Aviso: O texto contém alguns spoilers

Davi Marcelgo
Urchin é um daqueles filmes que você já sabe o que vai acontecer, pois não trabalha com o segredo ou indicações de reviravolta, apenas com a confirmação da expectativa que o público possui. Nesse sentido, se assemelha a Anora (2024), que dilui um sonho à la Cinderela na primeira parte do enredo para depois desmanchá-lo, puxando o tapete do espectador. Com esse senso de ameaça, o roteirista e diretor estreante, Harris Dickinson, consegue tornar o peito de quem vê, um lar de angústias. A ficção faz parte de duas seções na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Foco Reino Unido e Competição Novos Diretores.
Na trama, Mike (Frank Dillane) vivia em situação de rua até ser preso e passar por um processo de ‘reabilitação social’. No entanto, ao passo que o governo cria ações (questionáveis) para possibilitar a existência do rapaz na sociedade, outros desafios surgem na jornada do protagonista, dentre eles, está o consumo de álcool e outras drogas. Depois do personagem passar alguns meses sem usá-las, Dickinson cria situações para colocar bebidas e entorpecentes no mesmo espaço, tensionando as escolhas de Mike com a dinâmica comprada pelo público, que espera na ponta da poltrona a cena em que ele vai ceder. O cineasta faz isto não pela descrença de que alguém pode superar o vício, mas pela consciência de que sua nação não está preparada para acolher pessoas nesta situação.
Enquanto no texto há diversos trechos que demonstram a negligência do sistema, por ilustração, quando Mike questiona, em duas ocasiões diferentes, qual será seu lar quando a estadia em um albergue encerrar e fica sem resposta. A reatividade e o regresso do protagonista para o mesmo lugar do início do filme são consequências do sentimento de desamparo e abandono. Ele é um indivíduo sem passado, transmitido pontualmente ao público, às vezes de forma implícita, como a cena em que liga para uma mulher após ser detido; uma sugestão de alguém próximo (uma mãe) que nunca aparece e nem é nomeada.

A palavra Urchin é uma gíria que significa “pivete”, criada para se referir à meninos pobres que sobrevivem nas ruas. O termo pejorativo combina com a personalidade rebelde de Mike e sua situação, contudo sua tradução literal é “ouriço”, o que amplia o escopo de significados. Apesar de não ser considerado agressivo, o animal ouriço pode liberar seus espinhos se sentir ameaçado e tocá-lo pode machucar. Esse comportamento é o mesmo do protagonista, que ao se aproximar de alguém ou fere ou é ferido, sendo chutado para fora dos lugares como um bicho. O ditado popular de que ‘portas se abrem’ é provocado: a única passagem a se abrir é a que o joga em um abismo escuro sem fim.
No começo do longa, Nathan (Harris Dickinson) é introduzido a partir de um furto – ele rouba a carteira de Mike. Depois, em uma segunda aparição, logo após Mike começar a refazer sua vida (empregado, comprando ao invés de roubar); nesta ocasião, ele não enxerga o colega. A presença de Nathan é um espelho do passado, como também uma peça do roteiro que serve de bomba relógio, um aviso de que essa ‘outra metade’ de Mike pode gerar um problema para sua nova vida, alguém que busca vingança por um acontecimento do começo da trama.
Chega o momento em que aquela expectativa declarada como dada é tumultuada, não em sua totalidade. O personagem principal volta à estaca zero, porém o papel de Dickinson nada tem a ver com isso. Sem acenar para reviravolta, o espectador leva uma rasteira e é pego de surpresa, pois essa figura que parecia explosiva torna-se alguém que socorre. A subversão entra como outra camada de reflexão acerca dos responsáveis para que alguém retorne ao ponto de partida, não culpando o indivíduo, sobretudo aqueles que estão nas mesmas condições. Mike é um homem quebrado em um mundo que é uma marreta.

Este é o início da filmografia de Harris Dickinson, embora não seja seu primeiro trabalho. Em 2021, ele lançou um curta-metragem intitulado de 2003, além de dirigir, há alguns anos, os videoclipes da cantora – e sua namorada – Rose Gray. Essa experiência deve ter servido para alguma coisa, mas certamente não para o novato simular uma produção derivada da música. Duas canções estão presentes durante a projeção, Voyage Voyage (1989) e Whole Again (2000), a última habita um momento inocente e esperançoso do longa, com Mike fazendo amigas e emocionado enquanto canta. Cada uma das composições soa de uma forma diferente, sem utilizar uma montagem apressadinha como poderia ser habitual na carreira com Gray.
Frank Dillane é uma peça importante, o ator consegue transitar por vários sentimentos e estados, como o de bêbado, sem caricatura, criando empatia e prazer ao testemunhar a história de seu personagem. A obra compreende a força do britânico e injeta uma intensa presença dele na câmera, filmando seu corpo de vários ângulos e fechando os planos em seu rosto, o que demonstra um Cinema de ator. Dickinson escreve e filma estabelecendo na ótica de Mike a produtora dos sentidos que vão se relacionar com o público, atravessados pelo corpo em tela.
Urchin é uma estreia traiçoeira que confirma o que é esperado e ainda assim subverte, entristece e finaliza sua história de maneira surpreendente. Não é um filme que parece já apontar as características do Cinema do diretor, a menos que ele continue com temáticas semelhantes e o protagonismo nas estrelas, no entanto, é um começo excelente e provocativo, que exibe as ótimas qualidades do londrino como roteirista.
