
Davi Marcelgo
Produções satíricas ou sobre os bastidores de determinada mídia têm ganhado cada vez mais espaço na vitrine, de heróis com Deadpool (2016) ao jornalismo com The Morning Show (2019-), a característica metalinguística já deixou de ser novidade. O Estúdio (2025), criada por vários artistas, incluindo Seth Rogen, Frida Perez e Evan Goldberg, é uma série que quase fica na obviedade das sacadinhas que tem ar de superioridade, porém a mistura de gêneros e narrativas prova que a inteligência do texto extrapola qualquer suspeita de autoridade.
Matt (Seth Rogen) é promovido a chefe do Continental Studios, um antigo estúdio de Cinema. Enquanto ele quer reviver os tempos de glória de Hollywood, os acionistas têm outros planos: franquias e um filme da marca de suco em pó Kool-Aid. É com esta premissa que a história começa e termina, afinal, a sitcom vai abordar a rotina de quem toma decisões comerciais e criativas durante a criação de longas.
Neste primeiro episódio, A promoção, o roteiro dá sinais de assumir a posição de quem olha para a dinâmica das produções cinematográficas e se coloca como alguém acima disso, e de fato seria natural partir deste caráter quando os profissionais envolvidos na criação, roteiro e direção possuem carreiras em comédias pastelões e de pouco prestígio – quando considerado a presença do gênero em festivais e premiações. Entretanto, a equipe mais homenageia a Sétima Arte do que tira sarro dela. O humor está presente, de uma forma inteligentíssima, e se relaciona mais com o tipo de filme que está emulando em cada capítulo, do que com uma vontade de parodiar Hollywood.

O Plano-Sequência, segundo episódio de O Estúdio, é, sem nem precisar refletir muito, o melhor da temporada. Indicado na categoria de Melhor Roteiro em Série Cômica do Emmy 2025, na trama, Matt está empolgado para acompanhar a tomada única de um clímax em produção, estrelado por Greta Lee (Vidas Passadas – 2023). Apesar de ser advertido sobre a ansiedade que um chefe de estúdio pode causar nos trabalhadores do set, o protagonista permanece no local.
Diferente do capítulo anterior, que se conformava com piadas que só cinéfilos entendem, este se apodera da comédia de situações em um enredo que dobra, constantemente, as apostas do quanto Matt pode atrapalhar ao decorrer do plano-sequência. Em outras partes da obra, há o uso do elemento dramático conhecido como a arma de tchekhov: qualquer coisa inserida em uma narrativa deve ser usada. Claro que o conceito não deve ser levado com intensidade, é que, em especial, neste episódio, seu uso provoca um efeito de humor brilhante. Já extasiado com as desventuras ocorridas nos bastidores e imersos naquele espaço, o espectador provavelmente esqueceu um mero detalhe dito em uma frase que vai servir como a conclusão do episódio.
Já O rolo desaparecido incorpora um romance policial, com direito até a narração de detetives, enquanto A guerra se assemelha com um episódio de Looney Tunes, daqueles em que o Coiote cria armadilhas para capturar o Papa-Léguas, mas não no tradicional cenário do deserto norte-americano, aqui o ringue é Los Angeles. Quando O Estúdio fica amnésico de sua sátira, não só consegue tirar o melhor de seus atores e escritores, também extrapola as fronteiras que sua metalinguagem quer atingir.

Ao criar um simulacro de gêneros notórios, que estabeleceram clássicos do Cinema, os criadores Evan Goldberg, Alex Gregory, Peter Huyck, Frida Perez e Seth Rogen harmonizam com a trajetória de Matt: ele precisa compreender sua função de executivo e não de artista. É como se a Comédia não tivesse espaço entre os figurões da Sétima Arte, exceto quando existe uma categoria específica para ela, como no caso do Emmy. Ou seja, o humor sem requintes, que é corpóreo e exagerado, nunca será alguém a dividir o panteão, somente se for uma farsa do noir ou do drama, por exemplo.
A paródia vai para além de piadas com o Christopher Nolan ou à aquisição da MGM pela Amazon e pousa em galhos onde é preciso balançar para cair bons frutos. Neste quesito, portanto, o show de TV alcança o nível de prestígio que tanto prezam: o humor sútil, a crítica, a profundidade. Talvez um bando de adolescentes se metendo em enrascadas apenas para beber álcool fosse banal demais para ser ovacionado, é necessário outro cenário, um já consolidado nas mentes de quem julga. As artimanhas podem acontecer, entretanto, sob os holofotes da indústria cinematográfica americana.

Evan Goldberg e Seth Rogen, que assinam a direção dos dez episódios, garantem um trabalho no máximo funcional. No limiar do que é feito em The Bear (2022-), eles tentam representar a ansiedade e caos do cotidiano de uma empresa através de uma câmera que acompanha personagens, passeia por ambientes, esbanja close-up, usa diversas vezes o plano-sequência e quase nunca dá fôlego, mas para por aí. Se a ideia era ter a sensação de velocidade impressa pela lente, o resultado foi obtido. Pelo menos, a fotografia comandada por Adam Newport-Berra garante belas cenas com iluminação natural.
O Estúdio quebrou recordes de indicações no Emmy, conquistando 23 nomeações. Entre elas, Melhor Ator Coadjuvante em Série Cômica, Melhor Série Cômica e Melhor Direção em Série Cômica; porém a briga para levar a estatueta é de cachorro grande, com o restaurante de Carmy (Jeremy Allen White) e Abbott Elementary (2021-) na disputa. De qualquer maneira, quando a cerimônia tiver o fade out, vários espectadores ainda lembrarão de alguém que estacionou o carro no lugar errado, e isso é maior que qualquer ‘prestígio’.
