
Gabriel Quesada
Na seção Apresentação Especial da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a série documental de cinco episódios da Apple TV+, com direção de Rebecca Miller, abre com uma colagem de cenas dirigidas por Martin Scorsese ao som de Sympathy For The Devil (ou “empatia pelo diabo”) dos Rolling Stones, afinal, estamos falando de um diretor com fascínio pela violência (tema que, por vezes, lhe rendeu algumas polêmicas na carreira). Além disso, a obra viaja para a infância do cineasta para entender de onde aquele rapazinho asmático de apenas um metro e sessenta tirava tanta braveza.
Rebecca conversou com diversas pessoas que cresceram com Scorsese em Little Italy, subúrbio de Nova York (“no cruzamento da Avenida dos Assassinos com a Avenida do Diabo”, como apelidou carinhosamente) e faz um retrato que parece ter saído de um dos seus próprios filmes, mas, desta vez, não do ponto de vista do gângster ou do esquisitão, e sim do menino à margem do parquinho que um dia contaria todas essas histórias.
Scorsese cresceu com esses caras, e teve acesso a coisas que muitos cineastas não tiveram. Assim, ele entende, melhor do que ninguém, a natureza dessas relações intensas. Todos aqueles ‘underdogs’ tentando vencer na vida que escreveu são, na verdade, o retrato de outro azarão – ele mesmo – tentando se tornar diretor de Cinema em meio a tanta coisa errada. Assim, notamos que cada personagem de Scorsese carrega um pouco da sua essência: de Travis Bickle (Robert De Niro), de Taxi Driver (1976) – um ‘outsider’ sem jeito com as pessoas, tentando se conectar àquele mundo – a Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), de O Lobo de Wall Street (2013), um corretor comum que quer provar que é capaz de vencer o sistema e “não ser só mais um” em um mundo movido pelo dinheiro. Marty ama seus personagens, e por isso eles são tão interessantes.

A série também o desmistifica: trabalhar com ele, ao contrário do que muitos pensam, é tudo, menos fácil. Tecnicamente, Scorsese é um gênio (daqueles que visualizam o filme pronto na cabeça antes mesmo de começarem a filmar) mas, para Hollywood, produzir obras em que o sangue escorria até da tela do Cinema, em uma época em que as pessoas dobravam o quarteirão para assistir aos Gremlins (1984) – ou qualquer blockbuster desse tipo –, parecia loucura. Scorsese, por outro lado, nunca quis saber: era preciso ser cruel para ser artista, e apresentar a violência também deveria ser motivo de louvor – um ato de coragem numa época em que críticos de Cinema eram como astros, capazes de matar um diretor com suas línguas em formato de chicote.
E, como todo homem que anda à margem pode um dia cair no abismo, o documentário visita também os pontos mais baixos da carreira de Scorsese, como o vício em drogas que quase o matou, quando passava noites em branco no set – pensando apenas em filmar (“todo esse filme não pode te fazer bem”, disse o doutor), e sua eletrizante volta por cima, quando a Academia finalmente reconheceu sua Arte (por mais sangrenta que fosse) ao premiá-lo como Melhor Diretor por Os Infiltrados (2006), o que talvez tenha vindo até tarde demais – afinal, há pelo menos trinta anos ele já moldava, com mãos seguras, o que hoje chamamos de clássicos.
Com 80 e poucos anos, o velho Marty conta sua história para Rebecca Miller enquanto continua aprendendo a controlar o que quer que seja esse seu lado sombrio. A série é uma cuidadosa revisita – e uma bonita homenagem – a carreira de um dos diretores mais badalados de Hollywood e praticamente um convite para todos os fãs do seu trabalho (e fãs de cinema em geral) mergulharem na sua filmografia e reassistirem esses personagens tão icônicos, ganhando ainda mais camadas. Absolute Cinema!
