Nas Terras Selvagens, sobrevive o Predador que melhor se adapta

Aviso: esse texto contém spoilers

Cena de Predador: Terras Selvagens. Um close-up frontal e intenso do Predador. Ele ruge, mostrando suas mandíbulas abertas e presas afiadas. Seus olhos amarelados estão focados à frente, e ao fundo, uma cena de batalha com fogo e fumaça aparece desfocada.
Dan Trachtenberg também dirigiu O Predador: A Caçada (2022) que saiu diretamente no Disney+ (Foto: Disney)

Guilherme Moraes

Um dos grandes desafios para as franquias decenais não é de se reinventar, mas de inserir uma ideia original dentro da mesma fórmula. A necessidade do estúdio de lucrar sempre irá se sobrepor ao do artista na indústria americana, dessa forma, a reinvenção vira apenas um discurso, pois apostar no conhecido se paga e ainda faz dinheiro – aliás, é exatamente por esses motivos que esses filmes são refilmados ou recebem uma continuação. O que resta para alguns cineastas é fazer um trabalho de artesanato e criar algo singular dentro desse sistema. Longe de dizer que Dan Trachtenberg é um artesão da Sétima Arte, porém, pelo menos em Predador: Terras Selvagens, o diretor consegue instaurar uma relação entre os personagens e o ambiente de maneira criativa.

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Em Terra Perdida, o olhar infantil revela o peso de ser refugiado

Cena do filme Terra Perdida. Somira, vestindo uma camiseta laranja, carrega o irmão mais novo, Shafi, vestindo uma camiseta branca, nas costas em um campo verde sob um céu nublado. Ambos têm expressões sérias.
O longa foi premiado com a Menção Especial do Júri na seção Orizzonti do 82º Festival de Veneza (Foto: Rediance)

Eduardo Dragoneti

Há filmes que parecem nascer do silêncio – não o que acalma, mas o que grita. Terra Perdida, de Akio Fujimoto, é um desses. Exibido na seção Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o longa do diretor japonês surge para contar uma história antiga, porém que o mundo insiste em não ouvir. A trama acompanha dois irmãos Rohingya, minoria muçulmana apátrida de Mianmar, Somira (Shomira Rias), de nove anos, e Shafi (Muhammad Shofik), de quatro, que partem ao lado da tia e do avô para uma jornada perigosa rumo à Malásia junto a outros refugiados, movidos pela esperança de reencontrar a família. Continue lendo “Em Terra Perdida, o olhar infantil revela o peso de ser refugiado”

O Agente Secreto: o Brasil dos anos 70 e o atual em um só retrato

Cena do filme O Agente Secreto. Marcelo. Um homem de barba e cabelo escuro, aparece de pé ao ar livre, com expressão séria . Ele veste uma camisa azul-clara com bolso do lado esquerdo do peito, parcialmente aberta. Ao fundo há um campo verde e céu com nuvens claras. Ao seu lado, aparece um fusca amarelo.
Wagner Moura está entre os favoritos para ser indicado ao Oscar de Melhor Ator (Foto: Vitrine Filmes)

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, vem percorrendo o mundo com uma campanha de sucesso, que já conquistou premiações e indicações internacionais, as quais podem ser vistas como termômetros da temporada de premiações, como o Gotham Awards e o Festival de Cannes. A estreia do filme subverteu a lógica dominante do eixo Rio-São Paulo. Foram os recifenses, conterrâneos do cineasta e cuja cidade serviu de base para muitos de seus trabalhos, que assistiram ao longa pela primeira vez. Já a sessão de estreia no estado de São Paulo aconteceu na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo na seção Apresentação Especial. Continue lendo “O Agente Secreto: o Brasil dos anos 70 e o atual em um só retrato”

Entre ratos e motosserras: Chainsaw Man: Reze Arc é a beleza do caos

Aviso: imagens sensíveis

O filme arrecadou mais US$ 140 milhões com um orçamento de US$ 4 milhões em apenas 2 semanas (Foto: Crunchyroll)

Pedro Domênico

2025 marca uma virada de página no Cinema contemporâneo. A pandemia forçou estúdios e distribuidoras a pensarem como reverter o esvaziamento das salas de cinemas – e aquilo que parecia um problema, aparece como um aliado inesperado. O streaming, antes visto como um dos principais responsáveis, tornou-se o espaço ideal para garantir o retorno do público às telonas. Para as animações, histórias bem sucedidas nas plataformas chegam às salas com arrecadações recordes. O sucesso de Demon Slayer: Castelo infinito (2025) e, mais recentemente, de Chainsaw Man: Reze Arc indicam um caminho promissor de investimento tanto para os estúdios de animação quanto para o mercado exibidor.

