Elio: uma jornada pelo espaço e pelo luto que, infelizmente, ninguém quer pagar para ver

Texto alternativo: Cena do filme ElioNa imagem, o personagem principal, Elio Solis, está deitado na areia da praia com capacete e capa colorida improvisados aguardando ser abduzido por aliens.
Elio, novo lançamento da Pixar, acompanha um garotinho realizando seu maior sonho: o de ser abduzido (Foto: Walt Disney Pictures)

Mariana Bezerra e Valentina Ferri

Após o enorme sucesso de Divertida Mente 2 (2024), a Pixar retorna às telonas com Elio, uma aventura inédita e divertida sobre um garoto de mesmo nome que, após perder os seus pais e passar a morar com sua tia, desperta o estranho desejo de ser abduzido por alienígenas. Infelizmente, o desinteresse  do público por histórias originais, além de diversos conflitos durante a produção do longa, fizeram com que um longa bonito e emocionante como esse se tornasse a pior estreia do estúdio até então. 

A produção chegou aos cinemas após muitos tropeços, adiamentos, substituição na direção e mudanças centrais no roteiro. O filme foi anunciado na D23, evento expositivo bienal da Disney, em 2022, e só foi lançado em junho de 2025, com uma proposta bem diferente da original. Até mesmo os dubladores foram substituídos ao longo desse processo. Originalmente, a direção seria de Adrian Molina, responsável por Viva: A vida é uma festa (2017), mas foi assumida por Domee Shi e Madeline Sharafian, de Red: Crescer é uma fera. Porém, os reais motivos por trás de tantas mudanças ganharam luz somente depois do lançamento, quando foi revelado que, na ideia original, Elio (Yonas Ascunsion Kibreab) seria uma criança queer.

Segundo funcionários da Pixar, a história idealizada por Molina não teria agradado o público nas exibições teste feitas em 2023, fazendo o estúdio optar por remover a representatividade existente na história, o que afastou não somente o cineasta, mas outras pessoas que estavam trabalhando no projeto. Muitos dos antigos envolvidos concordaram que não somente o protagonista perdeu muito de sua personalidade após as mudanças, como a própria obra ficou sem parte de sua profundidade também, tudo devido a uma decisão covarde de um estúdio que segue priorizando o lucro e o conservadorismo ao invés de valorizar a Arte e tudo o que ela tem a dizer.

Cena do filme ElioNa imagem, Elio está sentado no banco do carro, com uma expressão de raiva. Sua cabeça está encostada na janela e seus braços estão cruzados sobre seu joelho. Ele veste uma camiseta azul escura e está com um tapa olho também azul no olho esquerdo.
Sem o contexto queer, Elio foi de um personagem com muitas nuances para um protagonista um tanto genérico (Foto: Walt Disney Pictures)

Porém, apesar de sua versão final ser com certeza bem menos interessante do que poderia ter sido, o longa não deixa de ter muitos pontos positivos. A começar pela animação e pelos visuais deslumbrantes; os gráficos são incrivelmente realistas, com texturas variadas e extremamente bem feitas, como já é de costume quando o assunto é a Pixar. Além disso, a paleta de cores se estabelece ali como um auxílio para a construção da narrativa e cria uma identidade visual marcante para o filme.

Entretanto, o aspecto que mais impressiona é a genialidade por trás dos designs de personagens, tanto o do protagonista quanto os das diversas espécies de aliens apresentadas. Tal maestria fica evidente quando se nota, por exemplo, que em meio a todas as diferentes cores de todos os diferentes extraterrestres, a paleta de Elio é predominantemente verde, azul e marrom, que são as três cores associadas ao seu planeta de origem, a Terra. 

Cena do filme ElioNa imagem, Elio está com as mãos na cintura, vestindo um traje verde, que inclui uma capa, além de um tapa olho no olho esquerdo. Aparecem também alguns membros do planeta Comuniverso - todos coloridos e com formatos peculiares - além de Glordon,um alien sorridente, com dentes afiados e corpo arredondado.
A diversidade de cores e formas no mundo dos aliens contrasta com a Terra, que é retratada com tons mais frios e formas rígidas, a fim de refletir como Elio se sente lá (Foto: Walt Disney Pictures)

Como qualquer boa produção da Pixar, Elio também não falha em arrancar lágrimas do público. Isso porque, para além da aventura espacial, o enredo aborda questões delicadas como luto, solidão, bullying, família e pertencimento. E é aqui que entra a grandiosidade de sua narrativa, uma vez que, para abordar os temas que deseja de forma a se manter apropriado para o público infantil, o longa se aproveita dos elementos do próprio gênero de ficção científica. Assim, uma história densa sobre uma criança que, diante do desamparo provocado por uma perda traumática, começa a acreditar que seria melhor se ela simplesmente deixasse esse mundo, é traduzida para um filme sobre um garoto que quer ser abduzido.

