
Vitória Mendes
Em uma era em que a performance se impõe como valor central e praticamente obrigatório, muitos artistas se aventuram em terrenos novos que não florescem da maneira que o público espera. A inovação, por mais desejada e desafiadora que seja, não garante profundidade e, muitas vezes, escorrega em contextos vazios. Indo na contramão dessa lógica de tendências momentâneas, em EVERYONE’S A STAR!, 5 Seconds of Summer retorna às próprias origens e reformula a nostalgia do pop rock dos anos 2010, evocando a energia de Sounds Good Feels Good (2015), sua segunda gravação, produzida no auge da era das boybands.
Lançado em 14 de novembro de 2025 pela Republic Records, o álbum une o melhor do pop punk e do rock alternativo ao mesmo tempo que abraça e aprecia o lado mais sombrio do grupo. As inseguranças, os pensamentos destrutivos e as obsessões se tornam o foco nesse novo capítulo, sem desconsiderar cada curva instável que fez parte da jornada. Há deslizes, especialmente na composição lírica, mas a produção versátil e autêntica se mantém constante e se consolida como uma versão madura e confiante de seus primeiros trabalhos, trazendo um olhar diferente e maduro.
Afirmando suas estrelas interiores e esbanjando influências, a banda percorre temas típicos do gênero como fama, sexo, drogas e a linha tênue entre obsessão e amor. Há uma narrativa consciente e reflexiva sobre o potencial consumidor, intenso e distorcido que a fama pode apresentar, além de causar a perda do apelo pelas coisas prazerosas que a vida proporciona. A obra também revisita a própria trajetória, marcada pela necessidade de identificação e utilidade ao público, que, ao longo do tempo, foi reduzida ao papel de entreter. Enquanto lidam com o passado, os artistas apresentam os dois lados de uma mesma moeda e vivenciam o impacto da exposição precoce aos holofotes.
Everyone’s A Star! abre o disco e estabelece o tom das faixas seguintes de forma sólida e instigante. Ao longo da produção, a dualidade de sentimentos aparece de forma constante, acompanhada de referências ao meio musical e ao imaginário das estrelas do rock. A montagem também aprofunda as sensações e, em Ghost, apresenta o medo de encarar o próprio reflexo no espelho e não reconhecer quem se tornou, como se um fantasma familiar estivesse presente em cada gesto. Em meio a isso, surgem os dilemas ao lidar com relacionamentos amorosos, desde a necessidade de superação até o início de um novo amor, evidenciados em Start Over.
Com sua crueza e sinceridade, as faixas operam em diferentes camadas e intensificam a força do conteúdo, alcançando níveis distintos de impacto, dependendo da vivência de quem as escuta. Para sintetizar toda a estética do projeto, Boyband critica abertamente a indústria musical e os padrões e expectativas impostas. Os australianos abordam seus problemas com autoimagem, desordem alimentar e a sensação de serem valorizados apenas no auge da juventude.

Desde o início da carreira, em 2011, o rótulo de boyband soava como uma prisão para os artistas. Diferente de One Direction e The Vamps, grupos ativos na mesma época, 5 Seconds of Summer evitava a classificação por suas implicações em gêneros, comportamentos e discursos pré-estabelecidos pela indústria. Em EVERYONE’S A STAR! o termo, utilizado para desmerecer o grupo no passado, é audaciosamente ressignificado e tomado para si com orgulho, ao se intitularem como “sua boyband favorita”. Isso não impede as críticas presentes na obra, apenas fortalece os argumentos com propriedade.
Após o lançamento do 5SOS5 (2022), os australianos exploraram suas carreiras solo sem desfazer a banda. Essa liberdade criativa permitiu experimentar novas ideias, experiências e perspectivas, sendo crucial para a maturidade e segurança de cada membro em novos projetos. As quatro faixas extras da edição deluxe, inicialmente disponíveis em CDs individuais para cada membro, expandem o diálogo com as carreiras solos e carregam nuances pessoais e subjetivas sem comprometer o conjunto do trabalho. A familiaridade estética é significativa, e cada uma poderia ser inserida nos respectivos álbuns individuais. Star Over, por exemplo, conversa diretamente com When Facing the Things We Turn Away From, de Luke Hemmings, e assim por diante.
A construção instrumental é um dos pontos mais sólidos e destacados na obra. Baixo, bateria e guitarra, além de dialogarem na temática, trazem a batida envolvente e viva em cada canção. A escolha do ritmo para abordar temas diversos e intensos criam um contraste visível, ambicioso e que sintetiza o pop rock. No campo vocal, a produção é agradavelmente exploratória. Luke Hemmings, vocalista principal, explora seu alcance e projeção, enquanto Ashton Irwin, Michael Clifford e Calum Hood no apoio contribuem para a harmonia e equilíbrio da produção. É evidente o domínio e extensão de cada membro e o uso consciente de cada tom e técnica, até mesmo nos interlúdios.
Contudo, na composição lírica, o álbum hesita. O conteúdo se mantém coerente com o estilo visual proposto, repleto de trocadilhos, metáforas e referências, mas não alcança o refinamento e profundidade técnica das produções anteriores. A partir das faixas finais, há uma queda na densidade das letras, deixando claro a decisão de priorizar a mudança estética do que a escrita. Apesar de não afetar grandemente a construção final, impede que algumas músicas tenham maior alcance.
Ainda assim, o disco se consolida como um trabalho versátil e maduro. A identidade foi amplamente explorada na divulgação e nos clipes, enquanto as músicas exalam a essência do grupo, além de dialogar com outras fases e as reconhecerem como igualmente válidas e únicas. 5 Seconds of Summer assume a era com orgulho, reafirmando sua identidade com equilíbrio, confiança e paixão. EVERYONE’S A STAR! é o reflexo de artistas que se mantêm fiéis às suas origens e, ainda assim, reinventam e desafiam as expectativas da indústria com propósito e audácia.