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X-Slasher degusta Bauru até o último pedaço

Cena do filme X-SlasherNa imagem, a mão de uma mulher branca folheia um livro de invocação. Na página direita, há um sanduíche com mãos, olhos de pepino e pés de tomate desenhado dentro de um losango, com várias escrituras. Enquanto na esquerda, está o mesmo lanche, mas desmontado. A iluminação é escura e amarela.
O filme foi produzido por meio da Lei Paulo Gustavo (Foto: Leticia Bonatelli)

Davi Marcelgo

Elm Street, Woodsboro e Nova York são algumas cidades, fictícias ou não, que protagonizaram clássicos do slasher americano. A forma como a população se comporta e os lugares que os jovens frequentam são aspectos importantes na trama destes filmes, sobretudo porque a tranquilidade dos subúrbios americanos ou o julgamento de um município interiorano são elementos que o Terror deturpa e radicaliza para tensionar os personagens e o público. Em X-Slasher (2025), dirigido por Leticia Bonatelli, os sangues nas pontas de faca desembarcam em Bauru (São Paulo), sendo o ambiente crucial para a história que quer contar.  Continue lendo “X-Slasher degusta Bauru até o último pedaço”

Vampiros ladram, mas não mordem em Love Kills

Cena do filme Love Kills.Na imagem, com cores em tons de verde neon, a personagem Helena está com as duas mãos nas bochechas com expressão de prazer. Ela é uma vampira e se delicia com sangue na boca, que está aberta, mostrando as presas. Ela está de olhos fechados e a fotografia fecha o plano em seu rosto. Ao fundo, em desfoque, há uma parede laranja. Helena é uma mulher negra, na faixa dos 35 anos, de cabelos dread na cor preta. Suas unhas estão pintadas em tom escuro.
Love Kills foi exibido no Festival do Rio 2025 (Foto: Filmland Internacional)

Davi Marcelgo

Existem filmes que transformam cidades em personagens ou fazem delas elementos importantes para a trama. Na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, por exemplo, o longa A Árvore do Conhecimento (2025) usa as transformações de Lisboa como ponto de partida de sua história. Já Baby (2024) faz das ruas da capital paulista um local de refúgio e identidade. Essa característica não está presente em Love Kills, apesar de a diretora Luiza Schelling transformar a terra da garoa em sua Transilvânia, ela pode ser substituída por qualquer outro cenário. A produção faz parte da seção Mostra Brasil do evento e reproduz a linguagem e a gramática de países externos.  Continue lendo “Vampiros ladram, mas não mordem em Love Kills”

A Incrível Eleanor: envelhecer também é viver; uma reflexão sobre amor e luto

Cena do filme A Incrível Eleanor.Na imagem, aparece Eleanor, uma mulher branca, idosa, de cabelos brancos, ​​que está sentada em uma lanchonete, usando um casaco rosa e uma blusa verde-azulada. Ela está com as mãos apoiadas sobre a mesa e olha para o lado parecendo pensativa. À sua frente há dois copos grandes de refrigerante. Ao fundo, há mesas e cadeiras vermelhas e pretas.
Após mais de uma década morando com sua amiga na Flórida, Eleanor volta para Nova Iorque e questiona sua relação com esse antigo, mas, também, novo lar (Fonte: Sony Pictures)

Mariana Bezerra 

A Incrível Eleanor, estreia de Scarlett Johansson na direção, foi lançado no início de 2025 no Festival de Cannes. Ainda sem data de lançamento nos cinemas nacionais, a primeira sessão do longa, no Brasil, aconteceu na 49ª Mostra de Cinema de São Paulo, como parte da seção Apresentação Especial. Como já ocorreu com outras atrizes que conquistaram renome na frente das câmeras, Johansson se posicionou, pela primeira vez, por trás delas. Aqui, a estrela de Hollywood concede um respiro às próprias personagens e se aventura em uma função responsável por orquestrar um resultado belíssimo, que surpreende pela delicadeza e pela simplicidade.  Continue lendo “A Incrível Eleanor: envelhecer também é viver; uma reflexão sobre amor e luto”

