
Guilherme Veiga
Existe um consenso no mundo das animações, quase que uma lei não escrita e potencializada pela indústria estadunidense de que elas precisam reproduzir nossa sociedade não em conteúdo, mas em forma. Quantos os filmes que nos vêm à memória em que um certo ecossistema é adaptado para viver como nós – e nessa releitura que, muitas vezes, mora a Comédia deles.
De abelhas operárias ao modo capitalista a uma fauna vivendo exatamente igual gente, exemplos não faltam. De certa forma, eles até funcionam como um escape da realidade. Mas Cinema de verdade, ao mesmo tempo que nos tira de órbita, nos reconecta também, e nas mais peculiares histórias que somente esse gênero pode nos proporcionar, Flow é a que alcança esse feito da forma mais singela e pura.

A produção não precisa das ideias surtadas ou da reimaginação do arranjo social. A história é a das mais simples, um gato sendo um gato que, em meio a uma catástrofe climática, precisa redescobrir o mundo com um instinto de sobrevivência muito mais aguçado e, ao mesmo tempo, tão humano. Suas atitudes em meio a devastação causada pela inundação se assemelham e muito com a solidariedade humana, vista em tragédias como os incêndios na costa oeste norte-americana no início de 2025 ou as enchentes no Sul do Brasil no meio de 2024. Tudo isso, ainda sendo somente um ‘gatinho’.
Com seu visual que lembra um jogo independente de Playstation – aqui as semelhanças com Stray se afloram, Flow nos convida a contemplar. Em uma composição aquarela, que, mesmo com suas imperfeições, nos cativam, o longa propositalmente nos desorienta nos minutos iniciais, estamos tão perdidos quanto aquele gato preto e aqui outra aposta da produção se mostra acertada: o silêncio.
Se Parasita fez história ao colocar estadunidenses para ler legendas, esse filme vai além, se tornando ainda mais universal. Do adulto à criança, do votante do Oscar até o cidadão médio da Letônia que hoje morre de orgulho, todos param para ouvir o que o silêncio de Flow tem a nos dizer. É o momento de introspecção em frente a tela, de concentração máxima em que ecoam mensagens sobre viver em comunidade e adaptação às mudanças, conectando o telespectador de forma arrebatadora.

De forma arrebatadora ele também chegou ao Oscar. Já saturado da hegemonia dos grandes estúdios, o público sempre adota o ‘azarão’ para si – não que Flow não tenha seus méritos reconhecidos, sendo indicado nas categorias de Melhor Animação e Melhor Filme Internacional. Na primeira, ele desponta, mesmo tendo Robô Selvagem na cola. Já na segunda, a tarefa é mais difícil, tendo o excelente A Garota da Agulha e o totalmente ovacionado Ainda Estou Aqui.
Com uma analogia velada a Arca de Noé, Flow usa dos animais para trazer à tona sentimentos enraizados na ancestralidade humana. Em tempos em que a animação se rende às continuações desnecessárias, uma fórmula já saturada e, até mesmo, as IA’s, o longa tem o mesmo elemento que nos diferencia dessa homogeneidade computadorizada: coração. E nesse caso, o que os olhos vêem em tela, o coração sente.