
Davi Marcelgo
Scott Derrickson possui uma filmografia interessante, seja dirigindo um blockbuster como Doutor Estranho (2016) ou um excelente Terror, O Telefone Preto (2021). Apesar de ser um diretor regular, nada poderia preparar os assinantes do Apple TV+ para o desastroso Entre Montanhas (2025), a obra mais genérica do cineasta, que parece, inclusive, um embutido das sobras de um filme que nunca aconteceu. Estrelada por Anya Taylor-Joy (Drasa) e Miles Teller (Levi), a produção passeia por gêneros e não consegue acertar em nenhum.
Drasa e Levi são dois atiradores designados à missão de impedir que algo misterioso saia de um desfiladeiro, cada um fica responsável por um dos lados das montanhas, proibidos de interagir. No entanto, a paixão é mais poderosa que as orientações do trabalho, ambos os profissionais mantêm contato por distância e se apaixonam. Os primeiros 30 minutos da história dão um tom sisudo e misterioso por meio de dúvidas sobre qual o objetivo da guarda e qual ameaça habita o local. Ali, o espectador testemunha um suspense, que logo será substituído por um romance que iguala a algo escrito pelo John Green. Drasa é o tropo narrativo da ‘garota especial’, possui senso de humor diferente, é sarcástica e tem habilidades associadas ao gênero masculino: boa mira e combate. Levi, que é considerado descartável para os militares, já que não possui família ou vínculos, é o homem solitário e traumatizado que terá suas qualidades afloradas ao se envolver com uma mulher.
Quando os protagonistas estão se conhecendo, a montagem de Frédéric Thoraval, antes densa, contemplativa e com respiros entre um take e outro, ganha ares de romance barato, quando quer demonstrar passagem de tempo, aplica intensidade e cortes rápidos, conforme acompanha a câmera hiperativa, ao som de Blitzkrieg Bop, dos Ramones. Em outro momento, a canção Spitting Off the Edge of the World é a escolhida para ser tema da primeira noite de amor do casal — Derrickson tem inspiração para filmar a cena, que começa com uma dança, onde a lente faz parte da coreografia, parando de se mexer nos trechos mais calmos da trilha.

A estrutura de videoclipe soa como uma escolha para dar dinamismo ao enredo de quase 120 minutos de duração e fruto do contexto de velocidade dos aparelhos tecnológicos. Mas o pior ainda estava por vir: se já não bastasse a inconsistência narrativa, a última hora se transforma em uma experiência gamificada, que visa o estímulo e a imersão do público na ação, ao invés da composição imagética, por meio dessa direção que age como personagem, se movendo a cada soco tomado, a cada giro da arma para mirar em outro objeto. Há uma sequência que faltou pouco para pedir a quem assiste para apertar intensamente no botão círculo para impedir que Drasa fosse atacada. Esse Cinema nos moldes de algoritmo precisa captar a atenção do espectador pela frenesia.
O visual das criaturas que vivem na garganta parecem ter os visuais descartados das artes conceituais da sequência de Doutor Estranho, que seria encabeçada por Derrickson, até que os conflitos com a Marvel finalizaram a passagem dele pelo herói. Assim como remetem ao visual dos infectados de The Last Of Us (2013), o design dos Homens Ocos é mais um elemento genérico, além da aparência amadora da fotografia para um filme caro, seja no desfiladeiro com as luzes artificiais coloridas ou nas locações reais, em que a iluminação é chapada, tal como já foi (e ainda é) criticado em produções de Hollywood.

Sigourney Weaver interpreta uma empresária mesquinha que visa lucro e prefere ameaçar a existência de vida na Terra… você já ouviu essa história. Entre Montanhas é um emaranhado de tropos e clichês de fitas de ação, aventura, romance e todos os gêneros possíveis que ele tenta incorporar, sem conseguir desfrutar dos códigos de pelo menos um deles. A ambição em criar uma trama híbrida — assim como criaturas que são uma mistura de plantas, animais e humanos — e até a existência de elementos batidos na história não é um problema declarado, tudo depende, sempre, da forma como eles se relacionam em cada longa.
A sua presença no Emmy 2025 é mais um argumento de que o evento não é vitrine alguma para o que há de melhor na televisão. A produção perdeu para a ótima sequência de Bridget Jones — o vencedor da categoria de Melhor Filme para TV é anunciado uma semana antes da transmissão da cerimônia — e diferente dos elogios de Scott Derrickson à Apple TV+ e ao roteiro de Zach Dean, seu novo trabalho não é original e tampouco ousado, é, na verdade, uma costura de muitas coisas que não se conversam e repetem fórmulas. Nem parece uma obra feita por um profissional que abandonou outro projeto por diferenças criativas, mas por um peão que aceita as condições de um estúdio, porque é isto que Entre Montanhas é: um produto de uma empresa de tecnologia.
