
Guilherme Moraes
Um dos grandes nomes da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, sem dúvidas, é Jim Jarmusch. O diretor de Estranhos no Paraíso (1984) e Amantes Eternos (2013) chega ao evento com seu mais novo filme: Pai Mãe Irmã Irmão, que faz parte da seção Perspectiva Internacional e conta três histórias independentes. O cineasta estabelece apenas um ponto de conexão nessa tríade de contos: os laços familiares rompidos.
A primeira parte do longa foca nos irmãos Jeff (Adam Driver) e Emily (Mayim Bialik) visitando seu pai (Tom Waits). É um momento rotineiro, e quase obrigatório, como se fosse feito, não por apego, mas apenas por serem família. O personagem de Waits vive sozinho em uma casa afastada da cidade e aparenta passar alguns perrengues por ser um adulto disfuncional com problemas financeiros. No entanto, ao final, é revelado que ele escondia um lado seu de seus filhos: confiante e independente.
O segundo enredo é sobre o encontro das irmãs Timothea (Cate Blanchett) e Lilith (Vicky Krieps) com a mãe (Charlotte Rampling). Não muito diferente do primeiro conto, este coloca os personagens em uma situação desconfortável, com cada um escondendo sua verdadeira vida da família, e mantendo esses laços por obrigatoriedade. A grande diferença entre esses dois é a relação fraternal. Se no capítulo inicial, Adam Driver e Mayim Bialik eram próximos, essas duas irmãs são distantes e muito diferentes uma da outra.

Essas duas histórias são muito parecidas, não apenas pelo enredo, e sim, principalmente, pela execução das ideias de Jarmusch. Os silêncios constrangedores, as farpas, os segredos, a maneira como os personagens evitam o conflito e adotam uma postura passivo-agressiva e as cenas de desconforto reforçam esses laços quebrados por traumas que não são revelados, porém, são sentidas. A construção cênica (Mark Friedberg e Marco Bittner Rosser) da segunda trama é pensada exatamente sobre essa vida de aparências, em que tudo é bonito e organizado, contudo, reserva aspectos artificiais.
O terceiro conto é o mais diferente dentre os três. Dois irmãos, Skye (Indya Moore) e Billy (Luka Sabbat) voltam ao apartamento em que passaram sua infância, antes que ele seja alugado por outras pessoas. A dupla está passando por um período complicado após a morte de seus pais, mas a ligação deles é mais sincera que as outras. Existe toque, carinho e lamento, algo que era impensável para os outros. Os cenografistas acompanham a história, transformando a casa em um espaço vazio, contudo, cheio de marcas e histórias. Não há polidez nesse capítulo, pois não há nada o que esconder.
Pai Mãe Irmã Irmão foi um dos filmes mais aguardados na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, não apenas pelo nome de Jim Jarmusch, como também pela presença do renomado produtor Atilla Salih Yücer. Apesar da pegada mais lenta e pausada, a obra conseguiu arrancar risos da plateia a todo instante. Mesmo que sua recepção não tenha causado grande comoção – nem para o bem, nem para o mal –, ainda vale a pena dar uma chance para esse filme tristonho e cômico.