Elio quer ser raptado porque se sente sozinho e deslocado, ou seja, ele se sente um alienígena em seu próprio planeta. O roteiro então utiliza como principal premissa a pergunta: será que estamos sozinhos no universo?”, traçando um paralelo muito inteligente entre a solidão subjetiva e a solidão cósmica. O primeiro pouso do homem na lua foi marcado por frases emblemáticas e uma narração pomposa. Já, em Elio, o primeiro contato com alienígenas foi totalmente espontâneo, caloroso e finalizado com um apressado Beijo. Te amo”.

Cena do filme ElioElio está usando um chapéu improvisado e uma capa colorida com estampa de estrelas. O personagem está sentado em um gramado coberto por luzes verdes neon e apresenta um olhar melancólico enquanto olha em direção ao céu à noite.
O desespero de Elio em encontrar vida lá fora é um anseio pela possibilidade de haver alguém, em algum lugar, que o queira por perto (Foto: Walt Disney Pictures)

Quando Elio enfim tem seu desejo realizado, ele é levado para o Comuniverso, um planeta brilhante, colorido e peculiar no qual entendem que ele é o líder da Terra e o convidam para se tornar um embaixador. O lugar é extremamente desenvolvido e tecnológico. Lá, as grandes mentes contribuem cada uma ao seu modo para o desenvolvimento da comunidade. Acredite se quiser, mas ali, esses seres brilhantes não se tornam cientistas malucos que desejam dominar as galáxias e deter todo o poder da ciência para si. Muito pelo contrário, ao mesmo tempo que somos lembrados de nossa infinita pequenez neste tão vasto universo, entramos em contato com um mundo em que toda a tecnologia se volta a assistir o próximo e fazê-lo se sentir acolhido, ambientando e amparado na sociedade.

Diante disso, é nítido que durante o desenvolvimento de Elio houve uma preocupação em destacar a importância da ciência e da pesquisa para as crianças. Além do Comuniverso, isso também pode ser observado através das diferentes necessidades biológicas de cada alien, da presença de mecanismos como a clonagem, da referência às sondas espaciais Voyager 1 e 2, e da reafirmação da importância da física quando o assunto é o espaço sideral.

Nessa jornada, em que o garoto se mostra determinado a ser aceito nesse novo lugar, Elio irá encontrar amizades verdadeiras e momentos de descontração e leveza que deveriam ser comuns a todas as crianças. O garoto passa por uma aventura repleta de aprendizados. Ao longo do tempo, é mostrado que o desamparo sentido pelo protagonista é, em partes, resultado de uma barreira que ele mesmo criou diante da dor provocada pela perda de seus pais. 

Cena do filme ElioElio e sua tia Olga um de frente para o outro na areia da praia. A mulher está com seu uniforme militar e segura afetuosamente o rosto do menino.
A produção apostou em um roteiro maduro, que dá espaço para crianças e adultos terem seus sentimentos e perspectivas expostos sem perder a ludicidade (Foto: Walt Disney Pictures)

As relações entre pai e filho / tia e sobrinho, apresentadas, humanizam os mais velhos e mostram que pessoas – ou aliens – de todas as idades e formas também têm o direito de errar. Os responsáveis e familiares também estão crescendo, aprendendo e se descobrindo. Assim, a história se torna ainda mais bonita por mostrar a importância da família e dos vínculos afetivos, transmitindo, por fim, uma mensagem de que, por mais diferente que você seja, nunca estará sozinho de verdade. 

Portanto, em um período no qual os principais lançamentos da Disney são somente continuações e live-actions desrespeitosos ou malfeitos de franquias que eles não conseguem deixar para trás, é bom ver em filmes como Elio, que a Pixar, pelo menos dessa vez, se recusou a seguir pelo mesmo caminho. Porém, de nada adianta o carinho pela Arte e a vontade de criar novas histórias permanecerem se o público continua a cair no bait da nostalgia e a ignorar os originais que vêm sendo lançados, fazendo com que, infelizmente, uma história tão bonita e tocante caia no esquecimento. Em contrapartida, já é possível prever a agitação que continuações desnecessárias como Toy Story 5 e Os Incríveis 3 vão causar quando suas estreias, previstas para os próximos anos, estiverem mais próximas. 

Elio carrega o peso da solidão e do luto, já seu longa, da originalidade e da censura. Se adotada uma perspectiva otimista, vale a pena acreditar que a nova produção abre espaço, pelo menos entre a crítica, para que a Pixar volte a ousar. De qualquer forma, a história garante um abraço terno a todos – de qualquer idade – que vão ao cinema e decidem dar mais um voto de confiança no trabalho e na sensibilidade daqueles que embalaram com louvor boa parte das nossas memórias com o mundo da animação. 

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