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	<title>Arquivos Crítica literária &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Sobre a Terra Somos Belos por Um Instante: Ocean Vuong e a escrita como coragem de quem não tem escolha</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Aug 2023 21:14:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Mariana Freire de Moraes “Estou escrevendo para você de dentro de um corpo que era teu. O que é o mesmo que dizer: estou escrevendo como um filho.” Nas primeiras páginas de Sobre a terra somos belos por um instante, o autor Ocean Vuong constrói sua posição durante toda a narrativa na tentativa de se &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/sobre-a-terra-somos-belos-por-um-instante/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Sobre a Terra Somos Belos por Um Instante: Ocean Vuong e a escrita como coragem de quem não tem escolha"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31358" aria-describedby="caption-attachment-31358" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-31358" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press-800x420.png" alt="" width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press-768x404.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press.png 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31358" class="wp-caption-text">A estreia de Ocean Vuong na prosa, após a aclamada reunião de poemas Céu noturno crivado de balas, é um complexo testemunho autobiográfico escolhido pelo Clube do Livro do Persona (Foto: Rocco/Arte: Francisco Tigre)</figcaption></figure>
<p><strong>Mariana Freire de Moraes</strong></p>
<blockquote><p>“<i>Estou escrevendo para você de dentro de um corpo que era teu. O que é o mesmo que dizer: estou escrevendo como um filho.</i>”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas primeiras páginas de </span><a href="https://www.rocco.com.br/livro/sobre-a-terra-somos-belos-por-um-instante/"><i><span style="font-weight: 400;">Sobre a terra somos belos por um instante</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o autor Ocean Vuong constrói sua posição durante toda a narrativa na tentativa de se refazer, se ver e perdoar por meio da alteridade de uma comunicação ao mesmo tempo concreta e hipotética. Através do resgate analítico da memória e da apresentação do ambiente, Vuong, chamado de Cachorrinho pela avó, escreve cartas para sua mãe, analfabeta funcional, revisitando episódios da infância no Vietnã e de sua adolescência nos Estados Unidos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Colonialismo, maternidade, identidade, sexualidade, violência e luto são os pilares do livro, cujos episódios de trauma rememorados traçam um caminho linear para o entendimento da história de três gerações da </span><a href="https://amp.theguardian.com/books/2017/oct/03/ocean-vuong-forward-prize-vietnam-war-saigon-night-sky-with-exit-wounds"><span style="font-weight: 400;">família do escritor</span></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">e as complexidades recalcadas de pessoas estruturadas em meio à guerra, ao preconceito, ao refúgio e à vulnerabilidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Começando pelas memórias quando criança em um Vietnã desestabilizado pela guerra, Cachorrinho – a maneira que Vuong também se retrata em sua escrita – inicia o romance relembrando das primeiras vezes em que sua </span><a href="https://www.anothermag.com/fashion-beauty/14347/bjork-ocean-vuong-in-conversation-another-magazine-aw22"><span style="font-weight: 400;">mãe</span></a><span style="font-weight: 400;"> foi violenta com ele. No acesso à infância, o escritor lembra alguns momentos em que ensina a matriarca a escrever, reproduzindo o que aprendeu naquele dia no jardim de infância. Esse é o momento em que a vulnerabilidade de quem o cria é escancarada para ele e que percebe que possui o que ela precisa para resolver esse problema. De uma forma sutil e perturbadora, esse episódio demonstra a maneira que o autor consegue colocar os dois se olhando do mesmo lugar. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Você é uma mãe, Mãe. Você também é um monstro. Mas eu também sou – e é por isso que eu não posso me afastar de você. E é por isso que eu peguei a mais solitária criação de deus e te coloquei dentro dela.</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<figure id="attachment_31354" aria-describedby="caption-attachment-31354" style="width: 401px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class=" wp-image-31354" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/602-559x800.webp" alt="Na foto, duas mulheres e uma criança estão sentadas em um banco de madeira. As mulheres ficam nos cantos, enquanto o bebê no meio. Estão dentro de uma casa, ao fundo, aparece o vulto de outra mulher, do lado de fora do cômodo. Atrás, percebe-se uma janela, uma porta e roupas penduradas. No primeiro plano, uma mulher, ao canto esquerdo, está sentada ao lado de uma criança pequena. Sua pele é amarela, seus cabelos pretos estão presos. Ela veste um macacão branco, com estampa de flores azuis. Está descalça e sorri fixadamente à câmera. Assim como a criança ao seu lado, que também tem cabelos e olhos pretos. Veste uma camiseta branca com uma gola laranja e estampada com desenhos, que está enfiada dentro de um shorts roxo claro. Ao lado da criança, à direita, uma outra mulher, de cabelo curto e preto, na altura do pescoço e com uma franja cortada, também sorri à foto. Ela usa uma blusa rosa clara e uma calça branca. Está de pernas cruzadas." width="401" height="574" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/602-559x800.webp 559w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/602.webp 600w" sizes="(max-width: 401px) 85vw, 401px" /><figcaption id="caption-attachment-31354" class="wp-caption-text">A foto que ilustra a edição estadunidense de Céu noturno crivado de balas retrata o autor com dois anos, ao lado de sua mãe e sua tia no campo de refugiados nas Filipinas (Foto: Ocean Vuong)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Passando pela situação de </span><a href="https://www.acnur.org/portugues/quem-ajudamos/refugiados/"><span style="font-weight: 400;">refugiado</span></a><span style="font-weight: 400;"> quando criança, em um paralelo sensível com o nascimento e morte de sua avó – entre o Vietnã e Estado Unidos –, a narrativa se torna mais política e identitária. A partir do momento que Cachorrinho conta a história das mulheres que o criaram, frutos de um estupro de guerra, nada segue sem que pautas sociais sejam colocadas de forma explícita, no entanto, nunca deixando com que a </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/literatura/como-alguem-pode-ser-uma-sensacao"><span style="font-weight: 400;">poética</span></a><span style="font-weight: 400;"> fique em segundo plano. Assim, Vuong cria uma atmosfera sólida de questionamento, ao mesmo tempo que deixa claro as complexidades subjetivas geradas a partir desses contextos, e quão decisivas são essas condições para que ele seja ele mesmo, a mãe seja a mãe e o país seja o país. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Chegando aos Estados Unidos, na casa de seu pai com quem nunca conviveu, o escritor tem um espaço para descobrir e explorar sua sexualidade (atualmente se identifica como uma pessoa </span><a href="https://g1.globo.com/google/amp/pop-arte/diversidade/noticia/2022/06/29/o-que-e-ser-queer.ghtml"><span style="font-weight: 400;">queer</span></a><span style="font-weight: 400;">). No livro, Vuong relata suas primeiras experiências com um homem pobre como ele, porém branco: Trevor, a única pessoa com quem ele realmente desenvolve uma relação além de sua mãe e avó. De uma forma totalmente analítica, o escritor apresenta todas as fases dessa relação, passando pelo estranhamento, o escatológico, as drogas, o entendimento, a identidade, o amor e a morte. Cachorrinho pôde conhecer a vulnerabilidade e a violência do amor e de uma relação que requer um entendimento político, social, subjetivo e identitário que não foi apresentado a nenhum dos dois, tornando tudo mais difícil e mais intenso na mesma medida.</span></p>
<figure id="attachment_31355" aria-describedby="caption-attachment-31355" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-31355" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-800x583.webp" alt=" Sob o fundo de um arbusto flores vermelhas, o autor, criança, é segurado no colo por sua mãe, que tem seu cabelo cacheado cortado curto e usa uma camisa manga longa vermelha, com uma estampa preta na frente. A criança usa uma camiseta polo branca com listras azuis claras e escuras, e uma parte de baixo azulada. Segura um coelho de pelúcia branco, com detalhes lilases." width="800" height="583" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-800x583.webp 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-1024x746.webp 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-768x560.webp 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-1536x1119.webp 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-2048x1492.webp 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-1200x875.webp 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31355" class="wp-caption-text">Quando sua mãe faleceu de complicações de um câncer de mama, Vuong demonstrou seu luto nas redes sociais: ‘‘(&#8230;) você me ensinou que nossa dor não é nosso destino – mas nossa razão.’’ (Foto: Ocean Vuong)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O resgate da memória nas passagens da infância no meio da narrativa linear da história do Cachorrinho é o traço mais analítico de </span><i><span style="font-weight: 400;">Sobre a Terra Somos Belos por um Instante</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ocean Vuong usa a </span><a href="https://www.theguardian.com/books/2023/jun/03/ocean-vuong-i-dont-believe-writer-should-just-keep-writing-as-long-as-theyre-alive-time-is-a-mother-paperback"><span style="font-weight: 400;">escrita</span></a><span style="font-weight: 400;"> como ferramenta de articulação e busca, narrando sempre em primeira pessoa e, diretamente com a sua mãe, faz com que o objetivo de suas cartas nunca seja esquecido: dizer que se é. As coisas mais duras são lembradas de um jeito poético e grotesco, e quase sempre seguidas de uma imagem que bate de frente com a beleza apresentada de forma visual pela escrita. </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Uma vez você me perguntou o que é ser um escritor. Então vamos lá. Sete dos meus amigos estão mortos. Quatro de overdose.”</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Cachorrinho tem acesso ao </span><a href="https://talkeasypod.com/ocean-vuong/"><span style="font-weight: 400;">significado social</span></a><span style="font-weight: 400;"> de sua existência a partir do momento em que começa a reunir os episódios traumáticos de sua vida e colocá-los em uma posição de questionamento: ser um homem vietnamita refugiado, queer, adicto e pobre nos Estados Unidos </span><a href="https://gayletter.com/ocean-vuong/"><span style="font-weight: 400;">significa algo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Além disso,as pessoas em volta dele fazem parte desse significado e a escrita tem o papel de síntese de sua própria vida. É como se, caso não fosse um escritor, Vuong jamais poderia contar quem é a ninguém, nem mesmo a sua mãe.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Ocean Vuong Shares His Advice for Aspiring Writers | Louisiana Channel" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/mG7JpAg1mrw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">A busca pela </span><a href="https://www.gq.com/story/ocean-vuong-interview"><span style="font-weight: 400;">identidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> nunca acaba, mas toma um outro caráter. Depois que Cachorrinho entende sua existência, quem sua mãe e sua avó foram, e quem seu novo país abriga, o fluxo se torna outro e assume uma calma assustada de quem sabe que seu lugar está predefinido. Então, a subjetividade assume, mais que nunca, o papel de resgate do que nunca foi dado e uma possibilidade de se reconhecer no mundo. A escrita é o que salva: é o que salvou Cachorrinho de sua relação com sua mãe, que termina o livro rindo enquanto se lembra. </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Porque o pôr do sol, assim como a sobrevivência, existe apenas à beira de seu desaparecimento. Para ser belo, você primeiro precisa ser visto, mas ser visto sempre permite que você seja caçado.”</span></i></p></blockquote>
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		<title>Em As Primas, amor, Arte e violência se misturam na Argentina dos anos 1940</title>
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		<pubDate>Tue, 30 May 2023 20:59:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Henrique Marinhos As Primas é um romance de formação, que narra a irmandade das primas Yuna, Petra e Carina, que crescem em uma família disfuncional e marginalizada na cidade argentina de La Plata, nos anos 1940. Publicada originalmente em 2007, quando Aurora Venturini tinha 85 anos, a obra recebeu vários prêmios literários na Argentina e &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/as-primas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em As Primas, amor, Arte e violência se misturam na Argentina dos anos 1940"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31014" aria-describedby="caption-attachment-31014" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-31014 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/clube_wordpress.png" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/clube_wordpress.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/clube_wordpress-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/clube_wordpress-768x404.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31014" class="wp-caption-text">Aurora Venturini e seu livro As Primas venceram o prêmio Nueva Novela, do jornal Página/12, pelo qual a autora, enfim, foi premiada por &#8220;um júri honesto&#8221; (Foto: Fósforo/Arte: Vitória Vulcano)</figcaption></figure>
<p><b>Henrique Marinhos</b></p>
<p><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-marco-de-2023/"><i><span style="font-weight: 400;">As Primas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é um romance de formação, que narra a irmandade das primas Yuna, Petra e Carina, que crescem em uma família disfuncional e marginalizada na cidade argentina de La Plata, nos anos 1940. Publicada originalmente em 2007, quando Aurora Venturini tinha </span><a href="https://www.eternacadencia.com.ar/blog/contenidos-originales/noticias/item/aurora-venturini-cumple-sus-primeros-100-anos.html"><span style="font-weight: 400;">85 anos</span></a><span style="font-weight: 400;">, a obra recebeu vários prêmios literários na Argentina e no exterior. Destacando-se pela linguagem radical e excêntrica, que mistura diferentes registros, gírias, estrangeirismos, neologismos, erros gramaticais e ortográficos, criando um estilo único, original e cativante, o trabalho foi a leitura do <a href="https://personaunesp.com.br/tag/clube-do-livro/">Clube do Livro do </a></span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/clube-do-livro/"><b>Persona </b></a><span style="font-weight: 400;">em Março de 2023.</span></p>
<p><span id="more-30989"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Explorando os limites da narração nas questões de gênero e classe, </span><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/autores/aurora-venturini/"><span style="font-weight: 400;">a autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> mostra as contradições e as <a href="https://personaunesp.com.br/o-parque-das-irmas-magnificas-critica/">injustiças da sociedade argentina</a> da época. As personagens femininas são o centro da obra, retratadas como seres marginalizados, oprimidos e violentados pela sociedade patriarcal e machista. No entanto, elas também demonstram uma força e resistência admiráveis nas situações mais perversas e desconfortáveis. Não se conformam com o destino que lhes foi imposto e buscam formas de se expressar e de se afirmar com suas armas, sejam elas a Arte, a astúcia, a rebeldia ou a vingança.</span></p>
<figure id="attachment_30991" aria-describedby="caption-attachment-30991" style="width: 815px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30991 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-2-815x1024.png" alt="Fotografia da capa do Livro As Primas, da editora Alfaguara, de Aurora Venturini. Nela está uma mesa com pano de prato xadrez vermelho e branco. Abaixo, sentada com as pernas cruzadas ao chão está uma menina que segura uma xícara. Seu rosto está coberto pela toalha xadrez e ao chão está o pires de sua xícara. Logo acima, está o bule e o jogo completo de pires e xícaras." width="815" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-2-815x1024.png 815w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-2-637x800.png 637w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-2-768x965.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-2.png 1170w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30991" class="wp-caption-text">A autora se exilou na França, após o golpe militar argentino em 1955; lá, foi amiga de intelectuais franceses, como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir (Foto: Alfaguara Portugal)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um aspecto interessante de </span><i><span style="font-weight: 400;">Las primas </span></i><span style="font-weight: 400;">(no original) é a forma como a autora constrói suas personagens femininas. As primas </span><a href="https://www.telam.com.ar/notas/202210/607845-marcela-ferradas-teatro-yuna-obra.html"><span style="font-weight: 400;">Yuna Riglos</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Petra, assim como as outras mulheres da família, sofrem com a pobreza, a ignorância, a exploração, o abuso e a discriminação devido às suas deficiências físicas ou mentais. Mesmo vitimadas pelos próprios familiares, que as tratam com desprezo, indiferença e crueldade, elas mantém a potência e singularidade em toda a narrativa.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">Eu era uma menina diferente das outras porque tinha nascido com um defeito na cabeça que me fazia ter dificuldade para falar e entender as coisas. Por isso as pessoas me olhavam com pena ou com nojo. Mas eu não me importava com isso. Eu sabia que eu era especial e que tinha um dom para a pintura. Eu pintava coisas lindas que ninguém mais podia ver” <em>(p. 13)</em>.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra, que chegou ao Brasil em Setembro de 2022 pela editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Fósforo</span></i><span style="font-weight: 400;">, provoca estranheza, piedade, repulsa e riso, mas também admiração pela maestria </span><a href="https://rascunho.com.br/noticias/primeiro-romance-da-argentina-aurora-venturini-traz-autobiografia-delirante/"><span style="font-weight: 400;">narrativa de Venturini</span></a><span style="font-weight: 400;">. No livro, a autora cria um universo ficcional rico em detalhes, que revela contradições e injustiças, ao mesmo tempo que nos transporta àquela realidade. Com a ambiguidade de suas dores e principalmente humor, </span><span style="font-weight: 400;">a trajetória de Yuna é contada desde a infância até a idade adulta, passando por episódios trágicos e cômicos que envolvem sua mãe, sua irmã, suas primas, seus tios e seus amores.</span></p>
<figure id="attachment_30996" aria-describedby="caption-attachment-30996" style="width: 533px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30996 " src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image6.png" alt="Fotografia da capa do Livro As Primas, da editora Caballo de Troya , de Aurora Venturini. Nela está uma mulher branca, deitada com suas mão juntas em frente a seu rosto. Seus cabelos são castanhos e lisos, estão soltos. Ela veste uma blusa com babados azul clara e ao fundo está um sofá ornamentado. O efeito da foto remete a antiguidade com tons escuros e amarelados." width="533" height="615" /><figcaption id="caption-attachment-30996" class="wp-caption-text">Aurora Venturini usava o pseudônimo de Beatriz Portinari, e escolheu esse nome em homenagem à musa de Dante Alighieri, o poeta italiano autor da Divina Comédia (Foto: Editorial Caballo de Troya)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em alguns aspectos temáticos, estilísticos e culturais, é possível relacionar a obra de Aurora Venturini com a de </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/pedro-almodovar/"><span style="font-weight: 400;">Pedro Almodóvar</span></a><span style="font-weight: 400;">, um dos mais influentes e originais cineastas contemporâneos. O diretor espanhol é conhecido por filmes que abordam o amor, o desejo, a identidade, a sexualidade e  a família, com um estilo marcado pela estética colorida, pelo humor ácido e pela ironia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As semelhanças ocorrem, principalmente, através da presença de personagens femininas fortes, complexas e marginalizadas, que </span><a href="https://gpslifetime.com.br/materia/em-strange-way-of-life-pedro-almodovar-desafia-convencoes-no-old-west"><span style="font-weight: 400;">questionam os limites das convenções sociais</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span> <span style="font-weight: 400;">Expressando-se através de uma linguagem radical, Venturini usa a ironia ácida e a violência como forma de lidar com as situações trágicas e cômicas atribuídas às personagens.</span></p>
<figure id="attachment_30994" aria-describedby="caption-attachment-30994" style="width: 580px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30994 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image4-e1685460240947.png" alt="Fotografia da Autora Aurora Venturini. Uma mulher idosa, de cabelos ruivos ondulados e largos a altura de suas orelhas. Seu rosto é marcado por linhas de expressão enquanto encara sua frente. A imagem é restrita ao de seu busto acima, com uma camiseta preta. Ao fundo uma prateleira de livros antigos em tons marrons." width="580" height="600" /><figcaption id="caption-attachment-30994" class="wp-caption-text">Falecida em 2015, Aurora Venturini foi amiga de Evita Perón, a primeira-dama da Argentina entre 1946 e 1952, e trabalhou com ela na Fundação Eva Perón, instituição com foco na assistência social que ajudava os pobres e os desamparados (Foto: Nora Lezano)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A tradução de </span><a href="https://livrosdabel.com.br/mariana-sanchez-a-tradutora-que-traz-a-literatura-latino-americana-ao-brasil/#:~:text=Mariana%20Sanchez%20%C3%A9%20uma%20das,Silvina%20Ocampo%E2%80%9D%20de%20Mariana%20Enriquez%2C"><span style="font-weight: 400;">Mariana Sanchez</span></a><span style="font-weight: 400;"> é sensível e precisa, captando o tom irônico e sarcástico da voz original de Yuna, que oscila entre a inocência e a crueldade, entre a ternura e o desprezo. A tradutora também respeita as escolhas estilísticas da autora, que usa uma pontuação peculiar e um vocabulário rico em regionalismos e neologismos.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu queria me chamar Maria, como a minha mãe, ou Nené, como a minha prima mais velha, que era linda e inteligente e tocava piano. Mas eu não podia escolher o meu nome e nem o meu rosto. Eu tinha que me conformar com o que me tinham dado”. </span></i><span style="font-weight: 400;">Nesse trecho, pode-se observar como a tradutora preserva o estilo da autora argentina, que usa frases simples e diretas, sem muitas variações. Ela mantém, principalmente, o </span><a href="https://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/espectaculos/10-18863-2010-08-07.html#:~:text=Conhecer%20o%20autor%20te%20ajudou%3F"><span style="font-weight: 400;">tom confessional e infantil</span></a><span style="font-weight: 400;"> da narradora, que se apresenta ao leitor com muita sinceridade.</span></p>
