal, é impossível ser blasé diante de construções tão simbólicas e excepcionais.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Não foi senão depois de um tempo e de um detalhado estudo que distingui, na famosa fotografia, o quarto, os móveis, a cara borrada de Valentín. A figura central, nítida, terrivelmente nítida, era a de uma mulher coberta de véus e de escapulários, já um pouco velha e com grandes olhos famintos, que se revelou ser Pola Negri.” </span></p></blockquote>
<p><i><span style="font-weight: 400;">As convidadas</span></i><span style="font-weight: 400;"> nunca se propôs a fechar ciclos; é direito de quem contempla a obra acreditar ou não no que está sendo exposto. A </span><a href="https://personaunesp.com.br/comemoracao-de-20-anos-de-harry-potter-de-volta-a-hogwarts-critica/"><span style="font-weight: 400;">magia</span></a><span style="font-weight: 400;"> mora exatamente na falta dos limites de início, meio e fim. O próprio conto que dá nome ao livro deixa espaço para interpretações, visto que é difícil definir se as convidadas são apenas fruto de traquinagem infantil ou figuras de um plano metafísico. Isso no caso de se tratar de uma criança, pois as idades nunca são claramente definidas e cabe a nós entender da forma que nos for adequada.   </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É interessante consumir o texto e ver como os tons assustadores e emblemáticos cabem em espaços tão curtos. Alguns </span><a href="https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2019/10/18/silvina-ocampo-um-dos-maiores-misterios-da-literatura-latino-americana.ghtml"><span style="font-weight: 400;">contos</span></a><span style="font-weight: 400;"> têm menos de duas páginas e conseguem estabelecer a linearidade invadida pela surpresa perfeitamente. Personagens que nem sequer tem nome, mas entregam pedaços de suas essências em nossas mãos. Uma conexão curiosa perpassando as fronteiras físicas. </span></p>
<figure id="attachment_29490" aria-describedby="caption-attachment-29490" style="width: 685px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29490 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL-685x1024.jpg" alt="" width="685" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL-685x1024.jpg 685w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL-535x800.jpg 535w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL-768x1147.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL-1028x1536.jpg 1028w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL-1371x2048.jpg 1371w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL-1200x1793.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL.jpg 1405w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29490" class="wp-caption-text">A Fúria traz 34 contos com temáticas principais focadas na infância (Foto: Companhia Das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Tudo foge do comum, mas ainda mantém como temática principal o ser </span><a href="https://personaunesp.com.br/inventario-critica/"><span style="font-weight: 400;">humano</span></a><span style="font-weight: 400;">. A escrita trabalha com elementos da espiritualidade e transgride também na Cultura. Muitos contos envolvem questões religiosas, cultos, crendices e simpatias em sua composição. Esse tipo de citação contribui para que o hiperbólico faça tanto sentido quanto a religião e seu valor concreto na sociedade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda na ideia de explorar camadas da humanidade, os acontecimentos do cenário incomum levam as pessoas a mostrarem suas verdadeiras faces, já que muitas das histórias tem fundo na </span><a href="https://personaunesp.com.br/lucifer-5a-temp-parte-2-critica/"><span style="font-weight: 400;">perversidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> das motivações. Desejos por doenças, mortes, acidentes e outras tragédias são figuras recorrentes nos enredos, à forma com a qual esse contexto sincero também molda uma reflexão sobre as partes desconcertantes que todos tem, mas escondem a qualquer custo. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Talvez eu tenha me arrependido. O Pata de Cão não pertencia a minha família. Para que o sacrificar? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quisemos tirar o boneco de dentro da panela. Queimamos as mãos no vapor. Quando conseguimos tirá-lo, não sobravam nem pernas, nem pés, nem cabelo, nem rabo de centauro.” </span></p></blockquote>
<p><i><span style="font-weight: 400;">As convidadas</span></i><span style="font-weight: 400;"> diz muito sem precisar ser claro. Entre eventos completamente </span><a href="https://personaunesp.com.br/stranger-things-4-critica/"><span style="font-weight: 400;">insólitos</span></a><span style="font-weight: 400;"> e pessoas absolutamente comuns, a vida é testemunhada sob tantas formas que isso sim parece genuinamente mágico. Silvina nos prende em seu locus literário e essa falta de liberdade nos dá asas para voar distantes de uma rotina mediana; talvez sejamos como as crianças que voaram antes da queda soturna. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Somos entregues a muito mais do que as 261 páginas são capazes de contar. O mundo aos olhos da autora é tão especial que foge de quaisquer comparações palpáveis. Do </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-estrategia-do-charme-critica/"><span style="font-weight: 400;">amor</span></a><span style="font-weight: 400;"> à morte há um número infinito de possibilidades e ter a chave da porta de entrada para acessá-las sob os olhos da escritora é uma experiência inominável. Restam agradecimentos: ser convidada nunca foi tão esplêndido. </span></p>
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