Dissecando estereótipos: Dear White People e a vivência negra

Poster

Leonardo Santana e Matheus Dias

“Eles estão pouco se fodendo para a Harriet Tubman!”, grita Coco Conners (Antoinette Robertson) na desesperadora cena de abertura de Cara Gente Branca (Dear White People), produção da Netflix concebida por Justin Siemen e lançada em abril deste ano. A referência à importante figura do ativismo negro é apenas um exemplo do alerta importante que a série faz: temos medo de tocar nos assuntos espinhentos. Uma festa de blackface (em que se pinta o rosto de preto, numa tentativa infeliz de incorporar uma identidade visual negra) é o ponto de partida da obra para dissecar o racismo institucional nas universidades, a militância negra e, por tabela, a sociedade pós-moderna.

A trama explora as dores e as hipocrisias vivenciadas por estudantes negros da prestigiosa universidade fictícia Winchester. A grande maioria destes alunos é escolhida para viver na irmandade Armstrong-Parker, lugar que se torna o porto seguro de alguns deles. Apresentando diversas nuances da vivência negra, o roteiro explora a reação dos personagens mais diversos às violências do ambiente acadêmico, hostil e elitista.

Samantha White (Logan Browning) guia o espectador ao longo dos episódios através de um programa de rádio, que se dedica a alertar sobre o racismo presente na faculdade, provocando as pessoas brancas em seu estado de privilégio – causando desconforto em muitos, com suas verdades carregadas de ironia.

“Cara gente branca, namorar uma pessoa negra para irritar seus pais não é certo”
“Cara gente branca, namorar uma pessoa negra para irritar seus pais não é certo”

Quando o trailer da série foi liberado, recebeu muitas críticas negativas e ameaças de cancelamento do serviço da Netflix; atualmente, conta com aproximadamente 421 mil dislikes e 57 mil likes. O volume de ofendidos já demonstra a importância da discussão de questões raciais, principalmente em uma falsa democracia racial pós-Obama.

Em seus melhores momentos, a série é uma joia. Os diretores trabalham em total sintonia com a visão satírica à la Spike Lee, sob qual a trama foi concebida e rende momentos que, independentemente de sua forte carga política, divertem. Um ponto alto da série são as reuniões na Armstrong-Parker, para assistir a uma paródia preciosa das produções de Shonda Rhimes.

No entanto, o produto aqui é irregular, tropeçando entre piadas que nem sempre fazem rir e diálogos inverossímeis até o quinto episódio, quando o roteiro finalmente encontra coesão. Dirigido por Barry Jenkins (pai do vencedor do Oscar de Melhor Filme, Moonlight), o capítulo divide a trama ao apresentar talvez a questão mais importante do negro na universidade: a extensão de seus privilégios.

Reggie (Marque Richardson) é um bom exemplo de como os negros, mesmo superando as diversas barreiras impostas à sociedade, no fim das contas podem ter uma arma apontada na cara. Na superfície, o personagem soa como o estereótipo do homem másculo e forte, mas a narrativa revela aspectos de sua humanidade: Reggie representa a camada da população negra que recebeu o acesso à educação que muitas vezes foi negada a seus iguais. A trajetória do estudante nos deixa claro que ele nunca será branco e nunca poderá desfrutar dos privilégios correspondentes, não importa o quão brilhante ele seja.

O grande trunfo da adaptação sobre o filme lançado em 2014 é o processo de humanização pelo qual os personagens passam, uma vez que inicialmente suas nuances ficavam na superfície, limitadas ao pouco tempo que cada um tinha na hora e meia da película cinematográfica. A versão televisiva apresenta maior espaço para o desenvolvimento e apresentação dessas pessoas que a cinematográfica, resultando na quebra de arquétipos que o filme nunca pôde negar.

Um bom exemplo disso é Colandrea “Coco” Conners, cuja complexidade foi ricamente explorada. À primeira vista considerada uma mulher que tenta ao máximo negar a sua negritude, Coco na verdade entende como a exclusão funciona e tenta se encaixar na sociedade hipócrita em que vive.

Formation: integrantes de diversos nichos do movimento negro de Winchester
Formation: integrantes de diversos nichos do movimento negro de Winchester

A importância desses dois personagens se dá em suas semelhanças e diferenças. Ambos têm larga consciência da vivência da população negra, mas Coco não vê perspectiva de mudança. Diferente de Reggie, ela prefere se moldar a padrões racistas do que lutar efetivamente por mudança (e nada pode ser dito contra ela).

Cara Gente Branca é um retrato sem maniqueísmos da existência negra, que nos acorda para um mundo real onde a pós-modernidade não deu conta de resolver todos os problemas da sociedade, principalmente na questão racial. Usando da sátira e dos arquétipos, a produção nos surpreende a cada personagem que conhecemos: vale a menção à construção de Lionel Higgins (DeRon Horton), que descobre sua sexualidade e passa a perceber as interseccionalidades que sua existência abarca.

Apesar da Netflix focar sua propaganda na personagem Sam White, ela não é o centro das atenções, e a história representa muito bem cada personagem que protagoniza os episódios (com cerca de 30 minutos de duração cada). O que mais surpreende é como Justin Simiens abordou questões do dia a dia, como o próprio ato de ver séries, as redes sociais e até mesmo os aplicativos de namoro, provando que a obra não poderia ser fruto de outra época. Hipocrisias do movimento negro e complexidades da vida pessoal de quem compõe a militância, como relacionamentos inter-raciais, são outras questões abordadas na série.

A série produz uma experiência de identificação para quem é negro e de conhecimento para quem é branco e todos os agentes das interações raciais na sociedade. O retrato feito do ambiente acadêmico é réplica da realidade e se faz perceber inclusive no modelo brasileiro de universidade. Não somos obrigados a falar sobre o racismo, escravidão ou outros temas na experiência do negro. Porém, se não falarmos, quem terá a propriedade levantar a voz no nosso lugar?

O roteiro tem pontos a melhorar, mas não podemos ignorar que existe algo que vai além da série aqui – e que é nosso dever começar a enxergar que 421 mil reações negativas em um teaser de uma série satírica criticando as pessoas brancas significam muita coisa. As pessoas não gostam de ser consideradas racistas. Têm medo. Querem a todo custo provar para si mesmas que usar a palavra “nigga” não é problemático. Para isso, ignoram o discurso das pessoas que dizem respeitar.

Aqui fica clara a importância de Cara Gente Branca, e trabalhos de artistas como Shonda Rhimes, Lee Daniels, Spike Lee, entre outros. Enquanto a maioria das pessoas teme tocar em assuntos espinhentos, outras tem uma ferida aberta e pulsante, problemas a serem discutidos, experiências a serem compartilhada. Série obrigatória.

Deixe uma resposta