Aviso: este texto contém spoilers

Davi Marcelgo
“É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade”, Luís Vaz de Camões já tinha cantado a bola sobre o amor ainda no século XVI com seu mais célebre soneto. É um sentimento intenso, conflitante, de oposição, que o Cinema normalmente representa como uma experiência melancólica e que leva às nuvens. Contrariando outros gêneros, não é nenhuma novidade que o Terror vai se apoderar de pessoas e núcleos da realidade que não são assustadores, exceto se os deturpar — crianças, cachorros e, no caso de Juntos (2025), um casal.
O roteiro assinado pelo também diretor Michael Shanks vai usar a história de Tim (Dave Franco) e Millie (Alison Brie) como marionete para tecer comentários sobre relacionamento e dependência. Na trama, o casal se muda para uma cidade pequena, bebe água de um poço e precisa lidar com questões conjugais enquanto o corpo de ambos faz de tudo para se fundir. Porém, enquanto a temática é no mínimo convidativa, o longa não consegue se modelar a fim de gerar uma unidade fílmica. Ora, se entendemos, enquanto sociedade e mídia, o amor como um fragmento poderoso e voraz, por que o prometido body horror de 2025 é tão morno?
Tim não consegue ter relações sexuais com sua cara-metade há meses, é um problema apresentado logo nos primeiros diálogos da trama. Paralelamente, Shanks também nunca consegue, de fato, chegar na ‘hora H’; em determinada cena, por exemplo, em que Millie precisa rasgar a pele que une ambos pelo braço, há um corte abrupto que substitui a potência do gore por uma piada – do grito e chiado de ferramenta ao silêncio de duas pessoas comendo. O tom das cenas é discrepante e interrompe a imersão de medo que o longa construiu até então.

Enquanto A Substância (2024) não poupou o público de cenas nojentas, seja a de homens mastigando ou do corpo degradando, tudo como meio de linguagem para dialogar sobre machismo e envelhecimento feminino, Juntos não extravasa, nem pela beleza, nem pelo horror. Os protagonistas não estão vivendo a melhor fase de suas vidas, há um elefante na sala quando o assunto é carreira: Millie conseguiu um emprego como professora, Tim ainda tenta carreira como músico. Independente de estarem no auge da relação ou em um momento delicado, estar em um relacionamento significa experienciar sentimentos bons ou ruins. No entanto, o Terror Corporal não é utilizado como instrumento intrínseco para expor temas ou desejos das personagens, aqui ele está posicionado apenas como um problema a ser lidado.
A forma como o cineasta conduz a narrativa escancara a violação corporal em poucos momentos, um envolvendo sexo e o outro no clímax. Quando os planos se fecham nos rostos e peles do casal, a tensão e a beleza, sentimentos opostos — como o amor para Camões — finalmente emergem; embora pontuais, presentes naquelas cenografias, não no todo. Por outro lado, se esse distanciamento da câmera ou a ausência do subgênero poderia ser justificado pela crise entre Millie e Tim, o argumento cai quando a mutilação de seus corpos para uma figura única, representação do medo de perder a individualidade, é concebida em belas e irônicas imagens. Essa ideia é pincelada no filme, entretanto não mediante o grotesco, este que sim, escandalizaria o sentimento chamado amor.

Jamie (Damon Herriman) é o único personagem que consegue aproveitar o body horror como um elemento de narrativa, não somente um artifício para o susto. Quase na conclusão da história, é revelado que o colega de profissão de Millie é casado com outro homem. Ambos fazem parte de uma religião (ou seita) que faz um ritual para unir dois corpos em um, retomando o Mito das Almas Gêmeas de Platão. A lenda conta que a humanidade era completa, cada ser possuía duas cabeças e dois braços, a duplicidade total.
O ponto dessa trama não é a crença na mitologia grega ou no conto ultra romântico de almas gêmeas que vagam procurando suas partes. O crucial é o porquê de Jamie se fundir com seu marido: para conviverem juntos em uma cidade pequena, que o próprio Jamie diz ser fácil conhecer todo mundo, é até previsível que um casal gay vai optar pelo afeto vivido na mesma carne, protegidos de preconceitos. Infelizmente, esse subtexto surge de forma rasa no roteiro e é um elemento que pode até passar despercebido — pelo menos é uma das leituras disponíveis.
Muitos cineastas tentam criar novos ícones do Terror, James Wan parece ter como obsessão essa conquista. Desde 2021, ele esteve envolvido nas produções de Maligno (2021), Megan (2022) e O Macaco (2025), mas antes disso já tentava substituir o Chucky com Annabelle (2014). Michael Shanks tinha em Juntos a oportunidade de conceber um clássico contemporâneo, mas a possibilidade fica só no conceito ao assassinar o body horror com um romance implosivo, preso por vontade.
