Live-action de Como Treinar o Seu Dragão encanta visualmente, mas carece de ousadia narrativa

 Cena do filme Como Treinar o Seu Dragão. Na imagem, vemos Soluço montado em Banguela. Soluço é um jovem branco com cabelos castanhos. Ele veste uma roupa de couro escura. Banguela é um dragão preto com olhos grandes e verdes brilhantes. Eles voam acima das nuvens ao entardecer, com o céu em tons dourados e alaranjados ao fundo
Sendo originário de uma das animações mais amadas e de maior sucesso já feitas, o live-action estreia com a difícil missão de agradar os fãs da produção (Foto: Universal Studios)

Stephanie Cardoso

O tão aguardado live-action de Como Treinar o Seu Dragão, escrito e dirigido por Dean DeBlois (que também comandou a trilogia animada), finalmente chegou aos cinemas em 2025. A adaptação tenta replicar o sucesso da animação de 2010, que cativou o público com uma história comovente de amizade, crescimento e aceitação. Embora o novo filme mantenha a essência emocional da narrativa original, ele tropeça em decisões criativas conservadoras e uma execução que, por vezes, parece excessivamente preocupada em agradar aos fãs antigos sem se reinventar.

Na trama, acompanhamos Soluço (Mason Thames), um adolescente viking que vive em Berk, uma ilha constantemente ameaçada por ataques de dragões. Ao capturar um Fúria da Noite — um dos animais mais temidos —, eles iniciam uma improvável amizade, e o jovem o dá o nome de Banguela. A relação entre os dois o leva a desafiar as tradições do vilarejo e a provar que a convivência entre humanos e dragões é possível. Entre obstáculos pessoais e conflitos com o pai e também chefe da aldeia, Stoico (Gerard Butler, também dublador do personagem no longa animado), o personagem principal embarca numa jornada de coragem e transformação.

Visualmente, a obra é um espetáculo. O CGI dos dragões, em especial do carismático Banguela, impressiona tanto pelo nível técnico quanto pela integração com os cenários reais da ilha de Berk. As sequências de voo, agora mais intensas e imersivas, ganham uma nova dimensão quando transportadas para o realismo do live-action. Com a direção de fotografia por Bill Popes, o longa explora com eficiência os contrastes entre o mundo humano e o fantástico, sem perder o caráter aventuresco que marcou a animação.

Cena do filme Como Treinar o Seu Dragão. Da esquerda para a direita. Vemos Banguela, um dragão preto com olhos verdes. Ele se aproxima calmamente da pessoa a sua frente. Soluço é um jovem branco com cabelos castanhos lisos, caindo sobre a testa. Ele veste uma túnica verde com mangas compridas e um colete de pele. Com o braço estendido, ele toca o focinho de Banguela. O fundo da cena mostra penhascos cobertos por musgo
O vínculo entre Soluço e Banguela continua tão forte quanto na animação (Foto: Universal Studios)

Um dos maiores méritos da adaptação é sua fidelidade emocional. O vínculo entre o protagonista e o animal continua sendo o coração da trama, e a jornada do jovem viking em busca de aceitação e coragem é apresentada com honestidade e sensibilidade. A trilha sonora original de John Powell retorna com força, elevando os momentos de tensão e ternura e garantindo que a conexão com a versão animada seja profunda.

No entanto, a fidelidade extrema acaba sendo também sua maior limitação. O roteiro é, em grande parte, uma repetição quadro a quadro da animação. Faltam ousadia e atualizações de narrativas que justifiquem o live-action. O público se vê diante de uma experiência previsível, que, embora competente, oferece pouco em termos de inovação. Para um filme lançado 15 anos depois, a sensação de déjà-vu se torna inevitável.

Cena do filme Como Treinar o Seu Dragão. Dois personagens estão sentados próximos a uma parede de madeira escura. À esquerda está o personagem Soluço, um jovem branco e com cabelos castanhos. Ele veste uma blusa de lã azul e um colete de marrom, e segura um elmo prateado com uma mão, enquanto apoia a outra em um machado. À direita está a personagem Astrid, uma jovem negra com seus cabelos trançados em dois rabos. Astrid usa uma armadura metálica nos ombros e uma túnica vermelha por baixo. Ela segura Soluço pela gola da blusa e o encara com firmeza
A caracterização tanto dos dois quanto de todo o resto do elenco foi um dos pontos fortes do filme (Foto: Universal Studios)

As atuações são um dos pontos fortes da obra baseada no livro de Cressida Cowell. Mason Thames entrega uma boa interpretação, apesar do desempenho meio contido em algumas cenas. Porém, não consegue alcançar o carisma da dublagem original de Jay Baruchel. O restante do elenco cumpre bem suas funções, com destaque para Nico Parker (Astrid), mas os diálogos, por vezes artificiais, dificultam uma conexão mais espontânea com os indivíduos do filme. A caracterização também é algo a ser destacado, com personagens que praticamente saíram do longa animado para a vida real.

O tom do filme oscila na tentativa de trazer uma atmosfera mais sombria e realista. O resultado são cenas mais tensas e com consequências mais palpáveis, o que pode agradar parte do público. No entanto, essa seriedade nem sempre se encaixa com os momentos mais leves herdados da versão de 2010, criando uma certa inconsistência de tom que afeta o ritmo da narrativa.

O live-action de Como Treinar o Seu Dragão é uma adaptação tecnicamente impecável e emocionalmente familiar. Para os fãs da produção original, ele oferece uma oportunidade nostálgica de revisitar Berk com um novo olhar. Mas para aqueles que esperavam uma reinvenção ousada ou uma nova camada de profundidade, a sensação final pode ser de uma obra visualmente grandiosa, mas criativamente tímida. É um voo seguro, bonito, mas sem grandes acrobacias.

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