Nova ’78 chega como eco distante do grito que um dia moveu William S. Burroughs

 Cena do documentário Nova ’78. William S. Burroughs, um homem branco, idoso, de sobretudo claro e óculos, caminha por uma rua de Nova York na década de 1970, cercado por carros antigos e placas de postos de gasolina.
O documentário foi exibido no 78º Festival de Cinema de Locarno (Foto: Pinball London)

Eduardo Dragoneti

Assistido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Nova ’78 é uma viagem fragmentada ao coração da contracultura dos anos 1970. Dirigido por Aaron Brookner e Rodrigo Areias, o documentário parte de imagens até então inéditas, gravadas pelo tio de Aaron, Howard Brookner, da Nova Convention (1978), evento que celebrou o retorno do multiartista William S. Burroughs (1914-1997) aos Estados Unidos e reuniu nomes de diferentes vertentes da Arte, como Patti Smith, Frank Zappa, Laurie Anderson, Allen Ginsberg e Philip Glass. O resultado é uma cápsula de tempo que tenta reconstituir um encontro histórico, mas que – ao emergir mais de quarenta anos depois – carrega o peso de chegar tarde demais.

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IA é o novo crucifixo para matar o Dracula

Cena do filme DraculaNa imagem, um dos personagens que representa o Dracula ao longo do filme, aparece com uma expressão de prazer, enquanto recebe um sexo oral. Ele está com os olhos fechados e a boca ensanguentada e aberta, mostrando os dentes afiados. Seus cabelos são na altura do pescoço. Também usa um bigode. Dracula está vestindo uma camisa de botões branca, gravata borboleta da mesma cor e uma capa preta com gola alta. Na cabeça, ele usa um chapéu vermelho com adorno. Na ponta, é vermelho, enquanto a borda é enfeitada por pérolas. No centro, há uma estrela dourada de 8 pontas com uma pedra vermelha e quadrada no centro, em volta dela há outras pedras redondas douradas, mas menores. Acima da estrela, há um pentágono preto com cinco pedras redondas na cor branca, assim como uma pena branca anexada.
Além de Dracula, a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo possui mais um filme do diretor romeno em sua programação: Kontinental ‘25 (Foto: RT Features)

Davi Marcelgo

Tanto já foi feito com o Drácula e suas variações na mídia, que talvez haja um esgotamento criativo. Nos brinquedos, Monster High criou sua Draculaura; na literatura, Stephenie Meyer fez adolescentes suspirarem com seu Edward e só na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo há três filmes que adaptam histórias de vampiro: Nosferatu, Love Kills e Dracula. Este último é dirigido por Radu Jude, diretor romeno que tem em sua carreira obras ácidas, como Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental (2021). Ao ser o primeiro cineasta da Romênia (país de origem do mito) a adaptar a história para as grandes salas, Jude encara o dilema de produzir mais uma história sobre Vlad III, mas encontra uma saída rápida: a Inteligência Artificial.  Continue lendo “IA é o novo crucifixo para matar o Dracula”

Amy Berg tenta castrar um Deus em It’s Never Over, Jeff Buckley

Cena do filme It’s Never Over, Jeff BuckleyNa imagem, em preto e branco, está o cantor Jeff Buckley com sua mãe Mary Guibert. Ele, no canto esquerdo, está com o rosto próximo de sua mãe, braços abaixados e sorriso forçado, posando para a foto. Seus cabelos lisos estão penteados para cima e parecem molhados. Ele está sem camisa. O cantor possui pele clara e barba por fazer. Já Mary está com uma das mãos apoiada no ombro do filho e repousa a cabeça em cima. Ela está com um sorriso largo e usa uma flor presa no cabelo, acima da orelha esquerda. Nos dedos, usa um anel. Ela veste uma roupa estampada, possui pele clara e cabelos na altura do pescoço.
O documentário foi exibido no Festival de Sundance (Foto: Universal Pictures)

Davi Marcelgo

Como alguém pode ser capaz de decidir os rumos de um projeto mesmo após morrer? It’s Never Over, Jeff Buckley, documentário que deixou o público com os olhos marejados ao final de sua primeira sessão na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é uma produção que se curva ao olhar que o compositor possuía em relação à Arte. Buckley foi uma das vozes mais exponenciais da década de 1990 nos Estados Unidos, além de compositor e guitarrista, portanto, se a direção de Amy Berg utlizasse apenas as imagens hinóticas do cantor performando, seria compreensível e não menos interessante. Porém, ela se concentra nas influências pessoais que migraram para o único disco do americano, sobretudo as mulheres que conviveram com ele.  Continue lendo “Amy Berg tenta castrar um Deus em It’s Never Over, Jeff Buckley”