Aviso: este texto contém spoilers

Lara Fagundes
Um garoto de 13 anos é acusado de assassinato. A pergunta que fica é: como alguém tão novo poderia cometer algo tão cruel? É com essa premissa que Adolescência, da Netflix, traz à tona temas como masculinidade tóxica, rejeição e sentimentos reprimidos. A série prende a atenção, não apenas pelo mistério, mas pela forma como o desenvolve. Intensa e desconfortável, a trama lembra o drama Defending Jacob (2020), da Apple Tv, porém com um diferencial: em vez de manter um final aberto, possui um desfecho com a confissão, que tira qualquer um da zona de conforto.
Com 13 indicações para o Emmy de 2025, incluindo Melhor Minissérie ou Antologia, a obra se destaca em categorias técnicas e de atuação. A linguagem visual é um dos pontos fortes, contada inteiramente por planos-sequência. Cada episódio é filmado em uma única tomada, sem nenhum corte. A simulação de tempo real favorece o mergulho nas situações de tensão, assim, a imersão é imediata: sentimos que estamos acompanhando os personagens, vemos o caminho completo de uma cena para outra, sem qualquer respiro.

A técnica do plano-sequência exige, não apenas precisão técnica da produção, como também do elenco que precisa sustentar os personagens por horas sem pausa, e tudo isso funciona muito bem em Adolescência. Com cinco intérpretes indicados ao Emmy em 3 categorias diferentes de atuação – Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie –, os papéis são feitos com competência ao transmitir realismo e impacto emocional. O ator Owen Cooper, que interpreta o acusado, Jamie, chama atenção em especial ao se tornar o mais jovem indicado na categoria de Melhor Ator Coadjuvante, com apenas 14 anos na gravação da série.
A estrutura da narrativa também merece destaque (a premiação concorda, com uma indicação a Melhor Roteiro em Minissérie). Em apenas quatro episódios, a compreensão do caso de Jamie é explorada por várias perspectivas. O primeiro foca no acusado, seu interrogatório é o ponto de partida do mistério e já começa fazendo o espectador se perguntar: ele é inocente como diz? Ou está escondendo algo? Um garoto de 13 anos cometeria um assassinato sem qualquer sinal de ser capaz disso?

O terceiro episódio é o que cria mais discussões. Acompanhamos a consulta do adolescente com uma psicóloga e os sentimentos do garoto em relação à vítima vêm à tona. A construção de tensão é progressiva, um plano longo que fica apenas dentro da sala de interrogatório, cinza, pequena, com uma atmosfera claustrofóbica e ameaçadora. É um capítulo que transmite uma agonia crescente e a sensação de estar diante de um garoto perigoso, mas, ainda assim, muito novo e humano.
Mais do que um drama policial, Adolescência é uma crítica social gritante. A série reflete de forma incisiva sobre masculinidade tóxica e a cultura de isolamento social em jovens, principalmente na dificuldade de processar e expressar sentimentos dos meninos. Jamie não é retratado como vilão, embora a história permita que o espectador sinta medo do que o garoto poderia ter feito. Ela também mostra como a sociedade afetou e influenciou seu comportamento, como um produto de um ambiente silenciosamente violento.

A obra nos força a encarar algo que ignoramos: a agressividade não surge do nada, pode estar inserida em escolas, entre adolescentes. O desenvolvimento do caso mostra como Jamie não é o único afetado, mas também sua família, afinal, como manter uma aparência de normalidade quando seu filho está sendo julgado por assassinar uma colega de sala? O último episódio traz essa reflexão ao acompanhar o dia de Eddie (Stephen Graham), pai do suspeito, que, na tentativa de comemorar seu aniversário com a esposa e a filha, é ‘presenteado’ pela confissão do crime.
É impossível sair indiferente ao assistir Adolescência. O desconforto que transmite não vem apenas do crime ou da construção dos personagens, e sim de como a narrativa é tratada de forma realista e pela reflexão de um tema que pode ser facilmente reconhecido no mundo em que vivemos. É uma produção forte, com uma direção impecável, indicada ao Emmy de Melhor Direção em Minissérie, e um formato marcante, que consegue abordar um assunto delicado com muita técnica e profundidade emocional. Afinal, a adolescência é vista como a fase mais complicada da vida por um motivo e é partindo desse ponto que a obra certa.