<figure id="attachment_30992" aria-describedby="caption-attachment-30992" style="width: 898px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30992 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-1.png" alt="Fotografia da atriz Marcela Ferradás. Uma mulher branca que veste uma saia longa cinza com detalhes listrados e uma camiseta social preta. A atriz usa um colar de pérolas enquanto olha para sua frente. Seus cabelos são castanhos, ondulados e curtos, com seu comprimento até a orelha. Ao fundo há uma parede com molduras diversas de quadros sem fotos ao meio." width="898" height="600" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-1.png 898w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-1-800x535.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-1-768x513.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30992" class="wp-caption-text">A atriz Marcela Ferradás conheceu e se encantou com a escritora Aurora Venturini, que lhe disse: “Yuna sos vos”; ela interpretará a protagonista de As Primas em uma peça dirigida por Horácio Peña (Foto: Radio Pública de la Provincia de Buenos Aires)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A personalidade de Yuna, no entanto, é complexa e contraditória: ela tem uma sensibilidade e uma criatividade extraordinária, que a fazem pintar coisas lindas. Ainda assim, é inocente e ingênua, e não compreende bem o mundo ao seu redor. Ela é curiosa e ávida por aprender, usando o </span><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2023/03/24/interna_pensar,1472857/em-as-primas-aurora-venturini-relata-brutais-historias-familiares.shtml#:~:text=explica%20que%20o%20uso%20de%20determinada%20palavra%20%C3%A9%20decorr%C3%AAncia%20da%20consulta%20ao%20dicion%C3%A1rio"><span style="font-weight: 400;">dicionário</span></a><span style="font-weight: 400;"> como fonte de conhecimento e expressão. A personagem também é sincera e direta, dizendo o que pensa sem filtros ou rodeios &#8211; uma pessoa forte e resistente, que não se deixa abater pelas adversidades e convenções de decoro. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu não gostava da minha prima Nené. Ela era gorda, feia e burra. Ela não sabia fazer nada direito. Ela só sabia tocar piano, mas isso não era arte de verdade” </span></i><span style="font-weight: 400;">(p. 121).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Petra, por sua vez, é uma personagem ambígua e complexa, que oscila entre a crueldade e a solidariedade, amor e ódio, lealdade e traição. Ela é a principal antagonista de Yuna, mas também sua confidente e protetora. Petra se autodenomina </span><i><span style="font-weight: 400;">liliputiane</span></i><span style="font-weight: 400;">, um termo encontrado para se referir às pessoas pequenas como ela. Ela usa essa expressão como forma de se afirmar e de desafiar os preconceitos da sociedade. Petra é a principal responsável na influência dos pensamentos de Yuna acerca de política, religião, sexo e </span><a href="https://personaunesp.com.br/suspiria-45-anos/"><span style="font-weight: 400;">Arte</span></a><span style="font-weight: 400;">. É Petra, inclusive, que ajuda Yuna a enfrentar os abusos e as violências que sofre na família e na escola.</span></p>
<figure id="attachment_30995" aria-describedby="caption-attachment-30995" style="width: 1140px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30995 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5.png" alt="Fotografia dos livros As Primas e As Amigas, de Aurora Venturini, ambos estão rodeados de outros livros em prateleiras e estão em pé. Seus títulos estão em branco com fundo preto enquanto molduram imagens em suas capas, em Las primas está a figura de uma menina embaixo da mesa tomando algo em uma xícara, na segunda imagem duas senhoras estão encarando sua frente também segurando pires e xícaras." width="1140" height="641" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5.png 1140w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5-768x432.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30995" class="wp-caption-text">Depois do sucesso de Las primas, Aurora Venturini começou a escrever o monólogo Las Amigas (Foto: Revista Leemos)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">As Primas </span></i><span style="font-weight: 400;">se encerra com a consolidação de uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/jamais-o-fogo-nunca-critica/"><span style="font-weight: 400;">narradora singular</span></a><span style="font-weight: 400;"> e original criada por Aurora Venturini, que nos conta sua história desafiando as normas gramaticais e ortográficas. Yuna nos mostra seu próprio mundo de imperfeições e de diferenças, mas também de beleza e de esperança. Com essa voz inconfundível, Venturini nos apresenta um universo ficcional rico em detalhes, que revela as contradições e as injustiças da sociedade argentina &#8211; e não só.</span></p>
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		<title>Dentro de si, escute as feras: entre a autobiografia e a etnografia de Nastassja Martin</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Apr 2023 20:51:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori Outono. Todo encontro com o Outro revela-se como uma experiência de arrebatamento: da violência de deixar um pedaço de si e desprender-se da unidade do Eu ao movimento da alteridade de achar-se nos olhos do desconhecido. No caso da antropóloga Nastassja Martin, ressonante no livro Escute as feras, a experiência é do deslumbramento &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/escute-as-feras/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Dentro de si, escute as feras: entre a autobiografia e a etnografia de Nastassja Martin"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30726" aria-describedby="caption-attachment-30726" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-30726" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS-800x420.png" alt="Imagem retangular de fundo branco. No canto superior, está centralizado a logo do Persona, um olho com íris na cor cinza e pupila em preto no formato triangular de play. Ao lado da logo, está o selo “Clube do Livro” em letras transparentes colocadas sobre um fundo preto. Abaixo está escrito “Dentro de si, escute as feras: entre a autobiografia e a etnografia de Nastassja Martin” em letras pretas, sendo &quot;escute as feras&quot; em letras cinzas. Mais abaixo, no canto esquerdo, há a capa do livro cujo fundo é branco. Na parte superior direita da capa, há o nome da autora Nastassja Martin escrito em letras pretas. Na parte superior esquerda, há o título do livro “Escute as Feras” escrito em letras pretas. Mais abaixo, está uma ilustração de um borrão preto com uma silhueta similar ao de um urso. Ao lado direito da imagem da capa, está o escrito &quot;Ao encontrarem-se uma no olhar da outra, a antropóloga e a ursa, próximas a um vulcão no extremo leste siberiano, marcam mutuamente os seus destinos e fundem a condição de fera e humana.&quot; em letras pretas. Abaixo do texto está escrito “Por&quot; em letras pretas e &quot;Enzo Caramori&quot; em letras cinzas." width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS-768x404.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS.png 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30726" class="wp-caption-text">Nastassja Martin esteve na programação principal da 20ª Flip junto a Tamara Klink na mesa ‘‘<a href="https://www.youtube.com/watch?v=Gcn42bH6IkA">Desterrando o susto</a>’’, e seu Escute as feras foi a leitura do Clube do Livro do Persona em Fevereiro (Foto: Editora 34/Arte: Ana Cegatti)</figcaption></figure>
<p><b>Enzo Caramori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outono. Todo encontro com o Outro revela-se como uma experiência de arrebatamento: da violência de deixar um pedaço de si e desprender-se da unidade do Eu ao movimento da alteridade de achar-se nos olhos do desconhecido. No caso da antropóloga </span><a href="https://quatrocincoum.folha.uol.com.br/br/noticias/flip/cinco-curiosidades-sobre-nastassja-martin"><span style="font-weight: 400;">Nastassja Martin</span></a><span style="font-weight: 400;">, ressonante no livro </span><a href="https://www.editora34.com.br/detalhe.asp?id=1111&amp;busca=escute%20as%20feras"><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a experiência é do deslumbramento de um beijo e da brutalidade de um ataque e contra-ataque. Ao encontrarem-se uma no olhar da outra, a antropóloga e a ursa, próximas a um vulcão no extremo leste siberiano, marcam mutuamente os seus destinos e fundem a condição de fera e humana.</span></p>
<p><span id="more-30721"></span></p>
<p><a href="https://leituras.org/escute/"><span style="font-weight: 400;">Ursa-mulher e mulher-ursa</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma foge para dentro da bruma, com pedaços de uma mandíbula e ferida por um quebra-gelo; a outra, guarda-se na neve, vermelha de seu próprio sangue. Na falta do que se doou na troca desse primal encontro, refunda-se um sistema de crenças de povos como os </span><a href="https://www.editionsladecouverte.fr/a_l_est_des_reves-9782359251241#:~:text=Apr%C3%A8s%20avoir%20travaill%C3%A9,monde%20sa%20vitalit%C3%A9."><i><span style="font-weight: 400;">evenki</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – estudados por Martin em 2015, quando é desfigurada – em que a predestinação do enlace de seus destinos é a base do exercício da vida, animal e humana, em comunidade. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras, </span></i><span style="font-weight: 400;">trazido ao Brasil pela tradução de Camila Boldrini e Daniel Lühmanné, é regido pelo atrito que a própria autora estabelece entre si mesma e sua imersão em modelos de visualização da vida vinculados ao </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1010200620.htm"><span style="font-weight: 400;">animismo</span></a><span style="font-weight: 400;">: uma união do ambiente e da existência humana e animal em um único fluxo vital. </span><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Miêdka”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e “</span><i><span style="font-weight: 400;">matukha”</span></i><span style="font-weight: 400;"> são termos do idioma </span><i><span style="font-weight: 400;">even</span></i><span style="font-weight: 400;"> que identificam sua condição de sobrevivência e transmutação, após o enfrentamento com o urso, à situação anormal de humanidade que lhe é atribuída. À </span><a href="https://erratanaturae.com/autores/nastassja-martin/"><span style="font-weight: 400;">antropóloga</span></a><span style="font-weight: 400;">, esse estado de pária estrutura uma mudança na maneira que enxerga a si mesma – em um espaço de excepcionalidade, um tanto </span><a href="https://www.newyorker.com/books/page-turner/learning-to-love-the-bear-that-attacked-you#:~:text=I%20assumed%20that,of%20her%20experience."><span style="font-weight: 400;">inadequado</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao seu desenvolvimento de pesquisadora –, que altera o tom etnográfico para, também, hibridizar o texto.</span></p>
<figure id="attachment_30723" aria-describedby="caption-attachment-30723" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-30723" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-800x471.jpg" alt="Foto em preto e branco da antropóloga Nastassja Martin. No primeiro plano, uma mulher branca, de cabelos loiros presos em um coque desarrumado que cai em sua nuca. Ela olha ao horizonte e está vestida com uma blusa clara e um casaco, similar a uma jaqueta, preto. Ao fundo, montanhas rochosas e um céu nebuloso." width="800" height="471" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-800x471.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-1024x602.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-768x452.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-1200x706.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1.jpg 1224w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30723" class="wp-caption-text">Orientada pelo antropólogo Philippe Descola, Nastassja Martin escreve sua tese de doutorado sobre o povo Gwich’in, do Alasca (Foto: Alexandre Lacroix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Estilisticamente, Martin constrói um registro experimental e total do que se dedicou a analisar, no exercício de sua ciência, e de suas inscrições sensíveis aos acontecimentos, meticulosamente medidas pela sua escrita. Entre a etnografia e a autobiografia, a metodologia de Martin é o cruzamento de dois cadernos de viagem, descritos como diurno e noturno. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro tem suas páginas preenchidas por notas de viagem, fragmentos do que percebe em sua imersão com os </span><i><span style="font-weight: 400;">even </span></i><span style="font-weight: 400;">e a desperta atenção, mesmo com todos os dilemas que atravessam a etnografia. O segundo é do âmbito da </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=D7Z6AZnD9hc"><span style="font-weight: 400;">escrita do sonho</span></a><span style="font-weight: 400;">, que evoca o íntimo e o exterior numa poética de imagens quase ritualísticas, como pinturas rupestres que reincidem um mundo do sentimento selvagem e da máxima expressão da vida, na igualdade da relação animal ou humana. São contrastes significativos tanto em sua maneira de visualização do mundo e de sua própria sobrevivência que, na narrativa, não se institui de uma moralização da violência nem de um arco de redenção; quanto de sua escrita: variável de momentos cirúrgicos de descrição a até fluxos bestiais e oníricos de prosa.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">‘‘Fantasmático do desejo próprio às florestas, aos predadores solitários, à sua raiva, ao seu orgulho e à sua vigília. Tensão de seus encontros inesperados, inconfessáveis, improváveis, em devir, no entanto. Porque sozinhos eles se perdem, porque sozinhos eles se fecham, porque sozinhos eles esquecem. O cruzamento de seus olhares os salva de si mesmos ao projetá-los na alteridade daquele que os enfrenta. O cruzamento de seus olhares os mantém vivos.’’</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Na dualidade estabelecida à estrutura de seu texto, a autora mobiliza a etnografia para a escrita de si quando desafiada a </span><a href="https://www.philomag.com/articles/nastassja-martin-je-minteresse-la-possibilite-dune-metamorphose"><span style="font-weight: 400;">redescobrir</span></a><span style="font-weight: 400;"> a si mesma – com seu rosto desfigurado, do qual a ursa tomou-lhe parte da maçã do rosto e da mandíbula –, nesse novo território tomado de tensões: o seu próprio corpo. As questões psicológicas que a atravessam durante transferências incessantes por antigos hospitais da antiga ordem soviética, onde é posta à selvageria dos procedimentos médicos e legais envolvendo nacionalidade e gênero, é onde pensa um motivo maior a seu fatal encontro, que lhe propõe um </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2021/10/antropologa-perdoa-urso-que-a-atacou-em-livro-que-iguala-homens-e-animais.shtml"><span style="font-weight: 400;">novo significado</span></a><span style="font-weight: 400;"> por ainda estar viva. Portanto, no equívoco de sua epistemologia mas no exercício de uma liricidade autobiográfica, a evidente marca deixada pela espécie companheira à crença </span><i><span style="font-weight: 400;">even </span></i><span style="font-weight: 400;">é mais uma oportunidade individual de entender-se do que realmente uma maneira de debruçar-se sobre sua estrutura de pesquisa.</span></p>
<figure id="attachment_30724" aria-describedby="caption-attachment-30724" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30724" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/The-Bear.jpg" alt="Rascunho feito a grafite pelo artista expressionista Edvard Munch. Na esquerda, observa-se um vulto de uma mulher ajoelhada abraçando um urso, não preenchido, o que lhe dá a impressão de ser branco ou claro. Os traços de grafites são evidentes. À direita, observa-se uma figura parecida, no entanto a mulher está mais agachada e abraça um urso agora escuro, negro, preenchdio pelo grafite." width="800" height="607" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/The-Bear.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/The-Bear-768x583.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30724" class="wp-caption-text">‘‘Há tempos vim preparando o terreno que me levaria até a boca do urso, em direção ao seu beijo’’ (Arte: Edvard Munch)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda é tempo das mitologias. Existe, nos gestos conflitantes do enquadramento de seu encontro com a ursa — muitas vezes descrito enquanto um abraço e um beijo — uma determinada </span><a href="https://thebaffler.com/latest/bear-witness-goldman"><span style="font-weight: 400;">eroticidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> que parte da percepção de uma afetação, para além de necessariamente, de afeto, na qual a violência torna-se um espaço de proximidade inigualável. Se </span><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma fábula calculada nesses contrastes e escrita sobre a tradição indígena do sonho explorada por Ailton Krenak e pelas filosofias yanomami estudadas por </span><a href="https://gamarevista.uol.com.br/semana/sonhou-com-o-que/hanna-limulja-fala-da-cultura-yanomami-a-partir-de-seus-sonhos/"><span style="font-weight: 400;">Hanna Limulja</span></a><span style="font-weight: 400;">, sua moral naturalmente reivindica outros modos de vida, ou, como colocado pela pensadora </span><a href="https://personaunesp.com.br/eo-critica/#:~:text=pensadora%20Donna%20Haraway"><span style="font-weight: 400;">Donna Haraway</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">autre-mondialisation</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8221; (outra-mundialização). </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando o pulso ferino de primalidade toma conta da experimentação de Nastassja Martin, é pela memória que constrói um espaço conjunto e verdadeiro. Aquele que, como nas imagens feitas a dedo em escuras grutas, remonta um </span><a href="https://autonomialiteraria.com.br/sonho-de-outras-feras/"><span style="font-weight: 400;">passado mágico</span></a><span style="font-weight: 400;"> e possível, por outros exercícios de fazer o mundo, onde a técnica não colocou um corpo acima do outro, uma mulher abaixo de um homem e um humano-bixo acima de outras vidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Escavar o susto é, para essa </span><a href="https://12ft.io/proxy?q=https%3A%2F%2Fwww1.folha.uol.com.br%2Filustrada%2F2021%2F12%2Fescute-as-feras-nos-desperta-o-desejo-de-conhecer-um-urso.shtml"><span style="font-weight: 400;">narrativa de sobrevivência</span></a><span style="font-weight: 400;"> tomada de divagações — importantes para a composição do retrato sensível de si mesma —, encontrar sua própria essência, ao mesmo tempo que acessa a realidade antropológica da península de </span><span style="font-weight: 400;"> Kamtchátka, o lugar de</span><span style="font-weight: 400;"> seus estudos. Para a mitologia </span><i><span style="font-weight: 400;">even, </span></i><span style="font-weight: 400;">o olhar do urso em si não é perigoso pela tentativa de vingança do antropocentrismo ou do domínio de um espaço vital, mas sim pelo fato de que, nos olhos da animalidade humana, as outras formas de vida encontram-se e entendem a si próprias em sua condição de alteridade. </span><a href="https://www.nytimes.com/2021/11/24/books/review-in-eye-of-wild-nastassja-martin.html"><span style="font-weight: 400;">A ursa</span></a><span style="font-weight: 400;"> é tanto atacada por Nastassja – uma fera, em seus próprio papel – quanto devolve o susto, em uma metáfora da vida real sobre o misterioso assombro que é entender a si no outro.</span></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/escute-as-feras/">Dentro de si, escute as feras: entre a autobiografia e a etnografia de Nastassja Martin</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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		<title>Na obra de Roberto Bolaño, a memória é o nosso Amuleto</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Oct 2022 19:45:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade “Soube que tinha de resistir. De modo que me sentei nos ladrilhos do banheiro das mulheres e aproveitei os últimos raios de luz para ler mais três poemas de Pedro Garfias, depois fechei o livro, fechei os olhos e disse para mim: Auxilio Lacouture, cidadã do Uruguai, latino-americana, poeta e viajante, resista” (pág. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/amuleto-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Na obra de Roberto Bolaño, a memória é o nosso Amuleto"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28960" aria-describedby="caption-attachment-28960" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28960 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/CLUBE_WP.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/CLUBE_WP.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/CLUBE_WP-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/CLUBE_WP-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28960" class="wp-caption-text">Com tradução de Eduardo Brandão, Amuleto, de Roberto Bolaño, foi a leitura do <a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-agosto-de-2022/">Clube do Livro do Persona</a> em Agosto de 2022 (Foto: Companhia das Letras/Arte: Nathália Mendes)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Soube que tinha de resistir. De modo que me sentei nos ladrilhos do banheiro das mulheres e aproveitei os últimos raios de luz para ler mais três poemas de Pedro Garfias, depois fechei o livro, fechei os olhos e disse para mim: Auxilio Lacouture, cidadã do Uruguai, latino-americana, poeta e viajante, resista” </span><span style="font-weight: 400;"><em>(pág. 29)</em>.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">À primeira vista, </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/l/inimigos-imaginarios"><span style="font-weight: 400;">Roberto Bolaño</span></a><span style="font-weight: 400;"> é lembrado por dois romances – possivelmente os mais importantes da Literatura na América Latina no final do século XX e início do novo milênio: </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535908749/os-detetives-selvagens"><i><span style="font-weight: 400;">Os detetives selvagens</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1998) e </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535916485/2666"><i><span style="font-weight: 400;">2666</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2003). O último – uma espécie de testamento do autor chileno, lançado postumamente e com quase mil páginas – desfez a ideia de que o apocalipse ocorrerá sob sirenes e explosões; na verdade, o fim do mundo já começou, e é tão silencioso quanto os assassinatos constantes e sigilosos dos jovens latino-americanos. Por outro lado, com seu romance de 1998, Bolaño deu vida à aura libertária das revoltas deste lado da América, sob uma perspectiva idealizada que, não obstante, é ela mesma rechaçada no livro. Ainda assim, é em </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535913637/amuleto"><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1999), lançado entre uma obra e outra, que o autor concentra magistralmente seus temas principais: a poesia, a política e a violência.</span></p>
