
Davi Marcelgo
O diretor mexicano tem afinidade com temas e estilos: a criatura que não é aceita pela humanidade, o trabalho artesanal (do stop motion à criação de equipamentos) e a influência de movimentos artísticos, como o gótico, o ultraromântico e o neoclássico. Frankenstein, que faz parte da seção Apresentação Especial na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, prossegue a parceria de Guillermo del Toro com a Netflix em mais um filme que adapta um clássico da literatura sobre um ser trazido à vida com todos os símbolos que remetem ao Cinema do artista.
No entanto, à medida que o cineasta, que assina a produção e o roteiro, articula seu estilo e sua visão sobre a obra, também tenta manter-se fiel à trama e aos subtextos de Mary Shelley e, diante disso, assim como um escultor de cinebiografias de astros da música, o diretor se atrapalha entre tantas ideias disponíveis, pincelando passagens importantes com pouquíssima profundidade. Não se trata da relevância existir somente no livro, mas para a própria história do longa – ora, se del Toro escolheu para as telas tal capítulo, ele o considera importante.
O enredo se divide em três partes: Prelúdio, A história de Victor Frankenstein e a versão do monstro. Nesta última, há a tentativa de se aprofundar no personagem interpretado por Jacob Elordi, contudo a escolha da voz over para narrar a descoberta do mundo, da humanidade, do amor e da violência acaba por apressar a relação de Frankenstein com seu redor e, portanto, com o público também. A culpa do criador, a tragédia que cai sobre a família do cientista e a solidão da criatura são elementos postos na trama que soam apenas como um aceno aos fãs da literatura, sem atingir o âmago do espectador.

Datado de 1818, o texto da britânica é extremamente melancólico e autodepreciativo. O monstro, Victor e o capitão Robert Walton, os três narradores do romance, são embargados por uma escrita poética e falas sobre solidão, que afluem em dilemas sociais do século XIX – embora a narrativa tenha conseguido resistir ao tempo e se atualizar. Esse exagero respira o Cinema do mexicano, que rebusca o sentimentalismo em suas obras, seja pelas trilhas sonoras, as fotografias com baixa luz ou até pelos roteiros que sempre deixam bem claro, até pela exposição nos diálogos, as metáforas e subtextos, com pouca sutileza. O roteirista vai direcionar a principal questão do longa para os daddy issues, um movimento bem presente em Hollywood. Conflitos éticos da ciência são substituídos pela narrativa de um filho que não atende às expectativas do pai.
Entretanto, se a falta de discrição está presente, os visuais expressivos da filmografia do diretor estão em eclipse. Há um ou outro elemento no cenário que chama atenção, a maioria das cenas remete ao Tim Burton em sua pior fase, a partir de 2010. Nada é tão marcante quanto o Homem Pálido em O Labirinto do Fauno (2006) e o Homem-Anfíbio em A Forma da Água (2017), ambos personagens interpretados por Doug Jones. A aparência do Frankenstein se associa mais às descrições de Mary Shelley, um homem alto, forte, de cabelos escuros e pele pálida, em relação ao clássico de 1931, eternizado no imaginário coletivo por Boris Karloff. Talvez tenha uma funcionalidade maior no filme, tanto para valorizar as expressões de Jacob Elordi quanto para a reiterar a rejeição de Victor, que é muito mais sobre a inteligência do que aparência. Contudo, ainda que seja cedo para cravar, isto tem um preço: não entrará para a história.

Oscar Isaac como Victor Frankenstein é trágico. del Toro tem uma visão específica sobre o protagonista, diferente de Shelley. Para a autora, ele soa como um Lord Byron que carrega uma maldição, porém para o diretor, ele é um ser desprezível, mesquinho. Isaac é canastrão e parece um cientista louco, no sentido mais pobre do arquétipo. Pelo menos, Elordi e Mia Goth conseguem unir os dois aspectos que faltam no longa: sensações e estilo. A estrela de Euphoria (2019-) passeia entre a inocência e a violência de forma adequada. Nos primeiros dias de vida da criatura, seu olhar e gestos se assemelham aos de uma criança, enquanto na fase adulta consegue trazer imponência com sua voz grave.
Já Elizabeth (Mia Goth) garante a elegância que remete ao romantismo, como se ela estivesse filmando uma adaptação de Jane Austen. Suas linhas de fala são exageradas e poéticas, assim como sua química com Frankenstein tem resquícios de A Bela e a Fera – um caminho óbvio a se seguir e repetitivo na filmografia de del Toro, mas que talvez fosse o melhor a fazer. Sua trama é melodramática, é uma personagem que faz sacrifícios românticos, age como heroína e tem sua tragicidade. A Direção de Arte de Tamara Deverell trata especialmente as aparições de Elizabeth com mais ferocidade, injetando o exagero e o gótico; nelas há um retorno da ideia do que é ver um filme do cineasta mexicano.
O novo Frankenstein é uma invenção que não deu certo. Uma colcha de remendos de inspirações artísticas castradas, autoria no enredo misturado com fidelidade ao material original e atores que não parecem fazer o mesmo projeto, inclusive o estimado Christoph Waltz não está na sua melhor forma. É árduo não compará-lo com Nosferatu (2024), de Robert Eggers, que foi humilde em assumir sua paixão pelo clássico de 1922 e não fez grandes mudanças, mantendo um trabalho mais coeso, inspirado e polêmico.
