Vampiros ladram, mas não mordem em Love Kills

Cena do filme Love Kills.Na imagem, com cores em tons de verde neon, a personagem Helena está com as duas mãos nas bochechas com expressão de prazer. Ela é uma vampira e se delicia com sangue na boca, que está aberta, mostrando as presas. Ela está de olhos fechados e a fotografia fecha o plano em seu rosto. Ao fundo, em desfoque, há uma parede laranja. Helena é uma mulher negra, na faixa dos 35 anos, de cabelos dread na cor preta. Suas unhas estão pintadas em tom escuro.
Love Kills foi exibido no Festival do Rio 2025 (Foto: Filmland Internacional)

Davi Marcelgo

Existem filmes que transformam cidades em personagens ou fazem delas elementos importantes para a trama. Na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, por exemplo, o longa A Árvore do Conhecimento (2025) usa as transformações de Lisboa como ponto de partida de sua história. Já Baby (2024) faz das ruas da capital paulista um local de refúgio e identidade. Essa característica não está presente em Love Kills, apesar de a diretora Luiza Schelling transformar a terra da garoa em sua Transilvânia, ela pode ser substituída por qualquer outro cenário. A produção faz parte da seção Mostra Brasil do evento e reproduz a linguagem e a gramática de países externos. 

A trama de vampirismo é inspirada no quadrinho de mesmo nome, escrito por Danilo Beyruth (Astronauta MSP), e é persuadida por produções estrangeiras do subgênero, seja pelas roupas de couro (Blade: O Caçador de Vampiros, 1998) ou  inspirações no enredo de Drácula de Bram Stoker (1897). Tentar se desvincular de uma obra inaugural como o livro do final do século XIX não é só exaustivo, como faz parte da Arte o diálogo com influências externas. Porém, repetir os padrões estilísticos do Cinema Hollywoodiano em um longa brasileiro é, no mínimo, castrador. 

Helena (Thais Lago) e Marcos (Gabriel Stauffer) transitam nas noites de São Paulo, entre covis e escadarias onde o abandono estatal e a dependência por drogas são codificados como elementos de Terror, mas superficiais. A morte de pessoas em situação de rua, servidas de alimento para os vampiros, remete à alegoria dos ricos que sugam as classes mais vulneráveis. Contudo a temática está mais apoiada ao clichê dessa metáfora no imaginário do público do que um compromisso no enredo, que dá preferência à fantasia e ao amor, fazendo com que esse plano de fundo da cidade de pedra seja puramente estético – o que não seria um problema, se a direção de Schelling não estivesse tão apegada aos vícios americanos. A título de comparação, As Boas Maneiras (2017) consegue incorporar a natureza folclórica do lobisomem, contada de forma oral por gerações, por meio de paisagens pintadas e estilo artificial, o que proporciona elementos do Brasil.

Cena do filme Love Kills.Na imagem, o personagem Marcos está de costas para a câmera, mas com o rosto virado para ela. Ele empunha um machado na mão direita. À sua frente, há muito fogo e fumaça, fazendo com a fotografia tenha bastante sombra, impossibilitando a identificação das cores de roupas do personagem, por exemplo. Marcos está vestindo calças e uma jaqueta, ele possui cabelo encaracolado. É um homem branco na faixa dos 35 anos.
Love Kills marca a estreia na direção de Luiza Schelling, que trabalhou durante anos na produção (Foto: Filmland Internacional)

Os personagens lutam com uma coreografia e encenação bastante formulaica, ora por planos abertos no escuro, ora por uma câmera estática que se fixa nos golpes. São socos que quebram a barreira do som, arremessam adversários para longe e fazem eles gemer durante o combate. Quando os poderes de levitação entram em cena, a situação piora, e os figurinos de couro remetem aos X-men, de Bryan Singer, e ao principal produto midiático brasileiro oriundo dos heróis da Marvel: a novela Os Mutantes: Caminhos do Coração (2008-2009). Essa semelhança não atribui uma carga cômica ou camp, mas de um simulacro mal feito das batalhas travadas nos blockbusters, uma briga difícil de se imaginar acontecendo nas ruas paulistanas. 

Apesar da boa iluminação e da fotografia de Jacob Solitrenick, que traz ares góticos em suas composições, Love Kills não transmite a paixão ardente que os protagonistas tanto verbalizam ou que a cena de abertura consegue transmitir, momento que, inclusive, lembra a primeira sequência de ação em Blade. Ambas são ambientadas em uma balada, filmadas com tesão e que ejaculam sangue, ao passo que a roupa de Helena, amarrada com um laço atrás, dá indícios de uma abordagem BDSM. Apesar disso, o estilo quente só retorna ao final da trama e as roupas coladas ficam sem apelo, engolidas pela escuridão noturna, sendo difícil apreciar os estilos dos vampiros.

Se tem alguma coisa que Love Kills remete de São Paulo, talvez seja essa ideia de uma cidade frívola, sem amor, que já foi desmentida por meio de produções que inundaram o cotidiano com esse sentimento poderoso. É uma representação bem morna sobre o desejo dos dráculas, que em uma abordagem contida, lembra muito mais a fase casta da Hollywood atual do que uma identidade brasileira. Com certeza a capital paulista não habita uma profecia de filme de aventura, em que um ser poderoso está vindo e é preciso agir, antes que seja tarde demais. Afinal, que tipo de história esse plot te lembra? 

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