<p><span id="more-28944"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo que o pequeno romance (ou novela) tenha saído de um trecho emblemático de </span><i><span style="font-weight: 400;">Os detetives selvagens</span></i><span style="font-weight: 400;"> – se trata de uma versão “expandida” de um capítulo do livro –, a obra funciona muito bem de maneira avulsa, pois sua mensagem ressoa na forma política e no cuidado de Bolaño com a linguagem (as repetições e a poesia “proseada”). A protagonista e narradora, Auxilio Lacouture, uma imigrante uruguaia auto-denominada a “</span><i><span style="font-weight: 400;">mãe de todos os poetas</span></i><span style="font-weight: 400;">”, investiga mentalmente um crime hediondo, que será revelado próximo ao final do romance. Contudo, crimes de vários os tipos perpassam a trama, rememorados por Auxilio no banheiro feminino da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), local onde se esconde após a </span><a href="https://www.esquerda.net/artigo/mexico-o-inicio-do-movimento-estudantil-de-1968/56398"><span style="font-weight: 400;">tomada repentina da universidade pelos militares</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_28945" aria-describedby="caption-attachment-28945" style="width: 825px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28945 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-1-1.png" alt="" width="825" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-1-1.png 825w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-1-1-550x800.png 550w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-1-1-704x1024.png 704w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-1-1-768x1117.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28945" class="wp-caption-text">Nascido em 1953, em Santiago, Bolaño passou sua adolescência no México e retornou ao Chile após a vitória de Salvador Allende, para “ajudar a construir a revolução” (Foto: Alejandro Yofre)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em setembro de 1968, durante as semanas que Auxílio se mantém escondida, comendo papel higiênico, o pequeno espaço do banheiro se transforma em um túnel do tempo, no qual a personagem revive seus anos na Cidade do México, lembrando dos poetas </span><a href="http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/espanha/leon_felipe.html"><span style="font-weight: 400;">León Felipe</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/espanha/pedro_garfias.html"><span style="font-weight: 400;">Pedro Garfias</span></a><span style="font-weight: 400;"> – pelos quais trabalhou como doméstica, de forma voluntária, para ficar mais próxima da poesia –, e também viajando para o futuro, quando conheceu, nos anos 1970, o jovem </span><a href="https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8145/tde-01082019-164843/pt-br.php"><span style="font-weight: 400;">Arturo “Arturito” Belano</span></a><span style="font-weight: 400;"> – o alter-ego do próprio Roberto Bolaño. A forma não-linear com que se lembra dos acontecimentos talvez sintetize o trauma de Lacouture, mas mais do que isso, trata-se de um mecanismo, quase sempre utilizado pelo autor para dar vida a uma realidade fragmentada: a “real” e cotidiana, e a “subjetiva”, memorialística.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim como o romance antecessor, </span><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto </span></i><span style="font-weight: 400;">apresenta o conflito do idealismo de uma geração com a realidade latino-americana. A verdade é que o ambiente claustrofóbico do banheiro se transforma, para Auxilio, em uma espécie de </span><a href="https://www.blogletras.com/2019/08/a-descoberta-da-realidade-em-o-aleph-de.html"><i><span style="font-weight: 400;">Aleph</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – do conto de </span><a href="https://personaunesp.com.br/jorge-luis-borges-morte-35-anos/"><span style="font-weight: 400;">Jorge Luis Borges</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma das principais referências do chileno –, em que se pode, paradoxalmente, enxergar o passado, o presente e futuro de uma só vez. Mas mesmo quando seus livros se repetem – sejam em temas ou em enredo, propriamente –, Bolaño nunca deixa de acrescentar novas informações, dando vida a uma espécie de obra infinita. O título de </span><i><span style="font-weight: 400;">2666</span></i><span style="font-weight: 400;">, por exemplo, tem sua única explicação em </span><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto</span></i><span style="font-weight: 400;">: “</span><i><span style="font-weight: 400;">A </span></i><span style="font-weight: 400;">[avenida] </span><i><span style="font-weight: 400;">Guerrero, a essa hora, se parece mais que tudo com um cemitério </span></i><span style="font-weight: 400;">[&#8230;]</span><i><span style="font-weight: 400;">, mas com um cemitério de 2666, um cemitério escondido debaixo de uma pálpebra morta ou ainda não nascida, as aquosidades desapaixonadas de um olho que, por querer esquecer algo, acabou esquecendo tudo</span></i><span style="font-weight: 400;">” (pág. 65).</span></p>
<figure id="attachment_28947" aria-describedby="caption-attachment-28947" style="width: 1960px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28947 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/auxilio.jpeg" alt="" width="1960" height="1331" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/auxilio.jpeg 1960w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/auxilio-800x543.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/auxilio-1024x695.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/auxilio-768x522.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/auxilio-1536x1043.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/auxilio-1200x815.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28947" class="wp-caption-text">Alcira Scaffo, a verdadeira Auxilio Lacouture, se tornou uma lenda do movimento estudantil mexicano, após resistir à invasão militar na UNAM (Foto: Arquivo MUAC)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O escritor chileno entrelaça fato e ficção de forma natural, sempre carregando uma ampla carga histórica por volta do enredo. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto</span></i><span style="font-weight: 400;"> – assim como no capítulo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Os detetives selvagens</span></i><span style="font-weight: 400;"> –, Auxilio Lacouture é baseada em uma pessoa real: no histórico ano de </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2018/01/04/nos-50-anos-de-1968-relembre-11-fatos-que-abalaram-o-mundo"><span style="font-weight: 400;">1968</span></a><span style="font-weight: 400;">, momento em que o exército mexicano realmente reprimiu manifestantes na Cidade do México, a poetisa </span><a href="https://elpais.com/mexico/2022-06-30/el-laberinto-de-alcira-soust-scaffo.html"><span style="font-weight: 400;">Alcira Soust Scaffo</span></a><span style="font-weight: 400;"> manteve-se escondida no banheiro da UNAM, pós tomada da Cidade Universitária pelos militares. Ela sobreviveu bebendo apenas água da torneira durante os 12 dias que se manteve escondida. Assim como Auxilio, Scaffo foi amiga de León Felipe, e Bolaño a conheceu pessoalmente em 1970.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em diversos momentos, a tensão sobre a produção cultural na América Latina domina a narrativa, e, diante dos atos repressivos na trama, são construídas metaficções cujo objetivo é refletir sobre a violência e uma forma </span><a href="https://www.ndbooks.com/book/the-melancholy-of-resistance/"><span style="font-weight: 400;">melancólica de resistência</span></a><span style="font-weight: 400;">. É nesse sentido que o filósofo </span><a href="https://jacobin.com.br/2021/07/sobre-o-conceito-de-historia/"><span style="font-weight: 400;">Walter Benjamin</span></a><span style="font-weight: 400;">, através do ensaio </span><i><span style="font-weight: 400;">Sobre o conceito da história </span></i><span style="font-weight: 400;">(1940), ascende como referência. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Nunca houve um monumento de cultura que não fosse também um monumento de barbárie</span></i><span style="font-weight: 400;">”, escreve Benjamin, visto que os bens culturais são concebidos através da perspectiva do horror.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Esta será uma história de terror. Será uma história policial, uma narrativa de série negra e de terror. Mas não parecerá. Não parecerá porque sou eu que conto. Sou eu que falo e por isso não parecerá. Mas no fundo é a história de um crime atroz”</span><em><span style="font-weight: 400;"> (pág. 9).</span></em></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O nome de Auxilio Lacouture sinaliza para os dois objetivos de sua história, narrada por ela própria, através de um jogo de palavras que não parece coincidência. Enquanto “Auxilio” em espanhol realmente signifique “ajuda”, “Lacouture” tem uma sonoridade parecida com “</span><i><span style="font-weight: 400;">la cultura</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Assim, seria uma espécie de “pedido de socorro da Cultura”, que se vê ameaçada por forças externas, ao mesmo tempo em que Auxilio luta para não deixar que </span><a href="https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/mnemosine/article/view/57667"><span style="font-weight: 400;">ninguém se esqueça</span></a><span style="font-weight: 400;"> daquele momento histórico. Ainda assim, Bolaño é sempre perspicaz ao deixar pistas de interpretação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O romance se abre com o aviso de que será uma história de terror, cuja afirmação ganha importância, de forma cíclica, ao final, quando – após revelado toda a barbárie – percebemos que nos deixamos levar por essa narradora pouco confiável. Não porque não seja verdadeira – ou que não queira realmente transmitir o ocorrido –, mas porque suas memórias estão em ebulição e, por isso, confusas e delirantes, de modo que a trama “</span><i><span style="font-weight: 400;">não parecerá</span></i><span style="font-weight: 400;">” uma narrativa de terror, mas uma ode à memória histórica e à poesia. O pano de fundo violento é não somente o cenário tenebroso avisado desde o ínicio, mas também é seu aviso final: </span><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto</span></i><span style="font-weight: 400;"> relembra que esquecer os horrores da </span><a href="https://personaunesp.com.br/meu-tio-jose-critica/"><span style="font-weight: 400;">Ditadura</span></a><span style="font-weight: 400;"> leva o terror ao esquecimento, deixando à História sua inevitável repetição. Auxilio Lacouture é, sozinha, a única resistência contra as forças fascistas.</span></p>
<figure id="attachment_28948" aria-describedby="caption-attachment-28948" style="width: 747px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28948 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-2.png" alt="" width="747" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-2.png 747w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-2-498x800.png 498w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-2-637x1024.png 637w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28948" class="wp-caption-text"><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/02/cultura/1504371372_289461.html">Patti Smith</a> considera 2666, de Bolaño, a “primeira obra-prima do século 21” (Foto: Basso Cannarsa)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quase toda a ficção de Bolaño se preocupa com a vida dos escritores, especialmente dos poetas marginais – seus “poetas-protagonistas” tendem a ser párias empobrecidos, isolados do </span><i><span style="font-weight: 400;">mainstream</span></i><span style="font-weight: 400;"> literário. O próprio autor se via antes de tudo como </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/08/poesia-da-pre-historia-de-roberto-bolano-chega-em-edicao-arriscada.shtml"><span style="font-weight: 400;">um poeta</span></a><span style="font-weight: 400;">, e começou a escrever romances e contos porque a poesia “</span><i><span style="font-weight: 400;">não pagava as contas</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Não muito diferente do que acontece com a maioria dos ficcionistas, a vida do chileno foi essencialmente sua fonte de inspiração (ele até possuía um cartão impresso com os escritos “</span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1012200809.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Poeta e Vagabundo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O “Realismo Visceral”, movimento literário que Ulisses Lima e Arturo Belano fazem parte em </span><i><span style="font-weight: 400;">Os detetives selvagens</span></i><span style="font-weight: 400;">, é apenas outro nome para o “</span><a href="https://www.revistas.usp.br/clt/article/view/160695"><span style="font-weight: 400;">Infrarrealismo</span></a><span style="font-weight: 400;">”, criado por Roberto Bolaño e </span><a href="http://confrariadovento.blogspot.com/2014/04/4-poemas-de-mario-santiago-papasquiaro.html"><span style="font-weight: 400;">Mario Santiago Papasquiaro</span></a><span style="font-weight: 400;"> – a quem </span><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto </span></i><span style="font-weight: 400;">é dedicado – em 1975, na Cidade do México, no qual se negava nomes como </span><a href="https://www.ebiografia.com/octavio_paz/"><span style="font-weight: 400;">Octavio Paz</span></a><span style="font-weight: 400;">, vencedor do </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/10/06/annie-ernaux-escritora-francesa-ganha-premio-nobel-de-literatura-2022.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Nobel de Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 1990 e condenado por Bolaño por ser o “</span><i><span style="font-weight: 400;">líder do </span></i><span style="font-weight: 400;">establishment </span><i><span style="font-weight: 400;">cultural mexicano</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Os infrarrealistas atacavam essa ordem ideológica porque, através dela, se criou uma cisão entre a “alta cultura” e a “cultura popular”, mantendo sempre uma diferenciação na qual se classificava a “alta cultura” como única forma autêntica de manifestação artística. Por essa razão, o movimento também se notabilizou por sabotar lançamentos de livros, cerimônias de premiação e atividades literárias gerais de poetas pertencentes a esse mundo da “alta cultura”.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Pensei: a vaidade da escrita, a vaidade da destruição. Pensei: porque escrevi, resisti. Pensei: porque destruí o escrito vão me descobrir, vão me pegar, vão me violentar, vão me matar. Pensei: ambos os fatos estão relacionados, escrever e destruir, se esconder e ser descoberta. Depois me sentei no trono e fechei os olhos” </span><em><span style="font-weight: 400;">(pág. 125).</span></em></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Antecedendo o que seria sua obra máxima, </span><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto</span></i><span style="font-weight: 400;"> insere uma protagonista feminina vítima de violência. Tempos depois, em </span><i><span style="font-weight: 400;">2666</span></i><span style="font-weight: 400;">, o mote da história gira em torno do feminicídio na fronteira México-Estados Unidos, cujo assassinato de diversas mulheres em Santa Teresa levanta mistérios. Esses homicídios vêm ocorrendo há anos (o romance se passa na década de 1990), e os culpados – ou culpado – seguem desconhecidos. Santa Teresa é uma versão ficcional de Ciudad Juárez, uma verdadeira cidade fronteiriça mexicana que se tornou notória nesse período pelo grande número de </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-38183545"><span style="font-weight: 400;">mulheres assassinadas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Por vários anos, quase semanalmente, os corpos de mulheres jovens – algumas com 11 ou 12 anos – apareciam no deserto ao redor da cidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A maioria das vítimas eram trabalhadoras nas maquiladoras da cidade (fábricas de propriedade norte-americana), e muitos corpos sequer foram identificados. Embora várias prisões tenham sido feitas, nunca se estabeleceu um único assassino ou grupo de assassinos que estavam por trás dos crimes. Nos últimos anos de vida, Roberto Bolaño se tornou obcecado pela brutalidade e mistério em torno desses delitos: como algo tão bárbaro e cotidiano pode passar despercebido? Como pode se tornar habitual? Assim, ele começou a trocar correspondências com jornalistas que cobriam ou cobriram casos passados no local, pedindo aspectos específicos dos assassinatos – como os detalhes forenses –, mas também características geográficas da </span><a href="http://revistamarieclaire.globo.com/Revista/Common/0,,EMI205728-17737,00-JUAREZ+A+CIDADE+QUE+ODEIA+AS+MULHERES.html"><span style="font-weight: 400;">Ciudad Juárez</span></a><span style="font-weight: 400;">, reconstruídas com precisão nas páginas de </span><i><span style="font-weight: 400;">2666</span></i><span style="font-weight: 400;">. Essa violência, inclusive, está presente no título do próprio romance: trata-se do número da besta duas vezes – uma violência que, após se tornar naturalizada, torna-se maior que o próprio Apocalipse.</span></p>
<figure id="attachment_28950" aria-describedby="caption-attachment-28950" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28950 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-3.jpg" alt="" width="1600" height="1096" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-3.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-3-800x548.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-3-1024x701.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-3-768x526.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-3-1536x1052.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-3-1200x822.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28950" class="wp-caption-text">Com 2666, Roberto Bolaño se tornou um dos poucos escritores latino-americanos a vencer o National Book Critics Circle Awards (Foto: Anna Oswaldo-Cruz Lehner)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto</span></i><span style="font-weight: 400;"> condensa, em pouco mais de 100 páginas, todo o interesse de Roberto Bolaño pela violência. A origem desse ímpeto está relacionada não apenas com sua própria juventude – um jovem pobre do Chile que, se não fosse escritor, seria detetive ou delegado, e que, mesmo após publicar livros, vendia bijuterias para sobreviver –, mas também com sua própria maneira de enxergar a Literatura: uma “</span><i><span style="font-weight: 400;">vocação perigosa</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bolaño analisa que a América Latina é toda constituída pela concepção da violência, em suas diversas facetas, e como ele próprio profere no famoso </span><a href="https://estrelaselvagem.wordpress.com/2010/04/25/discurso-de-caracas-pt-1/"><i><span style="font-weight: 400;">Discurso de Caracas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1999), “</span><i><span style="font-weight: 400;">toda a América Latina está semeada com os ossos destes jovens esquecidos</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Auxilio, “</span><i><span style="font-weight: 400;">a mãe de todos os poetas</span></i><span style="font-weight: 400;">”, é também a &#8220;mãe&#8221; da memória histórica do México e do Chile. Esquecer tudo é o maior pesadelo de Lacouture, e embora os gritos de protesto e indignação sejam aquilo que ressoa em sua memória, embora o canto das revoltas seja aquilo que ela e nós mantemos ressoando em nossas cabeças, é esse mesmo som que nos permite recordar; “</span><i><span style="font-weight: 400;">esse canto é o nosso Amuleto</span></i><span style="font-weight: 400;">” (pág. 131).</span></p>
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		<title>Estante do Persona &#8211; Julho de 2022</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Aug 2022 19:38:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Um livro deve ser o machado que partirá os mares congelados dentro de nossa alma.” — Franz Kafka Julho foi o mês do Persona se infiltrar ainda mais nos entremeios literários: dos dias 2 ao 10, membros da nossa Editoria cobriram a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que ocorreu no Expo Center Norte. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-julho-de-2022/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Estante do Persona &#8211; Julho de 2022"</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28385" aria-describedby="caption-attachment-28385" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28385 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/ESTANTE_JULHO_WP.jpg" alt="Arte retangular de cor lilás escuro. Ao centro há uma estante branca com três prateleiras. A primeira prateleira é dividida ao meio, a segunda prateleira é dividida em três e a terceira prateleira é dividida em três. Na parte superior lê-se em preto 'estante’, na primeira prateleira lê-se em preto 'do persona', à direita nessa prateleira está a logo do Persona, um olho com íris roxa. Na segunda prateleira, ao meio, está a capa do livro “O Acontecimento” ao lado de 8 lombadas brancas. Na terceira prateleira, à direita, está o troféu com a logo do persona. Na parte inferior lê-se em branco ‘julho de 2022'" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/ESTANTE_JULHO_WP.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/ESTANTE_JULHO_WP-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/ESTANTE_JULHO_WP-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28385" class="wp-caption-text">Em Julho, o Clube do Livro do Persona se infiltrou na narrativa intimista de Annie Ernaux e seu O Acontecimento (Foto: Fósforo Editora/Arte: Nathália Mendes/Texto de Abertura: Bruno Andrade)</figcaption></figure>
<blockquote><p>“Um livro deve ser o machado que partirá os mares congelados dentro de nossa alma.”</p>
