
Victor Hugo Aguila
Permitir ser vista em um contexto de isolamento é, definitivamente, um ato de coragem. Lançado em maio de 2020, durante a pandemia causada pela covid-19, It Was Good Until It Wasn’t abarca genuinamente as nuances e os desafios presentes entre o desejo e o afeto. Sendo o segundo álbum de estúdio da performer, a lírica intimista e os instrumentais comoventes reafirmam a identidade de Kehlani enquanto uma das maiores expoentes do R&B estadunidense.
Ao longo de 15 faixas e contando com colaborações de artistas como Jhené Aiko, Megan Thee Stallion e Lucky Daye, o disco se apoia em transmitir coerentemente um momento de incerteza sob a ótica de um relacionamento conturbado. Baseando-se na garantia de que, na verdade, nada é garantido, a cantora aborda as ansiedades que se manifestam em um campo de disputas entre o carnal e o sentimental. Sensual e autodestrutivo, a artista utiliza brilhantemente os recursos musicais como uma constante forma de provocação.
Logo no início, a personalidade do trabalho que vem a seguir é apresentada estrondosamente ao ouvinte. Com uma intensidade emocional muito bem marcada, a estadunidense traz um caráter confessional ao utilizar memórias afetivas para criar sua arte. Após o término com o rapper YG em fevereiro de 2020 e o lançamento da canção Valentine’s Day (Shameful), a californiana ainda explora o tom melancólico, porém combinado a sensualidade que apenas a paixão pode proporcionar.

A partir do uso de elementos do soul e hip-hop, além do óbvio e glamuroso R&B, It Was Good Until It Wasn’t, cria uma identidade própria e atemporal, mas sem perder a possibilidade de reconhecer suas referências. Grandes nomes da década de 1990, como Aaliyah e TLC, ganham uma face contemporânea e podem ser reconhecidos nostalgicamente enquanto fortes influências do álbum, ainda que mantendo sua fidelidade aos anos 90.
Mantendo esse caráter romântico da época e sem eufemismos, Kehlani apresenta vulnerabilidade ao expor uma relação fadada ao fracasso, porém sem perder a vontade quase animalesca de possuir e ser possuída. Em tom de súplica, a vocalista abre mão de sua racionalidade ao se isolar, mesmo que sem intenção, e prejudica não apenas sua individualidade, como também a relação que tenta incessantemente manter viva. Como ela mesmo afirma na canção Toxic, “Eu me torno muito responsável quando estou sozinha”.
Ainda que haja uma construção emocional ao longo do álbum, é possível reconhecer um dos pontos principais das composições: a liberdade sexual. Por meio de aspectos da astrologia como tabuleiro de sedução, a faixa Water transpira deliciosamente o apetite sexual como ramificação da confiança. Ao permitir se entregar para o outro, a compositora encontra emancipação no poder da escolha de deixar ser dominada emocionalmente. É o contraste de uma relação paradoxal, na qual a sensação de liberdade, muitas vezes, está presente no ato de se acorrentar a um momento de fantasia quase que interminável.

Apesar de ter a relação com o outro como tema central, a relação consigo mesma não fica em segundo plano. Ao mostrar outra face da mesma moeda, a estadunidense reconhece suas incoerências, principalmente ao se desfazer para construir outro alguém. É a parte azeda que se manifesta na busca por amar e ser amada. Através de um lugar de racionalidade, ao cantar “‘Eu te odeio se transforma em ‘eu te amo’ no quarto” em F&MU, ela elabora suas incongruências deixando claro que reconhece a própria toxicidade e quem realmente é em um instante de carência, permitindo ter sua intimidade tocada apenas na casualidade.
Em aspectos técnicos, é imprescindível destacar o casamento perfeito entre a voz áspera de Kehlani com a doçura melodiosa de Jhené Aiko na faixa Change Your Life. A vocalista de Triggered (freestyle) compõe uma teia harmoniosa ao ser adicionada a canção, tornando o álbum ainda mais completo. Na lírica, ambas afirmam saber o seu valor ao se colocarem em um patamar influente para tentar conquistar aquele que deseja. A ânsia pelo controle sobre o outro transparece na canção através da urgência de explorar suas potencialidades, querendo torná-lo melhor, mas sem perder o que se já tem.
Intensa e visceral, Kehlani representa inteiramente o que significa sentir e ser muito. A sensação de entrar em contato com letras tão bem escritas é um fôlego, e a musicista representa com êxito a familiaridade em mergulhar de cabeça em alguém, sem se questionar o que pode haver no fundo. Ao analisar sua própria profundidade sob uma lente madura, ela destrincha o que é a intensidade e qual o seu papel em uma relação amorosa, desejando, em troca, apenas ser enxergada por ser quem realmente é.

Analisando o disco em sua totalidade, os instrumentos utilizados emolduram perfeitamente a voz e a escrita, além de se destacar como um dos pontos fortes da produção. No hit Hate The Club, em parceria com Masego, o saxofone suave do jamaicano proporciona a sensação do pós-balada que ainda nem ocorreu: íntimo, sedutor e trágico. A faixa representa o embate que é ter que lembrar quem se era antes de alguém. Kehlani canta lindamente a dor que é deixar de fazer algo que deseja por medo de sentir e se coloca em uma espiral de abstinência, no qual tenta encontrar conforto na possibilidade de recaída e no prazer do vício. Continuamente, é questionado: ir dançar para te esquecer ou para tentar te encontrar?
Após tantos desencontros, Kehlani finaliza a pièce de résistance da sua carreira com a coragem de enfrentar o luto de uma relação que não existe mais. Na tentativa de manter viva uma relação morta, a artista recai em consciência e percebe que, nesse momento, o único vínculo a ser salvo é o seu consigo mesma. Apesar da importância e facilidade que ela encontra ao falar sobre liberdade sexual, é necessário chegarmos ao final do projeto para que possamos ter contato com seu lado emocional completamente em estado de nudez. Respondendo diversos questionamentos, ela se permite ser vista e retoma para si o poder presente em ser vulnerável.
O triunfo de It Was Good Until It Wasn’t se apresenta não apenas por conta de suas composições originais e produção tocante, mas também por sua atemporalidade. Ao ecoar de maneira tão genuína sobre paixão, inseguranças e sexualidade – temas ainda extremamente relevantes no cenário cultural atual – Kehlani deixou novamente sua marca no mundo da música e continua se consagrando enquanto alguém destinada ao sucesso. Ainda que não esteja tão presente no mainstream atualmente, a confiança no potencial do seu trabalho faz dela uma voz forte no campo artístico. Se relacionando com a opinião do público, é compreensível e ganha ainda mais sentido o que ela afirmou para a Apple Music em 2020: “Não importa o que aconteça com este álbum, ele vai ser sempre o meu projeto favorito”.
