O Diabo de Cada Dia falha em se destacar da obra original

Arving Russel (Tom Holland) é o eixo principal deste drama policial (Foto: Reprodução)

Gabriel Fonseca

O Diabo de Cada Dia (The Devil All The Time) é um filme que tenta corresponder à experiência literária da obra original e, com isso, perde a sua essência. Esta adaptação do primeiro romance de Donald Ray Pollock, traduzido como O Mal Nosso de Cada Dia, gerou grandes expectativas no público, e o fez acreditar no investimento de sua produção, que escolheu nomes em alta para compor o elenco.

Estamos falando de Tom Holland, o intérprete mais recente do Homem-Aranha, Robert Pattinson, que fará o papel do homem morcego em The Batman, e Bill Skarsgard, que deu vida ao horripilante Pennywise, de It – A Coisa, entre outros nomes. A direção e o roteiro ficaram sob os cuidados de Antonio Campos, diretor e roteirista de Depois da Escola (2008) e Simon Killer (2012), além de outros longas e episódios de séries policiais, como The Sinner, que lançou a sua terceira temporada em fevereiro deste ano.

A história se passa nas cidades de Knockemstiff, em Ohio, e Coal Creek, em West Virginia, podendo ser dividida em três períodos diferentes. Primeiro, acompanhamos a união dos casais Russel, Laferty e Henderson, em 1947. Depois, as tragédias das duas primeiras famílias, que deixam Arving Russel (Tom Holland) e Lenora Laferty (Eliza Scanlen) órfãos, sob os cuidados de Emma Russel (Kristin Griffith), a avó do garoto, entre 1948 e 1957. Por último, em 1965, vemos os dois jovens crescerem como irmãos em Coal Creek, onde vivem uma espécie de reprodução dos males passados, como a violência plantada na essência do rapaz desde a sua infância e a devoção submissa da garota, característica herdada dos pais e que lhes custou a própria vida.

A casa da família Russel, em um trecho isolado de Knockemstiff, Ohio (Foto: Reprodução)

O contexto é de extrema importância para as ações. A síntese de duas cidades do interior de Ohio e West Virginia, pós-Segunda Guerra, é o que define o modo de pensar e agir dos personagens em muitos momentos. Cada localidade possui a sua característica, e vemos as figuras existirem dentro de sua limitação cultural: os ideais de fé, masculinidade, condição financeira, entre outras coisas. O espectador é levado a um universo real, com casas de campo, a pequena igreja, os automóveis e o sotaque incorporado pelos atores.

A maneira de contar esta narrativa é o que enfraquece o longa. O encadeamento dos acontecimentos deixa de seguir a lógica cronológica para aproveitar um recurso de estilo literário: a transitoriedade entre diferentes tempos, que parece uma boa escolha a princípio, mas é comprometida por outro recurso, que é a narração. Do começo ao fim de O Diabo de Cada Dia, temos uma voz extradiegética que explicita o que os personagens estão pensando e explica algumas cenas. Esta narração é usada em momentos desnecessários, como se a direção não confiasse no espectador.

O narrador convém quando a sua função é gerar expectativas. Como no início da história, em que saltamos para a casa dos Russel em Knockemstiff, 1957, depois voltamos à Meade, 1947, quando o casal se conhece em uma lanchonete. Ou na cena em que Emma Russel pressente que coisas ruins podem acontecer ao descumprir sua promessa a Deus, de casar o filho Willard (Bill Skarsgård) com Helen (Mia Wasikowska). Willard já estava apaixonado por Charlotte (Haley Bennett) quando sua mãe o apresentou à outra moça, e é a voz em terceira pessoa que nos avisa sobre o medo da senhora em quebrar o acordo divino.

Donald Ray Pollock, autor do romance The Devil All The Time, é também o narrador de sua adaptação (Foto: Patricia Franchino)

As expectativas geradas ao desenrolar da história funcionam, já que a sua função é prender a atenção, mas não são as únicas responsáveis por manter o interesse do público. O elenco carrega este grande mérito, ao criar tensão e conflito. Antonio Campos aproveita os planos fechados para captar as emoções que aparecem progressivamente, como se pudéssemos vê-las crescendo nos personagens. Tom Holland consegue balancear entre o irmão protetor e o jovem apavorado, mas a quantidade de personagens em destaque tira o seu crédito como protagonista.

Entre os coadjuvantes, Harry Melling é quem surpreende. Sua aparição como Roy Laferty é curta, mas revela tanta convicção, que o faz parecer um alucinado. Uma das passagens mais chocantes é o sermão que ele chama de “testar a fé”, no qual Roy despeja um pote de aranhas sobre o próprio rosto para provar que Deus é capaz de remover os maiores medos do homem.

Melling começou cedo no cinema, sob o papel de Dudley Dursley na franquia Harry Potter (Foto: Reprodução)

Apesar de seu enredo rico em personagens e a contextualização geográfica e histórica convincente, O Diabo de Cada Dia não aproveita a liberdade que tem como adaptação para se tornar uma obra única. Escolher um narrador para explicar a história parece mais um capricho do que um recurso funcional, que limita o potencial da direção. Também não há uma unidade que amarre esta narrativa. Logo no começo, sentimos que uma crítica ao charlatanismo religioso está sendo construída, mas ela fica em segundo plano e tem um papel mais prático do que filosófico.

A transitoriedade entre os diferentes tempos da trama não é bem explorada. Campos não precisava fazer um longa ao estilo de Amnésia, de Christopher Nolan, mas deveria se arriscar mais com esta escolha, já que se propõe a construir sua história como um romance literário o faria. A escolha também se torna um enfeite, que não acrescenta valor algum à experiência de quem assiste, além de antecipar alguns acontecimentos. 

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