<p style="text-align: right;"><em>— Franz Kafka</em></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Julho foi o mês do Persona se infiltrar ainda mais nos entremeios literários: dos dias 2 ao 10, membros da nossa Editoria cobriram a </span><a href="https://personaunesp.com.br/ser-jornalista-bienal-do-livro-artigo/"><span style="font-weight: 400;">Bienal Internacional do Livro de São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, que ocorreu no Expo Center Norte. Dentre os destaques, a Homenagem a José Saramago – que completaria 100 anos em 2022 –, feita por Andréa Del Fuego, José Luís Peixoto e Jeferson Tenório, e a presença de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tom-farias/2022/07/paulina-chiziane-que-veio-a-bienal-do-livro-reforca-laco-entre-brasil-e-africa.shtml"><span style="font-weight: 400;">Paulina Chiziane</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Valter Hugo Mãe, marcaram a última edição do festival.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste ano, o evento teve dupla celebração: além do centenário do único escritor de língua portuguesa a receber o </span><a href="https://agenciaincomparaveis.com/saramago-e-universal-diz-presidente-de-portugal-durante-bienal-do-livro-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Nobel de Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;">, 2022 também marca o bicentenário da Independência do Brasil. Assim, a celebração se deu na forma de reconhecimento da identidade linguística, que une continentes através do idioma em comum. O evento contou também com a presença do presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, Julho também foi um período de indigestas – porém necessárias – reflexões. Após a repercussão nacional dos absurdos que envolveram o direito ao </span><a href="https://theintercept.com/2022/07/06/aborto-menina-de-sc-promotora-manda-buscar-feto/"><span style="font-weight: 400;">aborto legal de uma menina de 11 anos</span></a><span style="font-weight: 400;"> em Santa Catarina, a questão ganhou ainda mais enfoque quando, ao final de Junho, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou a decisão judicial de 1973 que </span><a href="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2022/06/24/aborto-nos-eua-entenda-o-que-era-a-decisao-que-garantia-direito-ao-procedimento-e-como-foi-derrubada.ghtml"><span style="font-weight: 400;">garantia a legalidade do aborto</span></a><span style="font-weight: 400;"> em todo o território nacional. As discussões se nortearam no aspecto de direitos fundamentais que, a princípio, pareciam resguardados, mas que, a bem da verdade, precisam de constante vigilância. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É nesse contexto que o filme dirigido por </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/06/o-acontecimento-filma-aborto-de-annie-ernaux-como-thriller-visceral.shtml"><span style="font-weight: 400;">Audrey Diwan</span></a><span style="font-weight: 400;">, com a mesma temática, chegou aos cinemas brasileiros integrando o Festival Varilux de Cinema Francês, em uma adaptação cinematográfica do marcante relato da francesa </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/04/o-acontecimento-revela-o-aborto-de-forma-nua-como-angustia-solitaria.shtml"><span style="font-weight: 400;">Annie Ernaux</span></a><span style="font-weight: 400;">. Assim, não foi difícil escolher para o Clube do Livro do Persona a obra </span><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/catalogo/o-acontecimento-annie-ernaux/"><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Baseado em um episódio biográfico, o livro conta a história de uma jovem de 23 anos que engravida e, sem poder contar com o apoio do namorado ou da própria família, precisa fazer um <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/06/o-acontecimento-filma-aborto-de-annie-ernaux-como-thriller-visceral.shtml">aborto</a>. Ilegal na França da época, ela vive praticamente sozinha o acontecimento que, quarenta anos depois, revive no livro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Refletindo sobre a onipresença da lei e seu imperativo sobre os corpos femininos, Ernaux mostra uma faceta literária que mistura a </span><a href="https://personaunesp.com.br/jamais-o-fogo-nunca-critica/"><span style="font-weight: 400;">ficção com a não-ficção</span></a><span style="font-weight: 400;">. Agora, para fechar – ou ampliar – um importante momento de reflexões, deixamos as indicações de mais um </span><b>Estante do Persona</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-28370"></span></p>
<h3>Livro do Mês</h3>
<figure id="attachment_28371" aria-describedby="caption-attachment-28371" style="width: 702px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28371 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/O-Acontecimento-1-702x1024.jpg" alt="Capa do livro O Acontecimento. Na imagem, o nome da autora é dividido em dois retângulos. O primeiro está na porção superior na horizontal, é cinza e tem o nome Annie grafado em preto. O segundo está na vertical à direita da página, tem a cor verde e o nome Ernaux escrito em preto. Na parte esquerda e central, há uma foto acinzentada de Annie com um vestido marrom, ela tem pele branca, cabelos escuros e olhos azuis. Há ainda, na porção inferior da capa, um quadrado azul seguido de um retângulo verde escuro com o título do livro e um retângulo amarelo com o nome da editora" width="702" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/O-Acontecimento-1-702x1024.jpg 702w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/O-Acontecimento-1-548x800.jpg 548w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/O-Acontecimento-1-768x1121.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/O-Acontecimento-1-1052x1536.jpg 1052w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/O-Acontecimento-1-1403x2048.jpg 1403w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/O-Acontecimento-1-1200x1751.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/O-Acontecimento-1.jpg 1754w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28371" class="wp-caption-text">O Acontecimento foi adaptado para o audiovisual em 2021, e a produção é dirigida pela roteirista francesa Audrey Diwan (Foto: Fósforo Editora)</figcaption></figure>
<p><b>Annie Ernaux &#8211; O Acontecimento (80 páginas, Fósforo Editora)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Escrito com propósitos confessionais, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> é a narrativa nua e crua da história biográfica de </span><a href="http://saopauloreview.com.br/annie-ernaux-entre-a-memoria-dos-outros-e-a-escrita-de-si-mesma/"><span style="font-weight: 400;">Annie Ernaux</span></a><span style="font-weight: 400;"> com o aborto clandestino. Prorrogado pelos 40 anos subsequentes de uma gravidez indesejada aos 23 anos, o tom do texto é dado em estalos urgentes que redesenham aquilo que a autora classifica como a &#8220;experiência completa da vida&#8221;. O texto, publicado pela primeira vez na França nos anos 2000, chegou ao Brasil em maio deste ano pela <em>Fósforo,</em> e ganhou tradução nas escolhas lexicais de Isadora de Araújo Pontes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vivendo em um momento em que o aborto era </span><a href="https://catolicas.org.br/notas/aborto-na-franca/"><span style="font-weight: 400;">ilegal</span></a><span style="font-weight: 400;"> na França, a jovem Annie encontra na gravidez o desespero de ser ameaçada pela ruína de tudo que é e do que espera para o futuro. Vinda de uma família de trabalhadores de camada social baixa, ela é a primeira a adentrar uma universidade e carrega consigo todas as expectativas do sucesso. Para além das hipóteses, são as certezas que a assombram, sua natureza livre e ciente da própria autonomia não mensura riscos para devolver ao próprio corpo a integridade que o pertence. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da longevidade entre o momento do acontecimento com o registro do mesmo nas páginas da publicação, a autora se mostra tão fiel a sua verdade que não são necessárias ressalvas. O fato se insere com uma legitimidade imponente, fazendo as marcas se gravarem nos leitores como se fossem capazes de transmitir partes das cicatrizes de Annie. Assim, </span><a href="https://variluxcinefrances.com/2022/filmes/o-acontecimento/"><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> resiste em paradoxos: do tudo ao nada, do simples ao complexo, da superfície a profundidade… Na metonímia do corpo de uma mulher, fica difícil entender como tantas transgressões podem ganhar lar em apenas 80 páginas. <b>&#8211; Jamily Rigonatto</b></span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: O Acontecimento - Clube do Livro Julho de 2022" style="border-radius: 12px" width="100%" height="380" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/0oC4H6G2NI0zlBNF6UVjoy?si=6905bd4a4a394c01&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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<h3>Dicas do Mês</h3>
<figure id="attachment_28372" aria-describedby="caption-attachment-28372" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28372 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/ultima-parada-1-712x1024.jpg" alt="Capa do livro Última Parada. A capa é uma ilustração. O cenário é o vagão de um metrô, pintado em tons de roxo, rosa e laranja. Ao centro, no topo da capa, vemos o logo da editora Seguinte. Abaixo, ocupando a parte superior da capa, vemos as palavras &quot;última&quot; e abaixo, &quot;parada&quot;, escritas em uma fonte branca que imita giz-de-cera. Abaixo, à esquerda, vemos a ilustração de uma mulher amarela, de cabelos castanhos curtos espetados, aparentando cerca de 25 anos e vestindo uma camiseta branca e casaco preto de couro. Do lado direito, vemos a ilustração de uma mulher branca, de cabelos castanhos claros, longos e ondulados, aparentando cerca de 25 anos, vestindo um macacão preto e uma camiseta branca e segurando um copo de café. Elas se olham. Na parte inferior central, vemos a frase &quot;da autora de Vermelho, branco e sangue azul&quot;, em uma fonte sem serifa em amarelo. Abaixo, vemos as palavras &quot;Casey McQuiston&quot; em caixa alta, em uma fonte sem serifa em branco." width="712" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/ultima-parada-1-712x1024.jpg 712w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/ultima-parada-1-556x800.jpg 556w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/ultima-parada-1-768x1105.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/ultima-parada-1-1068x1536.jpg 1068w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/ultima-parada-1-1424x2048.jpg 1424w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/ultima-parada-1-1200x1726.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/ultima-parada-1.jpg 1780w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28372" class="wp-caption-text">Autora de Última Parada, a estreia de Casey McQuiston foi com o best-seller Vermelho, Branco e Sangue Azul (Foto: Seguinte)</figcaption></figure>
<p><b>Casey McQuiston &#8211; Última parada (400 páginas, Seguinte)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando a cética August se mudou para Nova Iorque, o que ela menos esperava era criar laços. Ainda mais com uma garota presa ao metrô há 40 anos. Em seu segundo livro, </span><i><span style="font-weight: 400;">Última Parada</span></i><span style="font-weight: 400;">, a autora </span><a href="https://portalpopline.com.br/casey-mcquiston-set-vermelho-branco-sangue-azul/"><i><span style="font-weight: 400;">best-seller</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">Casey McQuiston segue os passos da jovem de vinte e poucos anos em sua nova vida como adulta independente na cidade grande. À princípio desapegada e desconfiada, a jovem </span><a href="https://portalpopline.com.br/ultima-parada-tudo-sobre-livro-novo-casey-mcquiston/"><span style="font-weight: 400;">protagonista</span></a><span style="font-weight: 400;"> se permite se abrir e descobre que o companheirismo e amizade de seus companheiros de apartamento, Niko, Myla, Wes e o cão Noodles, são elos mais fortes do que imaginava. Também, percebe que Jane, a garota que sempre encontra no metrô e por quem tem uma quedinha, está, na verdade, impossibilitada de sair dali há décadas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Misturando ficção científica e romance, o </span><a href="https://vogue.globo.com/lifestyle/cultura/Livros/noticia/2022/01/ultima-parada-cultura-queer-e-viagem-ao-passado-no-segundo-livro-de-casey-mcquiston.html"><span style="font-weight: 400;">livro</span></a> <span style="font-weight: 400;">cria uma narrativa no mínimo divertida e intrigante. August passa seus dias entre a faculdade e trabalhar para pagar o aluguel, mas, nas horas vagas, dedica seu tempo a negar seus sentimentos por Jane e achar formas de como libertá-la do metrô. Mesmo a premissa peculiar permite </span><a href="https://www.thecut.com/2021/06/casey-mcquiston-one-last-stop-interview.html"><span style="font-weight: 400;">McQuiston</span></a><span style="font-weight: 400;"> recriar situações comuns à </span><a href="https://br.vida-estilo.yahoo.com/o-sucesso-da-bienal-do-livro-de-sao-paulo-e-culpa-do-tik-tok-100056008.html"><span style="font-weight: 400;">nova juventude</span></a><span style="font-weight: 400;">, em uma trama cheia de representatividade LGBTQIA+ e de um linguajar </span><i><span style="font-weight: 400;">pop </span></i><span style="font-weight: 400;">e atraente &#8211; afiadamente traduzidos por Guilherme Miranda -, que envolve o leitor principalmente pela abordagem dos laços de amizade modernos. Tendo seu ponto alto na forma como retrata as vivências e a cabeça da nossa geração, </span><i><span style="font-weight: 400;">Última Parada </span></i><span style="font-weight: 400;">vai querer te fazer não parar. </span><b>&#8211; Vitória Gomez</b></p>
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<figure id="attachment_28373" aria-describedby="caption-attachment-28373" style="width: 674px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28373 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/hilst1-674x1024.png" alt="Capa do livro O caderno rosa de Lori Lamby. O fundo é inteiramente colorido, com o que parecem ser manchas ou respingos de tinta. Prevalece, do lado esquerdo inferior, manchas rosas e pretas, enquanto do lado direito, roxas, rosas, amarelas, pretas. Na parte superior e central, há manchas roxas, amarelas, laranjas e verde água. No topo, encontram-se, em letras garrafais, as iniciais da autora Hilda Hilst – HH – com uma grafia transparente, ainda mostrando o fundo. Abaixo, em letras de forma branca, diagramadas à direita, se lê o nome da autora. Logo abaixo disso, o título do livro, em letras de forma branca. No canto inferior direito, o selo da Companhia das Letras" width="674" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/hilst1-674x1024.png 674w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/hilst1-527x800.png 527w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/hilst1-768x1166.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/hilst1.png 988w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28373" class="wp-caption-text">Um dos principais nomes da poesia e da prosa brasileira, Hilda Hilst foi a autora homenageada na 16ª edição da Festa Literária de Paraty (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Hilda Hilst &#8211; O caderno rosa de Lori Lamby (80 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><a href="https://www.angelfire.com/ri/casadosol/drummond.html"><span style="font-weight: 400;">Hilda girando boates, Hilda fazendo chacrinha.</span></a><span style="font-weight: 400;"> Seja pelo abalo que sua presença provocava na cena paulistana ou pelo choque em sua decisão de isolar-se em </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/galerias/literatura,casa-do-sol-a-mitica-morada-de-hilda-hilst,31452"><span style="font-weight: 400;">um sítio no interior</span></a><span style="font-weight: 400;">; olhar para a Hilda Hilst era entrar em um jogo. Um jogo de imprevisibilidades de uma escrita que apunhalava pelas costas todos os gêneros em que se aventurava. No entanto, mesmo com os elogios da crítica especializada, </span><a href="http://centrocultural.sp.gov.br/2020/03/05/hilda-hilst-e-a-poesia-em-estado-de-urgencia/"><span style="font-weight: 400;">a obra da poeta</span></a><span style="font-weight: 400;"> não tinha um grande alcance entre os leitores brasileiros. Lida em banheiros, lida em trens, lida para passar o tempo, o desejo de Hilst era </span><i><span style="font-weight: 400;">ser lida.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559210558/o-caderno-rosa-de-lori-lamby"><i><span style="font-weight: 400;">O caderno rosa de Lori Lamby</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a autora dá seu xeque-mate. Ora </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/poesia/hilda-hilst-duela-com-deus"><span style="font-weight: 400;">complexa</span></a><span style="font-weight: 400;">, ora </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1201200207.htm"><span style="font-weight: 400;">louca</span></a><span style="font-weight: 400;">, Hilst compõe, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Lori Lamby, </span></i><span style="font-weight: 400;">um texto fácil e </span><a href="https://soundcloud.com/companhiadasletras/150-o-caderno-rosa-de-lori-lamby-um-bate-papo-com-vera-iaconelli-e-amara-moira"><span style="font-weight: 400;">tão polêmico</span></a><span style="font-weight: 400;"> que não teria como </span><i><span style="font-weight: 400;">não </span></i><span style="font-weight: 400;">ser lido. No diário de uma garota de 8 anos que relata sua prostituição, com uma linguagem que chega a ser ridícula de tão infantil, ao mesmo tempo que enquadra as dificuldades de seu pai, um escritor falido, a conseguir atenção do mercado editorial, a escritora constrói o absurdo da prostituição infantil e de um pai neurótico como um recurso metafórico de sua própria situação, enquanto mulher no </span><a href="https://leiturascontemporaneas.org/2019/04/18/e-metafisica-ou-putaria-das-grossas-hilda-hilst-e-o-mercado-de-livros-anotacoes-iniciais/"><span style="font-weight: 400;">mercado editorial brasileiro</span></a><span style="font-weight: 400;">. Em entrevistas, estranhamente frequentes na época de lançamento do livro, ainda mais para quem escolheu estar longe dos tablóides, Hilst brinca com o </span><a href="https://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2017/12/05/lado-pornografico-de-hilda-hilst-pode-colocar-fogo-nos-debates-sobre-a-arte/"><span style="font-weight: 400;">impacto</span></a><span style="font-weight: 400;"> moral do </span><a href="https://blogdoims.com.br/uma-senhora-pornografica-e-por-que-nao/"><span style="font-weight: 400;">pornô</span></a><span style="font-weight: 400;"> para desafiar e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=5yeFhO4G2OQ"><span style="font-weight: 400;">dar uma banana</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao mercado editorial, que a levava a sério demais para incentivar sua produção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao parodiar grandes nomes da literatura erótica, como Henry Miller e Georges Bataille, a poeta constitui, com um humor muito característico  – quase que tirado de um filme </span><i><span style="font-weight: 400;">camp </span></i><span style="font-weight: 400;">de </span><a href="https://newronio.espm.br/john-waters-subversao-contracultura-e-cinema-trash/"><span style="font-weight: 400;">John Waters</span></a><span style="font-weight: 400;"> – um desafio para ser lida para além do que estava em suas páginas. </span><i><span style="font-weight: 400;">O caderno rosa de Lori Lamby </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma bandalheira de uma escritora no ápice de sua irreverência, </span><a href="https://www.publishnews.com.br/materias/2021/05/31/toda-a-ousadia-de-hilda-hilda"><span style="font-weight: 400;">tudo para pegar nos nervos dos caretas</span></a><span style="font-weight: 400;">. &#8211; </span><b>Enzo Caramori</b></p>
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<figure id="attachment_28374" aria-describedby="caption-attachment-28374" style="width: 675px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28374 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/labatut-1-675x1024.jpg" alt="" width="675" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/labatut-1-675x1024.jpg 675w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/labatut-1-527x800.jpg 527w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/labatut-1-768x1165.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/labatut-1-1012x1536.jpg 1012w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/labatut-1-1350x2048.jpg 1350w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/labatut-1-1200x1821.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/labatut-1.jpg 1687w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28374" class="wp-caption-text">Lançado no Brasil sob tradução de Paloma Vidal, a obra foi finalista do International Booker Prize em 2021 (Foto: Todavia)</figcaption></figure>
<p><b>Benjamín Labatut &#8211; Quando deixamos de entender o mundo (176 páginas, Todavia)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não seria loucura pensar a ciência como uma outra faceta do pensamento mágico? A bem da verdade, Theodor W. Adorno e Max Horkheimer defenderam a ideia em </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788571104143/dialetica-do-esclarecimento"><i><span style="font-weight: 400;">Dialética do Esclarecimento</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1947), apontando para a “razão” como uma espécie de misticismo, na qual impera nos entremeios sociais um culto aos números e formas precisas. O que se mantém oculto, porém, é a forma como as mais exatas das ciências estão ancoradas no extraordinário: na ideia absurda e abstrata de provar uma hipótese. </span><a href="https://todavialivros.com.br/livros/quando-deixamos-de-entender-o-mundo"><i><span style="font-weight: 400;">Quando deixamos de entender o mundo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é composto por quatro narrativas, que são interligadas magistralmente por </span><a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2021-10-10/o-chileno-benjamin-labatut-novo-fenomeno-editorial-da-america-latina.html"><span style="font-weight: 400;">Benjamín Labatut</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao apontarem para os sonhos e desejos místicos que nortearam grandes revoluções científicas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro</span> <span style="font-weight: 400;">é vendido como um “romance de não-ficção” – uma contradição entre termos que soa absurda –, cuja principal característica é justamente a forma como aponta para a quantidade imaginativa e “mágica” que circunda o nosso mundo “real”. As descobertas científicas, muito bem estabelecidas e respeitadas por seus mecanismos técnicos, não se distanciam dos </span><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-tobias-carvalho/?fbclid=IwAR2cSE-xjAKh8ZsytbCoK22s2ja_8MBabdnOlxf3vKRWzZM81uWv5jCZgaI"><span style="font-weight: 400;">aparatos fantásticos</span></a><span style="font-weight: 400;">: todas essas surgiram de uma hipótese, até mesmo de um sonho, e as verdadeiramente impactantes – como Schrödinger e sua mecânica quântica, o “Princípio da Incerteza” de Werner Heisenberg e os ideais matemáticos-anarquistas de </span><span style="font-weight: 400;">Alexander Grothendieck</span><span style="font-weight: 400;"> – foram contra tudo o que se havia estabelecido como “ciência exata” até aquele momento. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A possível “loucura” da obra não soa tão estranha aos leitores de Thomas Pynchon, que desenvolveu em seus livros – em especial </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788571647992/o-arco-iris-da-gravidade"><i><span style="font-weight: 400;">O Arco-Íris da Gravidade</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1973) – uma mistura pitoresca entre fato científico e invenção artística. Contudo, </span><i><span style="font-weight: 400;">Quando deixamos de entender o mundo</span></i><span style="font-weight: 400;"> prova, assim como Adorno e Horkheimer fizeram, que as invenções científicas ancoradas na ideia de progresso estão sempre fadadas ao fracasso. Como escreveu </span><a href="https://jacobin.com.br/2021/07/o-jovem-benjamin/"><span style="font-weight: 400;">Walter Benjamin</span></a><span style="font-weight: 400;">, a técnica, por si só, é a junção da Arte e da Tecnologia. </span><b>&#8211; Bruno Andrade</b></p>
