A segunda temporada de The Last of Us é um apocalipse estarrecedor, mas que tem medo de fogo

Ellie é uma mulher branca de 19 anos com os cabelos morenos parcialmente presos em um coque. A mulher, localizada na extremidade direita da foto, utiliza uma blusa de frio preta e carrega, na mão esquerda, uma fonte de luz em formato de cano, que se assemelha a uma lanterna, apontada para o lado esquerdo do quadro. Ao lado esquerdo, fungos em formatos cilíndricos “agarram” um cadáver destruído e tomado pelo mesmo ser vivo, que é iluminado pela lanterna da personagem à direita.
A segunda temporada de The Last of Us diminui o ritmo do seriado (Foto: MAX )

Isabela Pitta

Mesmo que o tempo ande a passos lentos ou corra com avidez, a vingança nasce e renasce no coração humano. A cada ciclo vingativo fechado, ao menos um novo é aberto e a humanidade se perde em desesperança. Apesar de a violência já ser esperada em um mundo apocalíptico, no fundo, as próprias pessoas são a principal fonte das atrocidades consideradas, desumanas. Porém, sem o ódio e o amor, o que sobra na essência humana? A segunda temporada de The Last Of Us chegou, em abril deste ano, às telas dos assinantes da MAX com medo de mergulhar de cabeça na essência dual e complexa de Ellie. 

Entretanto, os corações ansiosos dos fãs do universo distópico adaptado por Craig Mazin  tiveram que esperar mais de um mês para poder assistir à obra em sua completude, já que os poucos sete episódios foram lançados semanalmente aos domingos. Embora a franquia tenha prendido o público para um segundo ano, a audiência na estreia do primeiro episódio demonstra queda significativa até o capítulo final, mesmo que tenha registrado recordes na TV a cabo. O despencamento observado nos números se expande para os índices de aprovação do público e não passa do reflexo de um roteiro que se depara com a própria ruína com o andar da história.

Ao lado esquerdo da imagem, existe uma claquete entreaberta com os números das tomadas que são gravadas no momento da foto e possui, na parte inferior do objeto, o nome do seriado, “The Last of Us” e “temporada 2”, escrito em inglês. Ao fundo, no lado direito da fotografia, Pedro Pascal, um homem chileno-americano com cabelos curtos, caracterizado de Joel, com um óculos no rosto, agasalhado com jaqueta de couro e cabelos grisalhos, interpreta o personagem da produção da MAX, que permanece sentado diante de uma mesa enquanto parece consertar algo com as mãos apoiadas sob a mesa. Atrás dele, há uma janela grande, iluminada por uma luz ensolarada.
Pedro Pascal passa o protagonismo para Bella Ramsey na segunda temporada de The Last of Us (Foto: MAX )

Ainda que a pandemia global do fungo Cordyceps assole a realidade e sejam travadas eternas batalhas humanas em busca de poder, uma coisa é capaz de fazer a realidade ainda valer a pena: o amor. Os protagonistas, Joel (Pedro Pascal) e Ellie, no decorrer do primeiro arco do enredo, encontram, um no outro, a razão de viver após terem perdido tudo que os mantinha vivos. A garota, que ganha vida pela crua e intensa atuação de Bella Ramsey, após uma passagem de tempo entre as temporadas, é uma jovem adulta de 19 anos que se afasta cada vez mais do pai adotivo. Sem um motivo aparente, o relacionamento entre os personagens principais é intensamente cheio de mágoa e, ainda assim, marcado pelo silêncio. Nada é dito, mas tudo é sentido. Com rapidez, as desavenças tomam forma e ganham origem em um ato de brutalidade, seguido por uma afirmação desonesta. Há 5 anos, antes de firmarem as raízes na comunidade de Jackson, Joel massacrava sem piedade 19 pessoas em um hospital para salvar a menina que havia se tornado seu mundo. Cego pelo amor e pelo ódio, o protagonista do primeiro ano da série carrega um segredo, guardado a sete chaves: as atrocidades que cometeu. E se pudesse, “faria tudo de novo“. 

Com um relógio quebrado no pulso, cabelos grisalhos, dores nas juntas e um óculos na ponta do nariz, Joel sente o tempo correr diante de seus olhos. Já que não pode consertar o relacionamento desgastado com a filha, parece buscar arrumar tudo ao redor, como disjuntores, uma janela ou um violão. Porém, no fim do dia, aguarda calmamente, vendo o tempo passar da varanda de casa, a única coisa que importa na vida: ver a filha regressar a salvo. A velhice o alcança rápido demais e as mágoas perduram até o tempo chegar ao fim. Os protagonistas se estranham e, ao mesmo tempo, vivem diante de espelhos. São iguais, faces de uma mesma moeda, mas com abismos de julgamentos e rancores que os distanciam física e emocionalmente. Quando cegos pela rotina, pela calmaria da vida ou por sentimentos repulsivos, os seres humanos esquecem que o tempo passa sem piedade e que, além disso, as consequências de cada escolha chegam na porta mais rápido do que imaginam. 

