Com planos longos e feridas abertas, Adolescência retrata o caos que é crescer

Aviso: este texto contém spoilers

Cena da série Adolescência. Duas personagens aparecem em destaque, o fundo é escuro e neutro, como um ambiente fechado. Na frente, um pouco desfocado, há um homem adulto de perfil, usando uma camisa vermelha, o detetive Luke Bascombe. Seu rosto está parcialmente cortado pela borda direita da imagem. Atrás, de forma mais nítida, está a personagem Jamie Miller, um garoto com expressão séria e olhar fixo, olhando para frente, mas de cabeça baixa. Ele tem cabelo escuro e curto, e veste uma blusa cinza clara.
Adolescência é uma minissérie britânica criada por Jack Thorne e dirigida por Philip Barantini (Foto: Netflix)

Lara Fagundes

Um garoto de 13 anos é acusado de assassinato. A pergunta que fica é: como alguém tão novo poderia cometer algo tão cruel? É com essa premissa que Adolescência, da Netflix, traz à tona temas como masculinidade tóxica, rejeição e sentimentos reprimidos. A série prende a atenção, não apenas pelo mistério, mas pela forma como o desenvolve. Intensa e desconfortável, a trama lembra o drama Defending Jacob (2020), da Apple Tv, porém com um diferencial: em vez de manter um final aberto, possui um desfecho com a confissão, que tira qualquer um da zona de conforto.

Com 13 indicações para o Emmy de 2025, incluindo Melhor Minissérie ou Antologia, a obra se destaca em categorias técnicas e de atuação. A linguagem visual é um dos pontos fortes, contada inteiramente por planos-sequência. Cada episódio é filmado em uma única tomada, sem nenhum corte. A simulação de tempo real favorece o mergulho nas situações de tensão, assim, a imersão é imediata: sentimos que estamos acompanhando os personagens, vemos o caminho completo de uma cena para outra, sem qualquer respiro.

Cena da série Adolescência. No canto direito, vemos Jamie, de cabelo escuro e curto, vestindo uma camiseta verde. Ele olha para o lado com uma expressão preocupada e a mão próxima à boca, em um gesto de nervosismo. No centro, vemos uma porta de madeira, com uma janela, na parede ao lado dela, dois quadros. Atrás de Jamie, quase fora do quadro, aparece um policial uniformizado olhando para um bloco de anotações. À esquerda, há um homem de meia-idade com expressão séria, vestindo uma camisa branca e jaqueta azul-escura.
Adolescência entrou para o ranking das séries mais bem sucedidas da história da Netflix (Foto: Netflix)

A técnica do plano-sequência exige, não apenas precisão técnica da produção, como também do elenco que precisa sustentar os personagens por horas sem pausa, e tudo isso funciona muito bem em Adolescência. Com cinco intérpretes indicados ao Emmy em 3 categorias diferentes de atuação – Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie –, os papéis são feitos com competência ao transmitir realismo e impacto emocional. O ator Owen Cooper, que interpreta o acusado, Jamie, chama atenção em especial ao se tornar o mais jovem indicado na categoria de Melhor Ator Coadjuvante, com apenas 14 anos na gravação da série.

A estrutura da narrativa também merece destaque (a premiação concorda, com uma indicação a Melhor Roteiro em Minissérie). Em apenas quatro episódios, a compreensão do caso de Jamie é explorada por várias perspectivas. O primeiro foca no acusado, seu interrogatório é o ponto de partida do mistério e já começa fazendo o espectador se perguntar: ele é inocente como diz? Ou está escondendo algo? Um garoto de 13 anos cometeria um assassinato sem qualquer sinal de ser capaz disso?

Cena da série Adolescência. Jamie, garoto de cabelo escuro e curto, está sentado em uma mesa no centro da imagem, levemente inclinado para trás, com uma expressão desafiadora no rosto. Ele veste uma jaqueta azul-escura com listras brancas nas mangas e uma camisa polo branca por baixo. Ao fundo, há um armário com livros. A luz entra parcialmente pela lateral. Em cima da mesa, à direita, há um copo descartável.
Owen Cooper fez sua estreia como ator mirim em Adolescência (Foto: Netflix)

O terceiro episódio é o que cria mais discussões. Acompanhamos a consulta do adolescente com uma psicóloga e os sentimentos do garoto em relação à vítima vêm à tona. A construção de tensão é progressiva, um plano longo que fica apenas dentro da sala de interrogatório, cinza, pequena, com uma atmosfera claustrofóbica e ameaçadora. É um capítulo que transmite uma agonia crescente e a sensação de estar diante de um garoto perigoso, mas, ainda assim, muito novo e humano.

Mais do que um drama policial, Adolescência é uma crítica social gritante. A série reflete de forma incisiva sobre masculinidade tóxica e a cultura de isolamento social em jovens, principalmente na dificuldade de processar e expressar sentimentos dos meninos. Jamie não é retratado como vilão, embora a história permita que o espectador sinta medo do que o garoto poderia ter feito. Ela também mostra como a sociedade afetou e influenciou seu comportamento, como um produto de um ambiente silenciosamente violento. 

 Cena da série Adolescência. Um casal aparece em destaque, os pais de Jamie. À esquerda, uma mulher de cabelos loiros, veste uma blusa preta e olha para o homem ao seu lado. Ela tem lágrimas no rosto e olhos marejados, segura o ombro do marido. À direita, o homem também tem uma expressão abatida e olha de volta para ela. Ele veste uma camisa polo azul clara e tem cabelos escuros, um pouco grisalhos. Ao fundo, vemos uma janela com cortinas brancas e uma parede azul.
Stephen Graham, no papel de Eddie, fez parte do processo de criação da série ao lado de Jack Thorne (Foto: Netflix)

A obra nos força a encarar algo que ignoramos: a agressividade não surge do nada,  pode estar inserida em escolas, entre adolescentes. O desenvolvimento do caso mostra como Jamie não é o único afetado, mas também sua família, afinal, como manter uma aparência de normalidade quando seu filho está sendo julgado por assassinar uma colega de sala? O último episódio traz essa reflexão ao acompanhar o dia de Eddie (Stephen Graham), pai do suspeito, que, na tentativa de comemorar seu aniversário com a esposa e a filha, é ‘presenteado’ pela confissão do crime.

É impossível sair indiferente ao assistir Adolescência. O desconforto que transmite não vem apenas do crime ou da construção dos personagens, e sim de como a narrativa é tratada de forma realista e pela reflexão de um tema que pode ser facilmente reconhecido no mundo em que vivemos. É uma produção forte, com uma direção impecável, indicada ao Emmy de Melhor Direção em Minissérie, e um formato marcante, que consegue abordar um assunto delicado com muita técnica e profundidade emocional. Afinal, a adolescência é vista como a fase mais complicada da vida por um motivo e é partindo desse ponto que a obra certa.

Deixe uma resposta