50 anos de Wish You Were Here e a presença remanescente de Syd Barrett no lirismo do Pink Floyd

 

Capa do álbum Wish You Were Here do Pink Floyd. Na capa, ambientada no estacionamento dos estúdios da Warner Bros, um pátio de cimento com galpões bege nas laterais, dois homens de terno apertam as mãos enquanto um deles está em chamas.
A capa, criada pela Hipgnosis, simboliza a sensação de ‘ser queimado’ nos negócios, refletindo a visão da banda sobre a indústria musical da época (Foto: Hipgnosis)

Eduardo Dragoneti

Lançado em 12 de setembro de 1975, o álbum Wish You Were Here do Pink Floyd se tornou um marco, não só em sua discografia, mas na história do post-rock e da música conceitual. Surgido em um contexto de esgotamento criativo e crescente desilusão com a indústria fonográfica, o disco é, antes de tudo, uma homenagem profunda dos integrantes da banda (David Gilmour, Roger Waters, Richard Wright e Nick Mason) ao ex-membro Syd Barrett (1946-2006), cuja a ausência pairava sobre eles de forma incômoda após o artista sair do grupo.

Barrett havia deixado o conjunto musical em abril de 1968, após episódios de instabilidade mental associados ao uso abusivo de LSDs e a um diagnóstico nunca confirmado de esquizofrenia. Apesar disso, sua influência e seu legado artístico ecoaram notavelmente nos trabalhos seguintes do Pink Floyd, seja no próprio Wish You Were Here ou em álbuns posteriores, como em Animals e o aclamado The Wall. Já em A Momentary Lapse of Reason, faixas como Sorrow e One Slip falam sobre a fragilidade da mente e a perda de alguém próximo, temas que os fãs relacionam à história do ex-vocalista e guitarrista.

A faixa que abre e encerra o álbum, Shine On You Crazy Diamond, é uma suíte em nove partes composta por Waters, Wright e Gilmour, dedicada a Barrett – o “diamante louco” a quem o título faz referência. Os primeiros 13 minutos e meio do disco introduzem de forma lenta, instrumental e muito bem elaborada a dor da perda, diferente da causada pela morte, mas a de saber que um alguém querido está em algum lugar, que não é mais tão perto quanto antes (física e afetivamente).

Syd Barrett, caminha por uma calçada por um bairro de Londres em uma foto em preto e branco. Ele veste terno e camisa escura, olhando diretamente para a câmera com expressão séria e um cigarro na mão esquerda. Ao fundo, há carros antigos estacionados e uma mulher carregando sacolas.
Roger ‘Syd’ Barrett faleceu de câncer no pâncreas em 7 de julho de 2006 no Hospital Addenbrooke, em Cambridge. Ele não deixou esposa nem filhos (Foto: Mick Rock)

Na mesma faixa, Waters escreve: “Você foi apanhado no fogo cruzado / Da infância e da fama / Soprado pela brisa de aço” – um retrato aguçado da trajetória de Barrett e de seu desaparecimento dentro de si mesmo. No encerramento da canção, o sintetizador de Wright emula as notas de See Emily Play, composição de Barrett que abre o primeiro disco da banda, The Piper at the Gates of Dawn. A escolha não foi à toa. Segundo os próprios integrantes do Pink Floyd, Emily é uma personagem que foi fruto de um sonho de Syd Barrett, possivelmente induzido por LSD. Ele dizia ter visto uma garota etérea brincando em um bosque, e que a imagem ficou em sua mente como uma pintura viva.

A mistura de fantasia e realidade, típica das composições de Syd nesse período, passou a ser vista como uma espécie de prenúncio de seu colapso. Décadas depois, muitos fãs e críticos enxergam a música como uma despedida simbólica de uma mente criativa que estava se afastando da realidade, justificando a escolha de Wright como uma espécie de ‘adeus’ não-verbal ao amigo.

 Fotografia em preto e branco mostrando os integrantes do Pink Floyd na sacada de um prédio. Da direita para a esquerda: Nick Mason apoiado na grade, Roger Waters usando um casaco de pele, Syd Barrett em destaque com blusa branca e cabelo desgrenhado, e Richard Wright inclinado para frente, segurando a barra do corrimão. Entre eles há luzes decorativas penduradas e, ao fundo, parte de uma escada lateral externa
Roger Waters é creditado como compositor em mais de 90 músicas do Pink Floyd (cerca de 60 como autor principal e mais de 30 em créditos compartilhados) e foi o líder e principal letrista da banda por grande parte da sua carreira, especialmente após a saída de Syd Barrett (Foto: Baron Wolman)

A certeza da saudade se concretiza na canção homônima do álbum. Wish You Were Here chega como um tiro no peito sem aviso prévio, como é de costume para canções do Pink Floyd. A faixa inicia com uma curta conversa gravada nos corredores do Abbey Road Studios, interrompida rapidamente pelo famoso riff da música, impactando o ouvinte que nem tem tempo de compreender o diálogo. Ao fundo, um violão ‘falso’ soa abafado e distante, como se vindo de um rádio velho. Em seguida, o toque real de Gilmour entra em primeiro plano, limpo, criando um contraste sonoro que traduz exatamente o sentimento da canção: estar ao lado e, ao mesmo tempo, distante de alguém. As risadas e respirações no início parecem espontâneas, quase casuais, até que a melodia se impõe de maneira íntegra.

