Donnie Darko e a esquizofrenia cotidiana

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Elisa Dias

Palavras soltas em uma página em branco não significam nada; porém, quando arranjadas em frases e textos, elas podem ter todos os significados que quisermos. Com Donnie Darko não há muita diferença: numa primeira visão, o filme parece ser composto simplesmente por uma viagem no tempo, esquizofrenia, um coelho gigante e o mínimo de sentido possível. Mas, quando percebemos a atemporalidade e o rico detalhamento da película, nos vemos confrontando uma obra, na pior das hipóteses, intrigante.

Donnie Darko, interpretado por Jake Gyllenhaal, é um garoto de 16 anos que descobre que o seu universo está perto do fim por meio do aviso de um coelho de 1,80m chamado Frank. A partir daí, o espectador acompanha a confusão da personagem frente à realidade que lhe fora apresentada, a busca incessante por respostas e a relação obscura entre Donnie e sua aparente ilusão – que se torna, ao longo de sua trajetória, tão real quanto o fim iminente.

Why are you wearing that stupid man suit?
Why are you wearing that stupid man suit?

Sendo o primeiro longa-metragem dirigido pelo até então roteirista Richard Kelly, a obra contou com poucas verbas, muito empenho e uma solidez inesperada. Apesar de parte das críticas negativas se aterem ao fim inconclusivo do filme, é este que garante seu sucesso, principalmente entre os jovens. A incerteza promovida pelo final em aberto foi um meio de deixar que a mente do espectador trabalhasse e desenvolvesse uma interpretação própria de toda a trama. Essa proposta de perspectiva individual liga-se a uma influência surrealista que, apesar de sutil, está muito presente na composição da obra.

O propósito do surrealismo é provocar uma interpretação única de cada indivíduo, a partir de suas ideologias e vivências, além de mesclar um mundo fantasioso e totalmente metafórico à realidade. Ao confrontarmos um quadro de Salvador Dalí ou uma fotografia de Man Ray, não conseguimos distinguir o real, a intenção do artista ou o que deveríamos sentir e perceber ao ter contato com esse material. Ademais, os sonhos são um elemento essencial na construção dessa narrativa, pois é por eles que Donnie estabelece os primeiros contatos com Frank e com a verdade sobre os dois universos da história.

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A Persistência da Memória (1934), de Salvador Dali

Já nas primeiras cenas, começa a ser revelado um dualismo que se estende por toda a obra, guiado por dois universos: o Universo Primário (realidade do início do filme) e o Universo Tangente (dimensão alternativa à primeira). Isso também pode ser observado na Linha da Vida (amor e medo), nas representações de “bem” e “mal”, nos contrastes de personalidade de algumas personagens (como a comparação da alienada Kite Farmer e Rose Darko), e tudo isso como referência à bidimensionalidade da narrativa.

A obra é ambientada nos anos 1980, e conta com uma série de referências à época. Um exemplo disso é o letreiro do cinema em que Donnie e Gretchen vão no Halloween, que anuncia Evil Dead e The Last Temptation Of Christ, clássicos oitentistas. Além disso, a ambientação toma forma nos figurinos e na trilha sonora – definida pelo diretor. Richard Kelly teve o cuidado de relacionar todas as letras com as cenas, criando uma contextualização interessante e notável na narrativa. Um dos momentos em que isso se torna mais aparente é a cena em que Donnie incendeia a casa de Jim Cunningham, enquanto o grupo de dança de sua irmã, o Sparkle Motion (nome nem um pouco sugestivo) se apresenta no show de talentos da escola ao som de “Notorious”, do Duran Duran.

Um ponto interessante do filme é a conversa de Donnie com seus amigos a respeito dos Smurfs. Mesmo sem essa intenção, a cena acaba envolvendo uma discussão a respeito do papel da mulher na sociedade desses seres. Ronald e Sean concordam instantaneamente que a Smurfette foi criada pelo papai Smurf para que ela se relacionasse sexualmente com todos os outros. Porém, Donnie se incomoda com a situação e explica que ela, na verdade, foi criada por Gargamel, e que os Smurfs são assexuados, e portanto a teoria inicial estaria errada. Apesar de ser uma cena que traz uma certa leveza ao filme, ela acaba provocando uma reflexão a respeito do machismo e das distorções que podemos fazer da realidade, principalmente quando não somos suficientemente informados.

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A personagem principal muito tem a ver com o diretor, e isso é observado principalmente em suas aspirações profissionais: ser artista e escritor. Sobre isso, Richard afirma ter sido muito sortudo, pois apesar de ter vindo de uma família privilegiada, foi encorajado a seguir fazendo o que gostava. Outro reflexo de sua vida que pode ser percebido no filme está na primeira sequência, em que Rose Darko, mãe de Donnie, aparece sentada em uma cadeira de praia lendo Stephen King; na adolescência, ele era um grande fã dos thrillers do autor.

Donnie Darko tem como propósito, além da exploração das viagens no tempo, demonstrar a relativização das vivências sociais, a relação destino/coincidência, a “esquizofrenia” de Donnie e o heroísmo de um personagem que sai totalmente dos padrões de um herói propriamente dito. Richard Kelly, a partir de sequências elegantes e muita obscuridão, cria uma narrativa repleta de crítica, que marca o início de sua jornada cinematográfica com um belo resultado e 11 premiações. Ao final, somos convencidos de que vivemos em meio a uma cultura de não-questionamento, e que estamos à mercê de nossas próprias interpretações. Mas, se não existe uma realidade comum a todos, como teremos certeza de que não estamos todos loucos?

*Texto realizado por Elisa Dias para a disciplina de Filosofia, da graduação em Jornalismo da UNESP.

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