
Stephanie Cardoso
Se The Batman (2022) já tinha mostrado uma Gotham encharcada de corrupção e sombras, Pinguim – seu spin-off na HBO Max – vai além do que era esperado: mergulhando no fundo do submundo, onde não existem ‘mocinhos’, somente aqueles que lutam para sobreviver ou dominar. A série mergulha no caos e mostra que o verdadeiro medo não está na máscara, mas na ausência dela, entre as conversas frias onde o poder é vendido em pedaços e a lealdade vale menos que um dólar sujo.
No centro disso está Oswald Cobblepot, o Pinguim. Colin Farrell aparece irreconhecível, diante de um trabalho incrível da equipe de maquiagem – liderada pelo maquiador protético Mike Marino. Porém, é no jeito de ser do personagem que o enredo fica mais sério. Oz, como é conhecido por todos, é um vilão que dá medo e pena ao mesmo tempo – um gângster que mistura astúcia de rua com a vulnerabilidade de quem sabe que o mundo pode virar do avesso em um piscar de olhos. O primeiro episódio, After Hours, já deixa isso claro, provando que o clima é sombrio, pesado e íntimo demais.
Sofia Falcone, interpretada com uma pegada feroz e elegante por Cristin Milioti, não é uma antagonista típica – se é que poderia chamá-la assim. Ela é o contraponto perfeito para Oz, uma mulher que visa reivindicar o trono da máfia com uma combinação de charme letal e inteligência cortante. A tensão entre eles cresce lentamente, cheia de olhares atravessados e interesses cruzados. Enquanto Oswald é o malandro que conquistou seu espaço na marra, Sofia quer resgatar um passado que já não existe e a justiça que lhe foi negada. O embate dos dois vira o motor que faz a série pulsar, é um duelo de ambições, ego e poder que redefine o jogo.

Mas a história não trata somente da briga pelo comando. O segundo episódio, Inside Man, dirigido por Craig Zobel, intensifica o clima de conspiração e segredos. Os diálogos são secos, certeiros e cheios de silêncios que ‘gritam’. É nesse momento de desconfianças que Oswald se infiltra no Império Falcone, mostrando que, em Gotham, o sorriso largo quase sempre esconde uma faca na manga.
Visualmente, a série acerta em cheio. A cidade parece um organismo vivo, pulsando em seus espaços decadentes, como bares úmidos, escritórios com a tinta descascando e ruas que parecem nunca ver o Sol. Em cada detalhe é criado uma atmosfera suja e crua, quase palpável. A trilha sonora também é outro personagem quando traz uma mistura de música clássica, ruídos urbanos e pausas estratégicas, ajudando a moldar o ritmo entre acelerações e momentos de reflexão. É um cocktail que junta a vibe de máfia tradicional com um toque moderno, similar a produções como Sopranos (1999) e O Poderoso Chefão (1972).
No quarto episódio, Cent’Anni, mergulhamos a fundo nas feridas de Sofia Falcone, que sofre da traição de sua própria família — um golpe que a leva direto para Arkham, um lugar que funciona como prisão e é símbolo da humilhação que ela carrega. Essa trama revela como a personagem ainda é refém do passado e das armadilhas construídas pelos seus entes queridos, tornando a sua sede de poder ainda mais desesperada. A emblemática cena do jantar dela com seus familiares, é um retrato tenso dessa traição. O ambiente elegante contrasta com o clima pesado, repleto de olhares cortantes e promessas quebradas. É ali que entende-se o quão frágil e traiçoeira era a posição dela dentro da dinastia Falcone, e como isso a impulsiona a uma guerra particular que também envolve seu embate constante com Oswald Cobblepot.

Entre tantos personagens, um que merece destaque é Victor, figura menor que ganha peso ao mostrar as ramificações do caos deixado pelo final de The Batman. Sua trajetória é um retrato das consequências reais das inundações na cidade e do vácuo de poder deixado. Ele representa o lado mais afetado de toda a situação, a população comum que acabou esmagada e corrompida pela disputa brutal dos grandes poderosos. Sua história traz uma camada extra de tensão, lembrando que em Gotham ninguém sai ileso, nem mesmo os personagens que ficam às margens do jogo de poder.
Quando chegamos ao oitavo episódio, A Great Or Little Thing, a série fecha a temporada com uma reviravolta que tira qualquer resquício de pena que seria possível ter nutrido por Oswald Cobblepot. Até ali, a narrativa consegue equilibrar a linha tênue entre a vilania e a vítima, explorando suas fraquezas e motivações. Entretanto, a revelação final explode essa bolha pois Oz não é um coitado preso nas circunstâncias, mas sim um manipulador frio, que não hesita em pisar em quem for para garantir o seu espaço no topo. Essa virada de perspectiva nos força a encarar o personagem com mais realidade – sem romantismos ou desculpas. O Pinguim é um vilão puro e essa complexidade sombria é justamente o que faz a produção ser tão impactante. A trama não quer o amor ou ódio da plateia, e sim o entendimento do preço do poder – e o que acontece quando você aceita pagá-lo.

Ao final do episódio, no gran finale, fica óbvio que a produção não é somente um spin-off. O roteiro fecha suas lacunas com precisão cirúrgica dos confrontos – tanto emocionais quanto físicos –, e a cidade do Batman, mais do que nunca, parece prestes a desmoronar. Não há redenções fáceis nem finais açucarados, restam apenas as escolhas, o cheiro de pólvora e o gosto amargo do poder.
Pinguim também não passou despercebido ao Emmy. Foram 24 nomeações, incluindo as categorias de Melhor Minissérie, Roteiro, Direção e as atuações centrais de Colin Farrell e Cristin Milioti – que levou para casa o prêmio – contudo, a disputa foi pesada contra Adolescência, a grande vencedora na categoria de minisséries. Mesmo assim, quando a temporada de premiações terminar e os nomes deixarem os trending topics, será difícil apagar da memória aquele sujeito de olhar torto que subiu no trono de Gotham sem ninguém perceber.
