
Guilherme Veiga
Phoebe Bridgers talvez seja uma das artistas mais sinestésicas dessa nova safra do indie folk. Desde Strangers in the Alps, seu álbum de estreia, sua música tem cheiro, clima e cor de interior e isolamento. A voz serena e a harmonia calma de uma produção muita das vezes composta só por guitarra e violinos presente em sua discografia na carreira solo, dão a impressão de estarmos sozinhos em um ambiente em que gritar nosso sentimentos resultam neles te atingindo em forma de eco, por isso, a escolha de se recolher em sua própria autopiedade e depreciação.
É uma linha recorrente nos versos de artista o desejo de querer desaparecer, seja no sentido material da palavra ou até mesmo em ser abduzida por uma nave espacial. Ironicamente, Punisher, que completa cinco anos, veio no cenário favorável para que isso acontecesse. Com a pandemia de covid-19, grande parte do mundo tinha sumido para seu próprio universo particular. Porém, em efeito contrário, o fato de estarmos vivendo a reclusão e desconexão com si próprio já cantada por Phoebe só fez com que nos aproximássemos de sua obra no momento em que ela justamente transitava entre otimismo e esperança.

Quando se tem uma estreia boa como a de Bridgers, muito se teoriza sobre seu sophomore, claro, sempre esperando algo a mais. A questão aqui é que a cantora é bastante consciente do que faz e onde pode chegar. De fato Punisher é, por si só, mais melodramático e apocalíptico que seu debut, no entanto não faz com que ele necessite ir além ou ser esse algo a mais, até porque o diferencial da carreira da artista sempre vai estar em suas obras, que é sua composição.
Bridgers é uma cronista fantasiada de musicista. A forma como suas letras são tão descritivas e específicas dão a impressão de que o mundo gira mais devagar para ela e de que todas suas emoções são imensamente mais intensas. Dessa forma, o álbum funciona como um amplificador para nossos próprios sentimentos que, ao invés de se esconder embaixo do lençol do fantasma, decide parecer mais a mostra com sua fantasia de esqueleto.

O apocalipse de Punisher é bem sutil, funcionando como aquela garoa inicial que cai do céu mais feio e carregado. A tristeza característica de Phoebe Bridgers aqui vem em doses homeopáticas, primeiro nos dando o ombro para depois permitir chorar. Tirando a intro, Garden Song nos guia do que esperar para a sequência do álbum: uma artista que, de uma forma onírica, consegue olhar para seus sentimentos como se fosse uma externa.
Aos poucos, o disco se abre tanto para a tristeza quanto para uma produção um pouco mais aprimorada. E são esses elementos que exaltam a contradição deste segundo trabalho. Mesmo com um sentimentalismo pesado, na verdade esse registro é o mais otimista da curta discografia. Kyoto quase escancara isso: além do arranjo espirituoso, ela consegue tratar seus daddy issues de forma mais madura e sincera. Phoebe não deixa de lamentar o amor quebrado, a fé corrompida ou o medo do futuro – e faz isso da forma mais doída possível. Entretanto, o grande diferencial é que aqui ela se mostra receptiva a passar por eles, vendo esses vários fins de mundo como começos de outros.
Músicas como Savior Complex e a faixa-título deixam bem claro as referências da artista e suas intenções. Ele é propositalmente melancólico, remetendo a Joni Mitchell e Elliot Smith – este sendo inspiração clara de Punisher, replicando uma tristeza que é, ao mesmo tempo, devastadora e acolhedora. Nesse sentido, o álbum se assemelha com o próprio Melancolia (2011), onde a serenidade perante ao fim do mundo, ao invés de causar estranheza, se torna calorosa.
Apostar no minimalismo da produção é essencial para que o registro revitalize a experiência além-auditiva na qual a cantora ficou conhecida. Tony Berg – compositor de Daisy Jones & The Six e Ethan Gurska, que é neto do lendário John Williams, repetem o acerto de Stranger in the Alps e mais uma vez conseguem, através da ambientação e escolha de instrumentos, construir um quarto imaginário em um dia chuvoso, afastado de tudo e todos, onde se ecoa a voz de Phoebe.
Se Punisher foi responsável por catapultar a cantora para o público em geral, seu trabalho de estreia fez isso com a crítica e a indústria. Por isso, a voz de Phoebe não ecoa sozinha. No intervalo entre o primeiro trabalho e a produção deste, a cantora resolveu dar um tempo no protagonismo isolado e apostou em colaborações na cena indie folk. Como resultado, o agrupamento que fez com Julien Baker e Lucy Dacus, boygenius, dá as caras nas faixas derradeiras, enquanto Conor Oberst, vocalista do Bright Eyes com quem Phoebe fundou o projeto Better Oblivion Community Center, empresta sua voz para faixas como Halloween.
Mas se engana quem pensa que a similaridade em conceito de seus dois álbuns representa certo conformismo da artista. Em Punisher, Phoebe já dá lampejos dos caminhos que pode percorrer sem perder seu DNA, e isso fica a cargo das suas últimas faixas. Graceland Too, por exemplo, remete o folk do primeiro álbum e o mescla com o country – explicando o porquê de Julien Baker, natural de Nashville, integrar a faixa. Já a catártica I Know the End abdica da artista com carinha de festival no final de tarde e apresenta uma Phoebe pronta para conduzir um coro histérico em arena, ao mesmo tempo em que entrega a melhor e mais potente faixa de sua carreira.
Os 25 anos, idade com que Phoebe produziu o disco, são tão imediatistas que realmente todo dia parece o fim do mundo – digo por experiência própria. Mas o que a artista faz aqui é de uma singularidade que a destaca dos demais. Punisher consegue capturar a banalidade da tristeza moderna e a transformar em música, fazendo com que o horizonte, por mais apocalíptico que seja, se torne apenas em uma paisagem a se admirar.
Por isso, o registro cresce a cada audição, principalmente se ela vier acompanhada de um fim de ciclo, seja ele qual for. Pois, se Phoebe está disposta a “te dar a lua”, o mínimo que ela espera é algo tão místico ou grandioso de sua parte, e essa barganha só se é entendida quando, a lá memento mori, percebe-se suas várias mortalidades e fins, que podem estar dobrando a esquina, em uma segunda-feira qualquer ou te esperando na porta de casa. E eu acho que um dos meus fins é aqui, até mais, te vejo no próximo.
