Embaixo da Luz de Neon mostra o propósito de continuar vivendo, sustentado por um amor inabalável

Andrea e Megan estão deitadas em um chão de madeira, com um carpete cinza cheio. Entre elas, estão dois cachorros de pelos loiros dourados. Uma luz bate no pelo de um deles e no rosto de Megan, mulher branca de cabelos castanhos, usando uma blusa branca, que está rindo com os olhos fechados e a cabeça para cima. Andrea, pessoa não binária branca, com cabelos pretos curtos, uma tatuagem no braço e uma camiseta preta estampada, sorri, olhando para o lado.
“Minha história é como a felicidade se torna mais fácil de achar ao percebermos que não temos a eternidade para encontrá-la”, Andrea Gibson (Foto:Apple TV)

Lara Fagundes

Como é amar alguém sabendo que essa pessoa vai partir antes do planejado? E como continuar vivendo com os dias contados? Embaixo da Luz de Neon, indicado na categoria de Melhor Documentário do Oscar e dirigido por Ryan White, acompanha os poetas: Andrea Gibson, artista não binário com diagnóstico de câncer terminal no ovário, e Megan Falley, sua esposa e companheira. Muito mais do que uma história sobre lidar com mortalidade, o longa fala da importância de colocar sentimentos em palavras e celebrar a vida com leveza enquanto ainda a tem.

Andrea e Megan se conheceram por meio de espaços para declamação de poemas e essa profissão se mantém como um local de conforto mútuo, fazendo parte da narrativa como guia. Com o diagnóstico, os shows de recitação precisam ser cancelados e a rotina fica parada entre consultas médicas e sessões de quimioterapia, mas nenhuma delas permite que os versos saiam de seus dias. Andrea continuou se expressando com palavras pelas redes sociais e Megan decidiu escrever um livro contando sua vivência. Esses sentimentos escritos levam para um caminho íntimo, indo mais a fundo na reflexão sobre vida e morte.

O objetivo do longa é, não apenas documentar a vivência e a arte de uma das protagonistas, mas também acompanhar sua tentativa de fazer um último show de recitação, o que quase não é possível por conta de medicamentos que poderiam acabar com sua voz. Como um tipo de celebridade para os poetas, a arte é essencial e, ao escolher sua voz ao invés dos remédios, se pergunta qual o propósito de uma vida sem poesia. Aqui, a identidade é uma parte importante da narrativa, tanto pelo fator queer, quanto pelos poemas que trazem uma perspectiva mais profunda dos sentimentos abordados.

Andrea veio a falecer em julho de 2025, poucos meses após o lançamento de Em Baixo da Luz de Neon (Foto: Apple TV)
Andrea veio a falecer em julho de 2025, poucos meses após o lançamento de Em Baixo da Luz de Neon (Foto: Apple TV)

Outro destaque é a maneira como a câmera constrói intimidade com o público, registrando de perto e conversando com Andrea como se fosse um amigo acompanhando o processo, sem afetar a honestidade emocional de cada momento. Essa escolha, em conjunto com a direção delicada de Ryan, permite que o espectador faça parte da realidade delas com proximidade. Assim, cada cena transmite a sensação de acompanhar não apenas a história, mas todo o processo vivido por elas em tempo real.

Ao contrário do que se pensa quando o tema surge de uma doença terminal, a história é contada de forma bem humorada por Andrea, o que se torna o maior diferencial da obra. Tudo fica mais comovente com a recusa do tom angustiado e o foco no tempo que se torna menos abstrato ao saber que vai partir, com esse sentimento fazendo parte do cotidiano como uma forma de resistência. Assim, é mostrado um casal passando por momentos corriqueiros, piadas internas, sentimentos intensos e conversas difíceis, marcados pela vulnerabilidade que cria uma relação mais forte.

A visão de Megan também aparece, com o lado de quem se torna uma cuidadora, além de parceira, e continua com seus objetivos e uma vida própria, enquanto luta para ser forte e apoiar quem ama independente do quão difícil seja. Ela conta a partir de uma perspectiva de quem observa a situação de perto e reforça como esse companheirismo ajuda a lidar com a doença. Juntas, mostram que compartilhar fases difíceis ultrapassa o medo e se torna um motivo para aproveitar mais o tempo que tem uma com a outra. 

Duas silhuetas escuras aparecem no centro da imagem, são Andrea, pessoa não binária branca, com cabelos pretos curtos, e Megan, uma mulher branca com cabelo castanho médio e franja. Elas olham uma para outra, com os ombros encostados. Ao fundo, vemos uma paisagem em tons azuis de um grande lago e nuvens cobrindo o céu, com algumas árvores aos cantos. Parte do céu aparece rosado como um pôr do Sol, com a luz sendo refletida na água.
A trilha sonora feita por Blake Neely foi premiada no Cinema Eye Award (Foto: Apple TV)

O amor é parte central da rotina, tanto dentro do romance entre elas, quanto com amigos, familiares, animais de estimação e até ex-namoradas, que acompanham tudo desde o diagnóstico. A obra conseguiu trazer para a tela muito mais do que um filme sobre uma pessoa doente, trouxe a mensagem de como transformar dor com risos e muita poesia. Além de ressaltar como amar é a causa de outros sentimentos em relação a alguém, principalmente a tristeza, o luto e a saudade.

Embaixo da Luz de Neon foi aclamado em festivais como os de Sundance, Seattle e São Francisco, além de já ter ganho as categorias de Melhor Documentário e Melhor Trilha Sonora (Blake Neely) na premiação Cinema Eye Honors e recebido uma indicação ao prêmio Satellite. Agora, é um forte candidato para o Oscar com uma história que aborda o relacionamento humano com a morte e o luto iminente, enquanto homenageia Andrea como artista e poeta. Ryan White fez um ótimo trabalho com a direção, garantindo ao projeto a delicadeza e profundidade das palavras recitadas, transformando o documentário em poesia visual.

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