
Vitória Mendes
Lidar com o luto é uma tarefa inegavelmente complicada. A dor parece eterna e, mesmo quando diminui, deixa um rastro de sofrimento e memórias em cada vida que toca. Em muitos casos, recorrer à arte para expressar e aliviar o sentimento se mostra efetivo durante o processo de aceitação e vivência de cada fase. O pesar não tem a intenção de se encaixar. Ele chega como um fenômeno natural, sem previsão de fim. Ainda assim, o cotidiano não espera que a angústia passe ou que seja sentida para continuar. Hamnet: A Vida Antes de Hamlet retrata o luto como um personagem que predomina e avassala toda a narrativa.
Inspirado no romance de Maggie O’Farrell, o drama acompanha Agnes (Jessie Buckley), uma curandeira, e William (Paul Mescal), um escritor frustrado que luta para pagar as dívidas da casa. Agnes é um espírito livre e, assim como as demais mulheres de sua família, é vista por muitos como uma bruxa da floresta por sua relação peculiar com a natureza. Os jovens se conhecem e imediatamente são atraídos um pelo outro, resultando em um casamento e em uma gravidez quase imediata. Com o amor florescendo, Agnes incentiva William a ir para Londres trabalhar com a comunidade teatral. Contudo, apesar da felicidade aparente, o casal deve enfrentar uma tragédia que coloca seu vínculo em risco.
Quando pragas assolam a Europa do século XVI, o filho, Hamnet (Jacobi Jupe), de 11 anos, contrai uma delas e morre em agonia nos braços da mãe. Os cônjuges, mergulhados em um luto profundo, têm dificuldades para processar a perda e a vida depois de Hamnet. Com o escritor viajando, a curandeira precisa cuidar das filhas e da casa, enquanto tenta suportar a própria dor de ter visto o filho morrer em seus braços sem o poder de mudar o seu destino. Entre previsões de um futuro incerto e premonições simbólicas, tanto do marido em Londres quanto da esposa em Stratford, a cura e a inevitabilidade dos acontecimentos caminham juntas rumo a uma tragédia que marca a história.

Apesar da relação direta com Hamlet (1623), famosa obra de Shakespeare, é evidente que o protagonismo pertence à Agnes, baseada em Anne Hathaway, esposa do dramaturgo. Sua trajetória tocante e sua personalidade única estabelecem uma conexão imediata com o espectador, destacando uma figura historicamente negligenciada e apagada. Trechos famosos do poeta são integrados à narrativa, mantendo a riqueza de detalhes e referências. Sob a direção de Chloé Zhao, cineasta premiada, a obra reúne produtores altamente reconhecidos pela crítica como Steven Spielberg, Sam Mendes e Liza Marshall.
A trama explora as relações pessoais complexas e os desafios ao seguir sonhos em um contexto social limitante. Acompanhar Agnes, William e suas famílias a partir de uma abordagem íntima e natural é uma experiência tão intensa quanto a floresta que circunda a pequena vila onde vivem. Com as mudanças que atravessam a rotina do grupo, cada decisão reverbera intensamente. A vida doméstica e o luto influenciam diretamente Will em suas produções artísticas, que, mais tarde, inspiram a criação da trágica peça Hamlet.

O isolamento, a recusa em seguir adiante e o apego à própria dor surgem como respostas válidas e humanas. As explosões emocionais que surgem da repressão do pesar trazem um toque humano e sensível que permeia muito após o fim dos créditos. Nesse sentido, a escolha do elenco se mostra um dos grandes acertos do filme. Jessie Buckley, em especial, entrega uma atuação visceral e traduz com precisão a mistura de emoções que definem Agnes. A atriz irlandesa constrói uma personagem dolorosamente real e magnífica. Paul Mescal e Jacobi Jupe, como William e Hamnet respectivamente, se destacam e compõem um elenco estável e coeso, que sustenta a narrativa emocional.
Ao longo da produção, os elementos históricos, lugares, doenças e culturas, adicionam um tom essencial de realismo. A ambientação de época e trágica se reflete nos figurinos assinados por Malgosia Turzanska, figurinista polonesa, que reforçam a ligação de Agnes com a floresta, a intelectualidade de Will e a polaridade entre o casal. O estilo de fotografia de Lukasz Zal, diretor de fotografia, evidencia a carga dramática por meio da iluminação ambiente, que aconchega e aproxima o público. Tons naturais, poucas movimentações de câmera e a montagem de Affonso Gonçalves, montador e editor de longas, contribuem para uma atmosfera estável e contemplativa.

O enredo familiar é intensificado pela trilha sonora de Max Richter, compositor alemão, utilizada de forma estratégica e em sintonia com a fotografia. Juntos, constroem um ritmo calmo, mas não monótono, permitindo que o espectador tenha tempo para se conectar e sentir sem barreiras e expectativas. Ao moldarem o ritmo da narrativa, criam uma experiência que desacelera o olhar, amplia a escuta e potencializa o impacto. Mesmo sem grandes reviravoltas, a obra se destaca por trabalhar a profundidade e complexidade intrínseca ao ser humano.
Transformar o luto em uma experiência coletiva é uma forma de honrar e imortalizar a memória de quem partiu. A narrativa reforça que aceitar a dor como parte de si é um ato puro de amor e de coragem. Lembrar dos momentos vividos, sem se aprisionar à incansável angústia, oferece o descanso necessário à alma, não significando esquecimento. Seguir em frente não é um ato de traição, mesmo que possa parecer. Em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, a arte surge tanto como salvação quanto de ruína para Agnes e Will. Como um suspiro profundo de alívio, o drama transforma a agonia em criação e reafirma a arte como gesto de sobrevivência, memória e liberdade.