Ao lado esquerdo da imagem, Isabela Merced, uma mulher peruana-americana com cabelos morenos presos em um coque e olhos castanhos, veste uma blusa de lã vermelha enquanto coloca os braços ao redor do pescoço de uma mulher branca, de maneira sensível e delicada, e estampa uma expressão de felicidade, acompanhada dos lábios cerrados em um sorriso largo. Já ao lado direito da composição, há Bella Ramsey que, com os braços de Isabela Merced ao redor do pescoço como em um abraço, olha para a parceira com um sorriso pequeno no rosto. A atriz de Ellie veste uma camisa xadrez azul e branca e permanece com os cabelos presos em um coque baixo.
Isabela Merced dá vida a Dina, o par romântico de Ellie durante a segunda parte da série (Foto: MAX)

A segunda temporada de The Last of Us trata de temas profundos e complicados, tais como luto, vingança, violência e tempo. Entretanto, um roteiro amedrontado é o que guia o enredo para um desenvolvimento maçante e apressado. Com uma escolha tortuosa e difícil, Craig Mazin e Neil Druckmann tiveram que contar o segundo momento da história de Joel e Ellie em apenas sete episódios. Os capítulos apresentam durações que variam entre 34 e 58 minutos e, apesar de enriquecer a trama com nuances e detalhes, a narrativa entra em encruzilhadas que desvalorizam a linha principal a ser contada. Novos nomes importantes são apresentados aos telespectadores, como Dina (Isabela Merced), Jesse (Young Mazino) e Isaac (Jeffrey Wright), porém tudo soa fora de ordem e sem propósito, já que deixam a protagonista de Bella Ramsey de escanteio. 

Uma garota que perdeu tudo, bem antes do que muitos considerariam justo e que reencontrou as graças da vida novamente em uma jornada que tinha como objetivo final o seu destino, seu propósito e sua morte. Ellie é imune e pagou preços altos por isso na própria trajetória. Ver pessoas morrerem por algo que não é capaz de lhe atingir e que, mesmo assim, seu sangue não é suficiente para salvar, da infecção, as pessoas que ama. A personagem principal perdeu a mãe durante o parto, assistiu a melhor amiga e primeira paixão se tornar um monstro, presenciou a morte de dois companheiros, fugiu habilidosamente de um homem canibal pedófilo e salvou a vida do ‘pai’ mais de uma vez. No segundo ano, agora adulta, a protagonista perde a essência furtiva, violenta e sagaz para se tornar um fardo nos planos esquematizados por outros indivíduos. Em plena luz do dia ou na calada da noite, quem deveria ser a estrela do seriado precisa ser orientada e salva por coadjuvantes e pelo acaso. 

As coincidências enfraquecem a adaptação, que conta com um enredo original minuciosamente pensado. Os clichês entram em ação e os personagens andam à deriva e encontram, sem querer, seus objetivos; são derrubados por uma onda gigante e aparecem em uma ilha ao lado do barco que haviam perdido; dão tiros no escuro por impulso e acertam alvos que nem imaginavam. Não são pequenas eventualidades comuns e inofensivas, mas sim acontecimentos improváveis e inexplicáveis que tomam forma para que a trama prossiga. 

Ao lado esquerdo da imagem, Isabela Merced, interpreta Dina. Ela possui cabelos morenos soltos e uma touca nas cores azul vivo e laranja queimado. Ao lado esquerdo, com os cabelos grisalhos e jaqueta de frio com pelos no gorro, Pedro Pascal interpreta Joel. Ambos os personagens estampam feições preocupadas, com sobrancelhas franzidas e bocas entreabertas tensas.
A segunda temporada conquistou, de maneira geral, o coração da crítica e deixou a audiência decepcionada (Foto: MAX)

Mesmo que, em certos momentos, fique cega pela vingança, Ellie, com suporte das casualidades do roteiro, torna-se uma heroína injustiçada que comete atrocidades acidentalmente. Apesar da atriz dar vida com primor ao sentimento de angústia diante das atitudes da protagonista, a trama coloca panos quentes em momentos de tensão e violência. Com medo do fogo, os escritores tornam a segunda temporada de The Last of Us morna e, no fundo, distante de sensações vívidas e inquietantes, como a primeira produção entregou ao público. 

Se apenas o acaso fosse o responsável por defender a narrativa e a protagonista, o remédio seria menos pior de engolir. Contudo, em uma trama que deveria ser sobre mulheres, a história precisa que os homens salvem o dia. Uma personagem feminina que, originalmente, se apaixona pela melhor amiga, deixa o conforto de casa para executar uma vingança, assassina a sangue-frio quem cruza seu caminho, planeja, minuciosamente, suas ações e enfrenta uma missão suicida para aquietar a revolta e o vazio dentro do peito. A heroína que deveria carregar, na maior parte do tempo, a narrativa nas costas, precisa que homens viajem atrás dela para defendê-la dos monstros que enfrenta ao lado da amada. Além de vulnerável e indefesa, os criadores buscam reforçar, em todos os momentos, a incapacidade da protagonista, que leva broncas, é tratada como criança e tem atitudes desconexas com a personalidade e com a trama em si.

