Em Sonhos de Trem, é a cinematografia quem conta a história

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena do filme Sonhos de Trem. Na imagem, há um homem branco de cabelos e barba castanho escura. Ele usa três camadas de roupa. Na foto, é possível ver a camisa de botão marrom e uma espécie de jaqueta azul por cima. Atrás dele, há madeiras e árvores. Ele usa um chapéu marrom e está com a feição séria.
Sonhos de Trem foi indicado a quatro categorias no Oscar 2026: Melhor Filme, Melhor Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Canção Original (Foto: Netflix)

Guilherme Machado Leal

A fotografia, recurso técnico que dá tom a cor e a estética de um filme, possui força em obras célebres e, muitas vezes, pode ser o marco mais importante e memorável de uma história retratada em tela. Em Sonhos de Trem, longa-metragem indicado a quatro categorias do Oscar 2026 e baseado no conto homônimo de Denis Johnson, o trabalho de cinematografia é realizado pelo brasileiro Adolpho Veloso, também reconhecido em Melhor Fotografia.

O longa conta a história de um madeireiro estadunidense no início do século XX, que também trabalha como um construtor de ferrovias. Na casa onde mora, Robert Grainier (Joel Edgerton) é casado com Gladys (Felicity Jones) e tem uma filha com a dona de casa. Devido à rotina, o protagonista não tem tempo para se dedicar à vida pessoal. Pelo contrário, ele se debruça totalmente à atividade para, um dia, ter paz ao lado da família.

A sensação de culpa representada pela aparência cansada de Edgerton é sentida aos poucos pelo telespectador, que acompanha alguns anos da trajetória do personagem. Isso, alinhado à atuação mais contida e sufocante de Joel, dá o tom existencialista da produção. Em certo momento, o homem perde a esposa e a bebê durante um incêndio. A partir disso, a desumanização do lenhador se torna o peso emocional da trama por meio da tentativa do homem de seguir em frente e continuar o trabalho.

Cena do filme Sonhos de Trem. Na imagem, há uma mulher branca de cabelos dourados que utiliza um vestido roxo claro estampado com flores brancas e amarelas. Ela está olhando para uma bebê, que veste uma roupinha verde e um chapéu azul. A criança está sendo segurada por um homem branco de cabelos e barba castanha escura. Ele também usa um chapéu da cor marrom. Atrás deles, há uma floresta.
Felicity Jones, conhecida por Rogue One: Uma História Star Wars, faz o par romântico do personagem interpretado por Joel Edgerton (Foto: Netflix)

No entanto, existe descanso até para aqueles que priorizam o lado profissional. A fotografia do brasileiro acerta ao utilizar tons mais melancólicos voltados para tons de azul. Depois da tragédia, o processo de envelhecimento é sentido duplamente: primeiro devido ao processo natural da chegada da idade e segundo por conta da solidão irreversível provocada pela perda fatal.

Assim como acontece quando morre alguém próximo a nós, Robert Grainier nunca mais será o mesmo. O trabalho adquirá um tom diferente, da mesma maneira que as relações nutridas por ele também irão se adaptar. O mundo continua igual, porém a forma de olhá-lo é estranha, inóspita e distante emocionalmente. Ao final do longa, o personagem principal se olha no espelho – a primeira vez em um período relativamente longo – e percebe, internamente, o quanto a vida foi dura com ele.

A obra existencialista de Clint Bentley pode não possuir o tom mais palatável àqueles que a experienciam. Entretanto, é inegável o cuidado e dedicação do trabalho cinematográfico realizado por Adolpho Veloso. A partir das lentes melancólicas escolhidas pelo brasileiro, em algum lugar, entendemos a depressão e a solidão daquele lenhador estadunidense do início do século XX. 

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