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<figure id="attachment_28375" aria-describedby="caption-attachment-28375" style="width: 606px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28375 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/Shine-1.jpg" alt="Capa do livro Shine: Uma chance de brilhar da escritora Jessica Jung. A arte da capa é um desenho estruturado em tons de rosa e roxo. O cenário é o quarto de uma jovem garota decorado com pôsteres e um enorme espelho. A jovem está de frente para o espelho e de costas para o leitor. Ela veste uma camiseta rosa e um shorts azul enquanto se imagina em cima de um palco. Na parte inferior, o nome do livro está escrito em roxo e branco, e o nome da autora está escrito em branco." width="606" height="938" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/Shine-1.jpg 606w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/Shine-1-517x800.jpg 517w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28375" class="wp-caption-text">No Brasil, a <a href="https://www.intrinseca.com.br/blog/2020/10/saiba-tudo-sobre-o-lancamento-de-shine-livro-de-jessica-jung/">arte de capa</a> do livro foi escolhida por Jessica Jung em um concurso (Foto: Intrínseca)</figcaption></figure>
<p><b>Jessica Jung &#8211; Shine: Uma chance de brilhar (368 páginas, Intrínseca)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Jessica Jung é uma artista sul-coreana conhecida por ter integrado o grupo feminino </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=U7mPqycQ0tQ"><span style="font-weight: 400;">Girls Generation</span></a><span style="font-weight: 400;">. Em 2021, ela estreou como escritora com </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=bv-eomSjDGw"><i><span style="font-weight: 400;">Shine: Uma chance de brilhar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, uma narrativa que reflete a sua trajetória pessoal na indústria do </span><i><span style="font-weight: 400;">K-pop</span></i><span style="font-weight: 400;">. A protagonista de Jung é </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=rPpd9b5AiC4&amp;pp=ugMICgJwdBABGAE%3D"><span style="font-weight: 400;">Rachel Kim</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma jovem garota que sonha em ascender aos palcos e acaba descobrindo o quanto os bastidores do entretenimento são extremos e cruéis. São muitas as similaridades entre autora e obra: desde a xenofobia sofrida por Kim até a doçura de sua irmã mais nova, a história parece convergir para uma biografia não autorizada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre romances escondidos dos fãs, jornadas de trabalho exaustivas e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wq7ftOZBy0E"><span style="font-weight: 400;">colegas de trabalho malvadas</span></a><span style="font-weight: 400;">, Jessica Jung ilumina a misoginia da Música sul-coreana e continua o debate sobre as condições nada humanas que as empresas de </span><i><span style="font-weight: 400;">idols</span></i><span style="font-weight: 400;">, celebridades asiáticas, impõem sobre os seus produtos: crianças e adolescentes ainda em fase de formação. </span><i><span style="font-weight: 400;">Shine: Uma chance de brilhar</span></i><span style="font-weight: 400;"> não é uma </span><i><span style="font-weight: 400;">fanfic</span></i><span style="font-weight: 400;">, ficção criada por fãs, mas pode ser considerada uma </span><a href="https://capricho.abril.com.br/entretenimento/jessica-jung-revela-detalhes-sobre-seu-livro-shine-uma-chance-de-brilhar/"><i><span style="font-weight: 400;">idolfic</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, afinal, enquanto Jung não se sente confortável em contar a sua vida a partir da primeira pessoa do singular, os leitores podem decifrar </span><i><span style="font-weight: 400;">Bright</span></i><span style="font-weight: 400;">, a sequência lançada em 2022. </span><b>&#8211; Nathalia Tetzner</b></p>
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<figure id="attachment_28377" aria-describedby="caption-attachment-28377" style="width: 334px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28377 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/O-escafandro-e-a-borboleta-1-1.jpg" alt="Capa do livro O Escafandro e a Borboleta. A capa tem um fundo branco com o nome do livro centralizado na parte de cima e escrito em vermelho. Abaixo do título há uma linha vermelha pontilhada e logo após o nome do autor. Mais abaixo, há letras dispostas em 6 linhas e 6 colunas, em uma espécie de caça-palavras. Ao fundo deste caça-palavras, há quatro letras maiores e em formato minúsculo, são elas “m”, “g”, “c” e “e”" width="334" height="499" /><figcaption id="caption-attachment-28377" class="wp-caption-text">A obra ganhou uma adaptação francesa em 2007 por Julian Schnabel (Foto: WMF Martins Fontes)</figcaption></figure>
<p><b>Jean-Dominique Bauby: O Escafandro e a Borboleta (144 páginas, WMF Martins Fontes)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que acontece quando as palavras, maior instrumento do seu trabalho, não podem mais ser vocalizadas? É assim que Jean-Dominique Bauby analisa sua história de vida. Após um derrame, Bauby, que era editor da revista francesa <em>Elle</em>, se encontra em uma condição chamada de </span><a href="https://www.lecturio.com/pt/concepts/sindrome-de-locked-in/"><span style="font-weight: 400;">Síndrome de Locked-in</span></a><span style="font-weight: 400;"> (ou Síndrome do Encarceramento), na qual perde o movimento de quase todo seu corpo, podendo apenas movimentar o olho esquerdo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É </span><a href="https://www.google.com/amp/s/aventurasnahistoria.uol.com.br/amp/noticias/personagem/jean-dominique-bauby-a-impressionante-saga-do-homem-que-escreveu-um-livro-com-a-palpebra.phtml"><span style="font-weight: 400;">apenas piscando o olho</span></a><span style="font-weight: 400;">, e com a ajuda de uma fonoaudióloga, que Bauby cria <em>O Escafandro e a Borboleta</em>, uma sincera e tocante análise da vida pelos olhos de alguém que vê sua vida passar enquanto está preso dentro do próprio corpo. Mesmo nessa condição, o autor traz um humor sarcástico para a obra, sem deixar que a história caia no nicho da auto-ajuda. Porém, a história do Escafandro, armadura de mergulho pesada que dificulta seus movimentos (seu corpo) e a Borboleta, animal leve e que voa livre (sua mente) tem o poder de trazer uma nova perspectiva para como enxergamos nossa própria existência. </span><b>&#8211; Guilherme Veiga</b></p>
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<figure id="attachment_28378" aria-describedby="caption-attachment-28378" style="width: 446px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28378 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/o-milesimo-andar-1.jpeg" alt="Capa do livro O Milésimo Andar. O fundo é completamente preto, com apenas alguns pequenos pontos luminosos, como estrelas. Ao centro, vê-se um grande prédio dourado, com o título da obra escrito na frente. Na parte superior há a frase “Quanto mais alto você está, pior é a queda”, e na inferior estão o nome da autora e a informação de que o livro é um best seller do The New York Times. Na lateral, perto do canto inferior direito, está o nome da editora" width="446" height="640" /><figcaption id="caption-attachment-28378" class="wp-caption-text">O Milésimo Andar mostra que a vida nas alturas pode não ser tão maravilhosa assim (Foto: Rocco)</figcaption></figure>
<p><b>Katharine McGee &#8211; O Milésimo Andar (420 páginas, Rocco)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><em>“Em apenas três minutos, ela iria colidir com o cimento implacável da East Avenue, mas agora, neste exato momento, ela estava mais linda do que nunca”</em>. Assim se inicia</span> <a href="https://www.amazon.com.br/mil%C3%A9simo-andar-Katharine-McGee-ebook/dp/B079XCWG5N/ref=sr_1_2?keywords=o+mil%C3%A9simo+andar&amp;qid=1659724763&amp;sprefix=o+mil%C3%A9%2Caps%2C392&amp;sr=8-2"><i><span style="font-weight: 400;">O Milésimo Andar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, obra lançada em 2018 e escrita por Katharine McGee, que aborda a vida, os segredos e os fardos de cinco jovens ー Avery Fuller, Leda Cole, Rylin Myers, Watt Bakradi e Eris Dodd-Radson ー no futuro distópico e tecnológico de Manhattan em 2118, pós aquecimento global, onde toda a população da cidade é obrigada a morar em um prédio de mil andares para viver em condições normais após o colapso da natureza.   </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro possui uma leitura fluida e não muito complexa. Além disso, é muito interessante para quem gosta de histórias com diversos pontos de vista, já que cada capítulo é narrado por um dos personagens principais. O ponto alto da obra são os temas fortes que são abordados com muita maestria e cuidado, como incesto, pressão familiar, desigualdade social, depressão, vício em drogas e outros. Apesar da temática delicada, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Milésimo Andar</span></i><span style="font-weight: 400;"> não deixa de ser leve e divertido de se ler, e é impossível não ficar envolvido com o mistério apresentado, sendo sua única opção ler até o final para receber uma reviravolta surpreendente. E para quem gostar deste título, ainda há as sequências </span><a href="https://www.amazon.com.br/altura-deslumbrante-mil%C3%A9simo-andar-Livro-ebook/dp/B07S2T15QD/ref=sr_1_4?keywords=o+mil%C3%A9simo+andar&amp;qid=1659724763&amp;sprefix=o+mil%C3%A9%2Caps%2C392&amp;sr=8-4"><i><span style="font-weight: 400;">A Altura Deslumbrante</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.amazon.com.br/vista-infinita-mil%C3%A9simo-andar-Livro-ebook/dp/B08H5NQ4B3/ref=sr_1_3?keywords=o+mil%C3%A9simo+andar&amp;qid=1659724763&amp;sprefix=o+mil%C3%A9%2Caps%2C392&amp;sr=8-3"><i><span style="font-weight: 400;">A Vista Infinita</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span><b>&#8211; Gabrielli Natividade da Silva </b></p>
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<figure id="attachment_28379" aria-describedby="caption-attachment-28379" style="width: 660px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28379 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/o-rei-de-havana-1-660x1024.jpg" alt="Capa do livro O Rei de Havana. O fundo é verde, na parte superior está escrito o nome do autor Pedro Juan Gutiérrez em letras pretas. Ao lado de seu nome, está o nome da editora Alfaguara e seu logo, arabescos entrelaçados, tudo em preto. Na parte inferior há o desenho de um corvo em preto, e o nome do livro &quot;O Rei de Havana” está escrito em branco, sobrepondo o desenho" width="660" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/o-rei-de-havana-1-660x1024.jpg 660w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/o-rei-de-havana-1-516x800.jpg 516w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/o-rei-de-havana-1-768x1192.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/o-rei-de-havana-1-990x1536.jpg 990w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/o-rei-de-havana-1-1320x2048.jpg 1320w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/o-rei-de-havana-1-1200x1862.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/08/o-rei-de-havana-1.jpg 1650w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28379" class="wp-caption-text">E diz Pedro Gutiérrez que “ao cubano só resta o rum, a salsa e o sexo” (Foto: Alfaguara)</figcaption></figure>
<p><b>Pedro Juan Gutiérrez &#8211; O Rei de Havana (184 páginas, Alfaguara)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pedro Juan Gutiérrez escreve para os fortes de estômago, aqueles estupidamente curiosos em conhecer uma parte da vida em Cuba nos anos 1990. </span><i><span style="font-weight: 400;">O Rei de Havana </span></i><span style="font-weight: 400;">atravessa toda a triste clareza com que seu protagonista Reynaldo enxerga a vida marginalizada na capital cubana. De maneira brilhante e obscena, a obra não só </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/23/cultura/1419361987_114715.html"><span style="font-weight: 400;">enxerga o submundo do país</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas descreve as particularidades das pessoas que a ele pertencem com um objetivo: questionar até que ponto há dignidade na vida de um ser humano.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É maluco, né? Imaginar como alguém se acostuma tanto à margem da sociedade, à pobreza, à sujeira, que se sente intrínseco àquilo. É assim que </span><a href="https://homoliteratus.com/a-literatura-suja-do-escritor-cubano-pedro-juan-gutierrez/"><span style="font-weight: 400;">o protagonista de Gutiérrez</span></a><span style="font-weight: 400;"> vê a si mesmo, sem compreender como alguém prefere água corrente na torneira e comida no prato todos os dias. Rey é só um adolescente despreocupado, com uma vida arruinada, um passado traumático, e a vontade de permanecer não pensando em nada, nunca. E só se sente um verdadeiro rei quando está transando bêbado, sujo, sem tomar banho, em um lugar qualquer que cheire a xixi. O rei de Havana. </span><b>&#8211; Nathália Mendes </b></p>
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		<title>O amor não é óbvio é o retrato de um primeiro amor entre garotas</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 16:49:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Monique Marquesini Da busca por registrar e contar histórias felizes de amor entre garotas, origina-se O amor não é óbvio. Publicada em 2019, a obra é a estreia da admirável autora baiana Elayne Baeta e marca o primeiro best-seller lésbico nacional a atingir a lista de mais vendidos do país. Anteriormente lançado em formato digital &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-amor-nao-e-obvio-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O amor não é óbvio é o retrato de um primeiro amor entre garotas"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28131" aria-describedby="caption-attachment-28131" style="width: 556px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28131 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL-556x800.jpg" alt="capa do livro O amor não é óbvio. No meio, em frente a um fundo rosa escuro, está a capa. A ilustração do livro, está em preto e branco, de duas garotas, no estilo colagem. A da direita tem o cabelo longo, liso e repicado, ela usa óculos redondos e está segurando um binóculo com as mãos. Ao lado dela está uma garota de cabelos curtos e lisos, vestida com uma jaqueta jeans cheia de bottons. Ainda, na parte superior, está o nome da autora e o do livro." width="556" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL-556x800.jpg 556w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL-711x1024.jpg 711w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL-768x1106.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL-1067x1536.jpg 1067w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL-1422x2048.jpg 1422w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL-1200x1728.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL.jpg 1778w" sizes="auto, (max-width: 556px) 85vw, 556px" /><figcaption id="caption-attachment-28131" class="wp-caption-text">A capa de O amor não é óbvio, um dos principais romances lésbicos do país, também foi ilustrado pela talentosa autora Elayne Baeta (Foto: Editora Record)</figcaption></figure>
<p><b>Monique Marquesini</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da busca por registrar e contar histórias felizes de amor entre garotas, origina-se </span><i><span style="font-weight: 400;">O amor não é óbvio</span></i><span style="font-weight: 400;">. Publicada em 2019, a obra é a estreia da admirável autora baiana Elayne Baeta e marca o primeiro </span><i><span style="font-weight: 400;">best-seller</span></i><span style="font-weight: 400;"> lésbico nacional a atingir a</span> <a href="https://veja.abril.com.br/livros-mais-vendidos/"><span style="font-weight: 400;">lista de mais vendidos</span></a><span style="font-weight: 400;"> do país. Anteriormente lançado em formato digital de forma independente, o romance  ganhou espaço na Literatura brasileira e foi lançado pela Editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Record</span></i><span style="font-weight: 400;">, sob o selo </span><i><span style="font-weight: 400;">Galera</span></i><span style="font-weight: 400;">. A escritora, ilustradora e </span><a href="https://entretetizei.com.br/5-livros-de-poemas-incriveis-para-conhecer/"><span style="font-weight: 400;">poeta</span></a> <span style="font-weight: 400;">só escreve sobre o que já sentiu no peito, e talvez por isso, suas narrativas sejam nada óbvias.</span></p>
<p><span id="more-28130"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro de Elay (o apelido da autora) narra uma fase da adolescência de Íris e Édra, duas meninas no último ano do Ensino Médio que nunca conversaram. A doce Íris Pêssego é viciada em novelas e não perde um capítulo da sua favorita, </span><i><span style="font-weight: 400;">Amor em atos</span></i><span style="font-weight: 400;">, junto de sua improvável amiga, a vizinha dona Símia, de 68 anos. Ainda, ela é apaixonada por Cadu Sena, o garoto de quem gosta desde a oitava série &#8211; e que finalmente está solteiro. Só que a narrativa de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DvvD5LyIYdM"><i><span style="font-weight: 400;">O amor não é óbvio</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">não é tão intuitiva quanto parece. </span></p>
<figure id="attachment_28132" aria-describedby="caption-attachment-28132" style="width: 639px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-28132" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Imagem-2-2-639x800.jpg" alt="Fotografia quadrada da autora Elayne Baeta. Na imagem está o rosto de Elayne Baeta, ela é branca, tem cabelos castanhos e curtos, usa um piercing no septo e na sobrancelha. Ela está com uma camiseta preta e um cachecol vinho, está em uma pose lateral, cobrindo metade do rosto com seus livros O amor não é óbvio e Oxe Baby. " width="639" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Imagem-2-2-639x800.jpg 639w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Imagem-2-2.jpg 647w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28132" class="wp-caption-text">Elayne Baeta participou da Bienal do Livro 2022, em São Paulo, autografando livros, e também esteve na mesa do painel sobre personagens LGBTQIA+ em diferentes gêneros literários (Foto: Elayne Baeta)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A próxima personagem &#8211; a quem somos apresentados de forma excêntrica &#8211; é Édra Norr. Isso não porque a garota se envolveu em um escândalo na escola ou por ter mudado de cidade &#8211; mas por ser a nova namorada de Camila Dourado, que deixou Cadu Sena. A partir daí, entre os cochichos e conversas, Íris começa um experimento para entender o motivo do relacionamento ter acabado e para descobrir mais sobre Édra. E ela não demora para desvendar o </span><a href="https://youtu.be/DNXfr5x5jl8"><span style="font-weight: 400;">charme da garota</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez um dos únicos pontos baixos da narrativa de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DNXfr5x5jl8"><i><span style="font-weight: 400;">O amor não é óbvio</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">esteja nessa investigação: no começo, a protagonista pode soar um pouco obcecada com a vida da menina, mas, ao longo da história, o leitor consegue entender o motivo para tudo isso. Nesse momento, Íris pega sua bicicleta amarela e seu binóculo para observar sua colega de turma por toda cidade de São Patrique. Por mais estranho que pareça em um primeiro momento, a menina de 17 anos não entende o porquê de querer tanto saber da garota. Tudo só fica claro quando ela desvenda seu desejo. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Tudo com Édra era dez vezes mais bonito. E eu queria saber o porquê. E não queria também. Nem tudo precisa ser compreendido.”</span></p></blockquote>
<figure id="attachment_28133" aria-describedby="caption-attachment-28133" style="width: 564px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28133" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Imagem-3-2.jpg" alt="Fotografia quadrada da ilustração do poster da pré venda do livro. Na imagem está a mão de Elayne, ela é branca e tem uma tatuagem de lua no dedo do meio. Além da tatuagem de flores no braço,há uma mesa branca com alguns materiais escolares. A folha sulfite branca tem o desenho das personagens Íris e Édra se beijando, uma com uma camisa jeans e a outra com uma bandeira LGBTQIA+ nas costas." width="564" height="564" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Imagem-3-2.jpg 564w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Imagem-3-2-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 564px) 85vw, 564px" /><figcaption id="caption-attachment-28133" class="wp-caption-text">A história de amor é uma colisão de asteroides, forte e intensa, e mostra que encontrar-se é extraordinário (Foto: Elayne Baeta)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É nesse cenário de uma cidade pequena, tardes assistindo novela, passeios de bicicleta, descobertas sobre sua sexualidade, medos, primeiras vezes e adolescência que a história das garotas se desenrola. Uma das partes mais curiosas de </span><i><span style="font-weight: 400;">O amor não é óbvio</span></i><span style="font-weight: 400;"> se esconde justamente na </span><a href="https://herserendipity.medium.com/a-heteronormatividade-como-empecilho-no-desenvolvimento-de-hist%C3%B3rias-ou-porque-casais-h%C3%A9teros-s%C3%A3o-17f3c0d3cd66"><span style="font-weight: 400;">heteronormatividade</span></a><span style="font-weight: 400;"> vivida pela  grande maioria dos jovens, já que Íris nunca tinha sequer pensado em enxergar outra menina com olhares românticos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A construção da amizade e da </span><a href="https://www.google.com/amp/s/bookriot.com/sapphic-novels/amp/"><span style="font-weight: 400;">relação</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Édra e Íris é muito aconchegante ao leitor, uma vez que, ao decorrer do experimento, elas acabam ficando mais próximas &#8211; e descobrem como são extremamente compatíveis. As personagens criadas por Elayne Baeta são um complemento perfeito: Íris, cheia de medos e inseguranças, se junta a uma garota autoconfiante como Édra. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">O amor não é óbvio</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi escrito quando Elay tinha apenas 19 anos &#8211; talvez seja essa a chave para tanta sensibilidade por parte da autora. A primeira publicação da obra foi feita pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">Wattpad</span></i><span style="font-weight: 400;">, em partes, e aconteceu de forma independente, ou seja, sem o apoio de um grupo editorial: foi assim que ela alcançou um enorme e fiel público. Antes mesmo de conseguir reconhecimento nacional, o livro é fundamental por ser de autoria de uma </span><a href="https://www.nexojornal.com.br/estante/favoritos/2022/5-livros-escritos-por-autoras-l%C3%A9sbicas"><span style="font-weight: 400;">mulher lésbica</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; que muitas vezes tem suas vivências esquecidas dos romances literários.</span></p>