Segundo Roger Waters, compositor da música, Wish You Were Here não fala apenas de Syd Barrett, mas de um sentimento mais amplo e existencial. Em suas palavras em entrevista ao documentário Pink Floyd: The Story of “Wish You Were Here” (2012): “Você consegue se libertar o suficiente para experimentar a realidade da vida e como ela acontece diante de você? Porque, se não conseguir, você vai continuar parado na estaca zero até morrer. É disso que essa música trata.” Já para David Gilmour: “Embora ‘Shine On’ seja a que fala especificamente sobre Syd, e Wish You Were Here tenha um escopo mais amplo… eu não consigo cantá-la sem pensar nele.” Assim, a canção torna-se um lamento que é pessoal e universal ao mesmo tempo, a ausência de alguém que está presente demais para ser esquecido.

Foto preto e branca: Roger Waters debruça sobre a mesa de som do Abbey Road Studios vestindo um suéter e atrás dele um garoto, também vestindo um suéter, come um picolé enquanto observa o equipamento.
A banda demorou em torno de 6 meses,de janeiro a julho de 1975, para gravar todas as músicas do disco (Foto: Jill Furmanovsky)

Welcome to the Machine e Have a Cigar formam o núcleo mais ácido do disco, funcionando como uma espécie de dupla crítica ao universo da indústria fonográfica. Se a primeira traduz a engrenagem impessoal do sistema, a segunda dá rosto e voz aos executivos bajuladores que movem essa mesma máquina. Juntas, as duas canções revelam o olhar desencantado do Pink Floyd diante de um mercado que transforma sonhos em mercadoria, e deixam claro que o sucesso também podia ser uma prisão – ideia que, inevitavelmente, remete àquilo que afastou Syd Barrett do grupo.

Em Welcome to the Machine, a banda constrói um diálogo entre a Máquina –metáfora para o capitalismo e o próprio mercado musical – e um jovem sonhador, disposto a se entregar para alcançar reconhecimento. O suposto acolhimento é, na verdade, uma manipulação: “Com o que você sonhou? / Tudo bem, nós te dissemos com o que sonhar / Você sonhou com uma grande estrela”. O sistema não apenas dita as regras, mas também escolhe seus desejos. A voz de Gilmour, carregada de pesar ao cantar: “Ele tocava uma guitarra bestial / Ele comia sempre no bar / Ele adorava dirigir seu Jaguar / Então, bem-vindo à máquina”, expõe o sonhador agora como um personagem do passado, alguém que foi engolido pela engrenagem que o consagrou. Inevitavelmente o trecho foi associado à trajetória de Barrett.

Já em Have a Cigar, a abstração dá lugar à caricatura de um executivo da indústria, ignorante e interesseiro, que os trata como produto e não como Arte. Com vocais de Roy Harper, convidado para substituir Waters e Gilmour, insatisfeitos com suas próprias tentativas, a faixa carrega ironia do início ao fim. O famoso verso – “A banda é fantástica, isso é o que eu realmente acho / Oh, por sinal, qual de vocês é o Pink?” – expõe o desdém de quem só enxerga cifras e fama, sem nenhum interesse pelo grupo em si. A canção também é interpretada como uma exposição do preço que os integrantes pagaram para chegar a ascensão astronômica. O personagem executivo é a materialização de um sucesso sem alma, justamente o que afastou o ex-membro.

Foto polaroid: Syd Barrett, careca, obeso e sem sobrancelhas, vestindo uma camisa social branca e uma calça preta, posa de lado para a foto, encarando profundamente a câmera dentro do Abbey Road Studios.
Os integrantes da banda demoraram em torno de 45 minutos para finalmente reconhecerem Syd Barrett, que, segundo Wright, ficou o tempo todo em silêncio e escovando constantemente os dentes no banheiro do estúdio (Foto: Nick Mason)

Em um dos episódios mais marcantes da história do Pink Floyd, Syd Barrett apareceu inesperadamente no Abbey Road Studios em 5 de junho de 1975, enquanto o grupo finalizava as gravações de Shine On You Crazy Diamond (Pts. 6-9). Estava irreconhecível: obeso, com a cabeça raspada, sem sobrancelhas e o olhar distante. Seus antigos colegas demoraram a reconhecê-lo, e o encontro foi carregado de tristeza e simbolismo. Waters e Gilmour, em especial, ficaram profundamente abalados, caindo em lágrimas ao verem o amigo por muito tempo perdido. Gilmour relata no documentário que: “Foi uma grande perda. E imaginar o que ele teria feito… especular sobre isso, se você preferir… Ele poderia ter se tornado tão grandioso”.

Ninguém sabe onde você está / O quão perto ou o quão longe / Brilhe, seu diamante louco”. A certeza de que, independente de onde Syd Barrett estivesse, o Pink Floyd só queria que ele brilhasse loucamente, como fez enquanto esteve na banda. Aqui, o álbum finaliza voltando a melancolia da qual foi iniciado, a sensação de que o recado foi passado, mas com a incerteza de que chegará ao destinatário.

Wish You Were Here é essencialmente um disco sobre ausência, seja a de Barrett, seja a de autenticidade no mercado musical ou seja a desconexão entre os próprios membros do grupo. É também uma carta de amor a um amigo perdido, um lamento musical que, meio século depois, ainda ecoa com intensidade. O álbum é um lembrete de que algumas presenças continuam a se fazer sentir, mesmo que estejam absolutamente perdidas.

 

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