
Marcela Jardim
Com As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo, a banda mineira Lagum entrega sua obra mais madura até aqui — um disco breve em duração, mas profundo em afetos, estética e intenção. Lançado em maio de 2025, o álbum representa um respiro dentro da cena pop nacional: sem pressa, sem espetáculo e sem a ansiedade de um hit. Em vez disso, o grupo opta por criar um espaço de contemplação e escuta, no qual cada música funciona como uma pincelada em um quadro maior.
As cores representam as emoções em sua diversidade; as curvas são os desvios e surpresas da jornada, e as dores, os atravessamentos inevitáveis da vida contemporânea. O resultado é uma coleção de dez faixas que transitam entre a leveza, a melancolia e a esperança, costuradas por uma produção minimalista e uma linguagem poética que dialoga com o cotidiano urbano e afetivo de seus ouvintes.

O novo álbum propõe uma escuta atenta ao presente, às pequenas delicadezas do cotidiano e às complexidades dos vínculos afetivos. A valorização do agora, tema central do disco, se manifesta em faixas como Eterno Agora, que usa um arranjo minimalista de voz e violão para afirmar o ‘atual’ como espaço de presença e contemplação. Em contraste, o caos urbano e os sentimentos de alienação que ele provoca também ganham voz — a sensação de deslocamento e introspecção, recorrente nas grandes metrópoles, aparece com força em A Cidade, na qual guitarras densas e letra melancólica constroem um retrato sem perder de vista uma certa beleza possível no cotidiano.
As relações afetivas atravessadas por silêncio, distância ou desejo orientam boa parte das composições. A ausência física, comum em comprometimentos à distância, aparece com delicadeza em As Desvantagens de Amar Alguém Que Mora Longe, que transforma a saudade em matéria poética sem apelar para o sentimentalismo. Esse mesmo universo emotivo ganha novos contornos em Tô de Olho, colaboração com Céu, música marcada pelo desejo de aproximação, que é expressado com leveza e harmonia em um encontro sonoro entre MPB e indie eletrônico.

Há ainda espaço para celebrar o cotidiano e reconhecer seus gestos de cuidado. Vagarosa Manhã ressignifica a rotina como lugar de afeto e presença, descrevendo com ternura os pequenos rituais do início do dia. Já o campo amoroso, com seus exageros e idealizações, é abordado com humor e honestidade em Vida de Novela. Na faixa, a banda trata as emoções intensas sem cinismo, reconhecendo nelas uma forma legítima de se viver e narrar o amor.
Por fim, A Última Nuvem do Céu encerra o disco com uma delicadeza quase ‘suspensa no ar’ e reforça a dimensão poética e efêmera que permeia todo o projeto. A canção funciona como um suspiro final, um aceno suave antes do silêncio, reafirmando a natureza transitória das emoções e imagens evocadas ao longo do álbum. A escolha da metáfora da nuvem — passageira, bela, impossível de capturar ou fixar — condensa com precisão a sensibilidade da proposta estética.
Assim como uma nuvem, a música se desenha e se desfaz no instante e convida o ouvinte a contemplar o fugaz, a aceitar a beleza no que se dissolve. Há também, nessa imagem, uma recusa sutil à rigidez: o projeto prefere pairar, flutuar, desaparecer suavemente, a se prender a verdades fixas ou estruturas fechadas. Dessa forma, o encerramento traduz com lirismo e leveza, como se dissesse: o essencial não se retém — apenas se sente, e depois se deixa ir.

Esteticamente, a banda aposta numa paleta sonora e visual coerente. Os arranjos são orgânicos, com presença marcante de violões, bateria acústica e sintetizadores discretos. A produção de Paul Ralphes — vencedor do Grammy Latino — privilegia a clareza das vozes e o calor dos instrumentos reais e confere unidade e sensibilidade às faixas. O projeto é acompanhado por uma série de visualizers que exploram cores pastéis, linhas suaves e movimentos lentos, reforçando a proposta estética sugerida no título. A capa, com suas curvas abstratas e tons suaves, antecipa a sensação de abrigo emocional que o quinto trabalho da formação musical oferece.
Gravado no estúdio próprio da banda em Belo Horizonte, o disco representa também uma retomada das raízes e uma autonomia criativa mais evidente. Sem a pressão de lançar hits ou seguir tendências, Lagum opta por uma obra íntima e autoral, que convida o ouvinte a mergulhar em uma escuta pausada. Em tempos acelerados, onde tudo é feito para ser viral e descartável, As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo propõe o contrário: um álbum feito para durar, tocar de verdade, acompanhar dias bons e dias difíceis. Mais do que um conjunto de canções, a coletânea de faixas funciona como um gesto cultural de resistência sensível — e talvez seja exatamente isso o que mais precisamos hoje.