<figure id="attachment_28134" aria-describedby="caption-attachment-28134" style="width: 588px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28134" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Imagem-4-1.jpg" alt="Fotografia quadrada do segundo livro publicado por Elayne. A capa do livro é rosa, tem uma Polaroid no meio com uma foto da autora, ao lado tem alguns fósforos e detalhes em preto. O fundo é de um tapete preto e branco, além de outras Polaroids no chão perto do livro. " width="588" height="732" /><figcaption id="caption-attachment-28134" class="wp-caption-text">A arte de contar e escrever histórias é antiga na vida da autora: sentindo falta de se enxergar nas histórias, ela deu vida a suas narrativas (Foto: Elayne Baeta)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de </span><i><span style="font-weight: 400;">O amor não é óbvio</span></i><span style="font-weight: 400;">, Elayne Baeta é responsável por diversos outros projetos, que têm a visibilidade e a representatividade lésbica como ponto central. A autora produziu alguns episódios de seu </span><i><span style="font-weight: 400;">podcast </span></i><a href="https://open.spotify.com/show/0aJUkr5kRwM3hL3sRWJ2wP?si=Fq85zPvYRWOAsriTcsUX8g"><i><span style="font-weight: 400;">Lésbica &amp; Ansiosa</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, com histórias sobre seus sentimentos. Outro projeto de grande relevância foi </span><i><span style="font-weight: 400;">Sozinhas</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma mistura de </span><i><span style="font-weight: 400;">podcast</span></i><span style="font-weight: 400;"> com livro, que teve grande significância na vida de Elayne: o lucro das vendas foi utilizado para realizar o sonho da mudança da escritora para a capital paulista. Seu mais recente lançamento é o livro de poesias </span><a href="https://lesbout.com.br/resenha-oxe-baby-um-livro-de-poesias-para-garotas-que-amam-garotas/?amp=1"><i><span style="font-weight: 400;">Oxe, Baby</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, um relato muito mais pessoal sobre a sua vida, ou como ela mesmo diz, uma autobiografia poética. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As</span> <span style="font-weight: 400;">produções da autora são um</span> <span style="font-weight: 400;">retrato aconchegante e confortável para meninas que nunca se viram representadas nas páginas dos romances adolescentes. </span><a href="https://queer.ig.com.br/2021-12-04/elayne-baeta-livros.html"><span style="font-weight: 400;">Elayne</span></a><span style="font-weight: 400;"> é gigante, uma mulher lésbica nordestina, conquistando espaços jamais alcançados. Nós, garotas que gostamos de garotas, não podemos deixar de vê-la com olhar acolhedor. É lindo acompanhar </span><i><span style="font-weight: 400;">O amor não é óbvio, </span></i><span style="font-weight: 400;">com um primeiro amor cheio de erros, defeitos e acertos. A relação de Íris e Édra é humana e (em uma referência ao livro) é uma história “</span><i><span style="font-weight: 400;">laranja forte e cheia de </span></i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=x2cnAWpiUs8"><i><span style="font-weight: 400;">aliens</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Essa coragem pulsante. Essa conquista&#8230; Em usar um vestido que ninguém rasga. Laranja forte. Laranja (extraordinariamente) forte.”</span></p></blockquote>
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		<title>A face por trás de Confissões de uma máscara</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Jul 2022 17:06:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[1949]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pedro Yoshimatu “Pressenti então que neste mundo há um tipo de desejo semelhante à dor pungente. ‘Quero me transformar nele’ foi a vontade que me sufocou ao olhar para aquele rapaz todo sujo: ‘Quero ser ele’”. Publicado no Japão em 1949 pelo aclamado autor Yukio Mishima, Confissões de uma máscara é um interessante retrato de &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/confissoes-de-uma-mascara-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A face por trás de Confissões de uma máscara"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28125" aria-describedby="caption-attachment-28125" style="width: 666px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28125 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1-666x1024.jpg" alt="Capa do livro Confissões de uma máscara, do autor Yukio Mishima, retratando um leque sobre um fundo azul com o título e o nome do autor ao centro" width="666" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1-666x1024.jpg 666w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1-521x800.jpg 521w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1-768x1180.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1-1000x1536.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1-1333x2048.jpg 1333w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1-1200x1844.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1.jpg 1666w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28125" class="wp-caption-text">De maneira bastante intimista, Confissões de uma máscara explora temas de autoconhecimento e rejeição (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Pedro Yoshimatu</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Pressenti então que neste mundo há um tipo de desejo semelhante à dor pungente. ‘Quero me transformar nele’ foi a vontade que me sufocou ao olhar para aquele rapaz todo sujo: ‘Quero </span><span style="font-weight: 400;">ser </span><span style="font-weight: 400;">ele’”.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Publicado no Japão em 1949 pelo aclamado autor Yukio Mishima, </span><a href="https://www.amazon.com.br/Confiss%C3%B5es-uma-m%C3%A1scara-Yukio-Mishima/dp/8535904794"><i><span style="font-weight: 400;">Confissões de uma máscara</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é um interessante retrato de muitas crises. A crise de seu protagonista, certamente &#8211; Koo-chan é um jovem em processo de descoberta da sua própria homossexualidade, em constante conflito com suas crenças pessoais sobre honra, valor próprio e masculinidade -, como também a crise de seu contexto histórico, marcado pela ideologia militarista do Japão Imperial e uma herança cultural em processo de transição e ressignificação. Mas é, principalmente, um livro sobre as crises de seu próprio autor, marcado pelo tom quase biográfico, uma sincera proximidade com o leitor na prosa e uma percepção bastante honesta sobre os dilemas enfrentados por um jovem LGBTQIA+ num período de grande repressão social.</span></p>
<p><span id="more-28124"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro segue a história de vida de seu protagonista, desde as particularidades de seu nascimento, passando pelas primeiras memórias de infância e experiências com a puberdade, até sua idade adulta. Nela, o personagem principal se vê em meio a um cenário politicamente tenso e socialmente conturbado, com o horror da guerra pairando sobre todos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa decisão narrativa dá à trama uma cadência natural, espelhando-se, muitas vezes, em episódios da própria </span><a href="https://www.fnac.pt/Yukio-Mishima/ia99849/biografia"><span style="font-weight: 400;">vida pessoal do autor</span></a><span style="font-weight: 400;">; Koo-chan, o protagonista, tem seu nome inspirado no diminutivo de “Kimitake”, o nome de nascimento por trás do pseudônimo Yukio Mishima. Os temas de descoberta de si mesmo enquanto LGBTQIA+ perpassam esses cenários mais históricos, mas também possuem profundidade no percurso humano do próprio protagonista.</span></p>
<figure id="attachment_28126" aria-describedby="caption-attachment-28126" style="width: 632px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28126 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-632x1024.jpg" alt="Yukio Mishima segurando um microfone enquanto discursa em um palanque, em frente a um quadro negro, com uma expressão austera" width="632" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-632x1024.jpg 632w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-494x800.jpg 494w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-768x1244.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-948x1536.jpg 948w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2.jpg 1000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28126" class="wp-caption-text">Mishima teve muito participação enquanto figura pública na política japonesa, muitas vezes de maneira controversa (Foto: Shinchosha/Japan Forward)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É interessante pensar em como a </span><a href="https://revistas2.uepg.br/index.php/uniletras/article/view/5260"><span style="font-weight: 400;">temática e o estilo narrativo de Mishima</span></a><span style="font-weight: 400;"> se articulam. Uma questão levantada desde o início do livro é o físico do protagonista, considerado longe do modelo tido como adequado ao seu redor. Num contexto em que a masculinidade é vista como algo austero, rígido e militarizado, Koo-chan encontra grandes dificuldades em se perceber como reflexo desse ideal inalcançável. Em contrapartida, Koo-chan venera as imagens pertencentes ao tipo de masculinidade que lhe é imposto; suas primeiras experiências de atração sexual são de contemplação quase platônica de homens com corpos esbeltos e que demonstram se encaixar nesse rígido modelo de beleza e autoaceitação. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um paradoxo instigante é proposto durante a sua infância: Koo-chan idealiza e se sente atraído pela imagem de um cavaleiro ocidental, vestido em uma resplandecente armadura e demonstrando, com grande ênfase, todos os </span><a href="https://www.scielo.br/j/pcp/a/7ftQZzgJTGcvJmzWDv7gD5d/?lang=pt"><span style="font-weight: 400;">valores masculinos</span></a><span style="font-weight: 400;"> repassados pela sociedade em seu entorno. Tal atração é posta em cheque quando uma de suas babás revela que o cavaleiro é, na verdade, Joana d’Arc, e a ideia de que uma mulher poderia utilizar vestes consideradas masculinas e desempenhar valores idealizados enoja e confunde o protagonista.</span></p>
<figure id="attachment_28127" aria-describedby="caption-attachment-28127" style="width: 720px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28127 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem3.jpg" alt="O autor Yukio Mishima sorri sem camisa sentado em um balcão, enquanto veste uma calça branca e revela o seu porte físico" width="720" height="900" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem3.jpg 720w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem3-640x800.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28127" class="wp-caption-text">O autor trabalhou, em seus textos e em sua vida pessoal, a questão do físico e o esforço para se adequar a um padrão (Foto: Getty Images)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1970, Yukio Mishima cometeu suicídio, após uma tentativa de golpe no governo estabelecido depois da Segunda Guerra Mundial. O método escolhido é reflexo de seu percurso em vida: o autor optou por cometer </span><a href="https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como-era-um-ritual-de-seppuku-em-que-o-samurai-se-matava/"><i><span style="font-weight: 400;">seppuku</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o ritual tradicional de suicídio do código de honra dos samurais. Mishima foi um grande crítico de uma ocidentalização do Japão, e um fervente crítico de ideologias estrangeiras se expandindo em seu país natal. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda assim, seu contexto social é o da intensa ressignificação da identidade nacional, e nesse sentido o autor se apega a elementos fundacionais da cultura japonesa como âncoras culturais (sobretudo a tradição xintoísta, a sacralização do Imperador enquanto figura política e a valorização de ideias militares tradicionais). </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com tradução de Jaqueline Nabeta, </span><i><span style="font-weight: 400;">Confissões de uma máscara</span></i><span style="font-weight: 400;"> permite ao leitor interessado observar mais de perto os detalhes de uma mente literária imersa em muitos conflitos, assim como seus dispositivos para administrar as crises internas e externas. Mais do que uma leitura recomendada para todos os interessados em </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/lgbtqia/"><span style="font-weight: 400;">questões LGBTQIA+</span></a><span style="font-weight: 400;">, o livro debate sobre os conflitos inerentes a processos de transição, e aponta com maestria para a </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/literatura-japonesa/"><span style="font-weight: 400;">Literatura japonesa</span></a><span style="font-weight: 400;"> do século XX.</span></p>
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		<title>No palimpsesto de Elvira Vigna, eles não conhecem Courbet</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Jul 2022 15:02:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[2016]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori &#8220;Nenhuma de nós de fato com uma existência separada. Só traços sobrepostos, confusos, não claros. Como se estivéssemos, todas nós, num palimpsesto.&#8221; Em uma sala, num outro universo que não é, naquele momento, o Rio de Janeiro que estardalhaça do lado de fora, ela está furiosa. Em silêncio, mas nunca quieta. Cautelosamente desajeitada. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/como-se-estivessemos-em-palimpsesto-de-putas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "No palimpsesto de Elvira Vigna, eles não conhecem Courbet"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28137" aria-describedby="caption-attachment-28137" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/CAPA_WORDPESS_PALIMPSESTO_DE_PUTAS.png" class="size-full wp-image-28137" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/CAPA_WORDPESS_PALIMPSESTO_DE_PUTAS.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/CAPA_WORDPESS_PALIMPSESTO_DE_PUTAS-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/CAPA_WORDPESS_PALIMPSESTO_DE_PUTAS-768x404.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28137" class="wp-caption-text">O livro Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, leitura do Clube do Livro do Persona em Maio, publicado pela editora Companhia das Letras, não é sobre garotas de programa, mas sim sobre relações interpessoais e suas tensões (Foto: Companhia das Letras/ Arte: Bruno Alvarenga)</figcaption></figure>
<p><b>Enzo Caramori</b></p>
<blockquote><p>&#8220;Nenhuma de nós de fato com uma existência separada. Só traços sobrepostos, confusos, não claros. Como se estivéssemos, todas nós, num palimpsesto.&#8221;</p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400">Em uma sala, num outro universo que não é, naquele momento, o Rio de Janeiro que estardalhaça do lado de fora, ela está furiosa. Em silêncio, mas nunca quieta. Cautelosamente desajeitada. Uísque caubói, também raivoso, em um copo plástico. Escuta um homem, que nem conhece direito, narrar seus encontros com putas. Mulheres sem nomes</span><span style="font-weight: 400">, pois são tantas que, no fim, se juntam até se tornarem um único ser com várias cabeças e braços. Rasura. Na verdade, são as estórias que se juntam incessantemente até formarem, gota a gota, gigantes estruturas, como aquelas pedras, em cavernas. Gota a gota. Rígidas. Estalagmites. Que prendem, nos espaços vazios e ocos, o que realmente se quer dizer. E não foi dito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">E é isso – o que não foi dito –&nbsp; que mais pulsa na escrita visceral de Elvira Vigna no brutal </span><span style="font-weight: 400"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535927399/como-se-estivessemos-em-palimpsesto-de-putas">Como se estivéssemos em palimpsesto de putas</a></i></span><span style="font-weight: 400"> (2016), um de seus últimos livros publicados </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://piaui.folha.uol.com.br/muito-a-dizer/">em vida</a></span><span style="font-weight: 400">. Em uma crueza avassaladora, que partilha de um humor </span><span style="font-weight: 400"><i>blasé</i></span><span style="font-weight: 400"> e de uma catártica raiva feminina, a</span><span style="font-weight: 400"> autora não traz suas discussões necessariamente na superfície de seu enredo e no desenrolar de suas personagens, mas sim em uma psicologia que está atrás dos eventos narrativos – localizada no que realmente move os acontecimentos – </span><span style="font-weight: 400">criando uma </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www1.folha.uol.com.br/paywall/login.shtml?https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/01/1853553-elvira-vigna-rasga-ferocidade-em-romance.shtml">dualidade</a></span><span style="font-weight: 400"> acerca do que se diz mas, não necessariamente, é o que </span><span style="font-weight: 400"><i>quer</i></span><span style="font-weight: 400"> ser dito. Nessa narrativa, a única verdade está naquilo que é engolido pela língua e reside no escuro. Na ausência. No negativo.</span></p>
<p><span id="more-28106"></span></p>
<figure id="attachment_28107" aria-describedby="caption-attachment-28107" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-scaled.jpg" class="size-full wp-image-28107" alt="foto em preto e branco. A escritora Elvira Vigna, vestindo uma jaqueta escura, um colete preto e uma camisa branca, posa quase que em perfil, com a cabeça levemente levantada para o canto superior esquerdo. Seus cabelos, grisalhos, estão soltos" width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-2048x1152.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28107" class="wp-caption-text">A incômoda e gutural escrita da autora se envereda em uma narrativa de embates entre as tensões da insurgência da emancipação feminina com a misoginia das tradições masculinas (Foto: Todavia)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400">Tradutora, artista plástica, escritora e jornalista, Elvira Vigna prova-se, em um rápido olhar biográfico, uma transeunte entre as mais diversas maneiras de construção da expressão. </span><span style="font-weight: 400">Formada em Literatura pela Universidade de Nancy, na França, e mestre em Teoria da Significação pela</span><span style="font-weight: 400"> Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a carioca é vencedora, por sua </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://eraoutravez.blogfolha.uol.com.br/2018/12/15/livros-infantis-mostram-a-literatura-transgressora-de-elvira-vigna/">Literatura infantojuvenil</a></span><span style="font-weight: 400">, do Prêmio Jabuti e, por seus romances, do Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras, e do </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.itaucultural.org.br/conheca-os-vencedores-do-oceanos-premio-de-literatura-em-lingua-portuguesa#:~:text=O%20primeiro%20colocado,artista%20Regina%20Silveira.">prêmio Oceanos</a></span><span style="font-weight: 400">. Em sua releitura dos contos de Franz Kafka, ilustrada por seus próprios desenhos e destinada ao público jovem, teve publicado postumamente </span><span style="font-weight: 400"><i>Kafkianas </i></span><span style="font-weight: 400">(2018)</span><span style="font-weight: 400"><i>, </i></span><span style="font-weight: 400">que levou o prêmio da Biblioteca Nacional, em 2019.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400">&#8220;Eu não penso em impactos. Eu faço uma linha.&#8221;</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400">Em sua </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Pagina/Um-Escritor-na-Biblioteca-Elvira-Vigna#:~:text=Prefiro%20romances.%20N%C3%A3o,fa%C3%A7o%20uma%20linha.">prosa de fôlego</a></span><span style="font-weight: 400">, a autora abandona o romance convencional com um fluxo de escrita que, nesse livro, beira o que seria uma epopeia com ecos </span><span style="font-weight: 400"><i>beckettianos</i></span><span style="font-weight: 400">, negando uma temporalidade única de eventos. Com uma estrutura </span><span style="font-weight: 400">anárquica, em que os parágrafos são desmembrados em uma leitura crua e cheia de contrastes, o leitor vai se deparar, no primeiro momento, com algo que parece mais um amontoado de mantras, com frases desprovidas de pleno sentido e que flutuam nos blocos do texto. T</span><span style="font-weight: 400">udo em seu universo literário deve se misturar para uma compreensão de suas longas significações, que exigem um papel ativo de montagem de quem as lê. Não se esmiúça a Literatura de Vigna, só é possível entendê-la por suas totalidades.</span></p>
<p><figure id="attachment_28108" aria-describedby="caption-attachment-28108" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem3-1.jpg" class="wp-image-28108" alt="a escritora Elvira Vigna olha, em um retrato em preto e branco, à câmera. Com os cabelos soltos, um pouco acima da altura dos ombros, ela usa um vestido preto de gola aberta." width="800" height="1146"><figcaption id="caption-attachment-28108" class="wp-caption-text">Nas histórias de Elvira Vigna, como afirmado pela própria, ‘‘(&#8230;) tudo é real. Eu não invento uma vírgula’’ [Foto: Renato Parada]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400">Nesse texto, essa é uma linha que tece inúmeros enfrentamentos que, em suas tramas, vão deixando espaços vazios, os quais justamente fazem a narradora construir essa estória. Nos ares do que se pensa ser o fim dos anos 80 e início da década de 90, ela, sem nome, é uma </span><span style="font-weight: 400"><i>designer</i></span><span style="font-weight: 400"> desempregada que se encontra, em um prédio de uma </span><span style="font-weight: 400"><a href="http://elvira.vigna.com.br/vigna-e-as-vaginas-alienigenas/#:~:text=Elvira%20Vigna%20(2011,neg%C3%B3cios%20da%20editora%3A">editora beirando a falência</a></span><span style="font-weight: 400">, com João, </span><span style="font-weight: 400">um ex-funcionário da Xerox </span><span style="font-weight: 400">responsável pela informatização dos sistemas da empresa. Nesses encontros, ele discorre, no que quase são confissões, atravessadas por diversas digressões, sobre seus encontros com prostitutas, enquanto, no silêncio, o qual sua ouvinte mais se fixa, lida com a separação de sua mulher, Lola. No entanto, o que move esse homem a contar essas histórias é um mistério.&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Talvez, em primeiro lugar, o reconhecimento, na aparência da narradora, de uma falta de feminilidade que seria cúmplice de sua </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/acida-e-sulfurica/">masculinidade exibicionista</a></span><span style="font-weight: 400"> e de seu orgulho em contornar o que, no sexo com prostitutas, seria uma simples relação de trabalho, algo </span><span style="font-weight: 400"><i>significativo. </i></span><span style="font-weight: 400">Mas, na monotonia desses falatórios, a narradora, entediada, dá largada a um jogo de preencher as lacunas dessas histórias com as mais mirabolantes teorias que, nunca realmente expostas para João, são uma maneira silenciosa, compartilhada apenas com o leitor, de contestação e de, essencialmente, tirar o sarro. Nessa ironia, tudo que ela pretende é desmobilizá-lo enquanto sujeito que controla a narrativa desses encontros e desses mundos.</span></p>