Pedro Pascal, um homem chileno-americano com cabelos curtos, caracterizado de Joel, veste uma camiseta preta e usa um relógio no pulso esquerdo. Na mão esquerda, segura uma fita cassete pequena preta com adesivo branco e detalhes de arco-íris. O personagem se encontra deitado em um assento enquanto olha para o lado direito e oferece o objeto. O cenário é metálico, como uma cápsula.
The Last of Us é um apocalipse que recorre a artistas de músicas das décadas de 1980 e 1990, como Pearl Jam e A-Ha (Foto: MAX)

Os cenários da mega produção são vivos e carregam parte da história, seja de uma civilização morta que lutava por direitos de minorias e escutava músicas controversas, ou de duas garotas que enfrentam uma missão suicida para concretizar a solidão que encaram dentro de si. Enquanto caminham no cenário do fim do mundo, a dupla se encontra com o passado anacrônico e vislumbra momentos que, quando guardados na memória, dão sentido à vida e ao futuro. Mergulhar em uma nova paixão, andar em ruas desertas de uma remota vivência urbana agora tomada pelo tempo e pela natureza, ouvir melodias antigas saírem dos acordes de um instrumento conservado em meio ao caos, acordar ao lado de quem sabe seus piores segredos e, mesmo assim, não quer viver sem você. 

Nas sutilezas, a beleza da humanidade entra em conflito com os demônios que acometem o planeta. O Cordyceps, com certeza, revela faces maléficas com uma maquiagem horripilantemente realista, mas as trombetas do apocalipse soam quando comunidades humanas diferentes ocupam o mesmo espaço e, no dilema do ovo e da galinha, digladiam-se em um ciclo eterno de brutalidades. No contexto de uma pandemia fúngica e de um caos generalizado, a vivacidade de sentimentos traz à tona o melhor e o pior do ser humano. Entretanto, a série, se entrega aos momentos felizes e reluta em mergulhar de cabeça na depressão, no luto, no ódio e na vingança. Além do receio de concretizar uma protagonista brutal, vingativa e, em certos momentos, desumana, os mecanismos de aprofundamento da trama são mal aproveitados. Com uma primeira temporada louvável e tantas brechas temporais deixadas fora do alcance dos olhos do público, os flashbacks são elementos poderosos para a segunda temporada.

Ellie, que ganha vida pela atuação de Bella Ramsey, está no lado esquerdo da imagem. Com os cabelos presos, uma camiseta listrada off white e vermelho queimado e uma expressão de dor estampada, enquanto mantém os olhos fechados e encosta a cabeça no ombro de Joel. Ele, ao lado direito da foto, veste uma camisa azul claro e usa o ombro como apoio e consolo para o sofrimento de Ellie.
A segunda temporada de The Last of Us gerou polêmica nas redes sociais e Bella Ramsey, que foi alvo de ataques, desativou as redes sociais para não receber o ódio (Foto: MAX)

No entanto, com um roteiro apressado e preguiçoso, o encaixe das memórias permanece integralmente concentrado em um único episódio. Apesar das inúmeras referências subentendidas às lembranças de Ellie, as cenas retroativas não são encontradas em paralelo ao enredo como uma maneira explicativa e desenvolvida de adentrar a psiquê da garota, mas sim apenas como uma pausa narrativa para os telespectadores assistirem a trechos do passado em cores quentes por quase uma hora. Por melhor que sejam as atuações em dueto de Bella Ramsey e Pedro Pascal, o ritmo narrativo, que já enfrenta oscilações, simplesmente permanece estagnado para que uma sequência de recordações seja apresentada. 

Com poucos episódios, a dupla de escritores decide alternar entre calmaria e ansiedade para o desenvolvimento da história. Entretanto, a escolha de produzir apenas sete capítulos ganha tom controverso quando, em entrevista, o criador da narrativa afirma a necessidade de uma possível 4ª temporada. Além da história principal ter pouco tempo de tela, o enredo, muitas vezes, depara-se com construções desinteressantes e irrelevantes para a trama. Talvez com um controle de console nas mãos, as pequenas “tasks” façam sentido na lógica de jogo, porém, em uma constituição quase cinematográfica, construções paralelas de cinco minutos com começo, meio e fim são desgastantes e tiram o foco do que realmente importa. Novamente, os acontecimentos são desordenados e sem propósito, enquanto Ellie continua sem o devido palco para poder tocar os acordes estridentes de uma caminhada tortuosa que parece nunca ter fim. 

A segunda temporada de The Last of Us, apesar de contar com uma mega produção digna das grandes telonas, apresentar grandes atuações e tratar de temas densos e complexos, entrega, aos assinantes da MAX, um arco mediano e morno. A narrativa é sobre vingança, mas tudo é feito sem intenções. Os personagens são profundos e intensos, porém, os desenvolvimentos são soltos e sem propósito aparente. A história é cheia de referências e mensagens subliminares, contudo depende do acaso em situações decisivas. Ao som de Pearl Jam, a trama caminha aos dias futuros com medo de estabelecer Ellie como um ser dúbio que carrega dentro de si a perda daquilo que um dia foi o único motivo de querer estar viva. 

 

 

 

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