
Gabriel Diaz
Tal qual uma festividade caseira entre amigos num final de semana comum, quatro bilionários se reúnem em uma mansão isolada nas montanhas para jogar pôquer, beber uísque caro e compartilhar trivialidades. Só que, neste caso, as trivialidades envolvem desestabilizar economias nacionais, incitar guerras civis com deepfakes e debater a aquisição de países inteiros como se fossem startups promissoras.
Em meio à vertiginosa ascensão das inteligências artificiais e ao controle socioeconômico cada vez mais concentrado nas mãos de uma elite tecnológica, o longa Mountainhead, distribuído pela HBO, estreia na direção de Jesse Armstrong e emerge não como uma ficção distante, mas como um espelho perturbadoramente nítido do nosso presente. O filme transporta o olhar ácido e cortante de Succession (2018) para o universo desses donos das high techs, aqueles que, nas sombras (ou não tão assim), brincam de ‘deuses dos algoritmos’ que podem desestabilizar nações em questão de horas.
Armstrong opta por uma sátira de tom claustrofóbico, usando o isolamento dessa mansão ultramoderna como microcosmo de um mundo à beira do colapso, que eles mesmos orquestram com uma mistura de arrogância e indiferença. A premissa é tão atual que chega a doer: Venis (Cory Michael Smith), uma amalgamação transparente de Elon Musk e Mark Zuckerberg, lança uma ferramenta de IA sem qualquer ética em sua rede social, desencadeando uma cascata de deepfakes que incitam violência global e colapsos financeiros. Enquanto o mundo arde lá fora, ele e seus pares – Jeff (Ramy Youssef), dono de uma IA supostamente ética; Randall (Steve Carell), o capitalista de risco com conexões militares; e ‘Sopão’ (Jason Schwartzman), o milionário inseguro – discutem o futuro da humanidade com olhares aos próprios umbigos.

A grande força do roteiro de Armstrong reside em sua crueza documental e na sua forma que transfere a ficção para o noticiário. Os diálogos soam menos como invenções e mais como gravações vazadas de retiros reais de bilionários, repletos de jargões do Vale do Silício e uma desconexão moral que é, ao mesmo tempo, cômica e aterradora. No entanto, é precisamente na construção narrativa que Mountainhead tropeça. O diretor, um mestre do formato seriado, parece se perder na transição para o longa-metragem. Os primeiros oitenta minutos, confinados quase exclusivamente às discussões cíclicas entre os quatro personagens, tornam-se repetitivos e, ironicamente, entediantes.
A sátira, que em Succession era alimentada pela dinâmica familiar e por um elenco de coadjuvantes vibrantes, aqui murcha na bolha autorreferente desses homens. Falta o contraponto, a perspectiva da infraestrutura do mundo real que está sendo dizimada por suas decisões. A narrativa carece do dinamismo e da profundidade emocional necessários para sustentar quase duas horas de diálogos cínicos, por mais afiados e absurdos que estejam individualmente. A direção de Armstrong, embora competente, evoca fortemente um estilo visual único de sua antiga série: zooms intrusivos e ângulos que simulam voyeurismo.

O elenco é uma faca de dois gumes. Steve Carell e Jason Schwartzman estão em casa em seus papéis: Carell como o bravata intelectualmente vazio e Schwartzman como o pateta desesperado por validação. Cory Michael Smith captura a essência do tech bro sociopata com uma precisão assustadora. Ramy Youssef, como o único com um resquício de consciência, tenta ancorar o grupo em uma humanidade frágil. O problema não é a atuação, mas o material que lhes é dado. Os personagens são caricaturais, e após a primeira hora, sua falta de profundidade e repetições comportamentais começam a cansar.
Eles não evoluem, não se contradizem de forma significativa: são simplesmente horríveis e ponto final. É uma escolha arriscada de Armstrong, que funciona como diagnóstico social, contudo falha como drama envolvente. A montagem, seguindo o ritmo dos diálogos, é rápida porém não consegue disfarçar a estaticidade da narrativa. O filme só realmente ganha fôlego nos trinta minutos finais, quando a trama abandona a sátira seca e mergulha de cabeça na farsa física.
É o momento em que os planos mirabolantes de seus personagens desmoronam de forma hilariamente inepta, revelando a incompetência fundamental por trás de toda a sua arrogância. Esta virada de tom salva o audiovisual de um desfecho anticlimático, todavia a sensação é de que poderíamos ter chegado lá muito mais cedo e de forma mais eficaz. Comparações com Succession são inevitáveis e, de fato, Mountainhead soa como um spin-off não oficial, porém menos afiado.

Essa natureza de produto derivado pode ser justamente o passaporte de Mountainhead para o reconhecimento do Emmy. O longa foi indicado na categoria de Melhor Filme para Televisão – um reconhecimento que mais considera a assinatura já contemplada do diretor e a premissa que a obra captura do que à sua execução propriamente dita. A produção chegou no último dia do período de elegibilidade do Emmy, seguindo uma estratégia já consolidada da HBO de lançamentos de última hora, mesmo assim, dificilmente passaria despercebida pelos votantes.
Assim como os personagens superficiais da película, as atuações dificilmente seriam premiadas. No retrospecto histórico da premiação, os atores de telefilmes estão em desvantagem competitiva frente aos de minisséries, e nenhum dos quatro protagonistas masculinos consegue transcender a natureza caricatural de seus personagens. Steve Carell, Jason Schwartzman, Cory Michael Smith e Ramy Youssef são competentes em retratar a arrogância delirante desses bilionários, mas criam personagens tão unidimensionais e desprezíveis que dificilmente conquistarão a empatia ou admiração dos votantes.
Enquanto a série explora as nuances do poder através das lentes da dinâmica familiar e da mídia tradicional, a obra tenta fazer o mesmo com a alta tecnologia e a inteligência artificial. No entanto, o perigo do longa é mais explícito, mais global, porém, paradoxalmente, menos interessante dramaticamente. A sátira é mais mordaz do que nunca – a cena em que Ven questiona se “as outras oito bilhões de pessoas são tão reais quanto nós” é um dos momentos mais perturbadores do Cinema recente. Entretanto, soa como um grito de um ecossistema que já sabe, muito bem, como esses homens são.

Mountainhead é um longa-metragem importante pela discussão que propõe, mas falhou na execução como obra audiovisual. Ele é um sintoma de sua própria época: feito às pressas para capturar um momento fugaz de crise tecnológica, todavia que, ao priorizar a atualidade em detrimento da profundidade, acaba por se tornar tão descartável quanto os produtos que critica.
Há controvérsias em relação à qualidade do filme – os diálogos são inteligentes, as atuações sólidas e a premissa é vital, tão quão necessária. Entretanto, é uma produção que poderia ter sido grandiosa, e que se contenta em ser apenas um reflexo competente, embora um tanto quanto narcísico, do caos que nos cerca – e, talvez, precisaria muito mais do que semanas para a sua elaboração. Não há aberturas que nos ofereçam nenhuma nova perspectiva sobre os monstros que cria, contentando-se em apontá-los e nos mostrar a intensidade do mau-caratismo deles – como se já não soubéssemos.
