As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo: um mergulho íntimo na nova obra da Lagum

A capa do álbum é uma fotografia aérea de um prédio com design moderno e curvas suaves, vista de cima. Quatro homens estão sobre a borda do edifício, em poses descontraídas: um está deitado com o peito nu, outro está sentado no chão com as pernas esticadas, e dois caminham pelo espaço. Abaixo, é possível ver a rua com carros brancos e árvores margeando a calçada. A cena sugere um ensaio fotográfico ousado, com forte contraste entre o ambiente urbano e a sensação de liberdade dos modelos.
A banda se formou em 2014, em Belo Horizonte, quando o vocalista Pedro Calais postou um vídeo com uma composição no Facebook (Foto: A Ilha Records)

Marcela Jardim

Com As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo, a banda mineira Lagum entrega sua obra mais madura até aqui — um disco breve em duração, mas profundo em afetos, estética e intenção. Lançado em maio de 2025, o álbum representa um respiro dentro da cena pop nacional: sem pressa, sem espetáculo e sem a ansiedade de um hit. Em vez disso, o grupo opta por criar um espaço de contemplação e escuta, no qual cada música funciona como uma pincelada em um quadro maior. 

As cores representam as emoções em sua diversidade; as curvas são os desvios e surpresas da jornada, e as dores, os atravessamentos inevitáveis da vida contemporânea. O resultado é uma coleção de dez faixas que transitam entre a leveza, a melancolia e a esperança, costuradas por uma produção minimalista e uma linguagem poética que dialoga com o cotidiano urbano e afetivo de seus ouvintes.

A imagem mostra quatro homens posam em frente a um fundo neutro bege. O grupo exibe um estilo casual e retrô: um veste moletom branco com faixa preta na manga e tem cabelo longo; outro usa óculos escuros e bigode, com jaqueta preta; o terceiro veste jaqueta esportiva e está centralizado, com expressão confiante; o último usa suéter preto com logotipo da Fila e chapéu tipo bucket, com uma mão na cabeça. A iluminação suave e o filtro quente evocam uma estética nostálgica dos anos 90.
A banda se formou em 2014, em Belo Horizonte, quando o vocalista Pedro Calais postou um vídeo com uma composição no Facebook (Foto: A Ilha Records)

O novo álbum propõe uma escuta atenta ao presente, às pequenas delicadezas do cotidiano e às complexidades dos vínculos afetivos. A valorização do agora, tema central do disco, se manifesta em faixas como Eterno Agora, que usa um arranjo minimalista de voz e violão para afirmar o ‘atual’ como espaço de presença e contemplação. Em contraste, o caos urbano e os sentimentos de alienação que ele provoca também ganham voz — a sensação de deslocamento e introspecção, recorrente nas grandes metrópoles, aparece com força em A Cidade, na qual guitarras densas e letra melancólica constroem um retrato sem perder de vista uma certa beleza possível no cotidiano.

As relações afetivas atravessadas por silêncio, distância ou desejo orientam boa parte das composições. A ausência física, comum em comprometimentos à distância, aparece com delicadeza em As Desvantagens de Amar Alguém Que Mora Longe, que transforma a saudade em matéria poética sem apelar para o sentimentalismo. Esse mesmo universo emotivo ganha novos contornos em Tô de Olho, colaboração com Céu, música marcada pelo desejo de aproximação, que é expressado com leveza e harmonia em um encontro sonoro entre MPB e indie eletrônico.

A imagem mostra os quatro integrantes, que posam em estúdio com fundo branco, olhares direcionados à câmera em uma leve perspectiva de cima para baixo. Um veste camisa azul com botões, outro camiseta branca com gola vermelha e colar dourado, o terceiro aparece com casaco felpudo branco sobre colete colorido, e o último usa camisa polo listrada azul e calça jeans. O visual do grupo combina elementos modernos com um toque retrô, transmitindo atitude e estilo despojado.
Lagum já foi indicada ao Grammy Latino e ganhou diversos prêmios, incluindo o Prêmio Multishow (Foto: Webber Pádua)

Há ainda espaço para celebrar o cotidiano e reconhecer seus gestos de cuidado. Vagarosa Manhã ressignifica a rotina como lugar de afeto e presença, descrevendo com ternura os pequenos rituais do início do dia. Já o campo amoroso, com seus exageros e idealizações, é abordado com humor e honestidade em Vida de Novela. Na faixa, a banda trata as emoções intensas sem cinismo, reconhecendo nelas uma forma legítima de se viver e narrar o amor.

Por fim,  A Última Nuvem do Céu encerra o disco com uma delicadeza quase ‘suspensa no ar’ e reforça a dimensão poética e efêmera que permeia todo o projeto. A canção funciona como um suspiro final, um aceno suave antes do silêncio, reafirmando a natureza transitória das emoções e imagens evocadas ao longo do álbum. A escolha da metáfora da nuvem — passageira, bela, impossível de capturar ou fixar — condensa com precisão a sensibilidade da proposta estética. 

Assim como uma nuvem, a música se desenha e se desfaz no instante e convida o ouvinte a contemplar o fugaz, a aceitar a beleza no que se dissolve. Há também, nessa imagem, uma recusa sutil à rigidez: o projeto prefere pairar, flutuar, desaparecer suavemente, a se prender a verdades fixas ou estruturas fechadas. Dessa forma, o encerramento traduz com lirismo e leveza, como se dissesse: o essencial não se retém — apenas se sente, e depois se deixa ir.

A imagem mostra quatro homens posam juntos para uma foto em um cenário colorido com fundo azul e marrom. Dois deles estão na parte superior da imagem, inclinando-se para frente — o da esquerda veste uma camiseta branca com detalhes vermelhos e o da direita, uma camisa azul, com expressão animada e boca aberta. Na parte inferior, dois outros homens estão mais próximos da câmera — um com cabelo comprido e camisa listrada azul, o outro com cabelo curto, expressão séria e vestindo um casaco branco felpudo, estendendo o braço em direção à câmera.
Em 2025, Lagum retornou ao formato independente. A banda aproveita sua liberdade criativa para misturar gêneros e recriar a energia dos shows em estúdio (Foto: Lett Sousa)

Esteticamente, a banda aposta numa paleta sonora e visual coerente. Os arranjos são orgânicos, com presença marcante de violões, bateria acústica e sintetizadores discretos. A produção de Paul Ralphes — vencedor do Grammy Latino — privilegia a clareza das vozes e o calor dos instrumentos reais e confere unidade e sensibilidade às faixas. O projeto é acompanhado por uma série de visualizers que exploram cores pastéis, linhas suaves e movimentos lentos, reforçando a proposta estética sugerida no título. A capa, com suas curvas abstratas e tons suaves, antecipa a sensação de abrigo emocional que o quinto trabalho da formação musical oferece.

Gravado no estúdio próprio da banda em Belo Horizonte, o disco representa também uma retomada das raízes e uma autonomia criativa mais evidente. Sem a pressão de lançar hits ou seguir tendências, Lagum opta por uma obra íntima e autoral, que convida o ouvinte a mergulhar em uma escuta pausada. Em tempos acelerados, onde tudo é feito para ser viral e descartável, As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo propõe o contrário: um álbum feito para durar, tocar de verdade, acompanhar dias bons e dias difíceis. Mais do que um conjunto de canções, a coletânea de faixas funciona como um gesto cultural de resistência sensível — e talvez seja exatamente isso o que mais precisamos hoje.

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