Zootopia 2 e o peso de existir: uma continuação ansiosa, política e necessária

Aviso: O texto contém alguns spoilers

Cena de Zootopia 2. A cena mostra Nick Wilde e Judy Hopps em um ambiente noturno elegante, vestidos formalmente e voltados um para o outro em um plano médio que destaca sua interação. Nick, em um terno preto e com seu olhar charmoso e irônico, contrasta com Judy, que usa um vestido amarelo vibrante e exibe uma expressão atenta e confiante. O fundo desfocado com luzes festivas e neve cria uma atmosfera romântica e acolhedora. A arte digital, com estilo próximo ao da animação 3D da Disney, apresenta cores vibrantes, texturas cuidadosas e iluminação suave, reforçando o clima íntimo e celebrativo do momento.
A versão brasileira do filme conta com o retorno de Monica Iozzi e Rodrigo Lombardi como os protagonistas (Foto: Walt Disney Animation Studios)

Marcela Jardim

Depois de quase uma década da primeira produção, Zootopia 2 chega como uma continuação que entende a própria pressão de existir, e faz disso um tema, uma ferramenta narrativa e um comentário metalinguístico. Desde o primeiro ato, o filme assume uma necessidade que é necessário se provar a todo tempo, ecoando o dilema dos próprios protagonistas, Judy Hopps (Ginnifer Goodwin) e Nick Wilde (Jason Bateman), que continuam carregando a tensão entre ser reconhecidos e ser suficientes. Esse jogo reflexivo de evidencia quando o novo prefeito, um ator vaidoso e caricatural, surge como sátira da política-espetáculo: um líder cuja função é performar confiança, não construí-la. A piada é ácida e evidente, mas funciona como crítica ao modo como celebridades e figuras públicas ocupam cargos de poder numa sociedade que trata governar como entretenimento.

A dinâmica clássica entre Judy e Nick permanece a mesma: a policial certinha, disciplinada, que acredita que ética pode mover montanhas, e o malandro afiado que conhece a cidade de dentro do caos. Esse contraste volta como motor narrativo, acentuado pelas diferenças da dupla, levando os personagens até uma ‘terapia de casal’, brincando com a intertextualidade da dupla funcionar quase como um casal que evita admitir isso. As sessões de treinamento emocional obrigatórias, recheadas de frases prontas e referências à linguagem de coaching, parecem tiradas diretamente de podcasts contemporâneos sobre relacionamentos, masculinidade, vulnerabilidade e comunicação não violenta. A produção entende e referencia a cultura atual, além de se divertir com ela.

Cena de Zootopia 2. A cena apresenta três personagens: um gato cinzento (Patalberto), uma coelha (Judy) e uma cobra azul (Gary), todos expressando forte surpresa diante de algo fora do quadro. O enquadramento próximo destaca rostos e ombros, reforçando o choque nas expressões. A iluminação suave e o fundo desfocado mantêm o foco nos personagens: o gato com casaco verde e mochila laranja, a coelha com casaco azul marinho e olhos arregalados, e a cobra azul com olhos amarelos e língua bifurcada. O estilo segue a estética típica da Disney, com texturas detalhadas e cores vibrantes. A luz quente sugere um pôr ou nascer do sol, criando um clima de suspense e antecipação sobre o que eles estão observando.
Uma continuação foi considerada ainda em 2016, ano de lançamento do primeiro filme, pelos diretores (Foto: Walt Disney Animation Studios)

O roteiro aproveita esse tom próprio para explorar o tema das diferenças culturais de maneira ainda mais explícita. A relação entre espécies retorna como metáfora para choques culturais, formas de comunicação distintas e conflitos de convivência. Isso fica evidente nas sequências envolvendo o sistema de metrô e os enormes canos suspensos, que remetem à urbanização problemática de cidades como Nova Iorque e São Paulo. A mensagem é clara: convivência multicultural exige adaptação e respeito, algo que ecoa também no subtexto sobre como imigrantes e estrangeiros construíram boa parte da infraestrutura dos Estados Unidos, porém raramente são creditados por isso. Em Zootopia 2, até mesmo a engenharia urbana vira comentário político.

Ao mesmo tempo, o filme abraça a estética contemporânea ao inserir referências a outros clássicos da animação, incluindo Ratatouille (2007), onde um animal chefe de cozinha aparece com um rato na cabeça. Por outro lado, há também um paralelo direto com casos de plágio corporativo, propriedade intelectual e o eterno embate entre criatividade e capitalismo. O antagonismo, aliás, é mais profundo do que vilões caricatos: o verdadeiro mal aqui são os ricos poderosos, donos de terras, donos de marcas, donos de narrativas. O longa toca em eugenia de forma crítica, denunciando discursos que tentam justificar a exclusão de certas espécies, como os répteis e aves, sob a desculpa de ‘ordem natural’.

