
Livia Queiroz
Imagine que você está assistindo um jogo de xadrez. O primeiro jogador ao fazer sua abertura, opta por sacrificar sua peça imaginando tirar vantagem do ataque de seu adversário, que captura o peão. Essa jogada chama-se O Gambito da Dama que, em tradução italiana, seria como uma rasteira da peça na qual está localizada à frente da rainha em forma de isca, afinal, nenhum jogador experiente sacrifica sua peça mais valiosa ao lado do rei logo no início da partida. Diante desse movimento, há 5 anos, a Netflix lança, então, a minissérie O Gambito da Rainha, baseada no romance de 1983 de Walter Tevis.
A trama, inusitada e cativante, foi criada e dirigida por Scott Frank e sua extensão não surpreende somente pela qualidade narrativa como pelo casting. A atriz Anna Taylor-Joy (Beth Harmon) foi a escolha perfeita para o papel principal de uma personagem forte e introspectiva e que, na época, iniciava sua ascensão em Hollywood com participações de sucessos como Vidro (2019), Fragmentado (2016), The Miniaturist (2017) e The Witch (2015). Além dela, o elenco conta com outros nomes conhecidos, incluindo Thomas Brodie-Sangster (Benny Watts) e Harry Melling (Harry Beltik). Certamente, todos esses aspectos lideraram o projeto que viria a ser o maior sucesso de audiência da Netflix com uma minissérie, alcançando 62 milhões de telespectadores nos primeiros 28 dias de lançamento e alcançando Top 1 em 63 países.
A prosperidade também vai além do próprio streaming, somando 11 Emmys de 18 nominações. O mais interessante da série é, sem dúvidas, a capacidade de envolver o telespectador na narrativa do jogo, interessante até mesmo aqueles que não sabem sobre xadrez. Conforme Beth é ensinada pelo Sr. Shaibel (Bill Camp) sobre o tabuleiro e suas jogadas, o público consegue entender, nem que sejam os conceitos básicos, sobre a matemática e a arte desse espetáculo. Cada jogada é perfeitamente envolvente, mostrando significado em cada movimento. Depois de muitas partidas evidenciadas em tela, é possível perceber um padrão de início quando Beth participa das competições, e quando se entende que aquele movimento – explicado também pela protagonista – é, na verdade, a perfeita analogia ao gambito da dama.

A fotografia (Steven Meizler), apesar de simples quando tratamos de grandeza de espaços, encontra sua beleza no minimalismo e zooms que transpassam as jogadas de xadrez e expressões de tensão em meio ao tabuleiro. O cenário, baseado nos anos de 1960, é um contraste enorme, no qual serão explorados cenas de cores que se misturam entre si na neutralidade e, por outras vezes, serão coloridos com diversas texturas, estampas e cores em um mesmo ambiente, trazendo à série um retrato de conforto estranho mesmo àqueles que não viveram a época, assim como os detalhes do próprio ambiente de gravação, com sacolas de compras de boutiques verídicas, carros clássicos e móveis padronizados.
O Gambito da Rainha também traz à tona ‘a psicologia dos campeões’. Abrindo espaço para mostrar a obsessão que leva a perfeição, uma clássica narrativa quando se retrata o esporte, como em Arremessando Alto (“A obsessão vence o talento todas as vezes”- 2022), Eu, Tonya (2017), Cisne Negro (2010) e Touro Indomável (1980). A forma com a qual a produção desenvolve esse aspecto é compulsivo e repleto de tensão, assim como a protagonista, que acredita na necessidade de dopar-se para obter rendimento em seus jogos, um vício desenvolvido desde a infância no orfanato. Entretanto, Beth burla a narrativa de autodestruição dos obcecados de forma melodramática, e a ausência da fase de reconstrução mental e estrutural de um ex-viciado decepciona, especialmente pela curiosidade de como essa forte mulher lidaria com isso.
“Um empate, no entanto, não era uma vitória. E a única coisa na vida dela que ela tinha a certeza de amar era uma vitória.“

Além dos aspectos cinematográficos e psíquicos, a série surpreende com a complexidade e significância que aplica por meio da moda. Coordenada por Gabriele Binder, a equipe de costume design fez um excelente trabalho, no qual precisou não só assemelhar-se ao estilo dos anos 60 como também criou o desafio de aplicar easter-eggs de xadrez dentro da linguagem fashion na série. A moda sempre foi uma forma de comunicação feminina quando vivia-se em um período do qual as mulheres eram impedidas de se expressar. E Beth Harmon mostra não só a força feminina que pode ser transparecida na roupa como a forma com a qual ela é um sinal de conexão entre seus interesses e si mesma.
A minissérie conversa com o público por meio das peças que a protagonista utiliza o tempo todo. No início, uma garota introvertida e cheia de ressentimentos que não tem experiências para contar, vestida de forma simples e neutra, sem chamar atenção. Depois, no orfanato, completamente uniformizada porém com um crescente ar de rebeldia, com uma roupa amassada e meias engruvinhadas. Em seguida, o seu passo ao mundo do xadrez, que envolve uma coletânea de looks quase matemáticos, voltados sempre às linhas verticais e horizontais. E por fim, ao tornar-se um ícone do esporte, ela amplia o vestuário para algo digno de realeza, com óculos de Maison Bonnet, sobretudos e vestidos inspirados em Pierre Cardin, a arte pop de Andy Warhol, saltos e adereços capilares, além da equipe se inspirar em esculturas de modelos dos 60’s como Edie Sedgwick e Françoise Hardy. Beth definitivamente se veste não só como uma verdadeira rainha como também como si mesma em torno de sua maior obsessão, o xadrez.

Um exemplo da moda como poder político é no episódio Adjournment (Partidas Adiadas), em uma coletiva de imprensa na pré-partida contra Vasily Borgov (Marcin Dorocinski). Nela, um jornalista pergunta à Harmon qual a opinião dela sobre “aqueles que dizem que ela é muito glamurosa para ser levada a sério como uma jogadora de xadrez”. De forma breve e objetiva, a mulher responde: “Eu diria que é muito mais fácil jogar xadrez sem o peso de carregar o pomo de Adão”, uma clara menção à guerra dos sexos que escutou sua vida toda quando se trata de esportes. Neste e em outros comentários da imprensa é inserido o sexismo dos interesses sobrepostos pela lente de gêneros, no qual – diante da elegância que intimida – associa o papel feminino e de sua feminilidade às atividades caseiras e sofisticadas enquanto o homem pratica a competitividade dos esportes.
Portanto, O Gambito da Rainha é versátil e abre debate para diversas temáticas não necessariamente entrelaçadas porém de alguma forma independentemente conectadas pelo bem da qualidade cinematográfica. É o tipo de minissérie que se acaba em um único dia, não por ter poucos episódios mas por quão satisfatória é a jornada de Beth Harmon e sua conexão com um esporte um tanto quanto ofuscado atualmente. Apesar das pequenas desvantagens do cotidiano evidenciadas no decorrer dessa obra, entendemos que é sempre interessante iniciar suas partidas de forma ousada, pensando no futuro tal qual um gambito da dama porque, afinal, “o xadrez também pode ser muito bonito”.