<figure id="attachment_28109" aria-describedby="caption-attachment-28109" style="width: 583px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem4.jpg" class="size-full wp-image-28109" alt="um desenho em preto e branco, retratando uma pessoa, com uma toalha amarrada na cintura, olhando, pela janela, uma cidade, com seus prédios" width="583" height="838" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem4.jpg 583w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem4-557x800.jpg 557w" sizes="auto, (max-width: 583px) 85vw, 583px" /><figcaption id="caption-attachment-28109" class="wp-caption-text">A corporeidade, o estranho e o avesso atravessam a expressão de Vigna mesmo em seus desenhos, como nas ilustrações de Kafkianas (Foto: Elvira Vigna)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400">Lola, Mariana, Lurien. As outras personagens que a </span><span style="font-weight: 400"><i>designer</i></span><span style="font-weight: 400"> posiciona em seu entendimento logo são tiradas de uma planicidade para serem preenchidas de humanidade. Desde a desorganização da figura submissa de Lola até quando presencia o desmontar íntimo e brutal de Mariana, sua colega de quarto e trabalhadora do sexo, ela acessa toda a subjetividade negada pelo homem que tanto escuta. No exercício dessa história, no ressoar de </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/literatura-em-lingua-francesa/a-solidao-da-escrita">Marguerite Duras</a></span><span style="font-weight: 400">, </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://elvira.vigna.com.br/suplemento-pernambuco-3/#:~:text=Seus%20personagens%20e,da%20mesma%20diretora).">Sofia Coppola</a></span><span style="font-weight: 400">, e </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.letras.mus.br/pj-harvey/17590/traducao.html">PJ Harvey</a></span><span style="font-weight: 400">, se desafia até mesmo a Literatura, na qual as prostitutas sempre ocuparam um imaginário exoticizado e atravessado por </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.instagram.com/p/CbYiO4FuLv5/?utm_source=ig_web_copy_link">olhares masculinos</a></span><span style="font-weight: 400"> acerca de suas trajetórias.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Esse livro conta, na montagem de seu infindável palimpsesto, trajetórias de personagens sem rumo, distantes de suas casas, descendo e subindo </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.gazetasp.com.br/noticias/memoria-a-historia-da-augusta-uma-das-ruas-mais-famosas-de-sao-paulo/1091906/">ruas augustas</a></span><span style="font-weight: 400">. Homens cheios de si que, em suas idas aos bares e baladas, querem o escuro dos asfaltos e recebem as lufadas das luzes coloridas da cidade. Nas mãos em cinturas de mulheres que limitam seus movimentos, por segurança, encontram o poder de serem si mesmos, mesmo imaginando, naquele momento, serem outros.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Como se estivéssemos em palimpsesto de putas" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/azQFN4LCqjM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400">Envoltos nos braços das trabalhadoras do sexo, João e seus amigos, mesmo que tentem esconder, estão desesperados. Nas trepadas, com seus </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://artebrasileiros.com.br/cultura/ira-de-vigna/">vergonhosos silêncios</a></span><span style="font-weight: 400">, falam muito mais do que nos relatos egocêntricos que tanto proclamam. No universo de </span><span style="font-weight: 400"><i>Como se estivéssemos em palimpsesto de putas</i></span><span style="font-weight: 400">, que também é o mesmo que existe fora das duzentas e poucas páginas do livro, figuras como João querem transgressões. Anseiam pela chance de, em uma noite, conseguir ocupar outro mundo que não seja a pacata vida cotidiana que eles mesmos impõem, em seus falatórios sobre a tradição, à moral e, claro, os bons costumes.&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Toda essa caça pelo profano, pelo escuro, pela sarjeta, pelo seio que não é o de sua mãe e nem o de sua mulher, mas sim do corpo que carrega opressões de toda a História, é, no fim, uma busca pelo divino. Como dito em alto e bom tom, pela poeta </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/O-obsceno-sim-de-Hilda-Hilst">Hilda Hilst</a></span><span style="font-weight: 400">, </span><span style="font-weight: 400"><i>‘‘a natureza do obsceno é a vontade de converter’’</i></span><span style="font-weight: 400">. Nas voltas dessas empreitadas, esses homens querem seus espaços de segurança e moralidade, numa nostalgia da santidade suscitada por seus encontros. Tanto que, no fim, </span><span style="font-weight: 400"><i>“há algo de Jesus Cristo em toda prostituta”</i></span><span style="font-weight: 400">, como colocado pela escritora e ativista travesti </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://buzzfeed.com.br/post/dando-o-truque-pra-falar-de-sexo">Amara Moira</a></span><span style="font-weight: 400">.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Hilda Hilst TV Cultura" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/5yeFhO4G2OQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400">Para a narradora é claro: esses homens não conhecem </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://s2.glbimg.com/HpnOaX3Qn1I-_cX0IqAN2ofkHXQ=/0x0:2250x1497/1008x0/smart/filters:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2018/9/e/gMGZXtQPGlWONZsHQZXA/000-19e36c.jpg">Courbet</a></span><span style="font-weight: 400">. </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.pariscityvision.com/pt/paris/museus-de-paris/museu-de-orsay/origem-do-mundo">Não sabem as origens desses mundos</a></span><span style="font-weight: 400"> que tanto pensam dominar. Pois, em </span><span style="font-weight: 400"><i>Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, </i></span><span style="font-weight: 400">quem monta o mundo é o afago de uma puta. É a manutenção do lar por uma esposa. É a escuta rebelde, cheia de atrito, de uma jovem em um escritório quase abandonado em um prédio na Rua Marquês de Olinda, no Botafogo. Tudo que o patriarcado assume como seus feitos só existe pois essas mulheres, que, nessa discursividade masculina, são todas as mesmas, estão submetidas a uma compulsória escuta. Mas, em um ponto dessa narrativa, construído em um gigante </span><span style="font-weight: 400"><i>crescendo,</i></span><span style="font-weight: 400"> um som surdo toma os ouvidos. E as mulheres gritam. É onde a história termina. Mas não acaba.</span></p>
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		<title>Bobbi amava Frances que ama Nick que ama Melissa</title>
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		<pubDate>Wed, 25 May 2022 20:45:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Lopes Gomez Frances e Bobbi são melhores amigas que já namoraram. Frances tem uma queda por Nick, e Bobbi, por Melissa. Nick e Melissa são casados. É partindo desse emaranhado que Sally Rooney, em seu livro Conversas entre amigos, encontra terreno fértil para dissecar relacionamentos contemporâneos e seus envolvidos, assim como as dinâmicas sociais &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/conversas-entre-amigos-5-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Bobbi amava Frances que ama Nick que ama Melissa"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp"></div>
<figure id="attachment_27701" aria-describedby="caption-attachment-27701" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27701 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/conversaentreamigos.jpg" alt="Moldura vermelha retangular. No canto superior esquerdo e no canto inferior direito, vemos o logotipo do Persona, o desenho de um olho com um símbolo de play ao centro. Ao centro do retângulo, vemos a capa do livro Conversas entre amigos. A capa tem o fundo verde azulado. Na parte superior central, vemos a palavra &quot;conversas&quot; em uma fonte branca sem serifa, alinhada à esquerda. Abaixo, vemos a palavra &quot;entre&quot; na mesma fonte, alinhada à direita. Abaixo, vemos a palavra &quot;amigos&quot; centralizada. Centralizada na capa, vemos as palavra &quot;Sally Rooney&quot;, na mesma fonte, na cor preta. Na parte inferior da capa, vemos uma mulher branca de cabelos castanhos lisos, de costas, à esquerda. À direita, vemos uma mulher branca de cabelos pretos presos em um rabo de cavalo e usando óculos rosa, de perfil." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/conversaentreamigos.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/conversaentreamigos-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/conversaentreamigos-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27701" class="wp-caption-text">Lançado em 2017, Conversas entre amigos completa 5 anos no mês de lançamento da série adaptada (Foto: Editora Alfaguara)</figcaption></figure>
<p><strong>Vitória Lopes Gomez</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Frances e Bobbi são melhores amigas que já namoraram. Frances tem uma queda por Nick, e Bobbi, por Melissa. Nick e Melissa são casados. É partindo desse emaranhado que Sally Rooney, em seu livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Conversas entre amigos</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">encontra terreno fértil para dissecar relacionamentos contemporâneos e seus envolvidos, assim como as dinâmicas sociais e de poder das </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ho5ja2trqrs&amp;t=265s"><span style="font-weight: 400;">relações interpessoais</span></a><span style="font-weight: 400;"> modernas. Se a irlandesa escreve, essencialmente, sobre pessoas normais vivendo sua realidade &#8211; mesmo que seja uma realidade inventada, somente baseada na vida real da autora ,- essa obra de estreia  mostra que, mesmo antes do fenômeno </span><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas normais</span></i><span style="font-weight: 400;">, Rooney já mostrava a potência de suas </span><a href="https://www.dailymail.co.uk/femail/article-10820757/How-Sally-Rooney-31-drew-experiences-growing-rural-Ireland-write-hit-novels.html"><span style="font-weight: 400;">histórias fictícias reais</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-27690"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No enredo do </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-janeiro-de-2022/"><span style="font-weight: 400;">livro</span></a><span style="font-weight: 400;">, a dupla de amigas se apresenta recitando poemas, escritos por Frances. Em um dos eventos, conhecem Melissa, uma escritora e fotógrafa bem-estabelecida, que pretende escrever um perfil sobre as duas jovens. Para isso, as convida a sua casa. Na residência de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Z1S5bOdJq3U&amp;t=0s"><span style="font-weight: 400;">classe média</span></a><span style="font-weight: 400;"> no centro de Dublin, história vem, história vai e não demora para os pares trocados se conectarem. Com Bobbi e Melissa preenchendo os espaços com suas personalidades, </span><a href="https://open.spotify.com/playlist/4OobxWGzjHpUMaQnZmDvTs?si=eabd567c131a49bd"><span style="font-weight: 400;">Frances</span></a><span style="font-weight: 400;"> captura o olhar de Nick, o marido de Melissa, que parece tão perdido ao lado da mulher quanto ela com Bobbi.</span></p>
<figure id="attachment_27691" aria-describedby="caption-attachment-27691" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-27691" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-2-800x320.jpg" alt="Foto da autora Sally Rooney. Em frente a um fundo desfocado, em que vemos um bosque com folhagens verdes e um tronco de árvore, à esquerda, vemos Rooney ao centro, do tronco para cima. Ela é uma mulher branca, de cabelos castanhos lisos na altura do ombro, aparentando cerca de 30 anos, vestindo uma camisa branca e com o rosto inclinado para a direita." width="800" height="320" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-2-800x320.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-2-768x308.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-2.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27691" class="wp-caption-text">No Brasil, Conversas entre amigos foi publicado pela Editora Alfaguara, com tradução de Débora Landsberg (Foto: Ellius Grace)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Conversations with friends </span></i><span style="font-weight: 400;">(o título original)</span> <span style="font-weight: 400;">é o primeiro livro publicado por Sally Rooney, que estourou com seu lançamento seguinte, </span><a href="https://personaunesp.com.br/sally-rooney-pessoas-normais-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas normais</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Nesse segundo, a força gravitacional que move a narrativa é o (eventual) casal Connell e Marianne. Dos 16 aos 20 e tantos anos, os dois passam da ingênua adolescência à desafiadora vida adulta um na companhia do outro, ora em um relacionamento romântico, ora aprendendo a viver sem ele. Já em </span><a href="https://personaunesp.com.br/belo-mundo-onde-voce-esta-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Belo mundo, onde você está</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o terceiro e mais recente romance da autora, Alice e Eileen são velhas amigas que se correspondem por </span><i><span style="font-weight: 400;">e-mail</span></i><span style="font-weight: 400;">. Com quase 30, o foco das protagonistas já não é o amadurecimento, mas outros, refletidos pelos da própria autora: vida profissional, relações românticas e de amizade menos idealizadas, capitalismo e reflexões acerca até do mercado editorial &#8211; esse, que </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/sally-rooney-lanca-belo-mundo-onde-voce-esta-avalia-impacto-de-normal-people-minha-vida-foi-dominada-pelo-sucesso-dos-meus-livros-anteriores-25182547"><span style="font-weight: 400;">Rooney está inserida</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; representam uma fase diferente da qual Connell e Marianne passaram. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo antes de </span><a href="https://personaunesp.com.br/normal-people-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas normais</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">Belo mundo</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Conversas entre amigos</span></i><span style="font-weight: 400;"> soa quase como um meio-termo entre as realidades. Aqui, as protagonistas Frances e Bobbi já deixaram para trás a inocência da adolescência, mas, nos primeiros anos da casa dos vinte, não se estabeleceram o suficiente para se sentirem parte do mundo adulto &#8211; isso, como todo jovem adulto. A autora, porém, não se preocupa em verbalizar os anseios das duas explicitamente &#8211; e, na verdade, não o fez em nenhum de seus livros. Já virou </span><a href="https://lithub.com/sally-rooney-is-the-only-novelist-on-times-list-of-most-influential-people-of-the-year/"><span style="font-weight: 400;">marca registrada</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Rooney deixar o leitor sentir por si mesmo, apresentando somente situações e diálogos tão reais e relacionáveis que não conseguimos fazer diferente de nos imaginarmos no lugar das personagens.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;Bobbi disse que não achava que eu tinha uma ‘personalidade verdadeira’, mas declarou que não se tratava de um elogio. De modo geral, eu concordava com a avaliação. A qualquer instante sentia que poderia fazer ou dizer qualquer coisa, e só depois pensar: ah, então sou esse tipo de pessoa&#8221;.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Do outro lado da moeda de </span><a href="https://www.theguardian.com/books/2022/may/22/sasha-lane-and-alison-oliver-on-conversations-with-friends-sally-rooney"><span style="font-weight: 400;">Frances e Bobbi</span></a><span style="font-weight: 400;">, estão Nick e Melissa. O casal é mais velho, cada um com seus 30 e poucos anos, tem um ciclo de amigos e uma casa invejável, são (aparentemente) bem resolvidos, e profissional e financeiramente estáveis. Tudo isso, coisas que as duas não são. Apesar dos mundos diferentes, a conexão das personalidades acaba sendo inevitável no decorrer dos encontros. Assim como Bobbi, Melissa é confiante, o tipo de pessoa que preenche os ambientes em que entra, e sua convicção e força são claras, até intimidadoras. Já </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=YWV3GEtWvIw"><span style="font-weight: 400;">Nick</span></a><span style="font-weight: 400;"> se assemelha a Frances: ele, um ator bonito e relativamente famoso, apesar de mediano em sua carreira, serve como um marido troféu, e parece se curvar à presença imponente da esposa &#8211; da mesma forma que a protagonista se sentia em seu antigo relacionamento com a amiga.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir do jantar da entrevista, o destino parece premeditado, mas nunca previsível. Bobbi, naturalmente, se conecta a Melissa e repele </span><a href="https://open.spotify.com/playlist/5juZNPnXQe1DGrCHlrllPR?si=bb23a7b2582041bf"><span style="font-weight: 400;">Nick</span></a><span style="font-weight: 400;">. Por mais escancarada e sem vergonha que seja, a queda da jovem não vai muito além disso e a relação permanece platônica. Afinal, como Bobbi sempre lembra, ela é casada. Já com Frances e Nick acontece o contrário e a conexão se constrói lentamente, com a culpa pela relação extraconjugal sempre como um empecilho entre os dois. Do ponto inicial de terem em comum somente situações em que ficam deslocados ao mesmo tempo &#8211; além, claro, das companheiras extrovertidas -, os dois passam de meros parceiros de desconforto para descobrirem um no outro uma ligação um tanto mais </span><a href="https://brasil.elpais.com/eps/2021-09-03/sally-rooney-aceitar-a-intimidade-e-aceitar-a-possibilidade-de-que-outra-pessoa-nos-magoe.html"><span style="font-weight: 400;">profunda e complicada</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_27692" aria-describedby="caption-attachment-27692" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-27692" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-3-800x567.jpg" alt="Imagem de divulgação da série Conversas entre amigos. A foto foi tirada em uma praia e os protagonistas estão sentados em um rochedo à beira mar. Em cima do rochedo, ao centro, vemos uma mulher branca, loira, de cerca de 35 anos, vestindo um vestido branco, em pé. Ao lado dela, sentada na rocha, vemos uma mulher negra, usando uma bandana, regata, camisa e shorts de praia, aparentando cerca de 25 anos. Ao lado dela, no lado direito da foto, vemos uma mulher branca, de cabelos castanhos lisos, usando um vestido azul e branco, em pé, olhando para o lado. Ao seu lado, vemos um homem loiro, de cerca de 35 anos, usando camisa e shorts azul, sentado apoiado no rochedo." width="800" height="567" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-3-800x567.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-3-1024x726.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-3-768x545.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-3-1536x1089.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-3-1200x851.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-3.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27692" class="wp-caption-text">Assim como Pessoas normais, Conversas entre amigos ganhou uma minissérie de 12 episódios adaptada pela Hulu em parceria com a BBC (Foto: Hulu)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A verdade é que não parece haver muito ao que se apegar nessa nova relação. Quanto mais próximos Nick e Frances se tornam, mas indecifrável ele fica, e a incerteza move o relacionamento. Isso até para o leitor: com a narração da jovem protagonista, </span><i><span style="font-weight: 400;">Conversas entre amigos </span></i><span style="font-weight: 400;">se passa sob o olhar inseguro e acanhado dela. A forma com que vemos os personagens, inclusive, é sob sua visão. </span><a href="https://open.spotify.com/playlist/2nM48XVy0Vf7TpLtfwLtlD?si=af029c2328504902"><span style="font-weight: 400;">Bobbi</span></a><span style="font-weight: 400;"> parece a melhor pessoa do mundo à princípio, articulada, faladeira, engraçada, convicta em seus posicionamentos… até discordar das ações de Frances. Já </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Rfn1yngeXI0"><span style="font-weight: 400;">Melissa</span></a><span style="font-weight: 400;"> fica entre a megera que pisa no marido e a mulher decidida e bem-sucedida que a jovem sonha em ser. Nick, ora é indecifravelmente atraente, um mistério a ser decifrado, ora submisso e indeciso, misterioso só porque não sabe o que quer. De novo, em nenhum momento </span><a href="https://time.com/6094903/sally-rooney-millennial-novel/"><span style="font-weight: 400;">Rooney</span></a><span style="font-weight: 400;"> julga seus protagonistas: eles são o que são, cada um com seus motivos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Avançando nas 264 páginas do livro, os sentimentos e emoções vêm espontaneamente, conforme os quatro personagens vivem, se relacionam e, bem, conversam. </span><i><span style="font-weight: 400;">Conversas entre amigos</span></i><span style="font-weight: 400;">, como outras obras de Sally Rooney, usa do subtexto de um relacionamento &#8211; dessa vez, um fora da configuração tradicional &#8211; </span><a href="https://www.monitordooriente.com/20211025-sally-rooney-susan-sarandon-e-milhares-de-outras-estao-do-lado-certo-da-historia/"><span style="font-weight: 400;">para ir além</span></a><span style="font-weight: 400;">. Motivados pelas ações, percepções e desejos dos protagonistas, o livro discute as dinâmicas de poder dessas conexões, da monogamia à diferença de tratamento entre homens e mulheres em uma relaçãp heterossexual. Também (e, de novo, como em outras obras da irlandesa), os quatro refletem sobre novas possibilidades e dinâmicas de relacionamento, capitalismo, vida profissional, saúde mental, política e classes sociais.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;Ele tinha mais respeito por Melissa do que por mim? Gostava mais dela? Se ambas fôssemos morrer em um edifício em chamas e ele só pudesse salvar uma de nós, será que era óbvio que salvaria Melissa e não eu? Era praticamente diabólico transar com alguém que mais tarde deixaria você morrer queimada&#8221;.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse </span><i><span style="font-weight: 400;">coming-of-age</span></i><span style="font-weight: 400;"> peculiar e envolvente, não há espaços para julgamentos, não há lado certo ou errado. Definitivamente, não há moral da história. Os finais de Rooney escancaram o caráter imprevisível das relações humanas, mas também o lado esperançoso. Na tradução de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=pqWEiiELzfo"><i><span style="font-weight: 400;">Conversas entre amigos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, Débora Landsberg, que trabalhou nos três romances publicados da autora, mantém a melancolia da escrita, assim como a forma direta, objetiva e fluida da irlandesa de escrever. Na estreia de seu estilo, Sally Rooney aprofunda ainda mais seus personagens ao não indicar quem verbaliza cada coisa: os diálogos não recebem pontuação precisa e, mesmo assim, sabemos quem diz o que ao final. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Completando 5 anos de idade em 2022, </span><i><span style="font-weight: 400;">Conversas entre amigos</span></i><span style="font-weight: 400;"> ganhou sua adaptação homônima para TV, que, assim como </span><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas normais</span></i><span style="font-weight: 400;">, teve o </span><a href="https://www.express.co.uk/showbiz/tv-radio/1612706/Sally-Rooney-Normal-People-Conversations-With-Friends"><span style="font-weight: 400;">dedo da autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> na concepção. Há meia década, porém, a primeira aparição das duas jovens rebeldes e cheias de idealizações, desconstruindo as aparências do meio adulto ao passo que tentam descobrir seu próprio lugar no mundo, não era uma projeto de comentário social para Sally Rooney. Na verdade, para ela, a situação era mais sobre </span><i><span style="font-weight: 400;"> “</span></i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=iIGSMGdgCyQ"><i><span style="font-weight: 400;">observar a textura do mundo</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> em que estava habitando”</span></i><span style="font-weight: 400;">, absorvendo-o. E na vida real, sobre a qual ela tanto escreve, realmente não há moral da história. O que há são pessoas como Frances e como Bobbi, como Melissa e como Nick, que navegam seus sentimentos, desejos e as consequências de suas ações. Com sua delicadeza, honestidade e olhar apurado, Rooney simplesmente os capta e coloca em palavras.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Conversations with Friends | Official Trailer | Hulu" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/3lvxQuOvf9s?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Homens sem mulheres e o universo melancólico de Haruki Murakami</title>