Cena de Zootopia 2. A cena mostra Nick Wilde e Judy Hopps remando juntos em um barco, ambos surpresos e em alerta enquanto atravessam um rio pitoresco. O plano médio destaca a parceria dos dois, que seguram os remos lado a lado e reagem a algo inesperado no ambiente. Nick, com sua pelagem laranja e camisa rosa florida, exibe preocupação, enquanto Judy, com colete azul e olhar atento, parece assustada. A arte digital segue o estilo vibrante da Disney, com texturas detalhadas nos personagens e na água. O cenário de pântano ou rio, cercado por vegetação e construções charmosas, iluminado por luz natural, cria um clima de aventura e antecipação.
Shakira compôs uma música original para o filme, chamada Zoo, em parceria com Ed Sheeran (Foto: Walt Disney Animation Studios)

Um dos momentos mais simbólicos é a quebra da caneta de cenoura, aquele dispositivo icônico que salvou Judy e Nick no primeiro filme. Aqui, ela se parte ao meio como metáfora da fragmentação da confiança, da amizade e dos pactos que sustentavam a dupla. É uma ruptura silenciosa, mas emocionalmente densa, que representa a pressão externa corroendo vínculos afetivos. A obra trata essa cena com a delicadeza de quem entende que relações, sejam de trabalho ou amorosas, não quebram de uma vez, e sim racham, desfiam, se desgastam até que o objeto simbólico finalmente cede.

A volta da cantora Gazelle (Shakira) reforça o espírito pop da franquia, agora com mais aparições e um discurso mais politizado que acompanha o próprio retorno da artista ao mainstream. Diferente do primeiro, em que surgia praticamente apenas no número musical, Gazelle aqui participa efetivamente da narrativa e ganha cenas que ampliam sua presença no universo animal. Em outra face, Nibbles Castanheira (Fortune Feimster), a castora podcaster de teorias da conspiração, e Gary A’Cobra (Ke Huy Quan), injustamente acusado como vilão, funcionam como alívios cômicos bem calibrados dentro da trama. Diferente de coadjuvantes que pesam ou desviam o foco, eles não soam saturados ou inconvenientes, são personagens autênticos, com personalidades próprias, cuja comicidade nasce da narrativa e não de exagero. 

Além disso, o retorno de Bellwether (Jenny Slate) e do preguiça Flecha (Raymond S. Persi) cria um contraste cômico e nostálgico essencial à narrativa. Bellwether aparece na penitenciária e tenta fugir de Zootopia, enquanto Flecha ajuda Nick a salvar Judy, usando sua velocidade nas estradas. Em outra vertente, o longa mergulha nas discussões sobre saúde mental ao mostrar Judy lidando com crises de ansiedade diante de padrões inalcançáveis, enquanto Nick enfrenta o fantasma de nunca ser plenamente visto além da imagem de trambiqueiro. A própria cidade surge como um organismo exausto, adoecendo sob o peso das desigualdades e das pressões constantes do cotidiano urbano.

Cena de Zootopia 2. A cena mostra Judy Hopps, Nick Wilde e Gary A’Cobra em um momento tenso no topo de uma montanha, reagindo com surpresa e medo enquanto uma serpente azul interage com eles. O enquadramento dinâmico acentua a altura e o perigo, com Judy em uniforme policial e Nick em sua camisa rosa florida, ambos com expressões de choque. A serpente azul, curiosa, ocupa o centro da composição. A arte digital segue o estilo típico da Disney/Pixar, com cores vibrantes, texturas detalhadas e iluminação natural. O cenário montanhoso, com penhascos, névoa e uma casa de madeira, reforça a atmosfera dramática e de suspense.
A cena pós crédito da produção indica a volta de aves em Zootopia (Foto: Walt Disney Animation Studios)

O filme reforça, com sensibilidade, que “um animal sozinho não pode carregar o mundo nos ombros”. A frase funciona como um manifesto contra o conceito de hiperindividualização neoliberal que molda a vida real e aparece traduzida em metáforas urbanas, pressões de trabalho, burnout e na necessidade de apoio comunitário. Essa discussão ganha ainda mais força quando o vilão disfarçado, Patalberto Linceslei (Andy Samberg), é revelado como um antagonista movido não por ambição pura, mas por um desejo desesperado de aprovação familiar, algo que expõe o impacto psicológico das expectativas sociais e afetivas.

No final, Zootopia 2 é uma sequência que tenta se justificar, se reafirmar e se provar. E justamente por assumir essa busca por pertencimento é que funciona tão bem como obra da atualidade: ele é ansioso, hiperconectado, cheio de referências, autoconsciente, vulnerável e politizado. Assim como Judy e Nick, a própria animação tenta encontrar seu lugar num mundo saturado de narrativas, e talvez seja exatamente essa honestidade que o torna tão necessário.

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