Entrevista feita inicialmente em inglês e traduzida por Guilherme Moraes

Guilherme Moraes
A 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo trouxe inúmeros nomes fascinantes do Cinema, tanto em escala nacional, quanto global. Atilla Salih Yücer, o sul-africano produtor de filmes, chega como membro do júri e também – ainda que sua vinda não tenha sido para divulgação – como produtor do novo longa de Jim Jarmusch: Pai Mãe Irmã Irmão, da seção de Perspectiva Internacional.
Para além das produções de estirpe como o próprio longa estadunidense, o produtor se aventura em remakes de sucesso comercial. Entre franquias de terror e filmes premiados, o sul-africano consagra uma carreira diversa e interessante, principalmente ao lado do diretor David Gordon Green, que esteve à frente de projetos como a nova trilogia Halloween (2018-2013) e O Exorcista: o Devoto (2023), uma ‘continuação’ do original de 1973.
A Mostra deste ano proporcionou ao Persona a oportunidade de entrevistar esse grande nome da indústria, e nós, é claro, não perdemos a oportunidade. O local foi o Anexo do Espaço Petrobrás de Cinemas, situado na Rua Augusta, na região da Paulista, onde um dia foi o saudoso Espaço Itaú de Cinemas. Entre idas e vindas para assistir os lançamentos do evento, Atilla arranjou um tempo para falar com o projeto.
Escolhendo projetos
A função do produtor de filmes é um pouco deslocada na análise cinematográfica, e não à toa, pois sua função não está envolvida com a estética construída ou qualquer sensibilidade artística. No entanto, existe a função primordial de fazer com que essas ideias criativas sejam filmadas. Para Atilla é muito enriquecedor conseguir que cineastas iniciantes tenham seus roteiros aceitos e auxiliar nesse processo.
“É muito empolgante conhecer pessoas que precisam de ajuda, que precisam construir uma equipe e um relacionamento desde o início. Por isso, grande parte da minha paixão e do meu esforço são direcionados a essas pessoas e aos cineastas que estão começando sua carreira, e espero poder fazer parte do início de suas trajetórias”.
Além de gostar de apoiar esses diretores no começo de suas carreiras, o sul-africano também falou por quais motivos ele escolhe um roteiro. “Eu sempre escolho trabalhar em um projeto com base no diretor e no roteiro. É muito fácil para mim escolher. Se eu gosto de um diretor, se eu acredito nele, então é fácil tomar a decisão de trabalhar em um filme. É realmente tudo uma questão de diretor, sabe, faz parte do meu trabalho”.

Relação com David Gordon Green
A crença em um cineasta e em seus projetos fica muito bem exemplificada na sua relação com David Gordon Green, com quem trabalhou diversas vezes. “David Gordon Green é um diretor que me fascina desde seu primeiro filme, George Washington (2000), e depois em seus filmes independentes menores, como Anjos da Neve (2007) e Prova de Amor (2003). Esses filmes me tocaram profundamente”. Contudo, apesar da admiração que sentia, Atilla foi trabalhar pela primeira vez com Green apenas em 2013, como primeiro assistente de direção em Prince Avalanche.
Ainda que a obra não tenha sido um grande sucesso comercial, a parceria começou a se firmar ali. “Quando tive a sorte de conhecê-lo, começamos uma parceria e trabalhamos em três filmes independentes: Prince Avalanche, Joe (2013), com Nicolas Cage, e o terceiro, chamado Manglehorn (2014), com Al Pacino”. Atilla já trabalhava como produtor desde muito antes de conhecer Green, porém, foi apenas em Joe e Manglehorn que ele passou a produzir os filmes do diretor.
Ainda que a dupla tenha vários projetos juntos, o que mais chama a atenção são as sequências de franquias de terror como Halloween e O Exorcista. Todavia, o produtor sul-africano admitiu que não é muito fã de filmes de terror, porém, mesmo assim, ele embarcou com David Gordon Green nesse universo.
“A motivação é dupla: primeiro, podemos manter nossa abordagem independente e encontrar nosso próprio caminho para existir, mas dentro de um contexto comercial maior, para que as pessoas pelo menos possam assistir aos nossos filmes… essa é a verdadeira virtude disso: fazemos filmes pequenos”.
Além disso, Atilla comenta sobre o tempo de parceria entre ambos. “É uma relação longa e duradoura que persiste até hoje. Já dura mais de 12 anos… e a jornada acabou nos levando aos filmes de terror, como você pode ver. E para onde mais vai nos levar? David está desenvolvendo vários projetos diferentes agora. É uma jornada contínua”.

Filmes de massa e independentes
Neste ano, contrariando a leva de filmes comerciais recentes, Atilla trabalhou com dois nomes renomados no Cinema mundial que foram para festivais ao redor do globo: Jim Jarmusch em Pai Mãe Irmã Irmão e Joachim Trier em Sentimental Value.
“É preciso entender que, quando você faz esses filmes pequenos, esses dramas independentes, eles não dão muito lucro, ninguém vai assisti-los. Podem ir a alguns festivais… ter algum reconhecimento, mas não lotam as bilheterias, não fazem muito sucesso”.
Não é a primeira vez em que ele participa desses eventos, os próprios projetos com David Gordon Green, no início da parceria, foram para Berlim, Sundance ou Veneza, assim como ambos os longas foram para, respectivamente, o Festival do Rio e 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O produtor comentou como fazer esses filmes menores pode ser mais complicado mercadologicamente, mas que existe uma satisfação no próprio trabalho.
“Poucas pessoas os veem, e aí fazemos o filme grande, mas fazemos a nossa própria versão, e aí muita gente assiste. Então, às vezes, há uma alegria em pelo menos ver o seu trabalho”.
