Aviso: este texto contém spoilers

Davi Marcelgo
A força motriz de Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado (1997) é o conteúdo de que a história trata: adolescentes ambiciosos com o futuro, cansados da cidade natal, ficam condenados a viver ou retornar sempre ao local. Esta temática aparece não somente no texto, mas na forma como o diretor Jim Gillespie isolava as personagens do resto da população, a tragédia era algo particular do grupo de amigos. A premissa se perdeu na sequência de 1998 e no remake de 2006, mas retorna com força total, embora reimaginada, no filme que chegou aos cinemas em 2025; a requel sem medo de ser a ‘irmã feia’ de Pânico (2022).
Na trama, – você já deve saber – um grupo de amigos provoca um acidente, não presta socorro, guarda o segredo a sete chaves e após 365 dias, um assassino com fantasia de Pescador surge para vingar a morte da vítima. Um por um, os jovens são trucidados. Em oposição aos recém-formados do ensino médio no roteiro original, os protagonistas da versão Gen-Z são adultos, prestes a casar ou com carreiras florescendo. A relação deles com a litorânea Southport segue as ideias de querer não pertencer àquela cidade e ser obrigado a retornar, porém, cria uma tangente: quem gosta de permanecer é porque se beneficia da política implantada.
Enquanto Ava (Chase Sui Wonders) – uma mulher queer – diz que pretende nunca mais voltar ao local e Stevie (Sarah Pidgeon), logo após uma tragédia envolvendo o pai mudar o curso de sua vida, precisa trabalhar para sobreviver, Teddy (Tyriq Withers) e Danica (Madelyn Cline) dão uma festa de noivado. O casal é o ideal heteronormativo, que aqui vira piada. O roteiro de Jennifer Kaiten Robinson, que também é diretora, compreende o público que quer conquistar e faz isso por meio de sacadinhas bem humoradas. Afinal, o que mais é a principal característica da Geração Z, que consome Twitter (nada mais gen-Z do que ignorar a mudança para X) e cria vídeos para o TikTok, senão um ativismo político raso e fazer piada com ricos?

O elenco cheio de química, catapultado por piadas divertidas e um retrato sincero dos jovens adultos, é um dos melhores acertos deste longa. A agência deles, ao avançar da trama, consegue remendar a característica fatal inerente dos dois filmes anteriores – desconsiderando o remake de 2006. O segundo ato das histórias nunca soube o que fazer com as personagens, se os enviavam para uma investigação, ela não possuía ritmo e se concentrava em apenas um lugar, com pouquíssimas mortes. Se partia para o Terror frontal, era inócuo, repetitivo ou matava figurantes negros.
Robinson concilia as duas abordagens, separando o grupo à la Scooby-Doo (o primeiro live-action, escrito por James Gunn, é curiosamente inspiradíssimo na franquia de Terror, da narrativa à escolha de atores), dando a eles atividade ao apurar o mistério à medida que deixa um saldo de corpos empilhados com uma filmagem agressiva, imponente e criativa. Diferente do fatídico Eu Sempre Vou Saber O Que Vocês Fizeram No Verão Passado (2006), em que o Pescador tem sua primeira aparição sem peso algum, ou até dos outros dois filmes com o elenco original, que nunca deram grande importância à figura do assassino, a requel o trata com potência.
A diretora enquadra ele em contra-plongée, sua silhueta na escuridão e às vezes a própria ausência de luz encarna sua maldade. Ela dedica um tempo passeando a câmera por sua figura, destaca as botas sujas – e o som que fazem ao andar -, as armas e o corpo. As composições criam no antagonista a postura de ameaça que significa à vida das vítimas. E não somente no campo da decupagem das imagens, mas também nos jeitos que o vilão encontra para torturar ou matar os protagonistas. Pela primeira vez o nome ‘Pescador’ faz sentido, pois o anzol não é a única arma usada por ele, há um arpão e gaiola de armadilha, além de uma vítima se debatendo como um peixe fora d’água, tal como presa e caçador.

A cidade está mais incorporada aos eventos da trama e as decisões das autoridades – e dos ricos – têm relação direta com o acontecimento que mancha o destino dos cinco amigos. Inclusive, a escolha de não prestar socorro ou sofrer as consequências do ato, como também de ser irresponsável ao ponto de não refletir sobre o mundo ao redor, rege ideias discutidas pela gen-Z. São personagens que têm o poder de se safar legalmente de imprudências e crimes. O texto levanta questões sobre apagamento histórico, impunidade e esquecimento, seja ele institucional ou íntimo, porém acaba deixando a crítica passar despercebida por ter personagens tão amáveis.
O principal detalhe que evoca essa temática é a escolha do alter ego do Pescador, pela primeira vez nos Cinemas, não é Ben Willis (Muse Watson), mas sim Ray (Freddie Prinze Jr.), que teve uma vida completamente diferente dos colegas, sendo obrigado a ficar de escanteio, trabalhando como um pescador entre os cais. Apesar de justificável, seja pelo passado e principalmente, pelo assassino agir como um homem da água, essa decisão ainda soa como uma forma de chocar a audiência e ir contra a maré nostálgica dos filmes, algo que o péssimo O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno de Leatherface (2022) fez ao matar a final girl do clássico de 1974.
Ainda que questionável, Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado reúne o que há de melhor no Terror de shopping center: elenco carismático e boas mortes. É um filme que não tem medo de ser comparado com a franquia do Ghostface, algo que sempre ocorreu graças a um ano de diferença entre os precursores de cada saga e ao roteiro de Kevin Williamson, presente em ambos. Pelo contrário, ele assume características inatas de Pânico, como os monólogos de assassinos e a consciência dos protagonistas acerca de clichês do gênero.