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		<pubDate>Mon, 09 May 2022 19:03:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade “Como um dos homens sem mulheres, eu rezo do fundo do coração. Parece que não há nada que eu possa fazer agora a não ser rezar. Por enquanto. Possivelmente.” O mundo ficcional de Haruki Murakami se parece com o nosso, revestindo-se de uma aura melancólica e acinzentada, na qual habitam indivíduos sem rumo, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/homens-sem-mulheres-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Homens sem mulheres e o universo melancólico de Haruki Murakami"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27538" aria-describedby="caption-attachment-27538" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27538 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/WP.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/WP.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/WP-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/WP-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27538" class="wp-caption-text">Com uma de suas narrativas adaptadas para o Cinema, Homens sem mulheres foi a leitura do mês de Março de 2022 no Clube do Livro do Persona (Foto: Alfaguara/Arte: Jho Brunhara)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Como um dos homens sem mulheres, eu rezo do fundo do coração. Parece que não há nada que eu possa fazer agora a não ser rezar. Por enquanto. Possivelmente.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O mundo ficcional de </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-marco-de-2022/"><span style="font-weight: 400;">Haruki Murakami</span></a><span style="font-weight: 400;"> se parece com o nosso, revestindo-se de uma aura melancólica e acinzentada, na qual habitam indivíduos sem rumo, quase vazios, e à deriva. Somos lembrados que estamos diante de uma obra ficcional quando encontramos vestígios desse mundo onírico em um lugar distante, semelhante a uma memória ainda não vivenciada. Em sete narrativas interligadas por perdas de vários os tipos – sentimentais, físicas, futuras e passadas –, </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=28000054"><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">dá voz a um universo que não parece mais existir: um mundo distante, dominado pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">jazz</span></i><span style="font-weight: 400;">, sonhos perdidos e rostos caídos. </span></p>
<p><span id="more-27512"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nascido no Japão em 12 de janeiro de 1949, Haruki Murakami consolidou-se uma das vozes narrativas mais conceituadas das últimas décadas. Seus romances e contos formam um estranho universo em que o vazio existencial se expande e ressoa na mistura do real e do fantástico, característica demonstrada de forma magistral em </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=28000151"><i><span style="font-weight: 400;">Crônica do Pássaro de Corda</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1994). Após se formar na Universidade de Waseda – onde dedicou-se, sobretudo, aos Estudos Teatrais –, Murakami abriu um pequeno bar de </span><i><span style="font-weight: 400;">jazz</span></i><span style="font-weight: 400;"> chamado </span><i><span style="font-weight: 400;">Peter Cat</span></i><span style="font-weight: 400;">, o qual administrou durante oito anos ao lado de sua esposa, Yoko, e chegou a traduzir para o japonês obras de seus autores favoritos: </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-apanhador-no-campo-de-centeio-70-anos/"><span style="font-weight: 400;">J.D. Salinger</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-grande-gatsby/"><span style="font-weight: 400;">F. Scott Fitzgerald</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Raymond Carver.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com seu primeiro livro, </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=28000277"><i><span style="font-weight: 400;">Ouça a canção do vento</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1978), ganhou o Prêmio </span><i><span style="font-weight: 400;">Gunzo </span></i><span style="font-weight: 400;">de Novos Escritores, recebendo posteriormente o Prêmio Franz Kafka e o Prêmio Jerusalém. Atualmente, o autor ostenta uma obra traduzida para mais de cinquenta idiomas; mas, diferente de seus trabalhos pregressos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres </span></i><span style="font-weight: 400;">tem menos elementos surreais, e mantém os pés na realidade – mesmo que em vários momentos tente viajar através dos sentimentos.</span></p>
<figure id="attachment_27513" aria-describedby="caption-attachment-27513" style="width: 2274px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27513 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1.jpg" alt="Foto em preto e branco do escritor japonês Haruki Murakami. Ele é um homem com traços asiáticos, possui cabelo e barba grisalhos, e na foto está olhando diretamente para a câmera, com a mão esquerda sobre a têmpora esquerda e seu braço direito apoiado sobre o braço esquerdo. O fundo da imagem é branco. " width="2274" height="2560" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1.jpg 2274w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-711x800.jpg 711w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-910x1024.jpg 910w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-768x865.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-1364x1536.jpg 1364w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-1819x2048.jpg 1819w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-1200x1351.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27513" class="wp-caption-text">No conto Samsa apaixonado, Murakami recria A Metamorfose, de Franz Kafka, mas transforma um inseto em ser humano, subvertendo o sentido daquilo que seria a verdadeira dimensão monstruosa (Foto: Time Magazine)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na fotografia, há o conceito de “</span><a href="https://spiegato.com/pt/o-que-e-espaco-negativo"><span style="font-weight: 400;">espaço negativo</span></a><span style="font-weight: 400;">”, que diz respeito ao entorno daquilo que está devidamente enquadrado na imagem, compondo o assunto sem necessariamente ser o assunto. Neste livro, o espaço negativo são as mulheres, e, como seu título pode anunciar, retrata os relacionamentos amorosos e suas perdas, refletindo sobre isso através de uma visão muitas vezes idealizada que Murakami mantém ao retratar o gênero feminino, sempre através da perspectiva masculina – até mesmo em </span><i><span style="font-weight: 400;">Sherazade</span></i><span style="font-weight: 400;">, única narrativa em que a protagonista é uma mulher, mas cujo foco está na narração em terceira pessoa do autor. Mesmo sem juízo de valor, </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres </span></i><span style="font-weight: 400;">parece retratar mulheres que invadem a vida dos homens e desaparecem – às vezes por opção, às vezes por força maior –, e deixam uma marca na vida daqueles que as amam. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, o escritor japonês reflete mais sobre a solidão do que sobre os relacionamentos, especificamente, o que dá margem a interpretações mais amplas sobre o contexto da obra. Não espere, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres</span></i><span style="font-weight: 400;">, um clímax espalhafatoso em determinado momento. É como se todos os contos se desenrolassem em seu estado permanente, cuja construção se estabelece através das várias camadas narrativas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na premiada adaptação cinematográfica de </span><a href="https://personaunesp.com.br/drive-my-car-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Drive My Car</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – conto em que um ator precisa de um motorista e se espanta ao encontrar uma mulher para o cargo –, esses aspectos foram contemplados: a construção lenta da narrativa, as diversas camadas da história e a aura acinzentada que perpassa a vida, as memórias e a cidade dos personagens. O resultado, além do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">de Melhor Filme Internacional, foi a consolidação do longa como um clássico imediatamente depois de seu lançamento. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Kafuku pensou em dormir um pouco. Dormiria profundamente por um tempo e acordaria. Dez ou quinze minutos, algo assim. Em seguida voltaria ao palco para atuar. Debaixo dos holofotes, declamaria as falas determinadas. Receberia aplausos e a cortina se baixaria. Por um momento, se afastaria de si mesmo, e voltaria. Mas, para ser exato, não voltaria ao mesmo lugar de antes.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Drive My Car</span></i><span style="font-weight: 400;">, vemos dois personagens, Kafuku e Misaki, que se complementam através da solidão compartilhada, mas que manifestam seus sentimentos de formas bastante distintas. Kafuku foi proibido de dirigir depois de um acidente no qual foi encontrado bêbado, e por essa razão a companhia de Teatro pela qual está interpretando </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=85171"><i><span style="font-weight: 400;">Tio Vânia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Tchékhov, decide pagar pelo seu transporte durante a temporada de exibições. Ele é forçado, portanto, a encontrar um motorista – inicialmente havia planejado um homem para o cargo –, mas se surpreende ao encontrar Misaki, que foi indicada através de um conhecido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conforme os dias se passam, a curiosidade de Misaki aumenta, devido ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/pedregulhos-critica/"><span style="font-weight: 400;">silêncio avassalador</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Kafuku durante as viagens. Ela quer saber por quais razões ele não possui amigos, então inicia o contato, fazendo-o revelar que, na verdade, estabeleceu uma amizade com um dos antigos amantes da sua esposa, morta há algum tempo. Aos poucos, o viúvo começa a ditar mais detalhes sobre sua vida íntima, e chega a contar que sempre soube das traições e sua ex-esposa também tinha consciência de que não havia mais segredo, e mesmo assim ninguém dizia nada um ao outro, pois </span><i><span style="font-weight: 400;">“todos nós interpretamos um papel”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto Kafuku se reveste de uma aura de “homem racional” e luta consigo próprio para entender os eventos ocorridos, Misaki se afunda no trabalho e na introspecção para tentar esquecer seus próprios problemas, alimentando uma visão negativa de si mesma em consequência das situações em que foi submetida anteriormente (o </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-filha-perdida-critica/"><span style="font-weight: 400;">abandono paterno</span></a><span style="font-weight: 400;"> e as violências que sofreu de sua mãe). De forma lenta, Haruki Murakami constrói uma narrativa que evoca magistralmente a importância do passado para moldar nossas características atuais, nas quais sempre carregamos as mágoas ancestrais no horizonte de nossas escolhas.</span></p>
<figure id="attachment_27514" aria-describedby="caption-attachment-27514" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27514 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2.png" alt="Cena do filme Drive My Car. Na imagem, há um homem sentado em uma mesa, com uma luminária acesa à sua direita. Ele está de costas para nós. À frente, há uma janela transparente que dá vista para um mar de cor azul. As luzes do ambiente são baixas, dando um tom sombreado a todo o quarto. " width="1280" height="694" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2.png 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2-800x434.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2-1024x555.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2-768x416.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2-1200x651.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27514" class="wp-caption-text">Drive My Car, adaptação do conto homônimo feita pelo diretor Ryûsuke Hamaguchi, concorreu em quatro categorias no Oscar 2022, vencendo a de Melhor Filme Internacional (Foto: C&amp;I Entertainment/MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres </span></i><span style="font-weight: 400;">foi publicado pela primeira vez, em 2014, Murakami já detinha prestígio e reconhecimento internacional, principalmente pela já citada </span><i><span style="font-weight: 400;">Crônica do Pássaro de Corda </span></i><span style="font-weight: 400;">– elogiada pelo conservador crítico Harold Bloom (1930-2019) – e </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=27281428"><i><span style="font-weight: 400;">Kafka à beira-mar</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2002). Mas apesar de Murakami ser um dos autores mais conceituados nos dias atuais, ainda convive à sombra dos escritores subjugados – por uma parcela ainda elitista – como “autor de entretenimento”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa é uma categoria muito utilizada para tentar designar obras que não exijam esforço intelectual, que oferecem somente um espairecimento ou fuga da vida cotidiana, mas que nada criam de permanente às nossas vidas, como os grandes clássicos atemporais realmente fazem. A verdade é que qualquer coisa pode ser intensa se você olhar bem, e o fato de uma obra literária não ter sido reconhecida por sua dimensão não declarada evidencia mais suas qualidades como leitor do que as qualidades da obra. Existem livros ruins, todavia é preciso admitir a posição pessoal e imprescindível à afirmação: não representa a totalidade dos leitores da obra, e pode realmente trazer </span><a href="https://personaunesp.com.br/benedetta-critica/"><span style="font-weight: 400;">revelações profundas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e aumentar o entendimento do mundo de certas pessoas. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“De uma forma ou de outra, você também vai ser um dos homens sem mulheres. De repente. E, uma vez que você se tornar um dos homens sem mulheres, a cor da solidão se impregnará no seu corpo. Como se fosse uma mancha de vinho tinto em um tapete de cor clara.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O exercício literário, de alguma forma, tem a ver com caminhar por consciências alheias, com entender e compreender as angústias e segregações ligadas ao racismo na leitura de uma obra de James Baldwin, Toni Morrison ou </span><a href="https://personaunesp.com.br/quarto-de-despejo-critica/"><span style="font-weight: 400;">Carolina Maria de Jesus</span></a><span style="font-weight: 400;">; analisar, através da obra de </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-cao-que-nao-se-cala-critica/"><span style="font-weight: 400;">David Foster Wallace</span></a><span style="font-weight: 400;">, a dimensão solitária a qual somos submetidos devido a enxurrada de publicidade vazia e interesseira que recebemos diariamente; vislumbrar a longa caminhada dos dias como inerte e indiferente a nós, como Albert Camus observou; tentar se colocar no lugar de um indivíduo com problemas de vícios de todos os tipos ao ler um romance de William S. Burroughs; e ver, de alguma forma, o núcleo cinza dos dias nos contos que Murakami redige em </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres.</span></i><span style="font-weight: 400;"> De algum modo, tudo isso também tem a ver com gerar empatia.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, qualquer debate sobre Arte e suas qualidades está sujeito a um emaranhado de problemas, sempre resvalando em questões de gênero, desigualdade social e elitismo. Talvez seja interessante perceber o quanto a visão publicitária tende a reduzir uma obra ficcional, uma vez que seu foco, quase sempre, está na projeção de um sentimento específico no leitor, geralmente a catarse. Quando se lê um romance cujo intuito é, deliberadamente, a criação de um ambiente em que se consolide o quanto determinado autor é genial e meu-Deus-olhe-o-que-ele-está-fazendo, o resultado é dificilmente o esperado. Isso porque obras artísticas são abertas à interpretação, como </span><a href="https://editoraperspectiva.com.br/produtos/obra-aberta-revista-e-ampliada/"><span style="font-weight: 400;">Umberto Eco</span></a><span style="font-weight: 400;"> constatou, mas principalmente porque, depois que o escritor termina e publica o livro, se torna apenas uma forma de linguagem, capaz de gerar sentidos distintos em cada um. Murakami parece ter consciência disso, e por essa razão suas histórias têm as descrições narrativas como ponto principal.</span></p>
<figure id="attachment_27515" aria-describedby="caption-attachment-27515" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27515 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-3.jpeg" alt="Foto em preto e branco do escritor japonês Haruki Murakami. Ele é um homem com traços asiáticos, possui cabelo e barba grisalhos, e na foto está sentado, olhando diretamente para a câmera, com a mão esquerda sobre o braço direito e seu braço direito apoiado sobre a perna esquerda. Ele veste uma camiseta preta e uma calça cinza. O fundo da imagem também é cinza." width="1024" height="810" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-3.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-3-800x633.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-3-768x608.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27515" class="wp-caption-text">Além de escritor, Murakami é musicólogo, e as referências a sua banda favorita, os Beatles, refletem-se ao longo da obra; os contos Drive My Car e Yesterday fazem homenagem a duas canções dos Garotos de Liverpool (Foto: Alfaguara)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O estilo narrativo de Murakami se estabelece através de uma prosa simples, e não há qualquer inventividade linguística em seus escritos. O ouro do autor está mais no seu domínio narrativo do que em qualquer outra coisa, cuja característica principal é sua descrição minuciosa e expositiva na medida certa, sem entregar demais e ainda assim permitindo que o </span><a href="https://personaunesp.com.br/jorge-luis-borges-morte-35-anos/"><span style="font-weight: 400;">jogo ficcional</span></a><span style="font-weight: 400;"> se consolide através da imaginação dos leitores. O que torna seus livros tão atraentes é a possibilidade de largá-los e depois retornar até eles com a consciência de que haverá, no mínimo, uma boa história a ser lida, sem a necessidade de se lembrar daquilo que leu anteriormente – talvez por isso haja confusões sobre o público que Murakami quer realmente atingir. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todavia, obras também podem ser contaminadas pela visão industrial. Desse modo, surgem as obras possivelmente ruins em sua essência, trabalhos cujo aspecto fundamental seja a escalada comercial e venda em massa, o interesse puro e genuíno em se transformar em escritor como um gerente que administra uma empresa, sem considerar qualquer aspecto relacionado à Arte. Talvez o choque primordial ao ler os contos de Murakami seja a compreensão de que as coisas se desenvolvem lentamente – como em </span><i><span style="font-weight: 400;">Kino</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma das maiores narrativas da coletânea e, consequentemente, uma das mais demoradas –, pois não há pressa no autor em estabelecer a ambientação de suas histórias, agindo em contraste ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/regresso-a-reims-fragmentos-critica/"><span style="font-weight: 400;">mundo frenético da contemporaneidade</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Os galhos de salgueiro continuavam ondulando ao vento do início de verão. Em um pequeno quarto escuro no profundo interior de Kino, a mão quente de alguém foi estendida e tentou pousar sobre a dele. Com os olhos fortemente cerrados, Kino sentiu o calor dessa mão e sua espessura macia. Era algo que fora afastado dele havia muito tempo. Sim, estou magoado. Muito, profundamente, Kino disse a si mesmo. E chorou. Nesse quarto escuro e silencioso.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">À medida que a coletânea avança, as histórias assumem um caráter mais sombrio. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Órgão independente</span></i><span style="font-weight: 400;">, conhecemos o Dr. Tokai, um cirurgião plástico de 52 anos que nunca foi casado nem nunca desejou se casar. Ele se relaciona com diversas mulheres, sem se entregar totalmente a nenhuma delas, mas, quando se apaixona de fato, tudo se transforma em uma calamidade. Surge, através das diversas metáforas deixadas como pistas na narrativa, a possibilidade de entender o amor como uma doença incurável e violenta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com seu título retirado de um conto de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/podcasts/2022/04/podcast-discute-obra-de-hemingway-e-a-masculinidade-do-nosso-tempo-ouca.shtml"><span style="font-weight: 400;">Ernest Hemingway</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres </span></i><span style="font-weight: 400;">dá vida a indivíduos que optam pela solidão numa tentativa de afastar o sofrimento, mas que, inevitavelmente, intensificam as duas sensações. Ao contrário dos personagens de Hemingway, excessivamente preocupados com virilidade – seres quebrados que encontram vazão no afeto, sem deixar que isso mude seus próprios valores –, os personagens de Haruki Murakami não conseguem identificar os motivos da dor. A parte difícil é constatar, indigestamente, que não possuímos controle sobre quase nada – muitas vezes, nem sobre nós mesmos. </span></p>
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