10 anos de Skream!, 10 anos do melhor período do dubstep

Captando os sons urbanos e mesclando-os com sons tribais, Skream! é um dos melhores discos que a breve história do dubstep pode produzir.

capa disco skream

Adriano Arrigo

Talvez o nome Oliver James, ou Skream, seja pouco conhecido por essas bandas. Talvez, para os menos avisados, o estilo de música tocado por essa pessoa também não seja lá muito apreciado para cá, o dubstep. O gênero não aguentou o peso do tempo e seus expoentes não ajudaram muito após os meados de 2000. Nesse período, o gênero foi sendo incorporado e misturado por outros estilos muito, mas muito distantes de sua origem e coube-lhe somente em ficar como plano de fundo para cenas de computação gráfica ou ser corrompido em concepções que não fazem muito sentido.

Porém, em 2006 as perspectivas eram outras e o futuro parecia promissor. Uma leva de garotos sob influências da música eletrônica britânica alternativa, o UK Garage, das fortes bases sobrevividas das raves dos anos 90, como o Techno, o Jungle e Drum’n Bass, e até dos estilos jamaicanos como Reggae e Dub, tentavam técnicas extremamente complexas com seus sintetizadores que prometiam alguma novidade no cenário da música eletrônica.

Skream, em 2006
Skream, em 2006

No meio desse cozimento (e é assim que se chama o projeto musical Boiler Room, em que alguns deles tocaram em Londres), destaques como o próprio Skream e seu amigo Benga (pseudônimo para Adegbenga Adejumo) começaram a solidificar as bases do gênero. Pois que em 2006 é lançado o disco intitulado Skream! que, essencialmente, conta um pouco a história daquele momento que o dubstep se inseria.

Skream e Benga
Os talentos de Skream e Benga proporcionaram alguns dos melhores e mais relevantes discos da música eletrônica nos meados do anos 2000.

É engraçado perceber que um disco como Skream! não seja exatamente a representação esperada da música eletrônica. Trata-se essencialmente de um disco muito minimalista e textural em que predominam muito mais conceitos por detrás de pequenos sons do que os hinos de raves ou de house que a música eletrônica estava acostumada na última década.

É claro que, inicialmente, o ritmo estava muito atrelado a música eletrônica alternativa, mas seu sucesso estava difundido entre as principais rádios, casas de shows e artistas nos meados de 2000. Porém, o que faz do dubstep – especialmente o produzido pelo Skream – diferente dos outros gêneros de música eletrônica mainstream foi justamente a sua falta de interesse em entregar hinos e repetidas batidas como costumam ser entregues nesse gênero. Assim, a predominância das músicas em Skream! se dá muito por seu jogo sinestésico que faz ser compreensível o poder que é exercido sob o público através de apenas um DJ e sua pickup.

O dramático início do disco abre caminhos sombrios para o que há de vir. Com batidas de tambores de mão, há uma sensação de perseguição tribal, motim também encontrado na flauta ouvida na melhor música do disco quiçá do dubstep, Rutten. Essa última é a típica música que Oliver James produziu não só em Skream!, mas também na excelente série de sete EPs intitulada Skreamzism entre 2006 e 2013. Nela, Skream cria suas bases sob o famoso ‘wub wub’ do dubstep, porém sem evidenciá-lo em primeiro plano como a maioria dos produtores do gênero insistem em fazer. Oliver James é singelo em suas escolhas e isso permite a criação de uma envolvente atmosfera eletrônico-tribal que mescla elementos sortidos como tambores, flautas, saxofones, alarmes, armas a laser, tiros e ruídos robóticos. Essas duas músicas do disco deixam claro a notória influência do Dub e seus instrumentos tipicamente africanos no disco, além do já esquecido Jungle dos anos 90.

Clássico do jungle, o duo Hyper-On Experience é uma clara lembrança dos anos 90 nesse primeiro disco do Skream.

Porem não é só no tribalismo que Skream! se vira, Kut-off e a música que lhe lançou, Midnight Request Line são extremamente modernas e exalam urbanidade. Aliás, Kut-off é uma música que se destaca ao brincar com a batida que ela mesmo constrói, criando camadas sob camadas como se algo tivesse prestes a dar tela azul. Uma música atípica no disco, mas muito comum nas músicas pós-dubstep que viriam nos próximos anos.

Apesar de todos os seus prós, o maior destaque de Oliver James não é sua habilidade em contrapor os sons londrinos com selvas tribais, mas sim ter o tato e sensibilidade para criar com frios aparelhos digitais verdadeiras peças musicais que extrapolam o nível sensorial de quem ouve, traços muito sutis incorporados por outros produtores, como Burialmestre melancólico da atmosfera urbana, mas que não foram levados para frente com outros produtores.

Summer Dreams é uma noite de jantar regada a um Jazz em que todos os participantes param para prestar atenção e ao final comemoram tilintando suas taças de vinhos. Dutch Flowerz, a música mais enigmática do disco, é claramente o desabrochar de uma flor, uma expectativa derramada em delicadezas que soam em suas pétalas pequenos tilintares eletrônicos. Emotionally Mute titulariza perfeitamente a si, fechando o disco com a extrema capacidade de Oliver James em dominar samples, bases e viradas para erguer cenários com texturas, atores e enredo – tudo com a delicadeza não comum a djs expoentes no cenário mundial.

Infelizmente, Skream! é uma peça rara no amontoado de discos irrelevantes do gênero. O próprio Oliver James hoje não se destaca mais – enveredou para um house duvidoso e genérico e por lá ficou. Pelo menos enquanto pisava nos solos do dubstep, houve Skream!, um compilado fiel de delicadeza e técnica de uma prolífera geração de jovens que tiveram plena capacidade de criarem suas próprias cenas, mas que pouco depois já não conseguiam segurar.

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