Stranger Things traz os anos 80 à geração Netflix

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Matheus Fernandes

Em uma cidade pacata do interior da América, cenário padrão de 10 a cada 10 filmes da década de 80, uma criança, Will Byers, desaparece enquanto volta para casa de uma noite de Dungeons & Dragons com os amigos. Ao mesmo tempo que a cidade se mobiliza para procurar o jovem, uma garota com poderes especiais, Eleven, escapa de um misterioso composto militar, que tudo indica, tem relação com os acontecimentos recentes. Essa é a premissa básica de Stranger Things, nova série de terror original do Netflix, assinada pelos irmãos Duffer.

A ação principal é dividida em alguns núcleos, com seus subplots. O primeiro gira em torno dos garotos Mike, Dustin e Lucas, os amigos de Will, tentando resolver o mistério por conta própria. Para isso contam com a ajuda de Eleven, híbrido de ET, no sentido de ser uma criatura exterior à realidade, com alguns poderes que lembram Carrie e Firestarter. Essa parte é bem próxima dos filmes de aventura da época, como Goonies e ET, de Stephen Spielberg, e Conta Comigo, escrito por Stephen King. As referências ao extraterrestre de Spielberg estão em todo lugar: no RPG de mesa, nas bicicletas, no papel do governo americano e até na peruca que a personagem usa para se disfarçar.

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El em Stranger Things x ET em ET

Os filmes adolescentes de John Hughes aparecem nas cenas com a irmã de Mike e o irmão de Will. Tudo está aqui: o romance juvenil, os personagens estereotipado, o cenário escolar nas high schools americanas. Steven é o atleta valentão, Nancy a garota inteligente, Johnattan o outsider. Quando Barbara, melhor amiga de Nancy, desaparece durante uma festa, a trama de mistérios engloba esse grupo.

O terceiro, o mais próximo dos horror movies, traz um policial de passado conturbado, que apesar de inicialmente incrédulo vai sendo convencido pelo caso, e a mãe de Will, Joyce, interpretada por Wynona Ryder, de volta a papéis de destaque. Joyce tenta manter a sanidade enquanto recebe mensagens paranormais e é perseguida por uma criatura, arquétipo essencial da década, que reúne todos os medos da sociedade americana em uma única entidade, seja ela um tubarão, um extraterrestre ou um pesadelo.

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Wynona Ryder em cena de Stranger Things. A fotografia é um dos pontos fortes da série.

Ao longo dos oito episódios da primeira temporada, conforme a trama principal se desenvolve, esses grupos vão se aproximando e unindo, em torno da resolução do mistério, envolto em referências à ação secreta das agências do governo americano e experimentos reais do período de guerra fria, como o MKULTRA. O pacing da série merece elogios, adicionando e conectando elementos novos de forma pensada para manter o interesse do espectador, característica típica das séries do Netflix, que contam com um pesado banco de dados e estudos por trás.

O tom da série é ditado pelo score da banda texana S U R V I V E, que retoma a atmosfera tensa dos sintetizadores de John Carpenter, diretor e compositor de filmes como Halloween, Fuga de Nova York e A Bruma Assassina. Destaque desde a abertura da série, a trilha se une a outros trabalhos recentes na linha horror synth que se destacaram, como os de Disasterpeace para It Follows, Sinoia Caves para Beyond the Black Rainbow e Mica Levi para Under the Skin, três filmes que buscam inspiração estética nas mesmas fontes, ainda que com um público alvo diferente, esse último sendo referenciado diretamente em algumas cenas de experimentos com Eleven.

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Eleven e o alien the Under the Skin, um dos melhores filmes da década.

A soundtrack tem papel importante também. “Should I Stay or Should I Go?”, que funciona como leitmotiv de Will, toca em um momento de indecisão dos personagens, “Atmosphere”, do Joy Division, fazendo a trilha de uma cena de tristeza onde a reação é o silêncio, e “Heroes”, clássico de David Bowie, aqui na versão de Peter Gabriel, acompanhando o instante em que a jornada heróica das crianças.

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Os personagens tem bom gosto para filmes: Evil Dead, Tubarão e Enigma de Outro Mundo

Em nenhum momento a série esconde suas referências, transformando a falta de originalidade em sua força principal. Uma rápida olhada na parede dos personagens principais mostra uma série de posters que mais do que contextualizar temporalmente os eventos, servem como homenagens. O porão da casa dos Wheeler traz Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter, o quarto de Will Byers tem Tubarão, de Spielberg, seu irmão tem nas paredes Evil Dead, de Sam Raimi. Os personagens mencionam em conversas Poultergeist e Halloween. Até mesmo a fonte escolhida para o logo da série evoca os livros de Stephen King.

Ao fazer um mashup de todo o melhor da cultura mainstream de um período, com ajuda de score e pacing excelentes, Stranger Things agrada tanto os mais nostálgicos que buscam reviver o passado, quanto os mais jovens, tendo contato com as fontes pela primeira vez, com uma série que assim como suas inspirações, consegue superar os (inúmeros) defeitos envolvendo-os em uma aura de magia.

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